Luzes na escuridão

Estruturas com iluminação e passarelas abrem os ambientes inóspitos das grutas e cavernas mineiras para o turismo.

Reportagem Natália Martino
Fotos Marcos Amend

 

Uma tapeçaria branca e brilhante leva até uma formação de mais de sete metros de altura. É como um urso sob o pedestal. Dos dois lados, o mesmo brilho da tapeçaria se repete nas nuances das paredes, que criam uma espécie de anfiteatro. O ambiente é todo forjado por espeleotemas, formações típicas de grutas e cavernas. Quando os presentes se calam, seus ouvidos se tornam testemunhas da lenta história geológica dessas obras de arte naturais — o silêncio é quebrado por gotas d’água que encontram o chão depois de deslizar do teto carregando minerais que, ao longo de milhares, talvez milhões de anos, formarão novas “esculturas”. Luzes estratégicas iluminam as formas mais exóticas ou belas. O enorme salão, de mais de meio quilômetro de comprimento, é a terceira das sete câmaras que formam a Gruta de Maquiné, localizada no município de Cordisburgo, na região central de Minas Gerais.

Cerca de 40 mil pessoas a visitam anualmente. Um dos brasileiros mais célebres que já pisaram em Maquiné, Guimarães Rosa, disse que “ali dentro a gente se esquecia numa admiração esquisita, mais forte que o juízo de cada um, com mais glória resplandecente do que uma festa, do que uma igreja”. A homenagem está em “Recado do Morro”, conto que originalmente foi publicado na coletânea “Corpo do Baile”. Os espeleotemas que o escritor dos sertões descreveu como “formatos de sonho” não são as únicas belezas do local, que abriga também pinturas rupestres. Ali, o naturalista dinamarquês Peter Lund, considerado o pai da paleontologia no Brasil, encontrou na primeira metade do século XIX inúmeros fósseis de mamíferos extintos.

Rota Lund

Nada disso, porém, diferencia Maquiné das outras centenas de cavidades naturais do país. Sua infra-estrutura turística sim. Em 1967, a gruta de Cordisburgo recebeu altos investimentos governamentais para implantação de escadas, passarelas e iluminação. Hoje, Minas Gerais conta com outras duas grutas com a mesma infra-estrutura, a da Lapinha, no município de Lagoa Santa, e do Rei do Mato, em Sete Lagoas. Juntas, elas formam a Rota Lund, em homenagem ao naturalista dinamarquês. “Não há em outro Estado do país cavidades com tamanha preparação para o turismo”, diz o arqueólogo Cástor Cartelle, curador da coleção de paleontologia da PUC Minas. O pesquisador é favorável às intervenções, pois acredita que todos — crianças, idosos e deficientes físicos — devem ter acesso a esse patrimônio natural. Ele baseia-se na velha premissa de que “só se cuida do que se conhece” para defender o turismo nas grutas e cavernas. “Já vi prefeituras até descarregando o lixo do município dentro de suas cavidades. Isso não aconteceria se a população entendesse a importância desses espaços”, afirma. Cartelle acredita que, pelos impactos que provoca, o turismo não deve ser feito em todas as grutas, mas que abrir algumas delas é importante para criar a consciência de conservação. 

Tesouros que permanecem escondidos

A grande maioria das quase 5 mil cavidades naturais de Minas Gerais é protegida por áreas de preservação nas quais só se entra com autorizações especiais, concedidas, em geral, a pesquisadores. O Estado é a sede do maior número de grutas e cavernas do Brasil e a uma das grandes dificuldades enfrentadas em sua conservação é o número reduzido de pesquisadores. Só no Parque Nacional Cavernas do Peruaçu, no norte de Minas Gerais, por exemplo, são 140 cavernas e grutas. Em algumas delas, encontram-se registros de picoteamento, desenhos feitos em baixo relevo por homens primitivos com ferramentas parecidas com picaretas. Ao contrário das pinturas rupestres, esses registros não são comuns. O problema é que tesouros como esse seguem incompreendidos, já que o número de paleontólogos no país é muito pequeno. “Além do número reduzido de profissionais, temos também que enfrentar outras dificuldades. Uma escavação demora anos e muitas vezes o financiamento acaba antes das pesquisas. Em Peruaçu há ainda o problema do mosquito da leshimaniose, que já infectou pesquisadores e agora ninguém quer voltar para lá”, explica Cástor Cartelle.

Mínima e máxima relevância

Sem estudos, não é possível determinar qual cavidade poderá ser explorada turisticamente. Hoje, os critérios que vão estabelecer o grau de relevância das cavernas e grutas são definidos pelo decreto 6.640, de 2008. A classificação vai de relevância mínima à máxima. Aquelas que estiverem no grau mais baixo podem ser alvo de qualquer tipo de exploração econômica, mesmo as de grande impacto, como a mineração. Já nas cavidades de máxima relevância, a única atividade possível é o turismo. “A visitação, se bem planejada, não causa grandes impactos”, diz Jocy Brandão Cruz, coordenador do Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Cavernas (Cecav) do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio). Cruz explica que, apesar disso, nem toda caverna e gruta pode ser alvo de exploração turística, tudo depende dos estudos para licenciamento, que vão determinar o grau de sensibilidade do local. “Se a entrada de uma caverna é muito pequena, por exemplo, sua troca de calor e de partículas com o ambiente externo foi mínimo ao longo dos séculos. Nela, a entrada de uma dezena de visitantes diariamente poderia alterar drasticamente a fauna local”, explica.

