Encantos a céu aberto

O trajeto de Ouro Preto até as águas mansas do mar de Paraty guarda muitas surpresas indescritíveis. Visitar os tantos encantos e atrativos históricos dessas trilhas é como viajar no tempo. A extraordinária Congonhas, no Caminho Velho, exige uma bela parada para contemplar um dos maiores tesouros do Barroco Mineiro: o Santuário do Senhor Bom Jesus do Matozinhos — consagrado Patrimônio Mundial da Humanidade, em 1985, pela Unesco.

No adro da igreja, reinam solenes as esculturas que representam os doze profetas. Estas impressionantes obras foram esculpidas em pedra sabão por Aleijadinho.

As esculturas dos profetas foram encomendadas ao genial artista em 1795, época em a doença degenerativa de que sofria já estava em estágio avançado. Ele, porém, concluiu o trabalho em 1805. Os doze profetas se tornaram sua obra prima.

O complexo do santuário se completa com as seis capelas que simbolizam os Passos da Paixão de Cristo. No interior de cada uma delas, estão as impressionantes esculturas de cedro de autoria de Aleijadinho e colorizadas por Mestre Athayde.

À noite, a belíssima iluminação especial do Santuário de Bom Jesus de Matozinhos é mais um belo atrativo.

Tiradentes universal

Uma das cidades mais charmosas de todo o circuito a Estrada Real é a encantadora Tiradentes, no Caminho Velho. A cidade, que surgiu por volta de 1700 com a chegada dos bandeirantes, preserva as suas ruas de paralelepípedo e os seus casarões coloniais, muitos transformados em lindas pousadas, bares e restaurantes.

Tiradentes tem importantes construções do século XVIII. A Matriz de Santo Antônio é uma delas. A igreja, de 1710,  tornou-se uma das construções mais importantes do Brasil colonial e também uma das mais ricas: o interior da igreja é decorado por imensos lustres de prata; a nave possui seis altares em estilo barroco, com amplas colunas, vários anjos e um esplêndido douramento. Em 1778, chegou outro item de grande valor diretamente de Portugal: um órgão em estilo rococó, pintado com tons de bege, rosa e azul e bordado com folhas de ouro.

Um passeio relaxante é descer a rua da bela Matriz em direção ao Largo das Forras, um espaço aberto e bem arborizado no centro da cidade, onde a população e os turistas se misturam para descansar e comer pipoca. Pelo caminho, vale a pena passar na Câmara Municipal. Construído em meados do século XVIII, o lindo casarão tem uma varanda enorme sustentada por colunas que formam arcos próximos ao teto.

Pouco antes de chegar ao Largo das Forras, o Chafariz São José desperta curiosidade. As três carrancas de pedra feitas para abastecer a cidade com água potável funcionam até hoje, 265 anos depois da sua construção. É comum ver pessoas matando a sede no chafariz em dias em que o sol não dá descanso.

A outra grande característica a consagrar Tiradentes é a diversificada oferta de atrativos culturais. Tudo começou em 1998, quando um grupo de produtores pensou em criar uma mostra de cinema que pudesse alavancar o recém-inaugurado Centro Cultural Yves Alves, no centro da cidade. A Mostra fez tanto sucesso que não parou mais e influenciou também outros tipos de eventos na cidade. A partir daí, outros festivais pensaram na cidade como um espaço perfeito para grandes encontros: surgiram então eventos como o Festival de Cultura e Gastronomia — consagrado no Brasil e no exterior pela inegável excelência —, o Bikefest Tiradentes, um dos maiores encontros de motocicletas do país, e o Foto em Pauta. “A fotografia mineira certamente é uma das mais importantes no Brasil e festival traduz essa importância. O fato de acontecer em Tiradentes é fundamental para dar identidade ao evento”, afirma Eugênio Sávio, coordenador do Festival Foto em Pauta.

