“Pedro David alinha-se com uma posição situada nas antípodas
da obsessão pela objetividade”.

Alejandro Castellote

O jardim

Por Pedro David

Em dezembro de 2008, passei a residir na região periférica de Belo Horizonte. Transito entre os bairros Vale do Sol e Jardim Canadá, a 20 km do centro da cidade, tentando estabelecer com estes bairros uma relação de pertencimento. Identifico ali, pulsante, uma enorme diversidade cultural, produto de um crescimento visível a olhos nus.

Passo a percorrer cada canto destes bairros, munido do equipamento fotográfico de grande formato (com chapas 4×5 polegadas), para realizar fotografias por meio das quais procuro entender a expansão da cidade para fora de seus limites, o embate de seus habitantes com a natureza, e as razões que levam pessoas tão diferentes a procurar os mesmos pedaços de periferia. Nesta busca também fica óbvia a minha própria tentativa de entender meu percurso e lugar no mundo.

O caos gerado pelo crescimento vertiginoso que estas regiões — bem como qualquer periferia de qualquer grande cidade — enfrentam, lembram-me uma grande maquete do mundo, uma miniatura gigantesca da ocupação humana no planeta, a materialização do pequeno — mas poderoso —, conto de Jorge Luís Borges, “Do Rigor da Ciência”:

 …Naquele Império, a arte da cartografia atingiu uma tal perfeição
que o mapa duma só província ocupava toda uma cidade,
e o mapa do império, toda uma província. (…)
(…) menos apegadas ao estudo da cartografia,
as gerações seguintes entenderam que esse extenso mapa era inútil
e não sem impiedade o entregaram às inclemências do sol e dos invernos.
Nos desertos do oeste subsistem despedaçadas ruínas do mapa,
habitadas por animais e por mendigos. (…)


Terra Vermelha. A viagem de um cartógrafo dissidente

“Pedro David alinha-se com uma posição situada
nas antípodas da obsessão pela objetividade”.

 Por Alejandro Castellote *

 A periferia das cidades — um território mestiço onde a paisagem urbana se dilue na paisagem natural — é um dos temas estrelas da fotografia contemporânea na última década; milhares de fotógrafos em todo o mundo tem se aproximado destes não-lugares que abundam em todo tipo de civilizações. Sem dúvidas, Pedro David esquiva-se das representações já estereotipadas e empreende uma viagem, minúscula em suas dimensões geográficas, na qual se transparece sua própria experiência e se reconhecem, entre outros, os ecos da literatura, da pintura, da escultura e do land art.

Pedro David alinha-se com uma posição situada nas antípodas da obsessão pela objetividade. A descrição da praxis tipológica é grata ao pensamento protestante, mas como sustenta John Berger, “as palavras nunca abrem por completo a função da vista. A contemplação tem uma primeira fase admirativa que torna-se introspectiva uma vez que completa-se a visão do cenário. Nunca vemos apenas uma coisa, sempre vemos a relação entre as coisas e nós mesmos”.

A proposta visual que Pedro David faz a partir de seu entorno mais próximo não se limita a denúncias peremptórias sobre a perverção de nossa relação com a natureza. Em certo sentido critica o fracasso do projeto vital do homem moderno. Agora que desde a universidade se está voltando o olhar sobre a experiência sensível que obtém seu contexto na história da cultura, não parece selvagem incluir a arte como mais um dos elementos necessários para se aprofundar nesse contexto.

A viagem de Pedro David pelo Jardim nunca aspirou as soberbas dimensões dos Cartógrafos de Borges, mas bem tem percorrido alguns pedaços deste Mapa; mas é certo que essa travessia imaginária em que o tempoorbita sem cessar entre o passado e o presente, como diz João Guimarães Rosa, “durou um instantezinho enorme”.

 * Fragmentos do texto do espanhol Alejandro Castellote, professor de fotografia, crítico, ensaísta e curador independente.


Prêmio e exposições

Pedro David é detentor do Prêmio Nacional de Fotografia Pierre Verger 2010/2011. As exposições deste trabalho em 2012 aconteceram na Fauna Galeria em São Paulo, entre Maio e Julho; no Museu de Arte Moderna da Bahia em Salvador, entre Setembro e Outubro  e na Galeria Lemos de Sá, em Belo Horizonte, entre 24 de novembro  23 de dezembro.

O livro está a venda nas principais livrarias por R$ 60,00 ou pode ser adquirido com o próprio autor, que faz a dedicatória ao comprador e envia o exemplar pelo correio. Contatos pelo email: pedro@pedrodavid.com