Araxá: do alto, se avista o sol

Nada tão perfeito como o significado do nome ‘araxá’, “do lugar alto de onde primeiro se avista o sol”, uma tradução do tupi-guarani. Dona de uma grandiosa história, de mais de 235 anos — embora a cidade conte 151 anos de fundação –, a terra onde viveu a legendária Dona Beja, também privilegiada pela natureza, sobretudo pelo rico manancial de águas mineralizadas, transformou Araxá em um dos mais procurados destinos turísticos de Minas Gerais e do Brasil. O grande salto teve início com a inauguração, em 1944, do Grande Hotel do Barreiro e Termas de Araxá — hoje sob administração da Rede Tauá de hotéis.

Reportagem Cacaio Six
Fotos Rogério Alves Dias

 

Dos verdejantes planaltos que dominam a região do Alto Paranaíba, a paisagem vista da estrada revela grandes chapadas, alguns trechos ainda intactos do belo bioma cerrado e uma vasta produção agrícola. As terras são tomadas por culturas de café, milho, trigo e soja, além de uma boa quantidade de eucaliptos. Numerosos bovinos, sobretudo das raças zebuínas — como o gado nelore —, são vistos pastando sossegadamente pelos campos cobertos de gramíneas próprias para pastagens, todas muito bem-cuidadas. Imensos mananciais em cursos d’água, como córregos, ribeirões e rios, banham esse território, conferindo-lhe ainda mais fartura. Isso porque ele está entre duas importantes bacias hidrográficas, as dos rios Paranaíba e Grande — que juntos formam o gigantesco rio Paraná. Grandes rios, como o Quebra-Anzol, o Tamanduá e o Capivara, afluentes do Paranaíba, cruzam a região.

Ao se avistar Araxá, nada tão perfeito como o significado desse nome: “do lugar alto de onde primeiro se avista o sol”, maneira pela qual os indígenas identificavam o local, justamente por se localizar em um terreno alto, plano, em cima de um chapadão onde existia um vulcão, há séculos extinto. Atribui-se esse significado, uma tradução do tupi-guarani, aos índios araxás, primeiros habitantes, que, por sua vez, eram procedentes das tribos dos índios cataguás.

235 anos de história

Com um pouco mais de 102 mil habitantes, conforme dados de 2015 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e 151 anos de idade — foi fundada em dezembro de 1865 —, a cidade deve a merecida fama, sobretudo, ao turismo. Porém, até chegar ao que é hoje, um dos mais importantes e interessantes polos turísticos de Minas Gerais, reconhecido nacional e internacionalmente, muitas águas rolaram para se escrever essa grandiosa história. Embora some mais de um século e meio de existência, a localidade onde hoje está o município é a mais antiga do então conhecido “sertão da farinha podre”, que hoje engloba as regiões do Triângulo Mineiro e do Alto Paranaíba. São mais de 235 anos de história.

Tudo começou com a mineração do ouro na região até hoje conhecida como Desemboque, atualmente um distrito do município de Sacramento, a pouco menos de 100 km de distância. Por volta do início da década 1780, as férteis terras do planalto de Araxá começaram a atrair os primeiros moradores, pioneiros na formação de fazendas.

Havia lá um lugar repleto de nascentes, para onde os animais se encaminhavam instintivamente para beber as águas que corriam entre as pedras. Só que essas águas eram mineralizadas e muito ricas em sal. Elas não só curavam as feridas dos animais como também repunham nutrientes, fortalecendo-os. Esse lugar passou a ser conhecido como Barreiro, e o povoado cresceu em torno dessas terras, domínios demarcados da Sesmaria do Barreiro.

“Aos 25 dias do mês de agosto de 1785, nesta paragem dos Sertoins dos Arachás, debaixo da serra do mesmo nome, fincamos uma pedra em sentido perpendicular com quatro testemunhas para os 4 pontos cardeais. Daí partimos em direção ao oeste, medindo 2.722 cordas de 2 braças cada uma, onde fincamos o 2º marco; daí seguimos em direção ao norte onde fincamos o 3º marco defronte a Fazenda do Campo Aberto; daí seguimos em direção ao nascente, na Fazenda Pão de Açúcar onde fincamos o 4º marco, e deste 4º marco em linha reta até o marco peão na Boca da Mata”, como descreve o histórico documento “ Termo de Demarcação da Sesmaria do Barreiro”.

