Uma bela história, inteiramente construída em Santo Antônio do Amparo, guarda as tradicões de quatro gerações de uma família dedicada à cafeicultura, que construiu o Café Cambaia, uma marca de qualidade consagrada no Brasil e no exterior  —  hoje também uma referência na produção de cafés especiais.  

Reportagem Cacaio Six
Fotos Cezar Felix/André Sena

Santo Antônio do Amparo: a altitude média de 1.100 m garante a qualidade superior do café.

O empresário e produtor rural Henrique Cambraia integra a quarta geração da família dedicada à cafeicultura. Tudo começou com o bisavô dele que iniciou o cultivo de café no século XIX, nos anos 1890, no município de Santo Antônio do Amparo, região sul de Minas Gerais. “O meu avô continuou com a produção e depois  o meu pai assumiu quando herdou o pedaço de terra dele”, explicou Henrique.

A Igreja de Santo Antônio e a praça: tradição na cafeicultura.

A parte da herança foi a Fazenda Samambaia onde estava a cultura do café. Em 1993, com o falecimento do pai, a propriedade passou para Henrique e seus dois irmãos, o médico Rodrigo e a empresária Sílvia. “Os meus irmãos deixaram sob a minha responsabilidade cuidar das fazendas”, esclarece.

Nessa época, o cafeicultor não podia dedicar todo o seu tempo para a fazenda de café, pois trabalhava na conhecida companhia de auditoria Arthur Andersen. Porém, ele se espelhava no pai, que era médico e visitava a propriedade a cada 15 dias. “Durante três anos continuei da mesma maneira, sem mexer em nada, e mantendo o mesmo ritmo dele”, recorda-se. “Assim,   eu percebi — e digo isso para muitas pessoas — que não fui eu quem escolheu o café; foi o café que me escolheu”.

 

Experiência americana

Porém, a partir de 1996, Henrique Cambraia começou a executar importantes mudanças nos métodos de produção, com destaque para os serviços relacionados à colheita e a pós colheita. Nesse mesmo ano, aconteceu a mudança dele para a cidade de Boston nos Estados Unidos. Na volta ao Brasil, em 1997, ele afirma que reforçou ainda mais a vocação para o trabalho com a cafeicultura. “Nos EUA eu só via cafés da Colômbia, da Costa Rica, da Guatemala e nada do café do Brasil”. A partir da experiência americana, surgiu o interesse pela produção de um café diferenciado pela alta qualidade, ou seja, um café especial. “Passei então a me dedicar à produção de cafés especiais. Procurei um grupo de produtores que formavam uma associação naquela época”, recorda-se. Era uma entidade restrita, fechada, chamada Associação Brasileira de Cafés Especiais, hoje a reconhecida e respeitada BSCA (Brazil Special Coffe Association).

“Me juntei a eles e comecei a fazer outra série de mudanças: na secagem, benefício e classificação. Passei a compreender ainda mais os potenciais de qualidade na nossa bebida”.

Outra mudança para os Estados Unidos aconteceu no ano 2000, época em que foi fazer um mestrado em negócios internacionais. “Fiquei lá dezesseis meses, mas vinha ao Brasil ao final de cada 90 dias. Quando terminei o mestrado, ao invés de trabalhar em empresas,  resolvi me dedicar ao café”.

 

Processos e métodos inovadores

O viveiro de cafés: processos e métodos de controle rigorosos.

Decidido, Henrique continuou ainda a desenvolver processos e métodos inovadores dentro da fazenda, aumentando a produção. Logo, ele passou a se dedicar também à exportação de cafés especiais não só da produção da Fazenda Samambaia como também de produtores vizinhos.

O que era um considerável desafio logo se transformou em êxito. No ano 2000, os produtores fundaram a instituição Sancoffe — Cooperativa dos Produtores de Cafés Especiais de Santo Antônio do Amparo. “Me dediquei a motivar os produtores, dividir técnicas e métodos de preparo pós colheita”, conta Henrique Cambraia. O empresário lembra que apoiado pelos colegas cooperados, “coloquei a mochila nas costas e fui vender café pelo mundo”. Segundo ele, a empreitada lhe deu a oportunidade de adquirir informações, de conhecer muitas coisas relativas ao outro lado dos países consumidores: “percebi o que eles buscavam e trouxe essas demandas para o nosso campo de trabalho, para dentro da fazenda — sempre evoluindo e melhorando os nossos processos e os nossos métodos de produzir cafés especiais”.