O entorno de Tiradentes tem muito a oferecer. Uma dos passeios mais originais é a viagem de Maria Fumaça até a vizinha São João del Rei. A estação, construída em 1881, é um encanto. O edifício é amarelo com telhados marrons e tem um amplo espaço aberto para receber os passageiros. A locomotiva chega soltando fumaça e fazendo barulho. Pintada de preto e vermelho, até parece de brinquedo. Os 13 quilômetros entre as cidades são percorridos em 30 minutos.

Na vizinha  São João del Rei o que não falta são atrativos como os monumentos setecentistas.

A linda Igreja de São Francisco de Assis (de 1774), leva a assinatura de Aleijadinho na portada principal, precisa ser visitada assim como o Teatro Municipal — monumento de estilo eclético, construído em 1893 e restaurado entre 1922 e 1925. Mas os elementos mais curiosos da cidade são duas pontes de pedra — Cadeia, concluída em 1798, e Rosário, terminada em 1800 — que imprimem um ar quase medieval à paisagem.

Os matizes das águas

Um pouco mais ao sul, ainda no Caminho Velho, existem cidades que foram igualmente desbravadas pelos bandeirantes, mas que chamaram a atenção por outro elemento: a água. O fato de Caxambu, Cambuquira, Lambari e São Lourenço terem fontes de águas com propriedades terapêuticas fez com que o rumo delas seguisse caminhos diferentes, pois nasceram preparadas para receber os turistas.

Estas cidades do circuito das águas contam com uma enorme quantidade de hotéis e pousadas, além de muitos tipos de restaurantes e uma ótima infraestrutura de serviços.

A história de Caxambu é a mais emblemática. As fontes foram descobertas em 1814 e começaram a ganhar fama. Em 1868 o local recebeu uma visita ilustre: nada menos do que a Princesa Isabel, que vinha em busca de cura para a sua infertilidade. Ao curar-se da anemia em uma fonte ferruginosa, conseguiu engravidar! Em agradecimento, ela ergue a igreja de Santa Isabel da Hungria no arraial. As duas principais fontes de água ferruginosa do Parque de Caxambu se chamam Princesa Isabel e Conde d’Eu, nome do seu esposo.

O Parque das Águas de Caxambu foi tombado pelo IEPHA em 1999. Ele é, sem dúvida, um dos locais mais agradáveis que o turista pode encontrar na cidade. Cercado por árvores de folhas de plátano, que no outono se desprendem e criam um lindo tapete com suas várias tonalidades de cores, o parque tem várias atrações. Além das 12 fontes de águas minerais gasosas e medicinais, oferece playgrounds, espaços para andar de bicicleta e patins, jardins com flores e um lago com barcos. Uma atração interessante é subir de teleférico até o mirante, onde reina a estátua do Cristo Redentor. O parque ainda tem um espaço para banhos e terapias.

A linda cidade de Caxambu conta com outras atrações, como feiras de artesanato, visitas a fábricas de roupas e o Museu Histórico de Caxambu, em uma casa colonial pintada de verde e branco onde o viajante pode saber mais sobre a história da cidade. O passeio por esses lugares e pelas charmosas ruas, cheias de casarões antigos bem preservados, pode ser feito em uma charrete.

A vida em Caxambu corre mansa. É exatamente isso que alguns dos visitantes procuram “Para mim, o que a cidade oferece é descanso. Adoro o clima fresco, a receptividade do mineiro, a comida da região. Eu e minha família já viemos várias vezes. Para relaxar eu só consigo pensar em Caxambu”, declara Nizete Maia Rodrigues, 43 anos, contadora carioca, feliz pelo seu primeiro dia de férias.

Em Cambuquira, a 40 km dali, também há um Parque das Águas com cinco fontes com águas dos tipos sulforosa, gasosa, magnesiana e ferruginosa. Há também uma fonte fora do parque, a Marimbeiro. A água que sai dali é uma das melhores do mundo, comparáveis as águas da estância hidromineral de Vichy, na França.

