Não existem palavras ou expressões suficientes para bem descrever a paradisíaca Caraíva e o esplendor das paisagens das praias do Espelho e do Curuípe: é preciso contemplar esses lugares com os próprios olhos e visitá-los numa viagem para nunca mais ser esquecida.

Reportagem: Assad Abrahão
Fotos: Jean Yves Donnard / Augusto Almeida

Inegavelmente, não é lá muito fácil de chegar! A estrada de terra precisa ser enfrentada com um pouco de paciência. Todavia, de repente, surge um rio largo e caudaloso, adornado por manguezais e singrado por canoas e barcos de todos os tipos. É o rio Caraíva que desce luminoso rumo ao seu encontro com o mar a poucos metros dali. Do outro lado, avista-se uma série de casinhas coloridas assombreadas por árvores frondosas e coqueirais. Definitivamente, uma vista linda, inesquecível.

Para seguir viagem, é preciso cruzar o rio em uma das várias canoas que fazem o transporte. Os carros ficam parados em estacionamentos na margem do rio. Não existe tráfego de veículos no local, mais uma vantagem que torna a antiga vila de pescadores um destino turístico absolutamente irresistível. É muito agradável poder caminhar tranquilamente nas suas charmosas ruas e travessas cobertas de areia.

Caraíva começou a ser descoberta pelos turistas no início da década de 80. Os primeiros a chegar eram aqueles com espírito aventureiro, dispostos a descobrir recantos paradisíacos de natureza exuberante e ainda preservada. As hospedagens eram em barracas ou em casinhas disponibilizadas pelos pescadores. Não havia energia elétrica — que, aliás, chegou há pouco mais de dois anos. Por isso, era preciso estar equipado com lanternas, lampiões e muitas velas. Porém, pode parecer inacreditável, não fazia muita falta até porque realçava ainda mais o indescritível esplendor das quentes noites estreladas ou de lua cheia.

No decorrer dessa mesma década, começaram a surgir pousadas e restaurantes e o desenho urbano que existe atualmente. Hoje, os meios de hospedagem — a maioria bem estruturada e de bom gosto — oferecem serviços de qualidade, mas sem muitos luxos, apesar de haver opções para os turistas mais exigentes.

Assim como Arraial D’Ajuda e Trancoso, Caraíva recebe turistas de diferentes cantos deste vasto Brasil e é destino de muitos europeus. Os mais jovens, como os estudantes universitários,  consagraram o vilarejo como destino principal na alta temporada de verão. Entretanto, mesmo nessa época, o sossego e a paz imperam.

O lugar é vasto e são muitas as opções de passeio. Uma ótima pedida é caminhar na rua ao longo do rio até chegar à barra com o mar. O encontro do rio Caraíva com o oceano Atlântico é de arrepiar, as belezas se multiplicam diante dos olhos, é sublime. A praia que se forma à beira do rio próximo à arbentação é perfeita e é a preferida dos turistas.

À direita da barra, surge a praia principal com o mar um pouco mais agitado, mas muito agradável pela transparência, temperatura das águas e areais muito alvos. Caminhando rumo ao sul por seis quilômetros, chega-se à aldeia pataxó da Barra Velha, onde é possível adquirir peças do artesanato típico em madeira, como utensílios de cozinha, cestos, colares e pentes. Mais outros seis quilômetros e chega-se à deslumbrante ponta do Corumbau. É uma longa caminhada, exige disposição, mas é inesquecível.

Rumo ao norte das belezas

Os passeios rumo ao norte também garantem momentos de pura emoção. É preciso primeiro atravessar o rio a indescritível Caraíva, preferencialmente na maré baixa, para que linda e quase deserta praia se abra diante dos olhos. É a praia de Juacema, que merece ser apreciada e percorrida vagarosamente. Após três quilômetros de caminhada, ao cruzar a ponta dessa praia, chega-se à praia do Satu. Esse lugar é ideal para ficar um bom tempo em paz, uma vez que é recanto repleto de belezas, perfeito para aproveitar cada segundo. Satu é um pescador que mora há muitos anos com a família nessa praia numa casa debaixo de grandes amendoeiras. Além da pesca, ele e a família sobrevivem da venda de água de coco, de doces, como a tradicional cocada baiana, e de artesanato. A poucos metros da casa do pescador fica uma irresistível lagoa de água doce. É uma delícia ficar ali por horas no mais pleno relaxamento.

Outros seis quilômetros de caminhada por uma extensa praia chamada Jacumã podem ser percorridos com relativa facilidade. É uma praia deserta para ser contemplada com calma e vale muito a pena parar por alguns instantes e se banhar nas águas calmas e mornas. Jacumã forma uma enseada e termina no sopé de uma alta falésia avermelhada. Por uma trilha, é preciso atravessar a falésia para chegar à estupenda Praia do Espelho, tida como uma das mais lindas do Brasil. A praia começa na ponta da falésia, segue graciosamente desenhando com uma faixa de areia o paredão avermelhado até chegar às piscinas naturais onde desemboca o ribeirão do Espelho.

Logo à frente, surge a Praia do Curuípe, uma graciosa enseada emoldurada por coqueirais, vegetação de restinga e Mata Atlântica. Na verdade, todo esse trecho abençoado do litoral hoje é mais conhecido como Praia do Espelho, mas o pequeno povoado de pescadores sempre foi chamado de Curuípe.

É nele que estão as barracas de praia que oferecem os mais variados pratos, da cozinha internacional à tradicional culinária baiana, além de grande variedade de frutos do mar preparados com os mais exóticos temperos. Depois de saborear deliciosas iguarias, pode-se descansar nas espreguiçadeiras cobertas com almofadas que ficam espalhadas à beira mar. Para hospedagem, é possível escolher entre charmosas pousadas, uma garantia do mais absoluto sossego.

Logo após a Praia do Curuípe, não deixe de descobrir um pequeno paraíso: a Praia do Amores, uma pequena enseada deserta e linda, mais que perfeita para um passeio romântico.

O retorno pra Caraíva deve ser feito pelo mar. É interessante alugar uma escuna ou um barco de pescadores para fazer o trajeto de volta, revendo de outro ângulo as belezas que no distante ano de 1500 Pero Vaz de Caminha assim descreveu: “Traz ao longo do mar, em algumas partes, grandes barreiras, umas vermelhas, outras brancas, e a terra de cima é toda chã e muito cheia de arvoredos. De ponta a ponta, é toda praia … muito chã e muito formosa!”