O turismo de aventura não é apenas uma atividade para quem gosta de emoções fortes, é muito mais do que a ânsia sentir a adrenalina percorrer o corpo. Baseado no conceito de incentivar a vida ao ar livre, o segmento registra grande crescimento em Minas Gerais. Agora, os profissionais do setor buscam apoio para alavancar o pleno desenvolvimento da atividade.

Reportagem: Juliana Afonso
Fotos: Marcos Leão / Alessandro Tocafundo

Montanhas, cachoeiras, florestas fechadas. Praticamente qualquer tipo de ambiente aberto e não urbano pode ser palco para o turismo de aventura, um segmento do setor turístico que promove e incentiva a vida ao ar livre. Segundo o Ministério do Turismo, turismo de aventura compreende os movimentos turísticos decorrentes da prática de atividades de aventura de caráter recreativo e não-competitivo.

É  o que faz a publicitária Bárbara Bruna de Morais, 22 anos, praticante de mountain bike. O interesse pelo esporte surgiu logo aos sete anos de idade quando ganhou sua “calói rosa, sem rodinhas”. Sua primeira trilha foi feita ainda aos 15 anos, no entorno da cidade de Lagoa Santa. Foi nessa região que ela se apaixonou pelo esporte. De lá pra cá, não parou mais. “Minha maior experiência foi uma viagem com um grupo de 40 pessoas pela Estrada Real. Pedalamos durante cinco dias de Lagoa Santa à Diamantina. Foram 300 quilômetros de muito suor, belas paisagens, alguns tombos e boas risadas. Foi inesquecível”, conta.

Histórias como a de Bárbara se repetem com frequência, mas é importante lembrar que, por mais que a prática de esportes seja o elemento fundador do que hoje é o turismo de aventura, ele não se restringe a isso. “O que define o turismo de aventura é a prática de atividades na natureza, divertidas e seguras”, afirma o presidente da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura (Abeta), Jean-Claude Razel. Assim, ao contrário do que muita gente pensa por aí, esse tipo de turismo não envolve necessariamente adrenalina, riscos ou suor.

Para todos

O fato do turismo de aventura poder ser definido como uma modalidade que tem como base o estar ao ar livre, o leque de possibilidades se expande. “Uma caminhada leve por um parque, por exemplo, já se encaixa na definição. O importante é o contato com a natureza. É por isso que o turismo de aventura serve à sociedade como um todo, independe do nível físico da pessoa”, explica Jean.

O mesmo afirma o presidente da Associação Mineira de Ecoturismo (Amo-Te), Edmar Antônio da Silva: “O turismo de aventura pode ser ir para um lugar inóspito a fim de explorar as situações e intempéries que o local pode oferecer. O fato de ter ficado lá por um tempo pode ser, por si só, o objetivo final da pessoa”. Já no esporte de aventura há outras questões envolvidas, como a necessidade de ter um perfil físico específico ou a necessidade de comprar e alugar equipamentos especializados.

É por isso que, ao contrário da prática dos esportes radicais, o turismo de aventura não é uma atividade restrita. Mas a associação entre essas duas vertentes ainda é inevitável. Segundo a pesquisa ‘Perfil do turista de aventura e do ecoturista no Brasil’, realizada pela Abeta em parceria com o Ministério do Turismo em março de 2010, os turistas de aventura ou ecoturistas, em sua maioria, são homens de 18 a 29 anos de idade, solteiros, com ensino superior completo e que pertencem à classe B.

Custos e segurança

Jean-Claude afirma que de fato não é uma atividade barata e que só as pessoas com maior poder aquisitivo conseguem praticar certas modalidades. Mas ele alerta que  as pessoas confundem muito o turismo de aventura com a prática de esportes radicais. Neste caso, é necessário sim a compra de materiais certificados e seguros e a contratação de guias qualificados. O coordenador regional da Abeta em Minas Gerais, Marcus Pavani, diretor da empresa Andarilho da Luz, lembra que o valor é subjetivo. “Se o valor daquilo é muito importante para a pessoa, o preço não é tão relevante, mas a atividade tem um custo, pois o trabalho é feito sempre com equipes pequenas para garantir a segurança de todos”, afirma.