São Lourenço, a cerca de 60 km de distância, também tem um parque de águas com ótima infra-estrutura. São 400 mil m² com bosques e jardins, além de rinque de patinação, playground, quadras de esportes, um lago com pedalinhos e caiaques, dentre outras atrações. Assim como em Caxambu, o Parque de São Lourenço apresenta balneário para banhos, massagens e terapias.

O Circuito das Águas de Minas Gerais foi o primeiro circuito turístico criado no estado. Fazem parte dele dez cidades mineiras que também possuem águas terapêuticas. “A maior parte dos nossos hóspedes vem por causa do Circuito das Águas, dentro do chamado turismo de bem-estar; mas, naturalmente, conseguimos combinar com a marca Estrada Real. Um completa a vocação do outro”, afirma Alexandre Moura, gerente de hospedagem do Hotel Glória, de Caxambu.

Panoramas do alto da Mantiqueira

Dizem que lá do alto das montanhas tudo é mais bonito. Quem passa pelas estradas do Caminho Velho, no sul de Minas, vai concordar. As famosas paisagens sinuosas de Minas Gerais estão no trajeto que leva a Pouso Alto, Itamonte, Itanhandu e a Passa Quatro, as últimas cidades mineiras antes de o Caminho Velho chegar a São Paulo. Além de fazer parte da Estrada Real, elas integram o Circuito das Terras Altas da Mantiqueira, composto por oito municípios.

Passa Quatro merece comentários à parte. Encravada na divisa entre os estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo, tem um clima muito especial. O centro histórico está cheio de casarios do final do século XIX e início do século XX e,  recentemente, foi tombado pelo Conselho Municipal do Patrimônio Cultural.

Em pelo centro histórico está o  maior atrativo da cidade: o Trem da Serra da Mantiqueira. O projeto da Estrada de Ferro Minas – Rio era investir em trilhos e vagões para que os dois estados pudessem realizar trocas comerciais com maior facilidade. Os trabalhos terminaram em 1884 e construiu-se um total de 170 quilômetros de ferrovias. Atualmente, só 20 quilômetros estão funcionando: o Trem da Serra da Mantiqueira, que vai de Passa Quatro até o limite com Cruzeiro (SP), e o Trem das Águas, que mantém viagens entre São Lourenço e Soledade de Minas.

“A procura turística aumentou muito quando o trem voltou a funcionar”, conta Thaiana da Silva Campos, 19 anos, guia turística do Mundo das Miniaturas, feliz em ver a locomotiva, uma Maria Fumaça de 1925, circular novamente. O local onde Thaiana trabalha também é muito frequentado. O Mundo das Miniaturas é um museu que reproduz momentos importantes da história do Brasil. Ao falar da Revolução Constitucionalista de 1932, ela era só orgulho: um dos cenários daquelas batalhas foi a Garganta do Embaú, ponto no alto da Serra da Mantiqueira, há poucos quilômetros dali.

A região também atrai muitos turistas que querem descansar. As baixas temperaturas — que podem chegar abaixo de 0ºC  nos períodos de inverno — são, para muitos, um convite. A região oferece uma grande gama de hotéis de todos os tipos, desde chalés intimistas a grandes redes que oferecem vasta programação de lazer.

“Recebemos grupos e recebemos caminhantes. Algumas pessoas não sabem que a cidade pertence à Estrada Real e quando olham o mapa que colamos aqui na parede ficam encantados”, explica , Daniela Antunes, recepcionista do hotel Recanto das Hortências.

A fé que leva às montanhas

Durante as expedições oficiais que desbravaram o interior do território brasileiro, índios foram catequizados a contragosto, africanos tiveram que silenciar suas crenças e a palavra católica foi espalhada aos quatro ventos.

A religião sempre esteve intimamente ligada às questões políticas durante o período em que o Brasil era uma colônia protuguesa. Hoje, toda cidade tem pelo menos uma igreja com a cruz cristã, que simboliza a grande adesão à religião. O catolicismo se tornou parte da nossa cultura e importantes cidades da Estrada Real vivem a religiosidade com fervor.