Porém, uma vez consagrado o termo,  como explicar o conceito café especial? Henrique Cambraia responde: “É o café cultivado em uma região — que tem o potencial para produzir uma bebida superior — por meio de manejos sustentáveis. São métodos e processos que precisam ser colocados em prática no chão da fazenda. Os cafés precisam possuir atributos de qualidades superiores que precisam ser percebidas pelo consumidor. Essas condições só serão alcançadas pelos cafés que passarem por uma rastreabilidade completa:  ela começa no produtor e chega à lavoura dele; passa pela variedade daquele café e pelos procedimentos adequados de pós colheita. Portanto, são importantes exigências dentro dos processos produtivos que garantem a credibilidade para que você possa ratificar a condição de um café especial”.

 

Altitude média de 1.100 metros

Do chão da fazenda ao consumidor na cafeteria, oferta de alta qualidade dos cafés especiais.

Em quase 19 anos de existência da Sancoffe, os cafés produzidos em Santo Antônio do Amparo adquiriram uma grande relevância nos mercados brasileiro e internacional. A cooperativa reúne 20 fazendas que estão localizadas em uma mesma micro região que engloba o município. Todas as propriedades estão em uma altitude média de 1.100 metros,  considerada pelos mais renomados especialistas como ideal para cultivar cafés especiais.

Henrique Cambraia concorda que a altitude e a região, além da qualidade do solo, representa uma boa vantagem e pode ser considerada como “‘uma bandeirada inicial” para se obter sucesso na produção. Ele reconhece que no futuro, com a utilização de “métodos e processos diversos”, será viável conseguir colocar atributos de bebidas especiais em cafés plantados em locais de baixa altitude ou de clima quente.  Henrique, todavia, pondera que ainda “não existe um completo domínio dos processos e métodos, que possam  garantir uma produção em escala”. “Então, nos dias de hoje, as regiões acima de mil metros, ou de mil e duzentos metros, tem um potencial muito maior de  produzir cafés de qualidade”, arremata.

 

Foco em sustentabilidade

 

Estas quase duas décadas dedicadas à cafeicultura — no que se refere ao trabalho liderado por Henrique Cambraia — honram as tradições de mais de um século na história da família. Pois foi justamente a força desta tradição que atualmente move a empresa Cambraia Cafés, que vai completar nove anos de existência em 2019. O ‘site’ é claro e objetivo quando descreve os princípios da empresa: “com foco em sustentabilidade, a Cambraia possui produtos totalmente certificados, desde as fazendas até o processo industrial. Estão entre os principais certificados os selos BSCA, UTZ, Rainforest Alliance, Fairtrade, IBD (orgânico) e estamos registrados na BRC Food Safety pela DNV. Com um produto diferenciado, a empresa tem total controle sobre todo o processo, sendo capaz de manter uma produção onde não existe perda de qualidade. A Cambraia oferece cafés exclusivos e consistentes à disposição do mercado, vindo direto das fazendas e da torrefação até chegar a sua xícara”.

 

Conceitos bem definidos

O consumidor final e o mercado da experiência de saborear um café especial: expansão irreversível.

Até chegar a esse atual estágio de crescimento e desenvolvimento, a empresa da família, conforme conta Henrique, foi estruturada a partir de conceitos muito bem definidos: “montamos a indústria com dois propósitos. Primeiro, tratamos de criar uma marca no mercado nacional e levar a nossa viagem aos consumidores brasileiros de cafés especiais. Trata-se da viagem da cafeicultura da família Cambraia”, filosofou. “O segundo objetivo era poder levar ao consumidor internacional um café que foi produzido, torrado, empacotado e exportado pelo produtor. Então, assim nasceu a Cambraia Cafés”,  decretou.

