A cavalhada é Uma das mais importantes celebrações folclóricas e religiosas de Minas Gerais (e da Estrada Real). Foto Eduardo Gontijo.

Cavalhada 

Batalha entre
mouros e cristãos

 Uma das mais importantes celebrações folclóricas e religiosas de Minas Gerais é a Cavalhada, que são representações teatrais das batalhas entre mouros e cristãos pela conquista da península Ibérica e do sul da França. Em uma arena especialmente montada para a encenação, os cavaleiros cavalgam com a espada empunhada, em uma coreografia que rememora as batalhas medievais travadas entre os séc. VIII e XV.

Fotos Eduardo Gontijo/Cezar Felix

O público chega cedo para apreciar o espetáculo e se aglomera ao redor da arena de terra batida. Ela será o cenário da batalha. O tiro que estala no ar é o sinal para a entrada dos cavalos e cavaleiros. De um lado chegam os mouros, com suas vestimentas vermelhas. Do outro chegam os cristãos, com suas vestimentas azuis. Todos entram na arena à galope com os seus animais, igualmente enfeitados. As voltas ao redor do campo fazem o público gritar e aplaudir.

Com a espada empunhada, os cavaleiros cavalgam pela arena em uma coreografia que rememora as batalhas medievais travadas entre cristãos e mouros entre os séculos VIII e XV, período em que nobres dessas duas religiões disputavam o domínio da Península Ibérica. Essa representação é o objetivo da Cavalhada.

A encenação foi estabelecida pela Rainha Isabel, no século XIII, a fim de incentivar a instituição cristã e aumentar o sentimento de repúdio aos mouros. As encenações se inspiravam no épico “A batalha de Carlos Magno e os 12 pares da França”, que conta a história do rei contra as invasões de povos islâmicos e há tempos fazia parte do folclore português.

Vista do povoado de Brumal e da arena onde acontece a encenação da cavalhada.

Novos coloridos

A tradição atravessou o oceano e chegou no Brasil. Os primeiros registros da Cavalhada em território nacional são do século XVII. A encenação foi introduzida pelos jesuítas com o objetivo de mostrar o poder da fé cristã para índios e negros.

Aqui, o festejo adquiriu características próprias de acordo com a região. A primeira diferença é que a Cavalhada, no Brasil, acontece durante a Festa do Divino, culto ao Espírito Santo que ocorre 50 dias após a Páscoa. Entretanto, assim como em Portugal, apesar de ser um ritual católico comemorado em um dia santo, o festejo não presta homenagem a nenhum tipo de entidade e os participantes não esperam, com ela, alcançar nenhum tipo de glória.

Entre as semelhanças estão os personagens que compõem a encenação. Doze são os cavaleiros a entrar no campo de batalha. Seis são cristãos, que levam vestimentas azuis, e seis são mouros, que levam vestimentas vermelhas. Em algumas cidades o figurino é simples, mas em outras ele é bastante luxuoso, ornamentadas com fitas e vidrilhos. Em algumas encenações os guerreiros levam apetrechos de guerra, como escudos e capacetes prateados. Os cavalos também são enfeitados com mantos e outros acessórios como fitilhos, penas e guizos. O figurino mais luxuoso e o cavalo mais bem ornamentado pertence ao rei cristão e ao rei mouro. Eles são os responsáveis por conduzir suas tropas durante o combate.

Desfile dos cavaleiros mouros e cristãos.

Enquanto os cavaleiros realizam a encenação, outros guerreiros montados a cavalo entram em cena: são os mascarados. Esses personagens existem somente nas cavalhadas brasileiras. Não se sabe ao certo quando começaram a participar do festejo e nem o motivo pelo qual foram incorporados à representação. Acredita-se que essa foi a forma encontrada pelos cidadãos comuns para fazer parte da festa, uma vez que a tradição só permitia que os mais nobres montassem os cavalos e se apresentassem.

Esses personagens não podem ser reconhecidos pela comunidade, por isso cobrem todo o corpo com roupas coloridas e investem em máscaras originais. Os mascarados mais comuns são os que chegam com uma cabeça de boi em cima do rosto. Muitos afirmam que essa fantasia é uma alusão a outras manifestações culturais brasileiras que tem o boi como peça-chave. Há também os que levam cabeça de outros animais, como onças e tigres, com rostos de homens ou mesmo com cara de monstros.

Esses personagens também são conhecidos como “curucurus” devido ao som que emitem. A função dos assobios e de outras peripécias, como acrobacias e brincadeiras, é atrapalhar a batalha entre mouros e cristãos. Aproveitam esse momento para interagir com o público, que se diverte com a farra. Também se valem desse momento para fazer gritar, soltar ironias e fazer críticas ao sistema. Assim, os mascarados representam o povo, socialmente excluídos do poder, mas nunca silenciados.