Seis anos depois, em 1791, surgiu a Freguesia de São Domingos do Araxá e, em 1800, foi concluída a primeira igreja, a Matriz de São Domingos.

Legendária Dona Beja

A história araxaense não pode ser contada sem talvez a principal referência: o mito da personagem Dona Beja. O nome real dela era Anna Jacintha de São José, a qual teria nascido em Formiga (MG), também em 1800, e se mudado muito pequena para Araxá. Desde criança, conta a tradição oral, era admirada pela impressionante beleza. Era filha de uma índia batizada como Maria Bernarda dos Santos, e o pai era desconhecido. Anna Jacintha tinha cabelos louros e olhos azuis. Já moça, enamorou-se por um jovem fazendeiro da região que a comparava com a flor “beijo”, daí o apelido. A beleza dela não passou despercebida ao ouvidor da corte portuguesa, um cargo de extrema importância e poder, chamado Ignácio Silveira da Motta. Ele então a raptou da fazenda em que morava com o avô.

Beja tornou-se amante e protegida do ouvidor e teria vivido com ele por dois anos. Nesse período, tornou-se rica, poderosa e influente junto aos nobres da corte, aos políticos e aos grandes fazendeiros.

Uma prova dessa influência seria o sobrado construído por ela em 1830. A propriedade foi erguida na praça da Matriz, onde ficavam as principais construções da então vila e onde residia a elite local. Porém, a partir dos 17 anos, quando se mudou para o povoado, ela passou a ser vítima de toda a sorte de preconceitos e não era aceita pela sociedade, notadamente pelas mulheres.

Mas, ao contrário do restante das mulheres, consta que Beja era bem-recebida nos lugares e marcava forte presença, com livre trânsito em repartições públicas e nos tribunais, além de participar de movimentos políticos e das mais importantes decisões que afetavam a vida da sociedade da época.

Beleza e poder

Conta-se que até a decisão da corte portuguesa de devolver a região do Triângulo Mineiro a Minas Gerais teve decisiva influência de Dona Beja. Isso aconteceu ainda na época em que ela vivia com o ouvidor Motta, no ano de 1816. Na segunda metade do século XVIII, o Triângulo havia sido anexado à capitania de Goiás, em razão de um movimento articulado pelos moradores de Desemboque, muito mais interessados na mineração aurífera.

Além do sobrado, hoje sede do Museu Dona Beja, afirma-se que Anna Jacintha era dona de uma chácara nos arredores, conhecida como “Retiro de Ana Jacintha”.

Nesse lugar, ela recebia homens poderosos e ricos, que a admiravam e a respeitavam. Dizem que lá aconteciam reuniões políticas e que decisões importantes eram tomadas em meio a festas e saraus. A chácara chegou a ser abrigo de revolucionários durante a Revolução de 1842, conflito entre as elites dominantes da época. Beja tornou-se famosa e continuava a atrair os homens, inclusive de outras regiões, que viajavam grandes distâncias para conhecê-la e admirar os encantos da famosa mulher. Dizem que Dona Beja escolhia rigorosamente os homens que iria ter e deles ganhava dinheiro, joias e pedras preciosas. Ela conseguiu amealhar considerável fortuna e tornou-se uma das pessoas mais poderosas da região do Triângulo Mineiro.

Reza a lenda que o passar dos anos só fazia aumentar a beleza de Dona Beja. O fenômeno era devido aos banhos que ela tomava diariamente na fonte da Jumenta, atual fonte Dona Beja. Acredita-se, até os dias de hoje, que a fonte, de água milagrosa, é capaz de conceder juventude, saúde e beleza.

Anna Jacintha de São José teve duas filhas: Tereza Thomázia de Jesus, que nasceu em 1819, e Joana do Deus de São José, nascida em 1838. Ambas casaram-se com homens importantes, de influentes famílias da cidade. Beja teve também muitos netos e netas.

A partir da corrida dos diamantes, na localidade de Bagagem, hoje a cidade de Estrela do Sul, também no Alto Paranaíba, Anna Jacintha mudou-se para lá e teve participação ativa da vida diária da cidade. Conta-se que foi ela quem financiou a construção de uma ponte sobre o rio Bagagem.

Foi nessa cidade que Anna Jacintha, a legendária Dona Beja, morreu aos 73 anos de idade.

