Sagrado patrimônio da fé

A igreja de Nossa Senhora do Pilar é uma das maiores joias do período colonial brasileiro. Seu valor histórico, artístico e religioso foi reconhecido internacionalmente em 2012, quando o Vaticano lhe concedeu o título de Basílica. A igreja, que encanta os turistas, segue viva no dia a dia dos cidadãos da universal Ouro Preto

Reportagem Juliana Afonso
Fotos Eduardo Gontijo

“(…) tão rico que não se via nele mais que ouro e diamantes; rematado em um precioso cocar de várias plumas: formou-lhe o peito um bordado com tal artificio que parecia de martelo; por todo ele se via em contínuos esplendores a luz de muitos diamantes brilhando, encravados em muitas peças de ouro: no meio do peito se viam bordadas as armas Reais, por cima do Imperial umas letras, que diziam: Viva o Ouro Preto”

O fragmento acima descreve um pouco do que foi “um dos eventos sociais mais exuberantes da América portuguesa”, como relata o português Simão Ferreira Machado no livro “ O Triunfo Eucarístico – exemplar da Cristandade Lusitana, de 1734”.

Três dias de música, fogos, bebidas, banquetes servidos pela realeza, peças de teatro vindas da Europa e muita opulência em  ouro, prata e diamante. O  grandioso Triunfo Eucarístico — que aconteceu em 1733 — celebrou a inauguração da Matriz de Nossa Senhora do Pilar — uma das mais belas igrejas brasileiras, de magnífica arquitetura —, cujo projeto é atribuído ao engenheiro militar Pedro Gomes Chaves Xavier que, por sua vez, seguiu um traçado poligonal de Antonio Francisco Pombal, desenhado em 1736.

Em 2012, 279 anos depois, a igreja tornou-se Basílica, título de dignidade concedido pelo Vaticano para as igrejas que apresentam grande valor histórico, cultural e religioso — em razão do monumento barroco ser consagrado como um importantíssimo centro de peregrinação de fiéis. Naquele mesmo ano, a Paróquia de Nossa Senhora do Pilar completava 300 anos. O atual templo foi erguido entre os anos de 1728 e 1730, porém havia no mesmo local,  desde 1712,  uma capela primitiva  (construída em madeira e taipa), dedicada à Virgem do Pilar.

Acervo de ouro

Basílica é um título para poucos templos. No mundo existem cerca de 500. No Brasil são 55. Minas Gerais detém 14 delas, sendo que a mais nova é a Matriz de Nossa Senhora do Pilar, atual Basílica Matriz de Nossa Senhora do Pilar, na cidade de Ouro Preto. Além de ser a mais recente, ela é a igreja que ganhou o processo mais rápido de toda a história do Vaticano: entre o pedido e a concessão do título, a espera — que costuma ser de cinco a 10 anos — foi de apenas duas semanas.

Em 2012 foi realizada uma cerimônia especial para oficializar a transformação da igreja em Basílica. Hoje,  ela  ostenta alguns objetos de caráter internacional que simbolizam que aquele é um espaço do Vaticano. Um deles é o Tintinábulo, uma espécie de estandarte com um sino que toca em dias especiais, como na celebração pelo aniversário do Papa ou na festa de São Pedro. Outro objeto é a Umbrela, uma sombrinha amarela e vermelha que guarda diferentes insígnias em cada aba, dentre elas os escudos da cidade de Ouro Preto, do Papa e do Bispo.

A rapidez no processo se deve à importância histórica da igreja e ao seu valioso acervo de arte barroca. A Basílica de Nossa Senhora do Pilar guarda altares revestidos de talha de ouro, pinturas e esculturas cheias de detalhes criadas por importantes artistas da época como Francisco Xavier de Brito, que fez a talha da capela-mor (entre 1746 e 1751); Ventura Alves Carneiro, responsável pelo arco-cruzeiro (1751); José Coelho de Noronha, que fez a talha do resplendor do trono da capela-mor; Manoel de Brito esculpiu, entre 1733 e 1735, os altares de São Miguel, dos Passos, Rosário dos Petros e Sant’Anna; a João de Carvalhais é atribuído o forro da nave (de 1768), que tem um conjunto pictórico em estilo Rococó.

A essas maravilhas somam-se os mais de oito mil objetos da paróquia. “Não conheço nenhuma paróquia no Brasil que tenha um acervo tão completo e tão precioso a ponto de ter objetos para todos os tipos de cerimônias do calendário litúrgico”, afirma , Carlos José Aparecido de Oliveira, historiador e diretor do Museu de Arte Sacra de Ouro Preto.

