A longo dos seus leitos, os rios de Minas Gerais seguem ganhando força enquanto cruzam os planaltos. A guiar tantas águas, estão as serras, que se impõem como verdadeiros desafios a serem vencidos, conquistados e contornados. Além do rio com nome de santo que brota de terras mineiras para abençoar homens, animais e árvores pelo Brasil afora, outros grandes rios, como o Grande, o Paranaíba e o outrora Doce, minam dessas terras. É assim que esse terreno acidentado, com seus “mares de morros”, guia as suas águas e formam as bacias que irrigam a vida sobre ele.

O Velho Chico inicia seu trajeto de forma despretensiosa, em meio à Serra da Canastra, no centro-sul de Minas Gerais. Ao longo do seu caminho, vai ganhando força enquanto atravessa os campos. Mergulha em quedas d’água como a Casca d’Anta, com seus 186 metros de altura, carrega esperança e vida ao interior de Minas. As águas desse grandioso rio escorrem por um trajeto que atravessa o sertão, levando fertilidade a centenas de comunidades. Dois mil e setecentos quilômetros depois de nascer acanhado em Minas Gerais, vai desaguar no Oceano Atlântico, na divisa entre Alagoas e Sergipe. Não sem antes ligar cinco estados brasileiros, o “Rio da Integração Nacional”.

Não é apenas o rio com nome de santo que brota de terras mineiras para abençoar homens, animais e árvores pelo Brasil afora. Também rios, como o Grande e o Paranaíba, minam dessas terras e, do encontro deles, lá onde Minas encosta em São Paulo e no Mato Grosso do Sul, nasce o Rio Paraná, outro de tantos esplendores. Leva um pouco de Brasil para a Argentina e para o Paraguai. Cenário de conflitos, como a Guerra do Prata, mas também de conquistas, como a Usina Hidrelétrica de Itaipu e tantas outras espalhadas por seu caminho. E, assim, dessas nascentes tímidas, brota o apelido de Minas Gerais, “Caixa d’Água do Brasil”.

A guiar tantos rios, estão os morros, que se impõem como obstáculos a serem vencidos, conquistados, contornados. Assim, as águas que surgem modestas começam a ganhar força, como os próprios moradores dessas paragens, sem nunca deixarem de escoar rumo ao oceano por essa região de planaltos. Terras que, por vezes, tentam descer até o mar e abaixam até os 79 metros de altitude, mas que têm mesmo é vocação para alcançar os céus e chegam ao seu auge com o Pico da Bandeira, com seus 2.890 metros, na divisa com o Espírito Santo.

Um pico que é parte da imponente Serra do Caparaó, que tenta parar o Rio Doce, ao Sul, logo ele, que já tinha, mais a oeste, esbarrado na quase intransponível Serra do Espinhaço, a única brasileira a ganhar o status de cordilheira. Não só o Rio Doce, como vários outros cursos d’água que, como em uma estratégia de guerra, movimentam-se em pequenas frentes para se unirem bem mais adiante e alcançarem o mar por leste, agora maiores, juntos e vitoriosos. É assim que esse terreno irregular chamado Minas Gerais, com seus “mares de morros”, vai guiando suas águas e formando as bacias que irrigam a vida sobre ele.

Se a imponente Serra do Espinhaço tenta aprisionar a Bacia do Rio Doce de um lado, do outro, é a Bacia do São Francisco que a encontra e precisa achar um novo curso para alcançar o oceano. Guiadas pelo protetor dos animais, é para o norte que essas águas se espalham e acabam irrigando 49% do Estado. Juntas, as bacias dos rios Grande e Paranaíba, por sua vez, irrigam 27% desse território de quase 600 mil quilômetros quadrados. A porção mais ao leste é disputada pelas bacias Jequitinhonha, Mucuri, Doce e Paraíba do Sul. Cada uma procurando seu caminho depois de serem divididas por serras como Espinhaço, Mantiqueira, Canastra e Caparaó.

O rio São Francisco e o sertão de Minas Gerais.

As ondas que dominam os horizontes mineiros compõem a identidade mais evidente do Estado, mas, bem abaixo de tudo isso, estão enterrados seus mais surpreendentes segredos. Graças à persistência da natureza em esculpir, solo, grutas e cavernas que começaram a ser desenhados há milênios escondem tesouros riquíssimos, minerais cobiçados e achados arqueológicos que revelam a história dos primeiros moradores da Terra. As chamadas regiões cársticas abrigam, ainda, importantes aquíferos.

