Fotografia

Todos os sentidos com a câmera na mão

Viajar pelo mundo para mostrar o mais sublime que a natureza pode ser. André Dib encontrou, na sensibilidade e no respeito, as respostas para captar o que vê de forma genuína.

Por Juliana Afonso

As ondulações do território mineiro e suas montanhas a perder de vista. A beleza de uma onça-pintada aproximando-se com andar sorrateiro. A força dos povos sertanejos, que encontram fartura na escassez. Paisagem, natureza, tradição, sempre carregadas de sentido, são alguns dos cenários registrados pelo fotógrafo André Dib, um apaixonado pela fotografia. “Nada me atrai tanto quanto explorar o mundo com uma câmera na mão.”

André sempre foi fascinado pelas sensações e reflexões que uma imagem pode causar. “A foto tem esse caráter de dialogar com as pessoas de uma maneira silenciosa”, conta. Do choro ao riso, da indignação ao êxtase, a boa foto sempre transmite um sentimento, que não precisa ser dito. “Fotografia bem-feita é aquela que se explica por si só. Uma expressão ou uma ruga contam mais da história da foto que um texto complementar”, acredita.

A fotografia entrou na vida de André por um golpe de sorte. Até os 25 anos, ele trabalhava na própria empresa, era uma pessoa sedentária e não tinha nenhuma relação com a natureza. Naquela idade, André viveu um período de grande infelicidade e sentiu a necessidade de se encontrar. Foi quando surgiu a oportunidade de viajar para a Serra da Canastra. “Quando vi aquele cenário, eu enlouqueci. Eu queria aquilo na minha vida”, relembra. André começou a investir tempo e dinheiro em momentos como aquele.

Os esportes vieram primeiro. Trekking e escalada. A fotografia veio em seguida. André começou a fotografar em 2002. As pessoas gostavam dos registros que fazia por trás das lentes da sua fiel companheira — uma Pentax Camil, analógica —, e ele logo passou a colaborar com algumas revistas importantes. A partir de então, a carreira como fotógrafo cresceu de forma progressiva.

Encontro com a natureza

Poder conhecer lugares diferentes e estar em contato com culturas singulares são os maiores prazeres de André Dib. Conseguir captar esses momentos, claro, é a cereja do bolo. “Minhas experiências são supermarcantes. Tento transmitir o que eu sinto, as formas dessa natureza, que é pulsante, que é viva. É um desafio.”

A natureza é o carro-chefe do trabalho dele: Dib já fotografou a fundo as belezas dos grandes biomas brasileiros, os parques que os compõem, fauna e flora desses lugares, e os povos tradicionais que ali vivem. Apesar de ter um trabalho bastante amplo, adotou como principais temas de fotografia as paisagens, os animais e as pessoas.

Uma de suas experiências mais intensas foi subir os 6.962 metros do Aconcágua, nos Andes argentinos, o pico mais alto do Hemisfério Sul. A 6 mil metros de altitude, a equipe foi acometida por uma tempestade de neve. “Foram três ou quatro dias dentro da barraca. Eu fiquei sozinho, pensando e pensando. Entrei muito na minha cabeça. Foi uma experiência bem marcante, como fotógrafo e como ser humano”, conta. Quando a tempestade passou, seus dois amigos voltaram, mas ele decidiu continuar a subida. No caminho, encontrou um brasileiro, e foram juntos até o cume.

Outra experiência memorável foi a subida da montanha Illimani, de 6.462 metros de altitude, na Bolívia. No cume havia uma grande quantidade de cruzes, para representar pessoas que haviam falecido durante o trajeto. “Todo vigor da vida fica nesse limiar entre conquista e risco”, acredita.

Técnica e sensibilidade

A função do fotógrafo não é a de registrar o mundo, e sim a de interpretar o mundo de uma maneira que só ele pode fazer. A foto é sempre algo subjetivo e, ao mesmo tempo, plural, uma vez que cada pessoa também será responsável por ver algo diferente naquela imagem.

Os avanços tecnológicos permitiram mudanças importantes no universo da fotografia. “Os arquivos ficaram mais bonitos, e o processo de descarregar as imagens ficou muito mais simples”, diz André Dib, ao comparar o analógico e o digital. Hoje, as possibilidades técnicas são inúmeras. É possível fazer fotos incríveis com um celular.

Técnica e sensibilidade são traços imprescindíveis para se fazer fotos que tenham, simultaneamente, equilíbrio estético e significância. Quem abusa da técnica pode tirar lindas fotos, mas vazias de sentido. Quem abusa da sensibilidade pode captar o momento, mas não conseguir mostrar aquilo que sentiu. É baseado nesses dois aspectos que André equilibra seus cliques. Para ele, o olhar do fotógrafo é insubstituível e independente da ferramenta. “É preciso sensibilidade para sentir e captar aquilo que só você é capaz de ver, como uma expressão, um olhar, o momento em que um bicho pula”, diz. Também é importante ter paciência para lidar com o descontrole sobre esses momentos, o que pode ser algo ruim à primeira vista, mas pode trazer belíssimas surpresas.

Trabalho duro

A rotina de trabalho de André Dib consiste em viajar para florestas, praias, montanhas e outros tipos de paisagens deslumbrantes. “Que vidão, hein?!”, alguém logo diria. André, porém, está acostumado com esse tipo de expressão, fruto da idealização que muitas pessoas fazem em torno da figura do fotógrafo, principalmente aqueles que trabalham viajando. Ele logo pondera: “quando viajo, eu passo o dia inteiro clicando, manhã, tarde e noite. Às vezes, fico dez dias no litoral e não entro no mar”.

Com rotina de quem viaja cerca de seis meses a cada ano, Dib também enfrenta a saudade de casa. A esposa e as filhas — de 10 e 15 anos — tiveram de se acostumar com essa ausência, inclusive em datas comemorativas, como aniversários, Dia dos Pais e Natal. “Já perdi muitos momentos importantes com a minha família e sei que não tem mais volta”, desabafa.

Carreira consolidada

“Fotografia é um pouco da gente mesmo, daquilo que a gente enxerga do mundo.” Se a fotografia é a maneira como cada um enxerga o mundo, André Dib mostra que possui o olhar sensível. As imagens que capta são emocionantes — seja na força das águas das Cataratas do Iguaçu seja na leveza do voo das araras em meio ao cerrado, ou na expressão das senhoras que vivem no campo a colher sempre-vivas.

Foi com essa sensibilidade que ele conquistou admiradores por todo o país e ganhou prêmios nacionais e internacionais, dentre eles, estão o ABB Photo Competition, em Zurique (Suíça). André Dib também trabalhou em projetos de livros, como o Parques Nacionais Brasileiro, no qual fotografou os cenários naturais do país, e E-Pharma, sobre saúde nos rincões do Brasil. Realizou, ainda, mais de 20 mostras e está prestes a lançar cinco novas exposições pelo Sesi: Gigante das águas, sobre a pesca do pirarucu na Amazônia; Pantanal, o mundo das águas; No rastro do cangaço; Universo amazônico e cerrado – Povos dos cantos geraes.

André não sabe até onde a fotografia pode levá-lo, mas se entusiasma com as possibilidades. Conhecer o mundo e poder mostrá-lo por meio de suas lentes é, além de um sonho, grande privilégio.

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