Museu de Arte Sacra

Ainda que as pinturas e esculturas presentes nos altares e nos tetos da igreja estejam à vista de todos, existe um grande número de peças de grande valor mantidas no museu. A criação desse espaço — inicialmente conhecido como Museu da Prata e do Ouro — ocorreu em 1965, quando o controle da paróquia foi assumido por José Feliciano da Costa Simões, o Padre Simões, que mais tarde se tornaria conhecido como “Sacerdote do Patrimônio” pelo extremo cuidado com o qual tratava o acervo.

Na década de 1980, surge a ideia de fazer um inventário dos bens móveis da paróquia. Todos os objetos foram catalogados em fichas individuais com registro fotográfico e informações básicas como peso, medida e descrição —algo inédito no Brasil. Com esse trabalho, foram identificados mais de oito mil objetos. “Foi quando começamos a entender a preciosidade do acervo e a pensar a proposta do museu”, conta Carlos. A ideia era fazer com que o espaço pudesse contar a história da cidade por meio dos objetos expostos. O projeto deu tão certo que hoje o Museu de Arte Sacra de Ouro Preto — inaugurado oficialmente no ano 2000 — é grande atrativo turístico de Ouro Preto.

Patrimônio roubado

Era para ser ainda maior o acervo da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar. No ano de 1973 aconteceu um grande roubo quando foram surrupiadas 17 peças de imenso valor. À época, foi considerado o maior roubo de arte sacra do Brasil. Entre os objetos roubados, havia uma Cruz de Malta com rubis e brilhantes do início do século 18 e uma coleção de três cálices de prata folheados a ouro, usados no Triunfo Eucarístico de 1733.

As peças roubadas foram avaliadas em seismilhões de cruzeiros, o que hoje equivale a algo em torno de 16 milhões de reais. O crime nunca foi devidamente investigado. O inquérito, inclusive, esteve desaparecido por 13 anos. “Tinha muita gente importante envolvida… Eu li artigos do Jornal do Brasil, da época da Ditadura, que diziam que estava terminantemente proibida a divulgação pela imprensa do roubo de arte sacra em Ouro Preto”, conta Carlos José.

Por dentro da Basílica

O ouro talvez seja o elemento que mais chame a atenção dos visitantes que adentram a igreja de Nossa Senhora do Pilar. Aliás, foram gastos na sua construção o equivalente a quase 500 toneladas de ouro. Quem administrou e investiu nas obras foi uma confederação de irmandades (fundada em princípios do séc. XVIII): N. S. do Pilar (1712); Santíssimo Sacramento (1712); São Miguel e Almas (1712); Santo Antônio (1715) e Senhor dos Passos (1715).

Mas existem outras riquezas que fazem da Basílica um dos mais importantes monumentos do Barroco Mineiro.

Quem entra pela enorme porta verde que separa o interior da igreja da parte exterior, vai logo notar que existe uma outra porta a ser ultrapassada. A segunda porta, em madeira maciça — também chamada de quebra-vento —,  é um elemento simbólico que separa o sagrado do profano, o mundo espiritual do material.

Ao cruzar o quebra-vento, o visitante chega à nave da igreja. Construída em forma de um polígono de oito lados, ela conta com seis altares, todos talhados com esmero e cobertos com ouro. É preciso tempo para perceber os detalhes, como a quantidade de anjos em cada um dos retábulos e os adornos que preenchem todos os espaços em branco ao alcance dos olhos — característica do estilo artístico usado no templo. “O Barroco tem horror ao vazio”, explica o guia José Geraldo.

Alguns altares, porém, são menos exagerados. Isso porque na igreja também existe o estilo Rococó, típico do século XVIII, que surgiu em favor da sutileza ao invés do excesso. O teto da nave é um dos melhores exemplos de Rococó encontrados na igreja. O conjunto de pinturas santas feitas em 1768, atribuídas ao português João de Carvalhais, retratam momentos do Antigo Testamento. Os quadros estão ornados com molduras verdes, rosas e douradas, sempre em tons suaves. Entre uma imagem e outra há bastante espaço branco.

Uma dessas figuras desperta curiosidade: bem no centro do teto da nave há um cordeiro deitado em cima de uma cruz. A medida que o nosso olhar se move pela matriz, a imagem parece mudar de orientação até que o cordeiro apareça por baixo da cruz. Mais do que mostrar a habilidade do artista, esse tipo de ilusão de ótica era usada para atrair e impressionar os fiéis.

Três quilos de ouro por um quilo de prata

Já no teto do altar-mor há uma linda pintura da Santa Ceia, de onde desce um lustre feito com 34 quilos de prata. “Naquela época não era luxo ter ouro, já que aquela era a região aurífera de maior prosperidade em todo o território brasileiro. Por isso, trocava-se três quilos de ouro por um quilo de prata”, conta José Geraldo, ao mostrar a importância do luxuoso objeto. Os outros lustres da igreja — seis no total, um em cada altar da nave — são de cristais da Bohêmia e foram doados por Dom João VI, em 1815.