No centro de Minas Gerais, estão algumas das formações cársticas mais importantes da América do Sul, como a Gruta de Maquiné, que protege, 18 metros abaixo da terra, conservadas pinturas rupestres em sete salas abertas ao público e amplas galerias. Descoberta em 1825 e amplamente estudada pelo naturalista dinamarquês Peter Lund, apresenta 650 metros quadrados de caça ao tesouro. Por ali, também estão muitas outras cavidades, algumas especialmente profundas, como a Gruta do Centenário, com 484 metros de desnível. Formações semelhantes e igualmente impressionantes podem ser encontradas nos parques estaduais de Ibitipoca, de Carrancas e de Luminárias, no Sul de Minas.

Formações cársticas: no centro de Minas Gerais.

Se o brilho do ouro já não resplandece com a mesma intensidade em Minas Gerais, é graças a esse intrincado arranjo de hidrografia e relevo que o dourado que já foi o símbolo do povo das montanhas foi substituído por uma vasta paleta de cores. Do verde-esmeralda da Mata Atlântica ao ocre do Cerrado, passando pelo vermelho-sangue da terra repleta de ferro, inúmeras tonalidades brincam entre os rios que inundam os vales e os olhos. Nesse cenário, florescem três dos principais biomas do Brasil — Cerrado, Caatinga e Mata Atlântica.

Cerrado,
forte e imponente

Não é o acaso, por exemplo, que faz com que o Cerrado seja um bioma tão rico em biodiversidade: são mais de 10.000 espécies vegetais e quase 200 diferentes mamíferos. O fato de o bioma estar no meio das três maiores bacias hidrográficas do país — São Francisco, Tocantins-Araguaia e Prata — não é coincidência. Também não é acidental que paisagens exuberantes se transformem lentamente em coberturas vegetais de menor porte a cada passo rumo aos picos de Minas Gerais.

Paisagem do vale do Rio Grande.

Com vegetação mais baixa, retorcida, esparsa, o Cerrado parece acuado, quase constrangido. É quando surge, em meio ao ocre, um imponente buritizeiro e as palmeiras se erguem em direção às nuvens e deixam pender delas frutos vermelhos. Mais adiante, a paisagem volta a se assemelhar a um sertão, com a vida a esvair-se quando se olha para o chão, e centenas de minúsculas flores coloridas enfeitam também o solo. Não demora muito, e uma elegante orquídea se destaca. O Cerrado é assim, um pouco como a gente mineira — não se mostra por completo ao primeiro olhar, é sempre mais imponente e mais forte que o que deixa à mostra.

Mistérios do interior

Desse ecossistema envolto por mistérios, fazem-se 57% de Minas Gerais. A savana mais rica do mundo, qualificam alguns. A única que se recusa a hibernar por completo. Enquanto parte da vegetação perde o verde das folhagens, outras espécies, antes adormecidas, recobram a vida e insistem em colorir os campos de diferentes tonalidades de verde, que resistem ao sol forte e brincam com a paisagem. Parte da sua força vem das tais águas que a cortam, dezenas de rios que serpenteiam sobre e sob essas terras repletas de lençóis freáticos pouco profundos. São as bacias do São Francisco, do Grande, do Paranaíba e do Jequitinhonha que gotejam vida pelo sertão mineiro.

Esse capricho da natureza garante a sobrevivência de mais de 10.000 espécies de plantas já catalogadas, e quase 50% simplesmente se recusam a viver em outro lugar: são as chamadas endêmicas, características de uma única região. Áreas de formação florestal convivem com plantas com a aparência seca e vastos campos de gramíneas que parecem estar lá para lembrar que o Cerrado, que chega a enfrentar cinco meses de estiagem anualmente, é só para os fortes.

E, assim, o Cerrado assume várias personalidades. É campo limpo nas regiões mais planas e nos vales, quando assume uma face quase sem mata, cobertas de gramíneas. Quando alguns arbustos aparecem, ainda que espaçados, estamos enfrentando um campo sujo. Por vezes, sua feição se torna mais florestal e é transformada em mata seca, com muitas árvores que perdem as folhas em longos períodos sem chuva, ou matas ciliares, próximas de cursos d’água que as deixem verdes por todo o ano. Já no cerradão, é a personalidade mais imponente que vem à tona, com árvores que podem alcançar 15 metros de altura.

Paisagem de muitas águas no Cerrado.