Henrique, todavia, explica que hoje a Cambraia Cafés absorve uma pequena parte da produção, em torno de 20%, “mas é uma indústria que ainda vai fazer nove anos”, justifica. O empresário acrescenta que a empresa segue “passo a passo” trabalhando para conquistar principalmente os mercados norte-americano e o brasileiro, especialmente nos estados de Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais. “Temos um projeto que objetiva entrar com mais força no mercado a partir de 2020”, como ele detalha: “o mercado brasileiro está cada dia mais maduro, então a família Cambraia atua em importantes frentes estratégicas: produz cafés verdes que são vendidos para torrefações — sejam no Brasil ou no exterior — com a marca Fazenda Samambaia. A partir do projeto de uma torrefação própria, hoje a gente pode atuar em redes de supermercados nos Estados Unidos e também em redes nos estados de Santa Catarina, São Paulo e Minas Gerais. Na grande Belo Horizonte, contamos com uma distribuição que chamamos de HORECA (Hotels, Restaurants and Coffeteries) gerida por minha irmã, Sílvia Cambraia. Atendemos com os nossos cafés restaurantes, cafeterias e hotéis”, finaliza.

 

Evolução do mercado

Plantação das fazendas Cambraia e Santo Antônio do Amparo ao fundo.

Uma outra ponta da conjuntura do setor analisada pelo empresário e cafeicultor Henrique Cambraia é relacionada à evolução do mercado desde quanto ele iniciou os seus empreendimentos em 1998. A grande evolução mercadológica ocorrida neste período, na opinião dele, pode ser ilustrada com o seguinte  fato: em 1999, houve um concurso promovido por produtores em parceria com a OIC (Organização Internacional do Café). Os vencedores ganharam notas entre 80 e 81 pontos. Em um concurso realizado em 2018, os ganhadores chegaram a 93 pontos. “Nós mesmos tivemos um café lá da fazenda Campo Alegre, que faz parte do grupo Fazenda Samambaia, que ficou em 5o lugar. Foi um café que chegou a 91 pontos, o que para nossa região é espetacular”, recorda-se.

Henrique prossegue o seu raciocínio lembrando que  naquele período o torrador, por exemplo, só queria saber de onde vinha o café, de qual fazenda e região. O que caracteriza, na opinião dele, a significativa mudança no mercado internacional de cafés especiais é que “não só o torrador, mas todos os envolvidos com o negócio querem conhecer de perto a história que existe naquele saco de café”. Para o diretor da Cambraia Cafés, todos querem saber de tudo. Quem produziu o café, qual é a história do produtor, quais foram os cuidados que o cafeicultor teve com a produção e qual a região dele. E, mais a fundo, qual é a variedade do café, como o café foi processado no pós colheita, se ele é fruto de colheita seletiva ou resultado de colheita mecanizada ou ainda se foi seco num processo não natural ou se foi seco em secador.

 

Mercado de experiência

Esta detalhada e cuidadosa análise de Henrique Cambraia chega em um ponto que para ele é fundamental. “As grandes mudanças que ocorreram ao longo dos últimos vinte anos estão relacionadas ao um fator definitivo: todas essas informações são levadas para o consumidor”.

As argumentações dele continuam com outros exemplos: “o fator competição está  tão grande que uma determinada cafeteria pode se diferenciar da outra no momento em que o seu proprietário informa ao cliente sobre a origem do café que ele vai consumir, sobre como trabalha o produtor e sobre como é a região onde o café  foi cultivado. O barista dono de uma cafeteria, na realidade, leva o consumidor final para uma viagem por meio de uma xícara de café. Portanto, o hábito de se tomar café caminha para ser identificado como um mercado de experiência, ou seja, o hábito de saborear um ótimo café torna-se um grande prazer —  assim como é o hábito de saborear vinhos de qualidade. Para esse ‘mercado de experiência’, o céu é o limite. O mercado dos cafés especiais caminha velozmente nesta direção.

 

Potencial turístico

A tradição do cultivo dos cafés especiais está registrada na história das Fazendas Cambraia. Foto André Sena.

Otimista, Henrique faz uma comparação ousada para ilustrar o potencial do mercado de experiência relacionado ao consumo de café. “Um apreciador de vinhos quando aprecia um vinho da Califórnia, da região de Sonoma, ele se conecta automaticamente à história daquele lugar. Ele um dia vai querer visitar aquela região e aí experiência dele ficará ainda mais completa.”

