Vista parcial de Patrocínio no anoitecer.

A cidade é espraiada pelos planaltos de cerrado e tem um cenário urbano traçado por longas ruas e avenidas, além de amplas praças centrais. Referência internacional na cafeicultura, com o café produzido na região do Cerrado Mineiro — o único do Brasil com “Denominação de Origem”, Patrocínio completou 178 anos de uma grandiosa história. As belezas naturais características do bioma cerrado, a fartura das águas dos afluentes do Rio Paranaíba, incluindo o lago de Nova Ponte, e o movimento dos negócios ligados ao café garantem uma imensa potencialidade turística ao município. Além do mais, Patrocínio é também uma estância hidromineral.

Por Cezar Felix (reportagem e fotos)

Igreja Matriz de Nossa Senhora do Patrocínio, símbolo da cidade.

Descrever (e retratar) a terra natal pode ser visto pelo leitor como um trabalho — ou ofício, no caso deste repórter e sempre aprendiz de fotógrafo — fácil de cumprir. Mas é justamente o contrário. É muito difícil. Há o risco de o profissional, nativo do lugar, produzir escritos e imagens repletos de pieguices.

Todavia, já era tempo de encarar esse desafio. Depois de assinar tantas reportagens e fotografias sobre os mais diferentes lugares, principalmente os temas relacionados a Minas Gerais, aqui e agora (em era de quarentena), surgiu a hora e a vez de buscar inspiração para produzir este conteúdo — muito especial e de imensa importância — em forma de reportagem sobre Patrocínio, a minha terra.

A cidade espraiada pelos planaltos de cerrado é dona de um conjunto urbano caprichosamente traçado por longas ruas e avenidas.

Traços urbanos

A cidade espraiada pelos planaltos de cerrado é dona de um conjunto urbano caprichosamente traçado por longas ruas que se cruzam entre as que seguem de leste a oeste com as que viajam de norte a sul — e que são paralelas a duas grandes avenidas que também se cruzam no “marco zero” da cidade —, além de outra longa avenida que contorna toda a área central. Três amplas e belas praças embelezam o cenário da urbe: a Praça Santa Luzia, onde está a linda igreja erguida em honra à santa; a Praça Honorato Borges; e a Praça da Matriz (oficialmente, Monsenhor Thiago), cuja paisagem é decorada pela igreja em honra a Nossa Senhora do Patrocínio.

Belas praças embelezam o cenário da urbe, como a Praça Santa Luzia.

Não é preciso ir muito longe do perímetro urbano para observar a vasta extensão dos campos de cerrado repletos de lavouras de café. O município hoje é reconhecido no Brasil e no exterior pela excelência da bebida que produz, consagrada pela denominação “café do cerrado”. É inquestionável reconhecer a força da cafeicultura como principal referência de Patrocínio nestes tempos contemporâneos.

Referência internacional na cafeicultura.

Desde 1993, Patrocínio é sede da Expocaccer – Cooperativa dos Cafeicultores do Cerrado, que conta com uma capacidade estática para armazenar 1 milhão de sacas. “Com estrutura e maquinários de última geração, movimentamos, entre recebimento e embarque, mais de 30 mil sacas diariamente. Nosso maquinário possui capacidade nominal de processamento de 8 mil sacas por dia”, como informa a Cooperativa.

Marca própria: Café Dulcerrado.

Há 5 anos, a Expocaccer lançou a marca Dulcerrado de cafés industrializados, além de também se dedicar aos cafés especiais. “Identificamos e comercializamos labels e microlotes de cafés exóticos, produzidos em terroirs singulares. Bebidas com personalidade única e características sensoriais especialmente particulares”.

A cafeteria da Expocaccer pode ser considerada uma referência no turismo de negócios.

Registros da história

Os primeiros registros da história da cidade, de 178 anos, remontam ao ano de 1668, época em que passou pela região a bandeira (ou o “bando”) de Lourenço Castanho Taques, conhecido como “o velho” — a quem é atribuída a fama de ter sido o primeiro descobridor das minas de ouro em Minas Gerais. Consta também que ele foi o primeiro a chegar ao lugar, que era habitado pelos índios catiguás — rincão mais tarde chamado de Planalto do Catiguá, uma denominação dada aos indígenas e aos negros.  O bandeirante teria tomado as terras pela força das armas, praticamente aniquilando os indígenas.

Os primeiros registros da história da cidade, de 178 anos, remontam ao ano de 1668.

Os catiguás, conforme registros históricos, eram índios “arachás” — que habitaram a região do Alto Paranaíba por cerca de 400 anos, entre o período de 1400 e 1800 —, descendentes do antigo povo katu-auá, que, por sua vez, era originário da nação guarani. Entre os séculos XVI e XVII, os índios guaranis habitavam a região Sul do Brasil, no entorno do que é hoje o estado de Santa Catarina. Porém, consta que outro grupo viveu ao longo da margem direita do Rio Grande, principalmente onde hoje é o município de Sacramento, no Triângulo Mineiro.

A mesma paisagem: A “picada” de Goiás começava em Pitangui e, como importante trajeto, passava pelo Planalto dos Catiguás.

Picada de Goiás

A saga histórica de Patrocínio segue a linha do tempo até meados de 1690, com a passagem por ali do lendário bandeirante Bartolomeu Bueno da Silva, o “Anhanguera”, que partiu de Sabarabuçu rumo à terra dos “goiazes” em busca dos veios auríferos. Foi o ponto inicial do desbravamento do que viria ser a Picada de Goiás. Com a decadência da mineração do “vil metal” na região das Minas, o “novo eldorado”, a partir de 1729, passou a ser as novas minas descobertas nas fronteiras goianas. Os exploradores do ouro começaram, então, a mudança acelerada para o Centro-Oeste. A “picada” começava em Pitangui e, como importante trajeto, passava pelo Planalto dos Catiguás — já conhecido como “Lagoa Seca”. Essa estrada foi oficialmente aberta nos idos de 1736, por ordem da coroa portuguesa.

Caminhos que levavam ao novo “eldorado” no Centro-Oeste.