Da junção de todas essas peças, forma-se o Cerrado que se espalha entre o Triângulo Mineiro e as regiões Centro e Noroeste do Estado. Dali, brotam reluzentes quaresmeiras, ipês, jacarandás. E, ainda, a arnica, a jurubeba e a copaíba, que, ao lado de mais de 200 outras espécies, oferecem curas quase mágicas aos mais diferentes males. Do óleo da copaíba, faz-se um anti-inflamatório natural, o bálsamo dos sertanejos. A arnica, por sua vez, estanca o sangue dos feridos, enquanto a jurubeba ajuda “quem comeu e não gostou” a fazer as pazes com o sistema digestivo.
Para quem quer comer e gostar, o Cerrado também oferece vastas opções. Gabirobas, jabuticabas e pequis enchem os campos com sabores que agradam homens e fauna local.

Com sua copa frondosa, o pequizeiro é uma das árvores-símbolo do bioma. Seu fruto de casca verde, caroço cheio de espinhos e sabor peculiar é o mais consumido e comercializado pelos moradores desses sertões. Dezenas de receitas elevam à máxima potência o aproveitamento do pequi, que vira de licores a pratos sofisticados nas mesas da região.

Outra apreciada planta do bioma é a catuaba, com propriedades afrodisíacas e estimulantes. O jatobá também se destaca, com frutos nutritivos e madeira dura e resistente, que costuma chegar à construção civil e à naval. E, já que mudamos de assunto e começamos a falar de madeira, também o murici é muito procurado pelas qualidades dos seus troncos. A tudo isso, soma-se as plantas de admirável beleza, procuradas pelo valor ornamental. Os frondosos ipês-amarelos são os primeiros a saltar aos olhos nesse quesito, mas não são os únicos. A rosa-do-cerrado, por exemplo, com delicadas flores róseas, também colorem e decoram o ambiente.

Música do sertão

Para dar ritmo a toda essa riqueza vegetal, chegam, sempre em pares ou pequenos grupos, as seriemas. Seu canto agudo, por vezes assemelhado a uma sonora gargalhada, é chamado de “voz do Cerrado”. Essa ave que gosta mais de correr que de voar comumente se encontra com outra, de hábitos parecidos e que também é símbolo do bioma, a ema. A maior ave das Américas faz um bom uso do cardápio oferecido e, entre uma corrida e outra, come de frutos e sementes a insetos — passando por pequenas pedras que ingere para ajudar na trituração dos alimentos.

Emas e seriemas são apenas duas das mais de 800 aves conhecidas no Cerrado. Outras espécies — algumas imponentes, como o tucano, outras belíssimas, como a arara-azul — também gorjeiam por lá. Para outros animais, o calor escaldante é tão opressor que eles preferem passar a maior parte da vida embaixo da terra. É o caso de diversas espécies de cobras e lagartos que habitam as galerias subterrâneas da região. Muitos dos cerca de 200 mamíferos desse rico bioma também se adaptaram à vida escondida do brilho do sol e preferem gastar os dias em tocas e abrigos. Escapam, assim, não apenas das temperaturas extremas, mas também de predadores.

O tucano é outra espécie típica do bioma.

Um dos mais interessantes representantes desse grupo é o tamanduá-bandeira. Ele pode ser visto à noite, alimentando-se em cupinzeiros e formigueiros, principalmente na região da Serra da Canastra – apesar de isso ser cada vez menos comum, já que o animal está ameaçado de extinção. Na mesma região, abundam os lobos-guará, outro mamífero de hábitos noturnos que encanta quem com ele se cruza. Também a onça-pintada, o veado-campeiro e o mico-estrela podem ser vistos no Cerrado.

Pelas águas, ora calmas e claras, ora bravias e velozes, que atravessam esse sertão, nadam cerca de 1.200 espécies de peixes, algumas fundamentais para a economia da gente da região, como o surubim ou o dourado. Répteis são 180 e anfíbios são 120 espécies. Vale lembrar, porém, que estamos falando de um enigmático bioma, que esconde muitos segredos; pesquisadores são unânimes em dizer que ainda há muitas espécies vegetais e de animais desconhecidas no Cerrado.

Ouro perdido

Como um baú de tesouro que se enferruja antes de ser encontrado, toda a riqueza do Cerrado tem sido destruída pelo homem. Hoje, restam menos de 20% da sua cobertura original. Apesar de o isolamento ter mantido o brilho do Cerrado por quase todo o período colonial brasileiro, a entrada de bandeirantes em busca de índios e minérios no século XVII marcou o início do apagar do bioma. Registros de jesuítas garantem que foi um mulato, ao beber água em um ribeirão, que acabou por encontrar a primeira pepita de ouro em Minas Gerais, em 1693.

