No coração de Minas Gerais nasce o rio São Francisco. Ao longo dos seus mais de dois mil quilômetros de extensão, o rio acumula histórias de vida e de morte, de cheia e de seca. Apesar de estar sempre tão vivo no imaginário das pessoas, poucos o conhecem de verdade. Durante uma viagem de dezessete dias pelas cidades mineiras banhadas pelo Velho Chico, além das muitas belezas que me foram reveladas, tive a certeza de que o rio reflete a alma da população ribeirinha.

 Por Juliana Afonso
Fotos André Fossati

O barco navega calmamente pelo rio São Francisco. Em um primeiro momento, suas águas turvas de cor marrom não parecem atrativas — muito menos a vegetação rasteira nas margens, nem os mosquitos a zumbir nos nossos ouvidos, nem o calor de quarenta graus. A verdade é que a paisagem do rio São Francisco não parece tão interessante… mas é preciso calma para ver e compreender  a sua real beleza.

Um rio é um mundo, pois sempre carrega a responsabilidade da vida que está ao seu redor. O Velho Chico, como não devia deixar de ser, é um mundo à parte; ele é o verdadeiro responsável pela sobrevivência das plantas que o circundam, dos animais que o rodeiam e até dos seres humanos que, sem suas águas, não estariam ali.

Esses pensamentos invadiam minha mente todos os dias logo ao acordar dentro do barco, no meio do rio. Então eu saía da minha cabine, subia no teto e observava aquele curso de águas turvas e inconstantes que me transportava por paisagens interioranas cheias de contrastes. Junto à correnteza marrom, que se transformava em azul turquesa com o brilho do sol, eu via árvores frondosas, humildes plantações, casas de pau a pique, embarcações de pescadores, crianças se refrescando, senhoras lavando roupas e até um casal de passarinhos que fez do convés a sua morada e acompanhou a viagem sempre cantando e dando voltas no barco todos os dias, sem nunca nos perder de vista.

Vivi dezessete dias nesse mundo paralelo acompanhando a equipe do projeto Cinema no Rio, que navegava pelas águas do rio São Francisco com o objetivo de levar cinema para as populações ribeirinhas. Nesses dias, tive a oportunidade de passar por diversas cidades, apreciar p

aisagens que pareciam ter saído de programas de televisão, conhecer mais da sabedoria popular e vivenciar uma cultura que por vezes me fez sentir como uma estrangeira em meu próprio país.

Naqueles poucos dias, tive a certeza de que as pessoas que vivem no São Francisco refletem a essência do grande rio.

Futuro promissor — Pirapora

Público atento à projeção em Januária.

Com um levantar de mãos ao céu, o maestro deu o último sinal para a banda. A música acabou e então as pessoas aplaudiram de pé a Orquestr

a Jovem de Pirapora. Eu fui uma delas, admirada ao ver aquelas crianças e adolescentes misturarem saxofones, trompetes e violinos com uma destreza profissional depois de apenas oito meses de ensaio. “Sempre trabalhei na área social e queria juntar crianças e adolescentes para formar uma orquestra”, disse, com orgulho do que faz, Irineu Alex de Souza Domingos. O trabalho do maestro mudou a realidade de dezenas de crianças que hoje têm uma perspectiva de futuro. Elas estão no meio do caminho, entre a calmaria e progresso, assim como a própria cidade.

Pirapora é gra

nde se comparada às outras cidades que estão ao longo do Velho Chico. Com pouco mais de 53 mil habitantes, ela é considerada um pólo na região. Além das indústrias, Pirapora tem um trânsito movimentado, comércio dinâmico e algumas construções modernas.

Em meio às obras de design arrojado, há construções nem tão novas assim. O maior exemplo disso é a ponte Marechal Hermes, que desde 1922 liga Pirapora e Buritizeiro. Há ainda o belo Benjamin Guimarães. O barco é uma das pérolas da cidade — se não a maior. Construído em 1913 nos Estados Unidos, ele navegou o rio Mississipi e a Bacia Amazônica até chegar ao São Francisco. Realizou diversas viagens e acumulou histórias incríveis, dentre elas a do dia em que a tripulação imprimiu velocidade máxima ao barco para escapar de um ataque do famoso cangaceiro Lampião, que planejava um grande saque.