Grande Hotel do Barreiro

O encontro de uma região privilegiada pela natureza com as histórias e lendas locais transformou Araxá em um dos mais procurados destinos turísticos de Minas Gerais e do Brasil. O grande salto teve início, evidentemente, com a construção do Grande Hotel do Barreiro e Termas de Araxá.

A construção do complexo iniciou-se em 1938, e a inauguração oficial aconteceu somente em 1944, em um grande evento liderado pelo então presidente Getúlio Vargas e pelo governador mineiro da época, Benedito Valadares.

Ícone de absoluta importância com relação a essa época, o Grande Hotel ocupa uma área verde de 400 mil metros quadrados e é emoldurado por um lago com cerca de 1 milhão de metros cúbicos de água mineral radioativa, cuja forma lembra um coração.

A arquitetura e a decoração do imenso prédio (45 mil metros quadrados de área construída) são deslumbrantes, obras projetadas pelo arquiteto Luiz Signorelli, sob forte influência da arquitetura italiana e do estilo “missões” — o mesmo que caracteriza a arquitetura das antigas construções coloniais da América espanhola, comuns em países como Colômbia e Venezuela. O conjunto arquitetônico é em estilo neoclássico, caracterizado por colunas, arcos e capitéis. Ainda fazem parte do estilo — elegante e com grande simetria nos traços — e da decoração os refinados vidros bisotados, mármore carrara, lustres de cristal da boêmia e grandes salões de baile. Além da suntuosa construção, o espetacular paisagismo emociona pela beleza. O projeto foi concebido pelo genial paisagista Roberto Burle Marx.

Termas do Grande Hotel

Ao lado do hotel, ligadas por uma galeria suspensa de cerca de 100 metros (decorada com grandes afrescos que mostram paisagens de Minas Gerais), estão as Termas de Araxá — onde se aproveitam os efeitos terapêuticos das fontes radioativa e sulfurosa. A arquitetura do lugar também é grandiosa e é inspirada no numeral oito — o número do “infinito” e dos ensinamentos de Buda, que são oito no total e são representados nos ambientes. São oito entradas de banhos e a mesma quantidade de afrescos, vitrais, painéis, colunas e pontas de mandalas.

Importante atrativo do Grande Hotel, as Termas do Barreiro foram inauguradas em 1942. Antes mesmo da construção da edificação, elas já funcionavam e tinham os efeitos medicinais e relaxantes famosos desde então. As formas do balneário — incluindo a riqueza dos detalhes dos afrescos — foram exclusivamente projetadas para abrigar as inúmeras salas e salões onde se pode provar de todos os tipos imagináveis de banhos, dos perolados aos de lama, e os tratamentos estéticos, que foram oferecidos mais tarde. Dos relaxantes, com ervas, flores, aos energizantes, são ao todo 17 mil metros quadrados de muita beleza, um verdadeiro convite ao bem-estar e à revitalização para quem se rende às delícias sulfurosas.

Tratamentos estéticos de alto nível

A piscina emanatória de água energizante, aquecida a 37 graus, é um dos grandes destaques das termas. A água radioativa vem da fonte Dona Beja e é usada para relaxamento e hidroterapia. Além do prazer corporal, é rejuvenescedor olhar em volta e se deparar com azulejos pintados à mão, se ver rodeado por grandes janelas de vidro, cuja vista se perde nos jardins projetados por Burle Marx. Não há como não reparar no contraponto perfeito do colorido dos vitrais, na ornamentação do chão com uma grande mandala de oito pontos, de mármore branco e preto. No segundo andar, existem oito quadros feitos por Joaquim da Rocha Ferreira, mostrando a importância dos banhos desde a antiguidade, especialmente na civilização egípcia, na Índia, na Grécia e em Roma, até a atualidade. Vale lembrar que os primeiros fluxos turísticos que se deram na Europa foram motivados pelos banhos e termas que se espalhavam pelo velho continente.

Ainda nas termas, há tratamentos estéticos de alto nível, como drenagem linfática facial e corporal, massagens relaxantes com pedras quentes e a cromoterápica (busca equilibrar as energias usando cores); a moderna técnica de reflexologia podal, baseada na massoterapia oriental, na qual os pontos representativos dos órgãos e membros do corpo são refletidos na planta do pé. Para completar a gama de tratamentos para a beleza e o bem-estar, são oferecidos tratamentos como a aromaterapia, feita com a privilegiada água local, óleos essenciais e sais aromáticos; a gomagem corporal e facial; a higienização e as famosas saunas seca e úmida.