A partir daí, arraiais e vilas começaram a ser criados em torno dos rios que jorravam ouro e lugares como Vila Rica (atual Ouro Preto) e Ribeirão do Carmo (atual Mariana) se tornaram o epicentro econômico, cultural e político do país. Abriu-se a porta para que o Cerrado intocado começasse a receber os homens. Não demorou muito para seus campos serem convertidos em pastagens de gado zebu e plantação de gêneros alimentícios que serviriam para manter o resplendor da região do ouro.

Com o esgotamento das minas, descobriu-se a vocação de regiões como o Triângulo Mineiro e o Noroeste do Estado para a agropecuária. A construção de Brasília, na década de 1950, veio, então, para selar o trágico destino de grandes campos de Cerrado. A existência da capital federal incentivou a chegada de novos investidores, e a região se transformou na nova fronteira agrícola. O sertão sucumbiu diante da soja. Mineração, pecuária extensiva e monoculturas acabaram com 80% da cobertura original do Cerrado. O que sobrou luta contra o poder econômico e se protege dentro de fronteiras de parques e áreas de proteção ambiental. As principais delas são os parques da Serra do Cipó, da Serra da Canastra e o Grande Sertão Veredas.

Cachoeira Grande, no Parque Nacional da Serra do Cipó.

Se, de um lado, o Cerrado luta para sobreviver, na outra encosta da imponente Serra do Espinhaço, é outro bioma que resiste diante do homem, a Mata Atlântica. Na cordilheira que impõe sua força para o alto, estão não apenas os mais impressionantes e majestosos picos do estado, como o Itambé e o Pico do Sol. No alto da cadeia de montanhas que inicia trajetória no Quadrilátero Ferrífero e segue caminho até a Chapada Diamantina, na Bahia, surgem, da fusão do Cerrado com a Mata Atlântica, os campos rupestres, repletos de sempre-vivas.

As flores, tão delicadas quanto imortais, dominam a paisagem de Serro a Diamantina. Com a mania de se manterem belas, mesmo depois de arrancadas as suas raízes e secas as suas folhas, as sempre-vivas ajudam a eternizar as tradições do povo da região. Dezenas de comunidades extrativistas se espalham pelas pradarias que abrigam mais de 70% das espécies dessas flores. A prática já levou quase ao desaparecimento de algumas espécies, mas o desenvolvimento de projetos de manejo ajudou a diminuir o impacto da atividade. Mais uma vez, as sempre-vivas resistiram. Em 2002, ganharam um parque só para elas, o Parque Nacional das Sempre-Vivas, no Mosaico de Unidades de Conservação do Espinhaço.

Caatinga, força da natureza
no agreste

Lá no Norte, onde Minas toca a Bahia, longe da abundância verde da Mata Atlântica e perto dos tons do Cerrado, o estado despe-se de vivas cores e se tinge de branco. A Caatinga, ou “Mata Branca”, em tupi, cobre essa pequena região castigada pela falta de chuvas e que se estende sem piedade pelo Nordeste do Brasil. Num terreno árido e pobre em matéria orgânica, cresce o único bioma exclusivamente brasileiro e ainda cheio de segredos a serem descobertos.

Caatinga surpreende com a formação dos brejos.

A grande maioria dos cursos hídricos que cortam o bioma é temporária e desaparece na época seca. Porém, uma vez mais, é o Velho Chico que faz do seu curso a fonte de esperança e vida. Ao abandonar o Cerrado e antes de navegar até o Atlântico, o rio cruza a Caatinga mineira, adentra o Nordeste do país e brinda a natureza com suas águas. Próximo às serras, onde as chuvas são um pouco mais frequentes, a Caatinga surpreende com a formação dos brejos, verdadeiro oásis e consolo frente à aridez, um alívio para os moradores.

A guiar tantos rios, estão as serras..

Mas é entre plantas arbustivas de pouca folhagem e sob o sol forte que raras vezes se esconde entre nuvens que a Caatinga mostra suas características mais marcantes. Ainda que severo e até implacável, o bioma revela-se como fonte de vida e inspiração. Aparentemente estéril, a flora sabe como aproveitar cada gota d’água que vez ou outra toca o solo. As folhas são finas ou inexistentes, uma estratégia para reduzir a transpiração. Por vezes, desenvolvem raízes praticamente na superfície do solo para absorver o máximo da chuva, como faz a macambira.

