Irmãos e amigos na era da conectividade

Euclides Guimarães

Além de variar em graus de compromisso, as relações humanas também se dividem entre as cooperativas — cujo sentido está em alcançar metas comuns e ou complementares — e as competitivas, em que o sentido está em vencer. Há, porém, graus diferentes de competitividade e de cooperação na maioria das relações, uma vez que o ser humano é um bicho complexo, capaz de combinar inumeráveis intenções, motivações ou significações em suas experiências, especialmente naquelas que envolvem grupos. Consideremos ainda que há relações cujo sentido último coincide com o primeiro: aquelas em que estar junto com o(s) outro(s), mais que um meio para alcançar fins,  torna-se um fim em si mesma. Aqui sobressaem o amor e a amizade. No número anterior tematizamos o amor romântico, cabe-nos aqui enfocar a amizade.

Vimos trabalhando a ideia de que estas primeiras décadas do sec. XXI trazem consigo a predominância da conexão sobre o compromisso. Vimos que as tecnologias da comunicação vêm operando tal intensificação dos contatos humanos, que muito do que era óbvio no passado, agora pode parecer absurdo. Povos ou indivíduos isolados já quase não existem, até porque o que condiciona o isolamento não é mais uma localização espacial. O vizinho, por exemplo, era alguém muito importante quando o compartilhamento territorial era o critério básico para os agrupamentos humanos; não é mais. Hoje é comum haver fortes laços entre pessoas que nunca se encontraram e habitam continentes diferentes e ao mesmo tempo desconhecer o vizinho de prédio que mora há anos a uma parede de distância. Isso acontece porque os canais do encontro se desterritorializaram, mas também porque as fontes de valores compartilháveis fluem suas águas por novos canais: os dispositivos técnicos da (hiper)conectividade.

A formação do indivíduo em tempos hiperconectivos também passa por profundas mudanças. A identidade, por exemplo, já não é tanto algo que ganhamos no berço, proporcionado pelos valores do lar ou da pátria, por instituições como a família, a comunidade local ou a escola, passando a ser algo que costuramos enquanto circulamos por telemundos como a web ou os canais das mídias.

A palavra “identidade” tem raiz comum com “idêntico” e “idem” e, portanto, com igualdade. Para me identificar preciso me sentir parecido com algo que não está em mim, portanto, que está no outro; o outro em que me espelho para produzir garantias acerca de quem sou. Lembrando Lacan, devo considerar que é no olhar do outro que me vejo, ou seja, é interpretando o que outros me informam sobre mim que construo minha imagem de mim mesmo. Assim, a identidade é, ao mesmo tempo, aquilo de outro que vejo em mim e aquilo de mim que vejo em outro. Nesse sentido esse outro com quem me identifico torna-se quase tão meu quanto eu: trata-se de um irmão.

Não há duvidas de que se encontrar em meio a irmãos torna uma vida prenhe de significados. Eis a base do conforto e da segurança que pertencer a uma comunidade pode proporcionar, afinal uma comunidade nada mais é do que uma rede de indivíduos ligados por laços de identidade.

Mais do que parentesco ou mesmo como forma de justificá-lo, a construção de identidade depende da construção de histórias de heróicos ancestrais comuns que produzem efeitos organizacionais, justificando leis e costumes, mas que fincam tais efeitos como bandeiras no solo e nos corações através da produção de um sentimento de pertencimento. Tais histórias costumam gerar efeitos éticos, como valores morais ou orientações de conduta e também efeitos estéticos, como símbolos e marcas portáveis e compartilháveis. Nesse sentido ser irmão é, sobretudo, ser parecido ética e esteticamente.

Entra aqui a diferença entre o irmão e o amigo: se o irmão é alguém que a gente adota pela semelhança, o amigo é alguém que a gente cultiva pela diferença. A amizade não depende de ancestralidades, ela se dá por uma forma cintilante de admiração voltada àquilo que só o diferente é capaz de produzir, com sabor de surpresa, de aprendizado, de abertura para o acaso, o inesperado. Não que não possa se combinar com a irmandade, mas é preciso que, na intimidade, de alguma forma se desvele a possibilidade de ver no outro algo que não poderíamos desfrutar em nós mesmos, um traço de coragem, de inteligência particular, uma capacidade de apontar para direções a que não nos atentaríamos em atitudes naturais isentas dessas influências. Os amigos não existem para com eles nos identificarmos, nem para compartilhar valores ou metas. Tudo isso pode acontecer entre amigos, mas o sentido último da amizade está em poder se espelhar num espelho mágico, poder desfrutar da diferença sem que isso se faça desagregador. Assim como o amor, a amizade não é fácil de ser acompanhada no passo a passo de seu acontecimento, pois pode começar tanto como uma tolerância em face do pitoresco, quanto como uma antipatia suavizada por um mistério provocador de curiosidade. Pode surgir tanto de uma troca fortuita quanto de uma convivência longamente decantada, mas só se demarca definitivamente quando o prazer da companhia passa a prevalecer sobre quaisquer outras motivações para o relacionamento.

Grupos de irmãos são comunidades sustentadas por ritos e símbolos compartilhados, grupos de amigos são emaranhados de díades que elegem temporariamente uns e outros para a apreciação geral, sendo assim proporcionadas emoções comuns e calorosamente significativas.

Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUCMinas (Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais) e na FUMEC (Fundação Mineira de Educação e Cultura).

A formação do indivíduo em tempos hiperconectivos passa por profundas mudanças. A identidade já não é tanto algo que ganhamos no berço — proporcionado pelos valores do lar, da pátria, da família, da comunidade local ou da escola — passando  a ser algo que costuramos enquanto circulamos por telemundos como a web ou os canais das mídias.