Quando a atividade não é feita dessa forma, as pessoas correm o risco de acidentes. Elton Silveira (29 anos), assessor técnico-comercial e praticante da escalada, já viu uma situação como essa acontecer: “Ano passado, em uma visita ao Parque Nacional do Itatiaia, fiquei impressionado com uma empresa de turismo de São Paulo que levou mais de 30 pessoas para chegar ao cume das Agulhas Negras sem preparo e nem equipamento de segurança para os clientes e os próprios guias”, conta Elton, assustado com a cena. Ele acredita que uma das maiores defasagens do turismo de aventura em Minas é o fato de ter poucas empresas que forneçam esse tipo de serviço com segurança.

Mesmo levanto em conta os dados da pesquisa da Abeta e do Ministério do Turismo, Jean-Claude afirma que existem sinais da mudança de público, pois há uma presença cada vez mais forte das famílias — o que comprova que pessoas de diferentes faixas etárias começam a enxergar formas de se integrar ao turismo de aventura, que também pode ser definido como “turismo de natureza”.

Potencial de Minas Gerais

Apesar da máxima “toda unanimidade é burra”, cunhada pelo escritor brasileiro Nelson Rodrigues, há duas afirmações que ninguém parece negar. A primeira é que Minas Gerais apresenta um potencial enorme e torna-se a cada dia uma referência quando o assunto é turismo de aventura. “O turista vê Minas Gerais como uma potência nesse segmento, um verdadeiro parque natural com grande capacidade”, afirma Alexandre Martinelli (32 anos), instrutor de base da Nuvem Escola de Parapente, na Serra da Moeda.

De fato, Minas Gerais tem magníficas reservas naturais para a atividade de contemplar a natureza e atributos naturais que possibilitam a prática de todos os tipos de esporte de aventura, com exceção, é claro, aos que são realizados no mar. Os locais mais procurados no estado são as Unidades de Conservação como o Parque Nacional da Serra do Cipó e o Parque Estadual da Serra do Rola-Moça. Há também pontos espalhados de grande atrativo turístico, como as montanhas da Serra da Canastra, as cachoeiras próximas à cidade de Diamantina ou o circuito que engloba as grutas da Lapinha, Mantiqueira e Rei do Mato.

Minas Gerais também é cheia de locais escondidos, revelados pelos apreciadores dos esportes de aventura. Segundo o praticante de escalada, Elton Silveira, entre os melhores locais para a realização da atividade estão os municípios da região metropolitana de Belo Horizonte, em locais como a Gruta da Lapinha e Lapa do Seu Antão, em Lagoa Santa, e Roxane, em Sete Lagoas. “Já no norte e leste do estado há vias de escaladas mais longas próximo às cidades de Jacinto e Rubim, no norte. O ‘point’ mesmo é a Pedra Riscada, na cidade de São José do Divino, apreciada pelos escaladores brasileiros e estrangeiros”, enumera.

Se a ideia é ganhar os céus, Alexandre Martinelli afirma que o estado conta hoje com mais de 40 rampas para a prática de ‘paraglider’, asa delta e outras atividades similares. “As melhores, na minha opinião, são Serra da Moeda, com a melhor rampa de voo livre próximo à uma capital; Governador Valadares, com um dos melhores sítios de voo livre do mundo e Andradas, no Pico do Gavião, onde está a rampa de melhor estrutura do Brasil”, afirma. Ele diz ainda que Minas Gerais possui relevo e condições climáticas muito favoráveis para a prática do voo livre e, por isso, vale muito aproveitar estas excelentes condições.