Travessia histórica

Na sequência dessa travessia histórica, que, inclusive, trata-se de um capítulo importante da história brasileira, surgem dois personagens ligados à expansão do território mineiro: o sexto conde de Valadares, José Luís de Meneses Abranches Castelo Branco, governador da Província de Minas Gerais, e o capitão Inácio de Oliveira Campos. O governador incumbiu o capitão de explorar a região em busca de ouro e, após destruir vários quilombos anteriormente erguidos ao longo das margens do Rio Dourados, iniciou a ocupação do território, em 1773, por meio da Fazenda Brumado dos Pavões — cujas produções agrícola e pecuária abasteciam os viajantes que passavam rumo a Goiás.

Depois da morte de Oliveira Campos e da partida do conde para Portugal, a região, então posse da Vila de Pitangui, era dominada pela legendária Joaquina Maria de Pompéu, a “Sinhá Brava”, viúva do capitão Inácio, que passou a administrar o que viria a ser a Sesmaria do Esmeril.

Registro da história ainda estão em algumas fazendas.

Nossa Senhora do Patrocínio

Assim, naquele mesmo período, os primeiros moradores começaram a fixar região, e surgiu o povoado do Salitre. Em 1798, a imensa Sesmaria do Esmeril foi concedida a um posseiro chamado Antônio Queiroz Teles. Anos depois, em 1789, demarcou-se a Sesmaria do Bebedouro do Salitre.

A história da região segue um curso muito interessante, como está oficialmente registrado pelo município no sítio da prefeitura: “O comércio do arraial se fazia com Ouro Preto, por Paracatu e Diamantina, até que, em 1800, foi cedido o terreno para a construção de uma capela pelo posseiro Antônio de Queiroz Teles. Um desconhecido abriu ali um estabelecimento de troco das moedas de cobre chamadas ‘quarentinhas’ e rasgou uma estrada de Goiás para Ouro Preto, variante mais curta que a estrada real. Daí, começou o desenvolvimento do arraial pela preferência de quantos necessitavam fazer essa longa jornada”.

A região dos chapadões era uma grande sesmaria.

Para o surgimento do primeiro templo religioso católico, como era obrigatório, devido à união igreja-estado, foi um rápido passo: “Em 1804 surgiu a primeira igreja em Patrocínio. Os moradores do povoado ergueram uma casa de oração sob a proteção de Nossa Senhora do Patrocínio e registrou-se a ‘Provisão de Licença’, estendendo-se o nome de Nossa Senhora do Patrocínio ao arraial do Salitre onde hoje se encontra a atual Igreja Matriz”, conforme informam os registros oficiais.

Fartura de água: o naturalista francês Augusto de Saint-Hillaire fez um importante relato ao se referir às famosas águas minerais da região.

Águas minerais

Três anos depois, o povoado do Salitre passou a ser conhecido como Arraial de Nossa Senhora do Patrocínio. O contexto histórico que iria culminar na fundação do município de Patrocínio seguiu registrando momentos de grande importância. Em 1816, o Sertão da Farinha Podre (Triângulo Mineiro e Alto Paranaíba) retornou ao território de Minas Gerais. Isso porque, quando a Capitania de Goiás, em 1748, emancipou-se de São Paulo, toda a região da Farinha Podre — que, assim como Goiás, pertencia a São Paulo — foi incorporada aos domínios goianos.

Águas minerais em abundância em pleno cerrado e um lago na cratera de um vulcão extinto.

Mais um interessante registro oficial daquele período histórico: “Em 1819 o naturalista francês Augusto de Saint-Hillaire visitou a região e relatou em seu livro ‘Viagem às Nascentes do Rio São Francisco’ que encontrou uma quarentena de casas muito pequenas, construídas de barro e madeira, cobertas de telhas e sem reboco. Estas casas, dispostas em duas fileiras, formavam uma alongada praça e no centro foi construída uma pequena capela, a de Nossa Senhora  do Patrocínio, também de madeira e barro. Patrocínio era uma sucursal de Araxá, tendo um vigário encomendado”.

Ruínas do que foi um hotel que registrou épocas gloriosas de uma estância hidromineral.

Saint-Hillaire, na mesma obra, fez mais um importante relato ao se referir às famosas águas minerais da região, consagrada internacionalmente pela Estância do Barreiro de Araxá. “São as águas minerais chamadas do Salitre. Como as de Araxá, são do domínio público; mas assegura-se que são mais abundantes. Acrescenta-se que as fontes estão rodeadas por muros, que a água é conduzida para as gamelas onde os animais a bebem…”.  Ele se referia às aguas minerais da Serra Negra, que foi uma estância hidromineral que viveu uma época de glória, inclusive com um hotel e um balneário hidroterápico. Hoje, o lugar se encontra completamente abandonado.

Uma graça alcançada propiciou a construção de uma capela em honra a Nossa Senhora do Patrocínio, onde hoje ergue-se a Matriz da cidade.

Uma graça alcançada

O curso da história seguiu, e em 1840 foi criada a Vila de Nossa Senhora do Patrocínio, que, como consequência imediata, desmembrou-se de Araxá. Dois anos depois, em 7 de abril de 1842, a vila é elevada a município, surgindo, então, a cidade de Patrocínio.

Outro dado oficial informa que “quanto à origem do nome da  cidade, reza a lenda que havia na região, onde hoje é a cidade de Patrocínio, um fazendeiro muito rico, que vendo sua filha cair enferma pediu proteção a Nossa Senhora, prometendo a construção de uma capela, caso a moça ficasse curada. Com a graça alcançada, ergueu-se a casa da oração, tendo como padroeira Nossa Senhora do Patrocínio, ‘que significa proteção’”.

O entardecer na Praça da Matriz.

“A escolha do nome dessa padroeira e do topônimo da cidade” — prossegue o registro oficial — “pode ser explicada pela fundação da fazenda Brumado dos Pavões, que constituía um dos ‘patrocínios’, construídos no percurso da picada aberta para Goiás”.

O legado da origem colonial de Patrocínio não foi mantido. Foto acervo público.

Origem colonial

Cento e setenta e oito anos após a fundação, Patrocínio não manteve no conjunto do patrimônio histórico e arquitetônico da cidade o legado da origem colonial dela. A exceção fica para a linda construção, típica do estilo barroco, que abriga a Casa da Cultura e Museu Histórico de Patrocínio. Ela foi erguida em data próxima à década 1850, pelo capitão Teodoro Honorato Gonçalves, e serviu como residência dele e da família (a parte de cima do sobrado) e como comércio, além de moradia dos escravos (parte inferior). Gonçalves ainda teria feito uma restauração entre os anos de 1892 e 1898. Posteriormente, o imóvel foi vendido a outra família e, logo depois, adquirido para sediar a Câmara Municipal. O capitão Martins Mundim foi o primeiro presidente da Câmara Municipal — na época a pessoa com tal função atuava como o agente executivo do município, equivalente ao cargo de prefeito — e responsável pela compra da construção.

