170 anos de espera

Cachorro-vinagre, animal que já foi considerado extinto, é registrado no norte de Minas.

Por Guilherme Braga Ferreira
(texto e fotos)

 

Há 10 anos, no zoológico de BH, foi quando vi pela primeira vez este desconhecido representante da família do lobo-guará, das raposas e do cachorro-doméstico. Ao lado do local onde o animal estava, a placa informativa dizia: “O cachorro-vinagre é o único canídeo da América do Sul que caça em grupo”.

Na mesma hora, embora ainda estivesse na faculdade,  pensei em fazer filmagens destes animais trabalhando em equipe para capturar suas presas. Resolvi, então, que iria estudar o cachorro-vinagre. E o plano era simples. Pediria à professora a indicação de um colega que estudasse esta espécie para que eu pudesse fazer um estágio de férias. O problema é que não havia ninguém estudando o cachorro-vinagre em vida livre. Não que os pesquisadores não se interessassem pela espécie, mas o animal é tão raro que, naquela época, toda a informação disponível vinha de estudos em cativeiro e de encontros esporádicos na natureza. Pior ainda, o cachorro-vinagre era considerado extinto em Minas Gerais. Só havia animais em zoológicos. O último registro no estado havia sido feito pelo naturalista Peter Lund em 1842, quando da descrição científica da espécie, até então, desconhecida em todo mundo.

Mas como é o cachorro-vinagre e o que ele tem de tão especial? De corpo alongado, pernas curtas, pelagem marrom e pesando cinco quilos, o cachorro-vinagre é um animal pequeno, porém robusto.  É o mais social dos pequenos canídeos, vivendo em grupos de até 10 animais. Diferente de todos os outros representantes da família dos cães na América do Sul, o cachorro-vinagre se alimenta exclusivamente de outros animais, podendo capturar presas relativamente grandes, principalmente tatus e pacas.

Poucos anos após aquele primeiro encontro no zoológico, uma pegada de cachorro-vinagre foi encontrada por um pesquisador no Vale do Peruaçu, norte de Minas. Um lugar que concentra elevada biodiversidade, centenas de cavernas e incrível beleza cênica. Agora a espécie estava oficialmente redescoberta, mas alguns rastros na lama era a única evidência de sua presença no estado. Esta informação era o que eu precisava para tirar do papel aquela vontade de estudar o cachorro-vinagre. Como ainda era estudante, esperei o primeiro feriado prolongado, peguei algumas câmeras automáticas emprestadas e viajei 660 km até o Peruaçu. Passei cerca de 10 dias por lá. Instalei as câmeras em locais que, segundo o pessoal da região, teriam mais chances de registrar a espécie que buscava. Também caminhava várias horas todos os dias na esperança de me deparar com os animais vagando pelas veredas, ou ao menos encontrar um rastro nas trilhas. Mas voltei sem nenhuma foto ou evidência sequer do cachorro-vinagre. Mesmo assim, desde então utilizo câmeras automáticas para procurar o cachorro-vinagre e estudar os mamíferos da região. No Peruaçu, instalar estes equipamentos pode ser uma agradável aventura. Escalamos pedras escorregadias, atravessamos cavernas gigantescas, andamos por veredas e até por dentro do rio, com água acima da cintura, quando a mata das margens é muito fechada.

Durante vários anos de pesquisas, mais de 20 espécies de mamíferos foram registradas pelas câmeras automáticas, mas o cachorro-vinagre não apareceu facilmente. Somente sete anos após a primeira tentativa, ele foi finalmente registrado no Peruaçu. O vídeo de menos de dois segundos de duração, obtido em setembro do ano passado, é o primeiro registro de um cachorro-vinagre vivo no estado em 170 anos. Desde que Peter Lund recebeu dois destes animais em sua casa, em Lagoa Santa, nenhum representante da espécie havia sido encontrado com vida em território mineiro. Atualmente, finalizamos uma publicação científica sobre a ocorrência do cachorro-vinagre no estado, e destacamos o grande potencial de novos registros na região norte, no sertão de Minas Gerais. Como disse Guimarães Rosa: “O sertão é bom. Tudo aqui é perdido. Tudo aqui é achado”. A única coisa que temos que fazer é continuar procurando.

Guilherme B. Ferreira é biólogo, trabalha no Instituto Biotrópicos e mora em Januária, norte de Minas Gerais.