Barreiras históricas

A outra afirmação que parece ser unanimidade é que, apesar de todo o potencial, ainda falta muito para que Minas Gerais seja, de fato, uma referência na atividade turismo de aventura. Para entender o que acontece no estado, é preciso voltar um pouco na história do setor. Há alguns anos, esse segmento do turismo era visto com descrença e não contava com nenhum órgão de apoio ou estatuto que regulamentasse a atividade. Naquela ocasião, era muito difícil sustentar uma empresa que atuasse somente no ramo da aventura e do ecoturismo, então elas começaram a diversificar o serviço.

Foi nesse contexto que surgiu a Associação Mineira de Ecoturismo, Amo-Te, ainda em 1995. “Observamos uma demanda das agências desse segmento, em uma época que não tinha nada organizado. Então reunimos um grupo de operadores de ecoturismo e começamos a formatar regras mais claras sobre a nossa atuação”, afirma o presidente da associação, Edmar Antônio da Silva. A associação começou a desenvolver projetos que se fundamentaram em dois pilares: sustentabilidade e profissionalização.

O primeiro pilar consiste na criação de um produto que tenha retorno para a população local, tanto em termos financeiros quanto profissionais. “A ideia é envolver os moradores de um determinado lugar nas atividades, inclusive porque nem sempre os parques oferecem a estrutura necessária; então aproveitamos os serviços de particulares, como restaurantes e hotéis”, conta Edmar. Os principais projetos da Amo-Te foram desenvolvidos na Serra do Cipó e na região da Lapinha. Em ambos, a população local teve retorno financeiro a partir das atividades geradas pela associação e também na formação profissional, a partir de cursos e treinamentos para auxiliar turistas na prática de esportes de aventura.

Dez anos mais tarde, o Ministério do Turismo elegeu o turismo de aventura como uma das prioridades no Brasil. A partir desse momento, o tema começou a ganhar apoio político e, em 2005, deu-se o surgimento da Associação Brasileira das Empresas de Ecoturismo e Turismo de Aventura, a Abeta. O principal objetivo da associação é reunir os empresários do segmento, reforçar o potencial das atividades de aventura e implementar a cultura da “Gestão da Segurança” e do mínimo impacto ambiental a partir, principalmente, da qualificação profissional.

Normatização e sistema de gestão

O coordenador regional da Abeta em Minas Gerais, Marcus Pavani, afirma que foi a partir daí que o segmento conseguiu se estruturar. “Um dos pontos-chave à melhoria do segmento foi a construção e aplicação das normas da ABNT (Associação Brasileira de Normas Técnicas) que se tornaram referências, inclusive no exterior”. A principal publicação foi a ABNT NBR 15331, uma norma que especifica os requisitos para um sistema de gestão de segurança no turismo de aventura. “Com esse processo, muitas empresas no Brasil começaram a realinhar seus procedimentos de operação e gestão interna, melhorando o padrão das empresas”, conta Marcus.

Junto com isso, a Abeta começou um trabalho para viabilizar o acesso ao mercado, elaborou um plano de comunicação para o segmento, realizou pesquisas de perfil do consumidor dentro do turismo e realizou a capacitação de profissionais em nível nacional.

Entre os projetos desenvolvidos estão o Aventura Segura — que resultou na melhoria da qualificação dos profissionais e empresários e criação de normas técnicas específicas — e o Programa de Promoção e Comercialização Nacional, que previa ativar o mercado consumidor a partir de pesquisa, posicionamento de marca e planejamento para ações alinhadas ao perfil do consumidor brasileiro.

Políticas públicas

Porém, muito ainda precisa ser feito. Marcus Pavani acredita que as empresas de turismo devem buscar melhorias contínuas, seja por meio da pesquisa de destinos turísticos interessantes, da participação em eventos do ramo ou mesmo da inscrição em programas que promovam a qualificação dos seus profissionais.