Típico do estilo barroco, o lindo sobrado que abriga a Casa da Cultura e Museu Histórico de Patrocínio, de 1850 aproximadamente.

“O centro histórico de Patrocínio era formado por três praças, cada uma com igrejas que tinham funções específicas, significando a presença de diferentes ordens sociais”, descreve o sítio da prefeitura. “Na Praça Largo do Rosário, atual Praça Honorato Borges, havia duas igrejas: a Igreja do Rosário, frequentada somente pelos negros, construída na época da escravidão e demolida após a abolição. Esta igreja foi um marco do racismo e do segregacionismo do século XIX. E a Igreja de Santa Rita, frequentada por pessoas da raça branca, onde hoje fica o antigo prédio do Palácio da Educação, de fachada neoclássica”.

Ímpeto das transformações urbanas

As três (belas e amplas) praças ainda integram o cenário urbano patrocinense, porém só duas delas com igrejas como as principais referências arquitetônicas: Praça da Matriz, com a igreja dedicada a Nossa do Patrocínio, e a Praça e a Igreja de Santa Luzia. As igrejas da atual Praça Honorato Borges não mais existem.

Patrimônio abandonado e descaracterizado: a inauguração, em 1918, da linha férrea e da Estação Ferroviária, definiu as perspectivas de desenvolvimento da região.

Tudo indica que a transformação urbana da cidade se deu a partir da década de 1910, na República Velha, quando os membros locais do PRM (Partido Republicano Mineiro), cujo líder era o coronel Honorato Martins Borges, buscavam aprimorar as condições tanto da infraestrutura municipal quanto da prestação de serviços à população. É importante acrescentar que a inauguração, em 1918, da linha férrea e da Estação Ferroviária, praticamente definiu novas perspectivas de desenvolvimento do município. Porém, um dos pilares dessa política empreendida pelos então donos do poder era incentivar a modernização do ensino primário — que também era um dos pontos fundamentais da Reforma João Pinheiro (1906), do governo estadual.

O ímpeto inicial das transformações urbanas da cidade se deu com a instalação, em 1914, do Grupo Escolar Honorato Borges, que era localizado na Praça da Matriz.

O surgimento do prédio então Grupo Escolar Honorato Borges, em 1930, foi decisivo na nova concepção urbana da cidade.

Presença presbiteriana

Todavia, outro importante acontecimento histórico ligado à educação movimentou a cidade na mesma época e certamente foi decisivo para acelerar as mudanças de caráter urbanista e arquitetônico. Missionários presbiterianos vindos dos Estados Unidos criaram o Patrocínio College, cujo principal objetivo era “a formação de leigos como evangelizadores para assumirem funções no trabalho missionário na região”.

O colégio Dom Lustosa foi instalado em um casarão construído no início da década de 1910.

Os líderes políticos da oligarquia rural, comandados pelo coronel Honorato Borges, aliados naturais da igreja católica, sentiram-se ameaçados politicamente, e a reação veio com o estímulo à instalação de instituições de ensino católicas.  “A presença presbiteriana em Patrocínio gerou uma disputa ideológica e organizacional com os membros do clero católico, que visualizavam em tais atividades presbiterianas uma evidente ameaça à hegemonia da Igreja Católica na cidade de Patrocínio e região”, conforme escreveu o professor Geraldo Gonçalves de Lima, doutor em Educação pela Universidade Federal de Uberlândia (UFU). “Por meio das iniciativas do bispo diocesano de Uberaba, Dom Antônio de Almeida Lustosa, houve um esforço conjunto da igreja católica, da oligarquia rural patrocinense e de membros do governo mineiro no sentido de estimular a vinda de instituições escolares católicas”, ratifica o professor.

Concepções modernas

Em 1927, foi fundado o Colégio Dom Lustosa, “voltado para a formação masculina, sob a responsabilidade de missionários oriundos da Holanda”. O colégio foi instalado em um casarão construído no início do século XX, na década de 1910. Era residência de um dos coronéis locais, Marciano Ferreira Pires, e, em 1926, teve as instalações readaptadas para se transformar na instituição de ensino. Certamente o projeto arquitetônico do edifício, após se transformar no Colégio Dom Lustosa, teve impacto na nascente nova concepção “modernizante” da cidade. Um ano depois, outro marco, inclusive na arquitetura, foi a fundação do Colégio Nossa Senhora do Patrocínio, localizado na Praça da Matriz sob a responsabilidade da Congregação das Irmãs do Sagrado Coração de Maria de Berlaar.

Outro belo edifício, datado de 1928, erguido para ser sede do antigo Fórum da cidade — hoje abriga a Superintendência Regional de Ensino —, ainda mantém a bela fachada neoclássica.

Mas o impacto definitivo para mudar a concepção urbanística da cidade foi a construção das novas instalações do Grupo Escolar Honorato Borges, no Lago do Rosário. Isso se deu em 1930, e o prédio tinha “concepções modernas”, segundo informa o documento de tombamento do Patrimônio Cultural de Patrocínio.

Talvez mais um importante elemento para ratificar esse processo de modernização urbana é registrar que, seis anos depois, em 1936, foi consagrada a nova Igreja Matriz, de arquitetura neoclássica, erguida em substituição ao templo anterior, de duas torres, em estilo colonial. A construção foi iniciada em 1933 e finalizada em 1935.

Interior da Igreja Matriz, em estilo neoclássico primitivo.

Praça da Matriz

A Praça da Matriz, ou Praça Monsenhor Thiago, é o local que remonta às origens de Patrocínio, “é a parte da história da cidade”, segundo o documento de tombamento do Patrimônio Cultural do município. “Foi, durante mais de 100 anos, o ponto central da cidade, congregando diversas representações simbólicas e políticas em seu entorno, revelando, aos olhares atentos, os arranjos e códigos sociais de uma sociedade nascente, verdadeiras alegorias da constituição civil da sociedade”, ainda segundo o documento. O texto traz o argumento de que a Igreja Matriz, por representar a fé católica e o poder religioso, localiza-se em posição central, enquanto a atual Casa de Cultura — antiga sede da prefeitura —, por ter sido a representação do poder político, localiza-se em “posição oposta e complementar à igreja”. Já o Colégio Normal, “representando a educação, que historicamente esteve ligada às ordens religiosas, fica muito bem situado ao lado da Igreja Matriz. Em volta da praça, as diversas casas das mais antigas e tradicionais famílias, sempre relacionadas ao poder político municipal”.