Nessa interaç

ão entre o velho e o novo, entre o antigo e o moderno, se situa Pirapora, uma cidade que se desenvolve pouco a pouco, mas que ainda guarda traços do interior.

A força de um povo — Buritizeiro

Quando o carnaval de Pirapora teve de ser cancelado devido às chuvas que encheram o rio e o rio que encheu a cidade, um grupo de mulheres de Buritizeiro costurava com pressa os panos coloridos comprados na capital mineira e a bateria ensaiava o samba enredo. “Foi o primeiro ano que Buritizeiro teve carnaval e foi uma festa muito bonita”, recorda Dona Iara, a líder da festança.

Ela falava de um período histórico que não vivi, em uma cidade que eu acabara de conhecer, mas era fácil entender o desafio dessa mulher: ela lutava pela cultura em uma época onde a força feminina era igual a zero. Hoje, Buritizeiro não é uma cidade turística e não guarda significativo patrimônio histórico. Seu encanto está nas mulheres. Elas movimentavam a cena cultural e impedem que as manifestações populares morram.

Dona Iara fez m

uito mais que trazer o carnaval para a cidade. “Nasci aqui, fui embora, voltei casada e a cidade continuava sem nada. Sem cabeleireiro, enfermeira, professora”. Indignada, ela começou a pensar no que poderia fazer e, ao invés de escolher uma atividade, se encarregou de todas.

Quando percebeu a importância de passar seus conhecimentos para frente, abriu uma escola para ensinar bordados. Tanto zelo fez com que Dona Iara se tornasse a primeira vereadora da cidade. Com algum poder político nas mãos, ela levou creche para Buritizeiro e organizou uma série de eventos, de grandes festas a peças de teatro. De onde ela tirava as suas ideias? “Não sei… da cabeça”, respondeu sorrindo.

Suntuosa gameleira —

Barra

 do Guaicuí

A primeira vez que o barco do Cinema no Rio navegou pelo São Francisco foi em direção a Barra do Guaicuí. Quando saí do barco, dei de cara com uma linda igreja em ruínas com uma árvore em cima. Enquanto eu ainda tentava me recompor e entender a harmonia entre aqueles elementos tão distintos, resolvi entrar na igreja e vi as raízes da árvore preenchendo as paredes do templo.

Uma teoria explica o fato da gameleira ter parado lá em cima: há muitos e muitos anos, em um período de cheia, o nível do Velho Chico subiu tanto que cobriu a igreja e levou, lá pra cima, uma semente da árvore. Quando as águas revoltas voltaram ao seu nível normal, a árvore começou a crescer.

Com o

passar do tempo, surgiram inúmeras histórias tendo essa paisagem como pano de fundo. Uma delas é de assombração. “Diz que o padre está enterrado lá e que toda sexta-feira da paixão ele aparece”, conta Francisco, mais conhecido como Chico Doido. Segundo ele, os jesuítas construíram a igreja. Barra do Guaicuí ia ser a capital da província, já que a extração de ouro tinha começado no Rio das Velhas, que deságua na cidade. “Mas ai veio o Fernão Dias e aqueles portugueses só para roubar nosso ouro, nossos diamantes e matar nossos índios”, disse ele  indignado.

Princesinha do Velho Chico — Ibiaí

Alguns lugares transmitem sensações. São cheiros, cores e sons. Pois desde que voltei, quando penso no Sã

o Francisco me lembro de uma melodia ao mesmo tempo serena e forte. Ela guarda a história de uma região e de seus habitantes, que às vezes, sem muita esperança, se apegavam às tradições de fé para fazer valer seus desejos. Desejos de amor, de dinheiro, de cura.

Assim

é a dança de São Gonçalo, uma tradição que chegou ao Brasil junto com os portugueses. Com o tempo, ela foi ganhando características próprias e cada cidade cumpria a tradição de um jeito diferente. Hoje, na maior parte dos municípios de Minas, as rodas de São Gonçalo são cerimônias dedicadas a pagamentos de promessas e a graças alcançadas.

A dança me deixou extasiada. A mim e a todos os moradores já que a apresentação quebrou a rotina da pequena e pacata Ibiaí, uma cidade com cerca de oito mil habitantes —  carinhosamente apelidada de “princesinha do Velho Chico”.