Outro ponto que ele destaca é a timidez das políticas públicas direcionadas ao turismo. “Acho que falta uma política que discuta, por exemplo, a própria   infraestrutura turística do país como a questão das estradas e da sinalização”. Os praticantes de atividades de aventura também reclamam. Para a publicitária Bárbara de Morais, o principal obstáculo é sim a vontade política. “Projetos viáveis e criativos sobre a expansão do turismo existem aos montes. Para colocá-los em prática, falta vontade do governo em atuar no incentivo à geração de recursos”, pondera. Para ela, o governo pode ter como principal parceiro a iniciativa privada, que possui grande interesse em investir na atividade, principalmente em Minas Gerais, e também as universidades, que possuem capital intelectual para pensar a dinâmica de turismo que o estado merece.

Também há uma certa carência no que diz respeito à promoção do segmento —principalmente no que se refere às estratégias de marketing. Sente-se falta de um processo de avaliação e definição de estratégias para tornar os produtos mineiros atrativos aos olhos do consumidor. “Se você pedir um produto de Minas Gerais ou do Nordeste do Brasil, você vai escolher o do Nordeste, e às vezes ele sai mais barato. O que precisamos é do binômio divulgação de produto e melhoria do preço”, afirma Edmar Antônio da Silva, da Amo-Te.

Outra questão que o aflige é o fato de as capacitações realizadas com os profissionais do ramo serem muito teóricas e pouco práticas. “Nos últimos três anos, a secretaria de Turismo promoveu várias capacitações para os operadores, mas a maioria era voltada para a gestão. Nada foi feito na prática. Não adianta explicar como usar um equipamento se as pessoas não vão testá-lo de fato”, acredita.

Os profissionais do ramo sentem isso na pele. Para Alexandre Martinelli, instrutor de Parapente, o maior problema do voo livre no país hoje é a falta de normatização, regulamentação e fiscalização. “É fundamental que o setor turístico, junto com os governos estadual e federal, ajudem a fiscalizar a atividade, evitando que aventureiros pratiquem e instruam pessoas de forma irregular”, afirma.


Como surgiu o termo Turismo de Aventura

Por mais que hoje o termo turismo de aventura signifique a vivência da cultura ao ar livre, o início desta forma de se fazer turismo surgiu com a necessidade de regulamentação da prática de esportes radicais por parte dos órgãos responsáveis. A primeira atividade com intuito recreativo que se tem notícia foi a escalada até o pico de Mont Blanc, montanha entre a França e Itália, a mais alta da Europa, com 4.810 metros de altitude.

As primeiras pessoas a realizarem a façanha foram os franceses Jacques Balmat e Michel Paccard, em 8 de agosto de 1786. Foi por causa deles que cunhou-se o termo alpinismo, pois o Mont Blanc fica na cordilheira dos Alpes. Portanto, o termo identifica a atividade de escalar montanhas.

Com o tempo surgiram outras atividades ao ar livre que, da mesma forma, tinham como objetivo a prática de esportes extremos aliados à contemplação da natureza. Esse foi o conceito primordial para que coisas tão díspares como rapel, montanhismo e paraglider fossem reunidas e denominadas como turismo de aventura, ainda que, a época, o termo usado fosse outro.

A primeira vez que a Embratur parou para pensar em uma definição sobre essas atividades foi em abril de 2001. A ideia era pensar em um Plano de Ação que fosse capaz de dar base para a elaboração de uma Política Nacional de Fomento ao Turismo de Aventura. À época decidiu-se que o turismo de aventura era o “segmento do mercado turístico que promove a prática de atividades de aventura e esporte recreacional, em ambientes naturais e espaços urbanos ao ar livre, que envolvam emoções e riscos controlados, exigindo o uso de técnicas e equipamentos específicos, a adoção de procedimentos para garantir a segurança pessoal e de terceiros e o respeito ao patrimônio ambiental e sócio cultural”.