A bela casa da tradicional família Aguiar, em marcante estilo neoclássico. No alto da fachada frontal, a data da construção: o simbólico ano de 1922.

Caráter simbólico

Das residências, destaque para a belíssima casa da tradicional família Aguiar, em marcante estilo neoclássico, uma obra construída pelo coronel Honorato Martins Borges. No alto da fachada frontal, a data da construção: o simbólico ano de 1922, marcado na história pela Semana de Arte Moderna, organizada em São Paulo pelos artistas e escritores modernistas.

O tombamento afirma ainda que o fato de a Praça da Matriz ter conservado as características originais se deveu ao “forte caráter simbólico” do local, pois o espaço aberto da praça “representa o espaço da meditação, do confronto, conflito ou dos arranjos entre esses vários e tradicionais atores políticos e sociais”.

A ampla Praça Honorato Borges conserva no seu entorno um interessante patrimônio arquitetônico.

Praça Honorato Borges

Desde o ano de 1931, quando foi inaugurado na antiga Praça Rio Branco, o Grupo Escolar Honorato Borges — atual escola municipal — mantém as mesmas características arquitetônicas de um prédio moderno — embora de instalações simples — para a época. Em frente a lateral da escola, na esquina, outro belo edifício, datado de 1928, erguido para ser sede do antigo Fórum da cidade — hoje abriga a Superintendência Regional de Ensino —, ainda mantém a bela fachada neoclássica. Essas duas construções podem ser consideradas símbolos do progresso do município, que, impulsionado pela ferrovia, naquele período já administrada pela Rede Mineira de Viação — responsável por fazer a ligação de Patrocínio a Belo Horizonte —, e também pela instalação (em 1930), no Ribeirão José Pedro (região de Dourados), da segunda usina hidrelétrica de Patrocínio, com 150 HP — a primeira, de 1918, tinha 50 HP. Além do mais, é preciso registrar a inauguração, em 1933, por parte dos presbiterianos, do Instituto Bíblico Eduardo Lane.

O município mantinha economia essencialmente agrária e estava sob o domínio político da oligarquia rural, mas o cenário urbano mudava devido aos novos tempos — e isso se traduziu, certamente, na substituição das antigas construções, muitas em estilo colonial, como o sobrado da antiga prefeitura. 

Contando a história

Casario modernistas e eclético ainda contam a história da Praça Honorato Borges.

A Praça Honorato Borges ainda conta essa história, inclusive nos registos de construções que surgiram nas décadas seguintes. Mesmo um tanto descuidado e descaracterizado, o prédio onde, por pelo menos quatro décadas, funcionou o Cine Rosário mantém a digna imponência do estilo eclético (talvez próximo ao neoclássico). Da mesma forma, a belíssima construção eclética do antigo Banco Mineiro da Produção, atualmente uma residência, embeleza o entorno da praça. A lamentar, a absoluta falta de critério (ou de estilo) em reformas que provocaram grande descaracterização no primeiro pavimento, transformado em pontos comerciais.

Outras três residências da praça merecem destaque pela beleza dos estilos arquitetônicos (típicos das décadas de 1950 e 1960) ainda hoje muito bem-conservados. Elas são vizinhas e ficam na mesma calçada. Duas casas têm sofisticados estilos modernistas, porém com desenhos diferentes. Já a terceira residência, que fica entre as outras duas, apresenta um belo estilo eclético.

Monumento ao Cristo Redentor: espaço de lazer no alto da Serra do Cruzeiro.

 

A praça ocupa uma área ampla no coração da cidade. É plana e sombreada por algumas grandes árvores, como paineiras e amendoeiras. É equipada com vários bancos e apresenta todas as condições para merecer a instalação de um belo projeto paisagístico. Ela até possui os traços de um antigo desenho arquitetônico — cujo piso também está degradado — preparado para receber um projeto paisagístico, mas este se encontra completamente abandonado.

É certo que um competente projeto urbanístico e arquitetônico de revitalização da Praça Honorato Borges pode transformar o lugar em um precioso espaço de convívio da comunidade — como, aliás, já é uma realidade em diferentes cidades espalhadas pelo mundo. As praças devem (e precisam) ser espaços livres, democráticos, destinados às pessoas, voltados para a prática de esportes, para a realização de eventos culturais e, é claro, para encontros entre todas as gentes.

Igreja Santa Luzia: “com solução em estilo eclético, na verdade uma fusão de elementos dos estilos Românico e Gótico Primitivo”.

Praça Santa Luzia

Essa realidade já ocorre na praça da magnífica Igreja de Santa Luzia, localizada na parte que pode ser considerada como o hipercentro da cidade. Pela tradição dos costumes dos patrocinenses, há muito movimento na praça, seja para frequentar os bares, lanchonetes e restaurantes localizados no entorno, seja para sentar nas mesas dos food-truckse trailersespecializados em sanduíches, seja apenas para relaxar nos bancos. Há ainda brinquedos infantis instalados no amplo pátio central da praça e a sempre interessante fonte luminosa.

Todavia, ao se levarem em conta os jardins — circundados por imponentes palmeiras-imperiais —, os pisos e o calçadão da Praça Santa Luzia, o abandono também é imediatamente notado.

A Igreja Santa Luzia foi restaurada recentemente.

Igreja restaurada

Em absoluto contraste, ergue-se a igreja, cercada por grandes e belas palmeiras-imperiais, recentemente restaurada e entregue à cidade e aos fiéis em junho de 2019.

O Inventário de Proteção ao Acervo Cultural de Patrocínio informa que o primeiro templo erguido no local, que se chamava Largo de Santa Luzia, era “uma pequena capela de planta regular, sem torres, com telhado em duas águas, frontão triangular, porta única e duas janelas — solução típica do período colonial”. Porém, na década de 1920, houve uma reforma urbana que culminou com a abertura da atual Avenida Rui Barbosa, e assim foi delimitada a nova Praça Santa Luzia. Nesse novo arranjo, a capela acabou ficando no centro da recém-aberta avenida, “tornando-se, de certa forma, um entrave urbano, que fora evidentemente planejado”.  