A força do Cerrado vem das águas que cortam o bioma.

Outras armazenam água para os longos períodos secos, como os cactos. O mandacaru — espinhoso, pequeno e forte — caracteriza o ambiente e é parte da cultura local. O cacto, que pode atingir até 5 metros de altura, resiste até às secas mais fortes. Nas noites de primavera, deixa resplandecer suas grandes flores brancas, que murcham durante o dia para renascer de novo mais tarde. Outro modelo de resistência é o umbuzeiro. A raiz da árvore armazena água e produz uma batata que, em épocas de estiagem, é utilizada como alimento. Sua sombra oferece aconchego, e Euclides da Cunha resumiu a importância da planta ao chamá-la de “árvore sagrada do sertão”.

Num terreno árido, surge a Caatinga.

Vidas secas?

Outros ícones da literatura brasileira transformaram em prosa e verso a aventura que é viver na caatinga brasileira. Graciliano Ramos, em seu “Vidas secas”, talvez tenha sido um dos mais bem-sucedidos, ao eternizar a batalha diária desse povo que, frente às dificuldades impostas pelos poucos recursos econômicos e pela rigorosidade do clima, se adapta e se constrói. Que o escritor, porém, nos perdoe, mas as vidas por ali não são tão secas. Os caatingueiros, como são chamados os moradores do local, não estão ali apenas para existir e resistir.

Aprenderam a apreciar as frutas nativas, como a jaca e a cagaita, e desenvolveram manifestações culturais que os tornaram ricos, a despeito das carências econômicas. No Norte de Minas Gerais, cortejos dançam ao som de tambores durante o catopé. Levantamentos de mastros, Reinados e Folias dos Reis Magos celebram a religiosidade desse povo. O bioma, que ocupa pouco mais de 3% do território mineiro, ajuda, assim, a construir a identidade do estado. Cultivar plantas mais resistentes à seca — como o algodão e algumas variedades de feijão, milho e amendoim — é uma das habilidades que permitem que mais de 20 milhões de brasileiros vivam na Caatinga. Também a criação de gado leiteiro se destaca na região.

A força para resistir pode ser vista por todos os lados. Se a paisagem parece morta, basta olhar de novo, com mais cuidado, para descobrir que a vida insiste em continuar. Na Caatinga, existem mais de 170 espécies de mamíferos e incríveis 221 espécies de abelhas. Também é impressionante como 79 diferentes tipos de anfíbios, sempre dependentes de ambientes úmidos, parecem se recusar a abandonar a região mais seca do país. Ao invés disso, adaptaram-se às condições ambientais e fazem da Caatinga seu paraíso. Animais como o sapo-cururu, a cutia, o gambá e o sagui-de-tufos-brancos se espalham pela região.

A bela ararinha-azul, tantas vezes lembrada como símbolo do Brasil, já voou sobre esse agreste. Não se sabe se ainda voa, o último registro da presença dela foi no ano 2000. Extinta? Ou quase? Não sabemos, mas temos certeza de que chegamos a esse ponto por termos tantas vezes considerado a Caatinga um bioma inferior ou pouco importante. Por não nos preocuparmos, esse sertão foi negligenciado. Sofreu com o extrativismo, viu-se invadido pela monocultura do algodão, observou sua vida começar a se esvair. Não só a ararinha-azul, mas tantas outras belas espécies correm riscos. Como já bem cantou Luiz Gonzaga, “inté mesmo a asa-branca bateu asas do sertão”.

Mata Atlântica,
requinte da biodiversidade

Quando a infindável beleza das sempre-vivas fica para trás, Minas Gerais abre espaço para outros cenários. Nos domínios dos “mares de morros”, nas regiões Leste, Nordeste e Sul, pode-se contemplar um dos mais fascinantes biomas do mundo. Se o Cerrado guarda belezas discretas, como o povo mineiro, a Mata Atlântica, por sua vez, ostenta um encanto rebuscado, como a arquitetura colonial que domina essas terras. Em um único hectare de floresta, podem ser encontradas mais de 400 espécies de árvores nas regiões mais ricas. Estruturas altas e diversas que, vistas do alto, formam um mosaico de copas coloridas.