Turismo sustentável

O coordenador do Cecav lembrou que são os estudos determinam não apenas a forma de exploração da caverna, mas também as intervenções que serão permitidas. Hoje, dificilmente uma cavidade receberia a infraestrutura observada nas três grutas mineiras abertas para a visitação, pois a legislação não permite mais tantas intervenções. Com o avanço da legislação e a criação do Cecav, que passou a regulamentar e fiscalizar a conservação de cavernas, as grutas mineiras também receberam melhorias para que os impactos do turismo sejam ainda mais reduzidos. As três grutas estão hoje em áreas de preservação ambiental e a visitação é controlada. Algumas guardam registros de outra época, quando não havia esse controle. Quem vai, por exemplo, à Gruta da Lapinha, observa pichações nas paredes da cavidade, memória inegável de visitações mal feitas nos primórdios do turismo na região. A maior parte desses danos remete à década de 1970, quando moradores do entorno promoviam churrascos nas entradas das grutas e cavernas. Os espeleotemas eram muitas vezes quebrados e transformados em souvenires do local. Nada disso é mais possível, já que a visita agora é feita com guias especializados do Parque Estadual do Sumidouro, criado em 1980 para preservar a região.

Sistemas vivos

Outras mudanças foram feitas para reduzir ainda mais os impactos do turismo. A geógrafa Carla Alves, que trabalha no Parque do Sumidouro com a ONG Guano Espeleo, conta que algumas áreas da Gruta da Lapinha, visitadas durante décadas, foram fechadas para turistas. “Começou a se observar o impacto da passagem de muitas pessoas na população de morcegos que vivia ali, então a área foi fechada”, diz. Além disso, ela cita reformulações nas estruturas, como troca de lâmpadas amarelas por luzes de led, que não impactam tanto na temperatura local. Mudanças como essas, aliadas à maior preservação do entorno, já mostram seus benefícios. “Hoje observamos aumento do gotejamento, que é o fenômeno formador dos espeleotemas, na Lapinha e em muitas outras cavidades do Sumidouro”. Para a geógrafa, a razão mais importante é a preservação do entorno, agora nos limites do parque. “Não dá para falar em conservação de cavernas sem preservar do lado de fora, é tudo um sistema”, afirma.

Com o aumento da intensidade dos gotejamentos, as cavernas voltam a ser sistemas vivos. Novos espeleotemas vão se formando, surgem e ressurgem novos grupos de animais adaptados à escuridão dessas cavidades que agora trocam partículas como o gás carbônico também com os visitantes. Olhares maravilhados de crianças, jovens e adultos descobrem um mundo inesperado e se preparam para os desafios de preservá-lo.

O que levam as escavadeiras

Há muitas críticas sobre o turismo em cavernas, mas para o arqueólogo Cáster Cartelle não podemos ser tão radicais. Ele diz que, no lugar de ficarmos nos preocupando com a visitação dessas cavidades, deveríamos cuidar de atividades muito mais destrutivas, como a mineração.  “Aqui em Minas Gerais tínhamos a Gruta dos Cristais, cheia de cristais de calcário de diversas cores, uma coisa maravilhosa. Tínhamos também a Lapa Vermelha, a primeira onde encontramos vestígios humanos no Brasil. Tudo desapareceu por causa da mineração”, conta. Até 2008 todas as cavidades naturais eram consideradas relevantes e não poderiam ser alvo de exploração econômica. O decreto  decreto 6.640 criou uma classificação das grutas e cavernas de acordo com a qual seria possível explorar algumas delas — mesmo que isso custasse seu desaparecimento em alguns casos.

A legislação rendeu muitas críticas de espeleólogos. Cástor Cartelle, por exemplo, diz que não acredita ser necessário destruir essas cavernas para explorar minerais. “Em Minas temos calcário em vários lugares, a única razão para quererem tirar exatamente as que estão nas cavidades é que elas estão mais externas e mais fáceis de serem exploradas”, afirma.

Mais cavernas registradas

O geógrafo Fabrício Nunez, presidente da ONG Guano Espeleo, também aponta o aumento oficial da destruição, mas pondera que nunca foram registradas tantas cavernas como depois da legislação. “O decreto, junto com a criação do Cecav e o aumento da fiscalização, obrigou as empresas a declararem a presença de cavidades em suas propriedades”, explica. Além disso, ele afirma que houve o aumento da divulgação de dados sobre essas grutas e cavernas. “A legislação pode melhorar, mas temos que ser realistas, a exploração de calcário e ferro não vai parar”, diz.

De acordo com o coordenador do Cecav, Jocy Brandão Cruz, o órgão está revendo a metodologia de classificação das cavernas para garantir que os estudos sejam os mais precisos possível. “Acreditamos que no segundo semestre desse ano já teremos a norma revisada, que vai reduzir as dúvidas nos estudos”, diz. Para Fabrício Nunez, do Guano Espeleo, a medida mais importante seria determinar parâmetros diferentes para cavidades de minerais diversos. “Uma caverna de carbonato com 40 m2 pode ser considerada pequena, mas uma de ferro do mesmo tamanho é enorme. Não podemos usar os mesmos parâmetros”, defende. Seja como for, não são os turistas que estão ameaçando as cavidades naturais do Estado, são as escavadeiras das mineradoras.