O calçadão e o estilo galerias ao longo da
Av. Rui Barbosa.

Estilos românico e gótico primitivo

No início dos anos 1960, com o evidente crescimento da cidade, houve a demolição da capela colonial, iniciou-se a construção do novo templo e foi erigida, no centro da nova praça, a Igreja de Santa Luzia. Segundo ratifica o inventário — que informa que não foram encontradas referências sobre a autoria do projeto arquitetônico —, “com solução em estilo eclético, na verdade uma fusão de elementos dos estilos Românico e Gótico Primitivo”. O documento traz detalhes interessantes na descrição da igreja: “em estilo eclético com fachada onde predominam as três portadas em arcos ogivais, acessadas através de escadaria frontal”. As duas torres são verticalizadas, com aberturas diferenciadas, e o corpo principal da edificação fica recuado, com frontão triangular, revelando a solução do telhado em duas águas. Do interior do templo, é importante registrar as informações sobre a capela-mor, “em planta semicircular, ao fundo; nervurada, com altar simples, em mármore e granito”. 

Os brinquedos na praça e o tradicional carrinho de pipoca.

Embora não esteja documentado em nenhum registro oficial, algumas importantes fontes da cidade garantem que a construção da Igreja de Santa Luzia teve apoio decisivo dos imigrantes árabes. A comunidade árabe teria financiado as obras do templo.

É interessante registrar que na Andaluzia (Espanha), sobretudo nas cidades de Sevilha, Córdoba e Granada, diferentes templos de arquitetura moura remetem ao estilo arquitetônico da Igreja de Santa Luzia.

Um outro ângulo que mostra a complexa arquitetura da igreja.

Monumentos arquitetônicos

 O Patrimônio Cultural de Patrocínio documenta como bens imóveis tombados são monumentos arquitetônicos de grande importância não só para a cidade, como também para o conjunto do patrimônio histórico e arquitetônico de Minas Gerais. São eles: a Casa da Cultura, tombada em 2001; a Escola Estadual Dom Lustosa; a Escola Municipal Honorato Borges, o Palácio da Educação Dr. Hélio Furtado de Oliveira, a Estação Ferroviária de Patrocínio (todos tombados em abril de 2007) e a Antiga Cadeia, tombada em julho de 2016.

O casarão que embeleza a Praça da Matriz foi corretamente escolhido para sediar o museu da cidade.

Casa da Cultura

Sobre a Casa da Cultura, praticamente o único prédio em estilo colonial — “que remonta ao passado imperial e está profundamente ligado à história, à memória e à cultura de sua população” — ainda existente na cidade, o Patrimônio Cultural adianta que “as informações históricas desse sobrado são escassas, restringindo-se à década provável de sua construção (meados do séc. XIX)”.

O único registro concreto, conforme o documento de tombamento, é a venda do prédio à Câmara Municipal, em 21 de outubro de 1895. Porém, a casa legislativa já funcionava no imóvel antes desse fato. “Sabe-se, por depoimentos orais, que teria sido edificado pelo Capitão Francisco Martins Mundim, o primeiro presidente da Câmara”. O imóvel teria sido construído para ser residência de Martins Mundim, que realmente morou lá por alguns anos.

Detalhe do interior da Casa da Cultura e Museu Municipal.

De 1930, no final da República Velha — quando o executivo municipal passou a ser exercido pelos prefeitos —, até o final da década de 1970, o casarão sediava a Prefeitura de Patrocínio. Em 1979, o prédio foi doado para a recém-criada Fundação Casa da Cultura de Patrocínio Dr. Odair de Oliveira, como informa o Patrimônio Cultural, que acrescenta: “o sobrado passou por duas grandes restaurações, em 1999 e 2016. Esta última estabeleceu a complexão atual do prédio”. Na construção, destaque para o fechamento da rua que passa em frente (Otávio de Brito), a instalação de um elevador para portadores de necessidades especiais e a implantação de painéis de vidro em volta do edifício, para servir de proteção.

O edifício-sede da atual Escola Estadual Dom Lustosa, foi doado à Congregação dos Padres Religiosos Holandeses dos Sagrados Corações de Jesus e Maria, em 11 de setembro de 1926.

Colégio Dom Lustosa

O edifício-sede da atual Escola Estadual Dom Lustosa, conforme é descrito pelo Patrimônio Cultural patrocinense, foi doado à Congregação dos Padres Religiosos Holandeses dos Sagrados Corações de Jesus e Maria, em 11 de setembro de 1926. O doador, como informado no início deste texto, foi o coronel Marciano Pires, que foi o construtor do magnífico imóvel e era, na ocasião, o único morador da habitação.  Os religiosos instalaram o Colégio Dom Lustosa, em homenagem ao bispo da região. A instituição era em regimes de internato semi-internato, externato e exclusivamente voltada para o sexo masculino. “Em 1963, o imóvel foi doado ao Estado, onde (sic) passou a funcionar como Escola Estadual Dom Lustosa, ministrando o ensino fundamental, com a criação do ensino médio somente em 1967”.

A Estação Ferroviária, na época da inauguração dela, representou o início da modernização urbana da cidade.

Romper com o passado colonial

Com relação à atual Escola Municipal Honorato Borges, a acrescentar, do documento oficial, o fato de que ela foi “municipalizada em 1988”. Já o vizinho Palácio da Educação, o antigo Fórum, tem a data de construção confirmada “na primeira metade do século XX, provavelmente no ano de 1928, marcando de forma significativa o processo de modernização da cidade, com  bela presença na Praça Honorato Borges e, de modo geral, na história de Patrocínio”. O Patrimônio prossegue informando “que com a finalidade de abrigar o Poder judiciário na cidade, o Fórum de Patrocínio, foi edificado no local onde ficava a antiga Igreja de Santa Rita”.

O acervo do Museu, conta a história do rompimento com o passado colonial.

Essa descrição parece confirmar a tese de que modernizar a cidade significava romper com o passado colonial, principalmente com tudo que dizia respeito à arquitetura e às concepções do traçado urbano.