Em outro ponto da arena está o resto da corte. São príncipes, princesas e embaixadores que assistem a tudo de camarote, juntamente com um padre. Ao fim da batalha, os cavaleiros se dirigem até o camarote da aristocracia, que lhes rende uma homenagem. Em algumas cavalhadas, o padre encena uma missa na qual os guerreiros mouros, que perderam a batalha, se convertem ao cristianismo.

Os cavaleiros, mouros e cristãos, fazem uma encenação ao redor do mastro. Foto Eduardo Gontijo

Cavalhada de Brumal

Uma das mais famosas cavalhadas de Minas Gerais acontece em Brumal, distrito de Santa Bárbara, no Caminho de Sabarabuçu da Estrada Real. Tudo começou com uma promessa do tropeiro Jorge da Silva Calunga, fiel de Santo Amaro, que prometeu realizar o festejo todos os anos caso fosse alcançada a graça que fervorosamente havia pedido ao santo. Jorge foi abençoado. Assim, com a ajuda de diversos amigos, organizou a primeira Cavalhada de Brumal, em 1937. O evento foi um sucesso e, desde então, a festa tem crescido em número de participantes e também de visitantes. Hoje, a Cavalhada do vilarejo — que acontece sempre no primeiro domingo do mês de julho — conta com uma expressiva quantidade de cavaleiros e com outros tantos personagens que animam o festejo.

O público chega cedo para apreciar o espetáculo e se aglomera ao redor da arena gramada, pois ela é o cenário da batalha. O tiro que estala no ar é o sinal para a entrada dos cavalos e dos cavaleiros. De um lado, chegam os mouros com suas vestimentas vermelhas; do outro, os cristãos com suas vestimentas azuis. Todos entram na arena a galope com os seus animais, igualmente enfeitados. Os figurinos mais luxuosos e os cavalos mais bem ornamentados pertencem ao rei mouro e ao rei cristão, ambos responsáveis por conduzir suas tropas durante o combate. Os guerreiros realizam uma coreografia em torno de um mastro no centro do campo de batalha. A encenação segue com várias voltas ao redor da arena, as quais fazem o público gritar e aplaudir.

Milhares de pessoas, entre moradores, turistas e devotos, vão até Brumal para desfrutar da Cavalhada que, em 2009, foi registrada como Patrimônio Imaterial de Santa Bárbara.

Uma alegoria dos cavaleiros mouros e cristãos.

Simbolismos

Ao contrário da maior parte das encenações em Minas Gerais e no resto do Brasil, aqui os cavaleiros não se desafiam dentro da arena. Os guerreiros, mouros e cristãos, dotados de uma fita colorida, realizam uma coreografia em torno de um mastro no centro do campo de batalha. Segundo o livro Santa Bárbara, patrimônio protegido, organizado por Sebastião Fonseca e Silva, a representação é repleta de simbolismos.

 “O mastro colocado no centro da praça, símbolo dos campos de Batalha, erguido, simboliza a vitória dos cristãos e o trançar das fitas traduz a alegria pela grande conquista do cristianismo. A fita vermelha simboliza o período das guerras, das cruzadas, das lutas pela unificação da terra santa e do cristianismo. A fita amarela é o símbolo do ouro, da realeza e das conquistas dos cristãos. A fita verde representa a esperança da conquista e do cristianismo unificado e a azul significa a salvação, o céu, esperança maior de todos os cristãos.”

O público assiste a essa dança com os olhos atentos. Os movimentos dos cavaleiros são precisos e as formas criadas pelas fitas no mastro são verdadeiras estampas. Os aplausos e gritos seguem o fim do traçar de fitas. Em seguida acontece um espetáculo pirotécnico, cheio de luzes e cores.

O evento conta ainda com ampla programação. Eventos religiosos e culturais acontecem antes e depois da encenação. Entre eles estão teatro, dança, shows e apresentações diversas. Milhares de pessoas, entre moradores, turistas e devotos, vão até Brumal para desfrutar da Cavalhada

Carnaval a cavalo é uma tradição desde 1840 na cidade Bonfim, localizada na região metropolitana de Belo Horizonte.

Cavalos em
cena no carnaval

Bonfim, município localizado na área metropolitana de Belo Horizonte, é outra localidade que apresenta um espetáculo a cavalos muito conhecido. O evento acontece durante o carnaval, e por isso é conhecido como Carnaval a Cavalo. Os personagens mouros e cristãos também estão presentes no festejo, mas aqui eles são mais coloridos e ornamentados, com máscaras e penas. Os cavalos também apresentam adereços especiais e vão sempre repletos de flores coloridas e guizos.

São três dias em que os guerreiros desfilam pela cidade montados em seus cavalos, disputando a atenção das pessoas com cortes e galanteios. No último dia acontece a batalha de confetes e serpentinas, na qual os cavaleiros jogam esses dois símbolos do carnaval para a plateia enquanto a apresentação acontece. O público retribui com mais confetes e serpentinas, que deixam a arena cheia de cores. O Carnaval a Cavalo é celebrado em Bonfim desde 1840 e é o evento mais famoso da cidade.