O Grande Hotel tem ainda uma estrutura completa de lazer, com piscinas de água mineral, futebol de campo, quadras poliesportivas, cinco quadras de tênis de saibro, caiaque, arco e flecha e stand up paddle no lago. Há também passeios de bicicletas, caminhadas, trilhas ecológicas, pedalinhos no lago e pescaria esportiva.

Esportes de aventura e história

Araxá também é um polo para amantes de esportes de aventura. Localizado na Serra da Bocaina, a 1.350 metros de altitude, o lugar conhecido como Horizonte Perdido é ponto de parada obrigatória para praticantes de voo livre. As condições climáticas são perfeitas para a prática do esporte e possibilitaram a quebra de vários recordes de distância. Há 22 anos, o Clube Araxaense de Voo Livre vem realizando competições importantes na cidade, inclusive etapas dos campeonatos brasileiro e mundial da modalidade. Desde 2012, o parapente foi incluído no calendário: em 2016, a grande final do campeonato do esporte foi realizada lá. As condições climáticas não são, no entanto, a única vantagem do Horizonte Perdido, que tem, também, excelente infraestrutura para a prática desses esportes, com destaque para o restaurante de mesmo nome, e fácil acesso.

Araxá está situada próxima à Serra da Canastra, área de preservação de cerrado e campos de altitude, de relevo acidentado e belas e altas cachoeiras, com até 200 metros de altura. O entorno do parque é famoso pela produção do queijo canastra, declarado patrimônio imaterial brasileiro em 2008.

Araxá tem atrações também para aqueles que apreciam roteiros históricos, como o Museu Sacro e a Igreja de São Sebastião, instalados em prédio datado de 1804, de estilo jesuítico, com traços simples. No altar da igreja, há imagens de São Sebastião e do Cristo Morto – assinadas por Bento Antônio da Boa Morte – que valem a visita. O museu fica na sacristia e apresenta peças de Boa Morte e do escultor goiano Veiga Valle, além de contar parte da história da cidade. A igreja propriamente dita, construída por José Pereira Bom Jardim, teve uma das torres destruída durante a Revolução de 1842 e foi descaracterizada no final da década de 1970. Graças a um movimento realizado pelos moradores de Araxá, foram feitas obras de restauração, e hoje a Matriz de São Sebastião representa uma das maiores riquezas do patrimônio histórico da cidade.

Outra igreja de Araxá, a Matriz de São Domingos, é considerada uma das mais belas de Minas Gerais. Consagrada ao padroeiro da cidade, tem estilo eclético, com características romanas e elementos góticos e neoclássicos. A construção da edificação foi iniciada em 1917 e concluída três décadas depois, em 1948. No interior, os afrescos grandiosos e os vitrais multicoloridos encantam o visitante. A grande torre, que se destaca do resto do prédio, foi finalizada em 1933, e a pintura interna da capela-mor, assinada por Alberto Paulovich, datada de 1946, foi restaurada recentemente, por iniciativa da comunidade.

Outro motivo de orgulho para os araxaenses são os doces típicos da região, feitos a partir de receitas que vêm passando de geração a geração, há décadas. Doce de leite, ambrosia, compotas de frutas, biscoitinhos, essas delícias tradicionais são produzidos por fábricas que mantêm o toque artesanal do produto e não usam conservantes artificiais. Uma das mais famosas é a Dona Joaninha, com mais de quatro décadas de mercado, em cuja sede o visitante pode apreciar todo o processo de produção.

Tauá Grande Hotel Termas e Convention

Desde 2010, esse magnífico complexo araxaense chama-se Tauá Grande Hotel Termas e Convention, uma vez que é administrado pela Rede Tauá, do empresário mineiro João Pinto Ribeiro. Além de incrementar os serviços de hotelaria a partir do conceito de resort, o Tauá Grande Hotel é também um polo de excelente infraestrutura para a realização de todos os tipos de eventos, sejam eles empresariais sejam eles religiosos, educativos, de lazer e até personalizados, conforme a necessidade do cliente. São oito espaços de alto requinte e completa estrutura, que podem reunir cerca de 900 pessoas. Destaque para o belo cineteatro Tiradentes, com capacidade para 450 pessoas.