Da antiga cadeia, de arquitetura com traços inspirados no estilo neoclássico, consta que “não foram encontrados registros precisos sobre a data de construção da edificação. Um mapa da cidade, datado de 1917, não mostra a edificação, levando à suposição de que foi edificada após essa data”. O prédio, que deixou de ser cadeia pública em 1979, encontra-se fechado desde o ano de 2012. Anteriormente, por duas décadas, foi alugado e funcionou como templo religioso.

Trilhos urbanos

Embora tristemente descaracterizado, o prédio da Estação Ferroviária de Patrocínio ainda guarda no estilo eclético — característico das estações erguidas na mesma época — certa imponência típica dos monumentos que carregam importantes signos da história. O documento oficial de tombamento registra que o imóvel foi inaugurado “juntamente com a Estrada de Ferro Goiás, nos idos de 1917–18”.

Os trilhos foram a principal ligação entre Belo Horizonte, Patrocínio e Goiás.

Não por acaso, a estrada de ferro “foi assentada justamente sobre a antiga Picada de Goiás, usada pelos desbravadores luso-brasileiros para penetração no sertão mineiro e goiano, ainda nos sécs. XVIII e XIX”, como ratifica o texto do tombamento. A via tornou-se o principal meio para escoar a produção agrícola regional e, é claro, melhorou amplamente as condições de tráfego e reduziu o tempo de viagem, principalmente entre Patrocínio, o estado de Goiás e Belo Horizonte. Acrescenta-se que era também a principal trilha de ligação entre BH e as terras goianas. A via férrea manteve a importância até o final dos anos de 1960, pois ainda transportava passageiros, com grande movimentação.

A ‘picada” de Goiás seguia onde hoje estão os trilhos e passava no sopé da Serra do Cruzeiro.

“Em 1978, ocorreu o último trem de passageiro, a partir daí o trem passa a transportar somente cargas”, informa o tombamento.

Com a privatização, no início da década de 1990, a antiga Rede Ferroviária Federal (RFFSA) passou a ser propriedade da Companhia Vale por meio da Ferrovia Centro-Atlântica (FCA). Hoje, a administração é de responsabilidade da empresa VLI Logística. Esses fatos apenas comprovam a gigantesca importância econômica dessa via férrea nos tempos atuais. É algo que simplesmente não combina, em nenhuma hipótese, com o grotesco abandono em que o prédio se encontra.

Patrocínio tem um desenho urbano que parece ter sido planejado.

Desenho da cidade

O desenho urbano de Patrocínio é muito interessante. Talvez pelo fato de a cidade ocupar o terreno de um planalto muito plano, ela parece ter sido projetada por um arquiteto e urbanista um tanto quanto visionário. Duas grandes avenidas se entrecruzam, uma segue de norte a sul, e a outra, de leste a oeste.

A cidade é dona de um interessante desenho urbano.

A primeira, a Avenida Rui Barbosa, que percorre 8 km, conta com bela arborização e atualmente é um corredor essencialmente comercial. Mais interessante ainda é o trecho abaixo do cruzamento com a Avenida Faria Pereira — local que pode ser considerado como o “marco zero” da cidade —, dono de um sofisticado projeto urbanístico. A Rui Barbosa segue até a Praça Santa Luzia, num trecho de cerca de 500 m, com as pistas mais estreitas, pois privilegia os amplos calçadões cobertos por pedras portuguesas. A linha de todos os edifícios segue como grande galeria, uma vez que muitos deles (sobretudo os construídos após a instalação desse projeto urbanístico) são recuados e sustentados por pilares.

Torre do templo presbiteriano.

A Faria Pereira, por sua vez, tem 12 km e trechos de longos declives e aclives, com os canteiros centrais decorados por palmeiras-imperiais. Também é quase toda ocupada pela atividade econômica.

Seguindo paralelemente as duas avenidas, estão ruas muito longas, de perder de vista. São aquelas que também atravessam a cidade de norte a sul e as que cruzam a urbe de leste a oeste — desde o nascer até o pôr do sol.  A cidade é assim desenhada. São pelo menos dez ruas paralelas, retas e largas, muito compridas, algumas são até interrompidas por outras ruas, avenidas e praças , seguindo de baixo para cima, cortadas pelas que ligam um lado ao outro — como se a cidade planejada fosse. Há ainda uma grande avenida, que faz o contorno da área central e cujo canteiro central arborizado oferece pistas de caminhada.

Detalhe de mais uma edificação histórica da cidade.

Outra concepção urbanística muito interessante está edificada nessa avenida: é onde fica o complexo que abriga a Prefeitura Municipal, além do Fórum e da Câmara Municipal. Ou seja, os poderes executivo, legislativo e judiciário localizam-se numa mesma estrutura, edificada em ampla área, cuja inauguração aconteceu no final da década de 1970.

No entorno da cidade, o bioma cerrado desvela lindas paisagens.

Em pleno cerrado

Localizado na Região do Alto Paranaíba, em terras dominadas pelo bioma cerrado, Patrocínio desvela muitas belezas pelos planaltos que delimitam as fronteiras de um vasto município, com área de 2.867 km²e população estimada hoje em mais de 90 mil habitantes (82.471 habitantes, Censo de 2010).

As áreas ainda conservadas do cerrado são entremeadas por extensas culturas agrícolas, sobretudo pela cafeicultura

As áreas ainda conservadas da mais rica savana do globo terrestre são entremeadas por extensas culturas agrícolas, sobretudo pela cafeicultura — de longe, a principal atividade econômica local. Também são comuns as pastagens para o gado tanto o leiteiro quanto o de corte. Trata-se de uma região essencialmente voltada para a agropecuária — uma vocação histórica, como está registrado na memória do município, conforme documenta o siteoficial: “Patrocínio, desde sua formação, foi um município agropecuário, fabricante  de queijo mineiro de primeira qualidade, açúcar de forma — a rapadura —, a cachaça, as farinhas de milho e de mandioca, o polvilho, os fubás, arroz, feijão, o trigo, o fumo de rolo, café e exportava o toucinho de rolo, por carros de boi ou em lombo de animais para várias partes das Gerais e de São Paulo, devendo se ressaltar o suprimento de mantimentos que fez para a capital Ouro Preto, no seu período de fome e de miséria”.

A beleza da Cachoeira do Capão Fundo.