O apelido é fruto das lindas e singelas imagens da cidade, como a praça principal, sempre muito movimentada em dias de festa ou a conservadíssima Igreja de Nossa Senhora da Conceição. Isso sem contar os pequenos detalhes que decoram as ruas da cidade, tais como as flores que rodeiam o muro da igreja, os guarda-sóis coloridos que se vê nas ruas e a prainha que se forma à beira do rio.

Batucada — Ponto Chique

Uma roda de dança. Um conjunto de cantigas tradicionais. Um grupo de percussão. Lá estava eu, com os olhos pequenos e a testa franzida, tentando decifrar o que era o tal do batuque. As histórias de Dona Agripina, uma negra de olhar penetrante, eram sobre um tempo em que o batuque era parte da rotina das pessoas. “Quando meus pais eram convidados para as festas de Buritizeiro, a gente dançava três dias sem parar”. Por causa das farras nas cidades vizinhas, quatro homens deram origem ao grupo de batuque em Ponto Chique. Um deles era o pai de Dona Agripina. O outro era o pai do vizinho, Seu Olimpo. “Comecei a ir nas festas com 15 anos, mas os menores não podiam entrar na roda. Eu respeitava e aprendia só olhando”. Seu Olimpo sonhava com o dia em que pudesse entrar na roda para brincar.

Porém, a tradição se perdia e o risco de tudo morrer foi muito grande; os ritmos e as letras estavam somente na cabeça dos mais velhos. Em 2006, quando o Cinema no Rio passou na cidade pela primeira vez, houve um convite para o grupo voltar a brincar. O sucesso foi imediato, a população gostou e o grupo voltou a se encontrar. Pouco tempo depois, participou em Brasília de um encontro de tradições e culturas populares.

Fui dar uma volta para absorver aquelas histórias e conhecer Ponto Chique, uma cidade pequena com poucos lugares para se ver. Talvez por isso ela tivesse cores tão vibrantes, em uma tentativa de chamar atenção e ser diferente. Todas as ruas abrigavam casas pintadas com tons fortes, incluindo a praça, colorida de rosa, verde claro e lilás.

A noite caiu e chegou a hora da apresentação. Os tambores começaram e parecia impossível não se mexer. Depois do som do batuque, vieram as cantigas e as danças. Todas as senhoras de saias longas começaram a rodar pela terra batida e fizeram subir uma poeira sutil. A poeira levantava e as pessoas aderiram  à brincadeira. A noite terminou em muitos sorrisos de alegria.

Árida e fotogênica — Cachoeira do Manteiga

Uma roda de dança e cantigas tradicionais: grupo de batuque em Ponto Chique.

Cachoeira do Manteiga não tem quase nada. Não tem uma igreja bonita, nem uma praça bem cuidada e muito menos casas bonitas. Não tem nada que atraia um visitante. Mas eu voltaria lá mil vezes e outras mais simplesmente porque a pequenina Cachoeira do Manteiga é linda de ser ver.

A beleza da cidade está em quase tudo: nas ruas de areia, nas cercas gastas, nas casas de pau a pique, nas paredes que o tempo coloriu e no contraste do bege com o verde das árvores. É uma cidade verdadeiramente fotogênica. Uma fotogenia que, infelizmente, está diretamente ligada à seca. Cachoeira do Manteiga é uma típica cidade do sertão, com pouquíssimos recursos.

A beleza também está nos seus habitantes. Gente que acorda cedo, dorme tarde, come pouco e sua muito. Suor do trabalho e do clima, sempre quente. Gente humilde que luta para sobreviver. Essa gente tem beleza, acima de tudo, porque enfrenta as adversidades da vida com a coragem e a sabedoria que a terra lhes deu.

São pessoas como Ana Rosa e Antônio Geraldo, um casal octogenário que me recebeu com muito carinho. Eles cuidavam da casa e da terra, plantavam feijão, milho e criavam alguns poucos animais. Com o tempo, eles perderam a terra. Eles não demonstram amargura, parecem que são felizes. “Às vezes, não temos carne aqui em casa porque é muito caro. Depois que eu perdi a minha roça, ficou difícil de ter uma criação. Eu gostava mais da roça, mas gosto daqui também. É sossegado e tem muita gente boa”, diz o resignado homem.