No caso específico do café, Henrique tem como exemplo um fato que aconteceu em uma viagem recente que ele fez a Dubai, nos Emirados Árabes Unidos.  Um torrefador local é cliente dos Cafés Cambraia e, além de vender para as cafeterias do país, ele é proprietário de uma rede de cafeterias. Este empresário pretende montar uma empresa de turismo exclusivamente para  trazer consumidores e baristas para visitar as regiões produtoras dos cafés que ele compra. “Então, esse cliente e eu, passamos a discutir um negócio de experiência”, afirma. “Está muito próximo o tempo em que o produtor precisará de ter as suas ‘reservas especiais’ de café. Aquelas bebidas que irão contar a sua história como cafeicultor. O consumidor já pede isso”, garante.

BOXE!

 

Henrique Cambraia: mercado, métodos e processos.

O produtor precisa

aprender a vender

— Na sua opinião, por que são tão frequentes as consideráveis — vamos dizer assim — variações de preços da commodity café?

— O café é a segunda commodity mais comercializada no mundo. Nesta condição, é necessário que exista uma bolsa que dê condições aos torrefadores de proporcionar às redes de supermercados a menor variação possível de preços. Esse seria o papel da bolsa. Infelizmente, mais e mais as commodities passam a ser especulativas. Na verdade, como é que o mercado funciona: ele antecipa uma expectativa de movimento futuro, então enquanto o café for uma commodity — e eu acho que ele nunca vai deixar de ser — as oscilações da bolsa vão sempre existir. Embora haja um considerável aumento dos consumidores de cafés no mundo, o mercado se move por meio do café solúvel e dos cafés de entrada. É claro que será muito difícil a gente ver um consumo em massa dos cafés especiais. Porém, esse consumo em massa passa por estágios, principalmente no que se refere ao poder de compra. Seja na Índia, na China, no México ou no Brasil, o poder de compra da massa é baixo. Então, nós estamos falando de um produto de baixo valor agregado.

— O que o produtor precisa fazer para ser mais competitivo no mercado?

— O produtor brasileiro precisa aprender o seguinte: vender quando tiver na alta. Se ele não tiver café disponível, que venda o que vai produzir no ano seguinte ou nos próximos dois anos. As ferramentas de mercado criam condições para produtor vender safras futuras. Ocorre que o produtor parece ignorar essa possibilidade. Ele sempre acha que o preço vai melhorar, e acaba perdendo  boas oportunidades. Daí, a culpa sempre é da bolsa. Produtor de commodity, seja soja, carne ou café, precisa aprender três coisas: quando estiver bom, vende. Quando estiver muito bom, vende mais. Quando estiver excelente, vende tudo que tem, o que não tem e o que ele acha que terá. O produtor brasileiro precisa aprender a vender. Outra coisa que o produtor precisa se conscientizar é sobre a necessidade dele manter uma reserva de liquidez. Nos momentos de baixa, ele vai precisar, no mínimo, de ter credibilidade junto aos Bancos para conseguir crédito. Além do mais, com um capital próprio (ou o mesmo com o seu estoque de café) ele ganha condições de segurar a produção. Por último, o produtor precisa ter eficiência operacional. É necessário administrar a produtividade dos insumos, usar menos insumo com mais eficiência e eficácia, na hora certa e da maneira correta. Da mesma forma, ele deve lidar com a mão de obra: contratar na hora certa, do jeito correto, sempre em busca de gerar o máximo em  resultados. Quanto aos maquinários, nem se fala: a eficiência operacional é obrigatória.

— Quanto aos cafés especiais, há uma dinâmica diferenciada de mercado?

— Os cafés especiais permitem que o produtor fuja desta roda viva  commodity, utilizando–se de 10 ou 20% da sua produção. É inegável a valorização do produto e os mercados crescem nos principais centros de consumo do mundo. É uma realidade irreversível de mercado.  Há um outro fenômeno que vem acontecendo na produção de cafés especiais: o produtor consegue resgatar os jovens — os filhos e netos — para dentro da fazenda. Produzir café especial passou a ser “cool”. Os cafés especiais estão conectados com as cidades mais cosmopolitas do mundo por causa do ‘boom’ das cafeterias. Cultivar e produzir café especial, além de ‘cool’, ou ‘sexy’, como costumo dizer, é agora uma realidade ‘pop’, provoca uma mobilidade contemporânea entre os grandes centros e as fazendas. É, portanto, mais um exemplo de sustentabilidade da cafeicultura.