Potencialidade turística

Além de ser impulsionada pelas belezas naturais características do cerrado, lapidadas pelos chapadões, vales, serras e pela extensa rede hidrográfica dos afluentes do Rio Paranaíba, e das amplas possibilidades da efetivação de atrativos e da criação de produtos turísticos, a circulação de visitantes torna-se intensa na região também devido às atividades ligadas ao agronegócio. Esse movimento é tal que, é claro, deve ser classificado como turismo de negócios. Isso se deve principalmente ao café — considerado um dos melhores do mundo.

Um detalhe que não pode passar despercebido, embora não haja, infelizmente, nenhum tipo de produto turístico relacionado a essa fabulosa potencialidade: Patrocínio oficialmente é reconhecida como uma estância hidromineral.

A incrível lagoa do Chapadão de Ferro, na cratera do vulcão.

Estância hidromineral

A 20 km do centro da cidade, existem extraordinárias fontes de águas minerais: dos tipos sulfurosa, radioativa e magnesiana. É um lugar de indescritíveis belezas naturais, cercado de serras, adornado por densas matas de cerrado, em terreno que se espraia ao longo de um chapadão onde, nas partes mais altas, a 1.200 m de altitude, brota uma lagoa natural (com 6 km de diâmetro) de água mineral — a Lagoa do Chapadão de Ferro, nome desse acidente geográfico que foi, simplesmente, a cratera de um vulcão.

o que restou de uma preciosa fonte de água mineral sulfurosa.

Esse lugar é chamado de Serra Negra e, durante mais de quatro décadas, funcionou como a Estância Hidromineral da Serra Negra, ocupando uma área de reserva natural de 274 hectares. Era um complexo turístico de alta qualidade, pois tinha como principal atrativo o Hotel Serra Negra, outrora uma bela construção (hoje em completo abandono, praticamente em ruínas), com projeto arquitetônico no chamado estilo missões — o mesmo do Grande Hotel do Barreiro, na vizinha Araxá.

Ciclistas ao lado dos escombros da fonte da água magnesiana.

Décadas de glória

Dividido em espaçosos 23 quartos e seis apartamentos, o antigo hotel, fundado em 1943, oferecia banheiras com água mineral sulfurosa para banhos térmicos — com comprovadas propriedades medicinais, uma vez que registrava seis gramas de sais minerais por litro de água. Havia também o banho com lama sulfurosa e outros atrativos, como cavalos para montarias, jardins, um bosque de mais de 20 hectares, currais com criação de vacas e cabras, além da gastronomia típica da região, que incluía doces diversos e as famosas quitandas.

Fachada do que foi o Hotel Serra Negra, que recebia turistas de várias regiões do Brasil.

O fato é que o Hotel Serra Negra viveu décadas de glória, pois recebia hóspedes vindos dos grandes centros, como Belo Horizonte, Rio de Janeiro, São Paulo, e até das capitais nordestinas. Foi ponto de encontro de membros da elite regional, não só das cidades vizinhas, como também de todo o estado de Minas Gerais, e cenário de importantes reuniões políticas: já recebeu governadores mineiros e líderes de expressão nacional, como Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves.

A beleza da Serra Negra ainda atrai muitos visitantes.

Fontes de águas minerais

Na vasta área de entorno do hotel, ainda resistem — em um ambiente de inacreditável destruição — as incríveis fontes de águas minerais magnesiana e sulfurosa. É verdade que o segundo tipo de água não mais escorre da fonte, ao contrário da primeira, que brota em grande quantidade. É preciso destacar a beleza da paisagem, do verde intenso da mata fechada que cobre as colinas em volta.

A incrível e abandonada fonte de água mineral magnesiana ainda jorra com fartura.

A antiga estância hidromineral reúne todas as condições para a estruturação de produtos turísticos em praticamente todos os níveis: o turismo termal e das águas (com as opções de tratamento de saúde, relaxamento e beleza), as atividades de ecoturismo e turismo de aventura — devido às amplas áreas verdes conservadas e à fartura de nascentes, riachos e córregos —, o turismo gastronômico e, evidentemente, o de negócios — na medida em que poderia abrigar espaços para feiras e convenções, uma demanda natural do município, importante referência internacional na cafeicultura. Além do mais, caso haja uma bem-cuidada restauração da sede em ruínas e a adequação de um projeto de hospedagem tal qual exige a moderna hotelaria, o prédio, pelas belas características arquitetônicas que possui, se transformaria em mais um grande atrativo.

Cenários sempre surpreendentes e fartura de mananciais.

Belos cenários naturais

Os planaltos de cerrado dentro das fronteiras patrocinenses, além das belas paisagens, desvelam um valioso manancial de águas entre as bacias dos rios Quebra-Anzol, Dourados, Espírito Santo e Santo Antônio. São lugares perfeitos para que as pessoas possam usufruir de atividades de lazer de qualidade junto à natureza, como banhar em águas límpidas, acampar, fazer trekkinge pescar, nas modalidades amadora e esportiva, pois há fartura de peixes.

No quesito cachoeiras, existem três deslumbrantes quedas d’água que merecem registro: as cachoeiras dos Lemos, dos Borges e do Capão Fundo.

Lago de Nova Ponte: imenso potencial turístico.

São muitas (e melhores) as possibilidades para os apreciadores do mountain bike. A cidade já reúne vários praticantes desse esporte. Da mesma forma, nota-se que as trilhas locais são muito exploradas pelos praticantes dos esportes off-road, principalmente os donos de camionetes 4X4, motos e até quadriciclos. Embora sejam inúmeras as estradas vicinais — perfeitas para a prática —, fica evidente o imenso descaso com a natureza, pois terrenos donos de frágeis ecossistemas, assim como nascentes e córregos, são desbravados pelos veículos “fora de estrada” sem o mínimo critério ou sem organização. Para comprovar essa situação, basta percorrer algumas trilhas.

Voo livre na Serra do Cruzeiro: em expansão como atrativo.

O voo livre é outra modalidade que ganha espaço em um belo e importante cenário de cartão-postal de Patrocínio: a Serra do Cruzeiro. Existe lá um ponto de decolagem (ainda não há rampa), e alguns praticantes usufruem das térmicas e do belo visual.

 Serra do Cruzeiro, patrimônio natural

Tombada como patrimônio cultural e paisagístico de Patrocínio, a Serra do Cruzeiro era chamada de Serra do Gavião e, como informa o documento oficial de tombamento, “o Caminho Novo de Goiás passava caprichosamente no pé da serra e foi objeto de doação de sesmaria ainda no período colonial”. “Faz parte da Bacia Hidrográfica do Rio Dourados. Situa-se na área de confluência do Córrego Feio, onde é captada e tratada a água consumida na cidade”.