O altar-mor é o grande tesouro — para onde convergem todos os olhares. O brilho dourado se nota de longe, em adornos que enfeitam as paredes e conduzem os olhos do turista ao centro da capela, onde está uma linda imagem da Virgem do Pilar com o menino Jesus em seus braços. Ao redor da escultura, uma infinidade de serafins, querubins e anjos. Acima, o símbolo da Santíssima Trindade. A talha do altar-mor foi feita pelo entalhador português Francisco Xavier de Brito entre 1746 e 1751, ano de sua morte. É considerada a obra-prima do gênero naquele período.

Presença viva

Os primeiros raios de sol despontam entre as nuvens e começam a aquecer as pedras de paralelepípedo que compõe as ruas da charmosa Ouro Preto. São sete horas da manhã e a Basílica de Nossa Senhora do Pilar já está de portas abertas para receber dezenas de fiéis para a celebração da missa. “A igreja fica lotada”, conta Márcia Gonzaga, proprietária do Café da Praça, um estabelecimento que fica em frente a porta principal da igreja. “O catolicismo aqui é bem forte. O povo aqui é rezador mesmo, tem muita fé. Acho que isso é cultural.”

A cultura católica faz mesmo parte da comunidade. Não é por menos que a Basílica celebra centenas de batizados, comunhões e casamentos todos os anos, além das missas diárias. Os rituais e as festas religiosas também fazem parte do calendário oficial. A Semana Santa é um dos eventos de maior prestígio na cidade: durante quatro dias, as ruas são decoradas com tapetes de temas religiosos criados pelos próprios moradores com serragem e grãos coloridos. A programação para esses dias inclui missas, procissões e festejos ao ar livre.

A verdade é que a igreja sempre foi um espaço de convivência entre as pessoas, católicas ou não. O historiador e diretor do Museu de Arte Sacra de Ouro Preto, Carlos José Aparecido de Oliveira, conta que a comunidade tem uma relação afetiva com a Basílica. “Existe um carinho muito grande por Pilar, a padroeira da cidade, e esse carinho também se estende ao templo”, explica.

Identidade cultural

Há ainda uma sensação de pertencimento que faz com que a comunidade tome conta daquilo que é dela. “Se tiram algum santo do altar, a população fica curiosa para saber a razão; se mexem em alguma peça as pessoas procuram saber o motivo. Isso mostra como a comunidade enxerga a igreja como propriedade de cada um e de todos ao mesmo tempo”, conta Carlos. É isso que faz com que a Basílica continue viva e dinâmica. Ela é um templo religioso, que representa a identidade cultural de um povo, sua origem e os seus valores.

O historiador acredita que no dia em que esse sentimento se perder, a Matriz pode se transformar em um produto comercial como foi o caso de algumas igrejas europeias que se tornaram  restaurante e casas noturna: a St. Mary Church, em Dublin (Irlanda) e a St. Peter, em Liverpool (Inglaterra), respectivamente, ou mesmo em livrarias como a igreja de Maastricht, em Amsterdã (Holanda).

Mas a paróquia trabalha para que isso não aconteça. Márcia Gonzaga relata que o número de crianças e jovens integrados a fé católica cresce. “Acho que existe   uma certa renovação. O Padre Simões foi muito importante para a comunidade, mas era muito severo, diferente dos padres que estão aqui hoje, que são mais jovens e lidam com a comunidade de outra maneira”, explica.

Demanda turística

Por ser uma importante referência histórica e artística do período colonial, a Basílica é um dos espaços mais visitados de Ouro Preto. É exatamente por isso que a paróquia se preocupa em equilibrar a rotina dos fiéis com a demanda turística. Os horários de visitação de grupos com guias são limitados, mas o momento da missa é aberto para todos, desde sejam respeitadas as regras de não fotografar ou filmar.

Como reconhecimento da sua importância histórica, cultural e religiosa para todo o país, a igreja foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN) em 1939. Em março de 2010, o IPHAN realizou uma obra de limpeza das cantarias e pintura da fachada, que ganharam novamente suas tonalidades branca e amarela ao invés do cinza e preto que já coloriam suas torres pela ação do tempo.

Paróquia e igreja

Apesar de muitas pessoas usarem esses termos como sinônimos, eles expressam coisas distintas. Paróquia é o território subordinado eclesiasticamente a um pároco. Igreja é um templo. Isso significa que uma paróquia pode ter mais de uma igreja em seu território, como é o caso Paróquia de Nossa Senhora do Pilar, que administra 14 templos, entre igrejas e capelas.