O ícone mais forte de devoção talvez seja o de Nhá Chica. “A beatificação dela aconteceu no ano passado, no dia 4 de maio. Vieram mais de 80 mil pessoas”, rememora Rodrigo Nogueira de Almeida, proprietário do Restaurante do Dirceu, da cidade de Baependi. Natural de São João del Rei, Nhá Chica nasceu em 1808 e  mudou-se para Baependi com oito anos de idade. Sempre foi muito religiosa e dedicou a vida a cuidar dos mais necessitados. Rezava preces para a Imaculada Conceição — à qual chamava carinhosamente de “minha sinhá”. Depois de sua morte, aos 87 anos, milhares de fiéis passaram a seguir com muita fé os seus ensinamentos.

Outro importante símbolo de fé é Frei Galvão. Nascido em Guarantiguetá (SP), em uma família abastada, estudou em uma escola de jesuítas e lá aprendeu lições que levaria para toda a vida. Aos 16 tornou-se noviço. Com o fim dos estudos, entrou em recolhimento por anos. Atendia as pessoas de acordo com as necessidades de cada um. Foi canonizado pelo Papa Bento XVI e, desde então, a devoção ao Frei Galvão atrai milhares de turistas para a cidade.

Litoral dourado

As águas mansas que margeiam a linda Paraty escondem o espírito guerreiro da sua gente. A cidade foi fundada em 1667, após revoltas populares contra a vizinha Angra dos Reis, que exercia grande influência política. A cidade se inseriu no ciclo do ouro assim que os metais foram descobertos no interior no país.

Em 1702, ela já funcionava como porto oficial de onde todos os metais deveriam sair. Em 1710, foi revogada a medida que fazia de Paraty um porto oficial e a população sentiu a desaceleração brutal da economia. A partir daí, as mercadorias passaram a ser escoadas diretamente pelo porto do Rio de Janeiro, pelo chamado Caminho Novo.

Paraty ficou esquecida por muito tempo e voltou a despertar curiosidade à época da construção da estrada Rio-Santos, na década de 1970. A linda cidade colonial, cercada de águas por um lado e de altas montanhas verdejantes por outro, foi redescoberta. Em função da estrada, os turistas chegavam cada vez e em maior número.

As instituições também enxergaram a relevância de Paraty. Em 1958, o conjunto arquitetônico e paisagístico da cidade foi reconhecido pela Unesco como o mais harmonioso. O IPHAN tombou elementos típicos da cultura de Paraty como a cachaça, agora patrimônio cultural imaterial do estado do Rio de Janeiro. A população local ainda busca esse reconhecimento para a Canoa Caiçara, tipo de embarcação muito utilizada na costa brasileira, desde Paraty até o norte do estado do Paraná.

Praias, rios, montanhas, natureza, história, cultura. Muita cultura. Paraty é um destino completo. Não é à toa que a cidade é o segundo destino mais procurado pelos turistas no estado do Rio de Janeiro. É quase impossível resistir às ruas de pedra que desembocam serenas no mar.

O passeio pelas ruas é feito à pé ou de charrete, nada à motor circula por ali. Nos percursos, a religiosidade está edificada em várias igrejas, como a de Santa Rita de Cássia — a mais antiga — e a de Nossa Senhora do Rosário, legados da arquitetura jesuítica no Brasil Colônia. Sobrados e casas térreas, geralmente germinados datam do século XVIII e XIX.

Os eventos culturais são inumeráveis.  Um dos mais relevantes é a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), uma fantástica homenagem ao universo da palavra escrita. A primeira edição da Flip aconteceu em 2003 e hoje é consagrada como um dos mais importantes eventos sobre literatura no mundo. A cada ano um escritor brasileiro é homenageado, o que reforça a ideia de que o evento vai muito além de um simples um festival, mas sim uma verdadeira celebração da literatura (e da cultura) em toda a sua essência.