Vista do por do sol do alto da Serra do Cruzeiro.

Além da enorme importância como principal manancial de abastecimento da cidade, a Serra do Cruzeiro apresenta todas as características que caracterizam o ecossistema do cerrado. Lá estão as formações típicas dos campos de altitude (ou campos rupestres), e também se observam as formações campestres, como os campos limpos e sujos. Há ainda trechos de mata de galeria e de cerradão. O tombamento confirma que no local existem “inúmeras espécies vegetais típicas do cerrado, muitas delas ainda não conhecidas nem pesquisadas”. E vai mais além, pois registra que na região ainda sobrevivem animais ameaçados de extinção, como o lobo-guará.

Paisagem no alto da Serra do Cruzeiro: patrimônio natural protegido

No alto da serra, foi construído um amplo espaço de lazer, no final da década de 1990, cujo principal atrativo é uma estátua do Cristo Redentor. Recentemente revitalizado pela Prefeitura Municipal, com ótima via de acesso, tornou-se um agradável espaço para usufruto da população e dos turistas. Conforme o documento de tombamento, em meados do século XX, a Serra do Cruzeiro era “um ponto de peregrinação religiosa, a partir dos encontros de Folias de Reis que aconteciam na região. Nessa época foi erguido o Cruzeiro de madeira que cederia seu nome à serra”. Foi exatamente no lugar do antigo cruzeiro que foi erguido o Cristo Redentor.

Aliás, nas proximidades, existe um espaço dedicado às celebrações da Folia de Reis. Além de uma gruta com imagem de Nossa Senhora, há esculturas que representam profetas e santos.

Lago de Nova Ponte: pesca esportiva como atrativo.

Lago artificial de Nova Ponte

Em 1993, o fechamento das comportas da recém-construída Usina Hidrelétrica de Nova Ponte, no Rio Araguari, que exigiu a construção de uma barragem de 141 m de altura por 1.600 m de comprimento e levou à consequente formação de um lago artificial com área total de 453 km² — que inundou áreas dos municípios de Perdizes, Iraí de Minas, Sacramento, Pedrinópolis, Santa Juliana, Serra do Salitre, Nova Ponte e Patrocínio —, provocou o surgimento de mais um grande atrativo turístico para o município. Patrocínio teve cerca de 135 km² inundados, a maior área dentre os municípios envolvidos na formação da barragem.

A região em torno do Lago de Nova Ponte se transformou em uma das principais opções lazer dos patrocinenses.

Em pouco tempo, as margens do lago começaram a ser visitadas por muitas pessoas em busca de atividades de lazer, como a pescaria, principalmente, e para a prática de esportes náuticos diversos, o que hoje são hábitos rotineiros de muitos patrocinenses. Muitas casas de veraneio foram construídas no entorno, e também há grande atividade econômica ligada à produção de peixes, sobretudo tilápias, por meio dos viveiros lá instalados.

O entorno do lago proporciona belos passeios fora de estrada.

De imensa beleza cênica, o entorno do lago de Nova Ponte tem enorme potencial para atividades como a pesca esportiva, pois residentes locais e proprietários de chácaras ou “ranchos” garantem que a represa abriga enorme quantidade de peixes — muitas espécies exóticas, como o tucunaré e a tilápia nilótica, que foram introduzidas, e também peixes típicos da Bacia do Rio Paranaíba, como o raro e belo dourado.

A pesca esportiva torna-se um grande atrativo no Lago de Nova Ponte.

Embora praticados apenas pelos frequentadores mais assíduos, os esportes náuticos, se explorados de forma sustentável, encontram um ambiente perfeito, devido à extensa área inundada. Da mesma forma, os passeios em embarcações podem revelar belos e interessantes cenários.

Não é preciso ir muito longe para perceber que as margens do lago de Nova Ponte revelam inúmeras espécies de pássaros. Ou seja, têm potencial para se tornarem um paraíso para os observadores de pássaros. A atividade de birdwatchingcomeça a despontar na região, embora ainda timidamente.

É grande a potencialidade para a atividade do ‘birdwatching’ no entorno do lago.

Museu Municipal

O sobrado que hoje abriga o Museu Municipal de Patrocínio Professor Hugo Machado da Silveira é a mais imponente edificação pública da cidade de Patrocínio, remanescente do período escravagista que remonta ao passado imperial, sendo atualmente o único monumento vivo profundamente ligado à história, memória, tradição e cultura popular patrocinense”, registra o sítio da Fundação Casa da Cultura de Patrocínio. De fato, o deslumbrante casarão que embeleza a Praça da Matriz foi corretamente escolhido para sediar o museu da cidade. É dividido em galerias que mostram acervos dedicados aos tropeiros e aos indígenas; as outras são dedicadas a temáticas como saúde e imprensa, nelas são expostas peças muito interessantes de ambas as áreas. Há ainda um espaço com maquetes de edifícios históricos e igrejas da cidade, outro dedicado à cafeicultura e mais um que expõe equipamentos da indústria gráfica.

Sala do museu dedicada à indústria gráfica e à imprensa.

Há ainda precioso acervo reunido em uma interessante pinacoteca, na coleção de fotografias e em vários objetos e documentos históricos. Não há dúvida de que signos fundamentais da história e, é claro, a essência da memória de Patrocínio encontram-se conservados no Museu Municipal.

O acervo. além de importante, é muito significativo.

É preciso acrescentar que, embora possa passar despercebido, o acervo museológico da instituição é rico e de enorme importância — embora seja um tanto quanto humilde no quesito quantidade de peças, como ocorre na maioria das cidades do interior mineiro (e do Brasil como um todo), exceção às cidades históricas. Todavia, o que poderia dar ganhos inestimáveis ao museu da Casa da Cultura, acrescentando-lhe ainda mais qualidade, seria providenciar um projeto de sinalização interna, além de ser necessário aprimorar a ambientação visual do espaço. O Museu Municipal Professor Hugo da Silveira precisa ser visitado como um grande atrativo da cidade e merece ser valorizado pelos patrocinenses.

Vista lateral da sede do Museu Municipal e Casa da Cultura.