Pela janela eu vi…  São Romão

Era possível escutar as risadas que vinham do lado de dentro. Eu bati na porta e entrei. Tinham quatro pessoas na casa de Dona Bastú e, ainda assim, ela desviou a atenção, se levantou, me deu um beijo, um abraço e disse que eu podia pegar qualquer cadeira para me sentar. “Quer café?” E continuou a contar sua mais nova maledicência. “Todo dia eu ponho um pouco de conhaque no leite. Mas o doutor disse que eu não posso não, que isso é errante”, dizia com uma breve gargalhada.

Dava gosto de ver uma senhora de oitenta anos com tanta vontade de viver. Ela mesmo não sabe porque é assim. “Nasci de sete meses, era um ‘tiquim’ de gente, não tinha nem sobrancelha. Num sei como que eu fiquei esse mulherão. Adoro conversar, sair, ir pra festa… só não gosto de dançar porque tenho medo de errar as tabas”. E continuava rasgando o verbo com um jeito de falar quase literário, como se fosse um personagem saído dos livros de Guimarães Rosa.

Depois de conhecer essa encantadora senhora é fácil entender porque os cineastas Helvécio Marins e Clarissa Campolina quiseram imortalizar sua história no longa-metragem Girimunho, exibido em dezenas de festivais nacionais e internacionais e também para o habitantes de São Romão pela primeira vez durante o Cinema no Rio. A ideia surgiu em 2004, durante o projeto, quando Helvécio viu uma simpática senhora parada na janela, pronta para contar suas muitas histórias.

A verdade é que a São Romão não poderia encontrar ninguém melhor que Bastú para mostrar a cidade para o mundo. Junto com sua atuação se vê relances dessa pequena cidade de pouco mais de 8 mil habitantes. O pé de tamarindo de 300 anos, a prisão de sal e sua avenida principal, com uma vista espetacular do Velho Chico.

Para viver uma vida — Januária

Que as outras cidades não escutem, mas se fosse escolher algum lugar ao longo do São Francisco para fincar as minhas raízes, eu ficaria com Januária. A cidade é um daqueles lugares que você se sente em casa assim que chega. Talvez essa sensação seja culpa do sonoro “bem vinda” que eu escutei ao sair do barco. Mas a verdade é que eu me sentiria bem vinda de uma forma ou de outra.

A cidade é linda de se ver. É cheia de casinhas ordenadas e coloridas e alguns poucos casarões históricos que dão um charme especial ao local. As praças são grandes, as ruas são calçadas por paralelepípedos e as árvores frondosas refrescam a cidade, que tem um clima bastante agradável em comparação aos municípios mais próximos. Na beira do rio há uma longa avenida com bares que dão a sensação de beira mar, principalmente ao meio dia, quando o cheiro do peixe invade as ruas.

Mas a beleza da cidade também é fruto dos seus moradores. Até hoje, quando penso em Januária, penso nos pratos de barro e no brinquedo de madeira que vi no Centro de Artesanato. “O artesanato daqui chama muito a atenção dos turistas. Por isso que a gente vende mais nas férias, mas também expomos em Belo Horizonte, Tiradentes e até no rio de Janeiro”, afirma Teresinha Coutinho, coordenadora do Centro.

O ruim é escutar que as vendas estão caindo porque “o artesão mais velho quer ver dinheiro e os jovens sequer se interessam pelo ofício. A tradição está se perdendo”, conta Teresinha.

Sabor histórico — Matias Cardoso

Apesar da seca, a região norte é rica. Rica em beleza, em cultura, em história. Prova disso é a cidade de Matias Cardoso, que guarda a igreja mais antiga de Minas Gerais, a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Construída em 1695, ela chama atenção por suas grossas paredes de pedras e pela madeira que, dizem as más línguas, teria sido esculpida por um deficiente físico.

A cidade inteira respira a história. O melhor exemplo disso foi a conversa de comadre que tive com Amelina, famosa na região por fazer a brevidade, um bolo à base de rapadura conhecido por todos na região. Amelina não sabe quando ele foi inventado. “Aprendi com a minha mãe. O último dia da novena é dia de festa. Então ela comprava aquele tanto de rapadura para fazer bolo e chamava todo mundo da vila”, conta.

Assim passei a tarde daquele dia, sentada na cozinha de Amelina enquanto ela cozinhava um feijão que cheirava longe. Conversar com ela foi como entender a história da cidade por meio de ingredientes que, ao longo de anos, marcaram a vida e a rotina dos habitantes de Matias Cardoso.