Para dar tons de rosa e azul a esse tapete de biodiversidade, estão, por exemplo, os jacarandás. Suas copas arredondadas, com folhagem delicada, chegam com a primavera e não apenas pintam as florestas, como também as perfumam. O amarelo, quem ostenta é o guapuruvu, do alto do seu elegante tronco reto e cilíndrico, que chega a 30 metros de altura. Ainda mais acima, podendo chegar a 50 metros de altura, estão os jequitibás-rosa, com seu vermelho inconfundível. O manacá-da-serra, por sua vez, oferece vivacidade ao bioma, com flores que nascem brancas e vão se tornando roxas por entre suas copas frondosas.

E não só de cores vivem as árvores da Mata Atlântica. Algumas são medicinais, como o angico, usado para tratamento de doenças respiratórias. Para doenças digestivas, aroeiras e canelas-pretas. E tem mais. Frutas tão conhecidas como o maracujá e tão pouco usadas como o camuci também são típicas do bioma. Abaixo das árvores, também floresce vida. Do chão, brotam fungos e cogumelos. Também trepadeiras, que se enraízam no solo, mas pedem ajuda das árvores para subir até onde podem ver o sol. Também apoiadas nas árvores, estão bromélias e orquídeas.

Admirando de cima todo esse colorido, estão mais de 1.000 espécies de aves. Temos o astuto caçador gavião-pombo-pequeno, que aproveita a passagem de bandos de macacos ou quatis para capturar pequenos animais reunidos em fuga. O cardápio do predador inclui de insetos a cobras e pequenos mamíferos. Bem menos agressiva é a ave rabo-branco-mirim, que se alimenta do néctar das flores. O pavó, por sua vez, traz plumagem alaranjada e bico da cor do céu azul, para embelezar ainda mais a cena.

Bem abaixo, em terra firme, dividem espaço milhares de outras espécies animais. Só de mamíferos são cerca de 250 — e pelo menos 55 deles são endêmicos, existem exclusivamente nesse bioma. O mico-leão-dourado, por exemplo, com a agilidade de pequeno primata, só pula de galho em galho por essas matas. Com os pelos menos reluzentes, mas com beleza equivalente, podemos citar também o muriqui. Maior primata das Américas e morador dessas florestas. E não só mamíferos escolheram a Mata Atlântica como casa. O ouriço-preto, por exemplo, roedor, circula por ali com sua cauda curta e seus espinhos macios, quase amigáveis.

No caminho do progresso

Toda essa riqueza não poderia estar apenas em Minas Gerais. Ela transborda por nada menos que 17 estados brasileiros e já tomou conta de quase todo o litoral do país. Uma única espécie animal, porém, tem ameaçado a sua continuidade: o homem. Quase 72% da população brasileira vive nas cidades que ocuparam os lugares das florestas e destas deixaram entre 12% e 16% da cobertura original. Metade do território mineiro já foi Mata Atlântica — sobraram 7%. O crime cometido por essas matas para que fossem punidas com tamanha devastação foi estar no caminho do avanço português.

Metade do território mineiro já foi Mata Atlântica.

Quando Cabral desembarcou em solo brasileiro, as naus portuguesas já começaram a levar embora parte das nossas florestas. Primeiro foi o pau-brasil. Não só a madeira da árvore interessou aos europeus, mas também a resina dela, convertida em uma tintura avermelhada apreciada na Europa. Em menos de um século, o número de árvores já não era suficiente para suprir a demanda. As árvores desapareciam, mas a ganância crescia. Plantações de cana-de-açúcar e de café foram avançando sobre as matas, enquanto os colonizadores adentravam o Brasil. Já no século XVII, encontraram ouro em terras distantes do litoral, que depois viriam a ser Minas Gerais. E decretou-se, assim, o fim de outras vastas áreas de florestas.

Um recanto típico do Cerrado mineiro.

Mesmo depois que o ouro deixou de brilhar entre os rios de Minas Gerais, a destruição continuou. A ampliação dos centros urbanos e a criação de núcleos industriais aumentaram a velocidade da devastação e, no século XX, a Mata Atlântica começou a agonizar. O grito de socorro dela só começou a ser ouvido nas últimas décadas, e Minas Gerais começou a reverter o processo em anos mais recentes. Algumas áreas iniciaram um movimento de regeneração. Sob o canto dos pássaros, a vida renasce nas florestas lentamente. Restam-nos apreciar, silenciosos, seu retorno e trabalhar para que ele não seja impedido.

Paisagem de transição: Cerrado e Mata Atlântica.