Cerveja especial, bebida sofisticada 

Falar de Estrada Real é também falar da mistura de culturas, crenças e hábitos que constituíram o povo brasileiro. Entretanto, ao passo que se exploravam ouro e pedras preciosas, um mundo inteiro se descobria paralelamente — nos sentidos, ambições e, também, nos sabores.

No século XVIII Minas Gerais vivia o auge do ciclo do ouro naquele Brasil que se formava ainda muito dependente de Portugal. Na gastronomia — que de acordo com alguns historiadores, é fator importante na construção de uma nação —, os pratos europeus predominavam na corte, assim como a predileção imposta dos vinhos portugueses.

Todavia, outras histórias e descobertas do paladar aconteciam nas expedições colonizadoras mundo afora. Os ingleses, por exemplo, sempre tiveram predileção pela cerveja — que era indispensável a bordo dos navios. Porém, eles estavam com sérios problemas para conservar a bebida  durante  as longas travessias pelos oceanos. A cerveja era exigida tanto pelos marinheiros quanto pelos militares que serviam os exércitos da Inglaterra que estavam espalhados por suas colônias mundo afora.

Após exaustivas pesquisas, os ingleses descobriram o lúpulo, ingrediente até então não utilizado como ingrediente de fabricação da cerveja. A ação do lúpulo aumentou o seu teor alcoólico e inibiu a atividade microbiológica, conservando-a por mais tempo. A cerveja ganhou o nome de India Pale Ale — inspirado nas longas viagens à Índia, então colônia inglesa —, uma adaptação das tradicionais English Pale Ales, porém com mais corpo e amargor.

Saúde, prosperidade e realeza

A relação entre a criação da cerveja que ganhou o lúpulo e a Estrada Real pode parecer estranha. Mas foi essa a inspiração dos irmãos Falcone, proprietários da Falke Bier — localizada no Condomínio Vale do Ouro, a 35 km de Belo Horizonte, município de Esmeraldas — quando receberam a tarefa de criar, em 2008, a cerveja da Estrada Real. “Se a Inglaterra tivesse colonizado o Brasil, qual cerveja sairia de Manchester, cruzaria o equador, chegaria em Paraty e subiria em lombo de burro para uma jornada durante quatro semanas até Diamantina ou Ouro Preto? A cerveja India Pale Ale”, afirma Marco Falcone, um dos proprietários da Cervejaria Falke Bier, junto com os irmãos Ronaldo e Juliana Falcone. Foi assim que nasceu a cerveja Estrada Real India Pale Ale Falke Bier.

As particularidades de cada cerveja estão relacionadas com a história e tradições de cada lugar. Sabe-se que Alemanha e Bélgica são conhecidas mundialmente pela paixão pela qualidade da bebida. O inglês também honra a bebida e não vive sem a ‘pint’ após o expediente. Já o brasileiro leva a sério a cerveja como um agregador social, dividida nos copos presente na mesa do bar, muitas vezes com uma única condição: que esteja estupidamente gelada.

Entretanto, algo se inverteu nos últimos anos, principalmente em Minas Gerais. A bebida, que inunda os copos dos mineiros, apaixonados pelos famosos “botecos”, ganhou rótulos e características especiais que remontam aos primórdios da arte de fazer cerveja. É a cerveja artesanal, uma bebida mais do que especial.

Pelos caminhos do bar

Minas Gerais hoje é o segundo Estado produtor de cervejas especiais, atrás apenas de Santa Catarina, de acordo com o Sindicato das Indústrias de Cerveja e Bebidas em Geral do Estado de Minas Gerais (SindBebidas-MG). Por isso Minas ganhou a alcunha de “Bélgica brasileira”.

Em Belo Horizonte, famosa como a capital dos bares, já existem roteiros que levam turistas e aficionados  às cervejarias artesanais como a Falke Bier, fundada em 2004.

Visitar a Falke Bier é ser brindado com uma verdadeira aula de história. Marco Falcone tem na ponta das suas papilas gustativas um bom caso para cada cerveja que apresenta e ensina, com esmero, como degustar. A cervejaria produz sete rótulos que vão para vários lugares do Brasil; dois são só vendidos em Chopp em Belo Horizonte e outros dois são licenciados da Estrada Real — a India Pale Ale e a Estrada Real Wiess (trigo), criada dois anos depois da primeira e que também tem história. Na Baviera, em torno de 1500, havia escassez de trigo, pois esse era usado para fazer pão. A cerveja só era feita com malte de cevada, lúpulo e água. Como era preciso muito trigo para o pão, proibiram o uso do malte de trigo na cerveja. A não ser para a realeza, é claro. Hoje, a Estrada Real Wiess, é nobre no nome e o sabor, mas pode ser tranquilamente degustada pelos apaixonados por uma boa cerveja de estilo alemã.

Na parceria com a Estrada Real, a Falke Bier produz cervejas com um apelo bem voltado para a mineiridade, como explica Falcone: “a  Ouro Preto e a Diamantina são as primeiras e únicas cervejas brasileiras produzidas com malte torrado na fábrica; isso proporciona um sabor único de café”, conta Marco.

No rótulo da primeira, está impressa a igreja São Francisco de Assis, a obra mais impressionante do barroco mineiro.

Já a cerveja Villa Rica, é do estilo irlandês ‘dry stout’, com levedura de alta fermentação. Uma aquarela de época da cidade ilustra a cerveja — arte, história e sabor, muito sabor. “A história está impressa nos rótulos, o que inspira a quem bebe a oportunidade de discutir cultura.”

A Falke Cervejaria se consolidou ao investir cada vez mais na produção de qualidade, além de conquistar uma série de premiações. Com os rótulos Estrada Real, ganhou destaque fora de Minas. “As pessoas procuram muito a cerveja por causa do nome. Deu muita visibilidade para Falke”,  garante Marco Falcone.

Qualidade  

A calma e o silêncio da fábrica da Falke Bier  comprovam que a produção é conduzida com paciência e cuidado. Cercado por muito verde dos jardins, o galpão da fábrica — construção inspirada no estilo arquitetônico alemão de Bamberg — é semelhante a casa de campo de tipicamente alemã. Um marco da Estrada Real foi instalado dentro dos limites propriedade e tem uma localização estratégica: fica exatamente em frente ao galpão, um símbolo da bem sucedida parceria.

O processo de produção acontece em um local iluminado e arejado. O malte é estocado em um local com bastante aeração e luminosidade. Depois, ele é moído e colocado em  enormes panelas que ficam na “cozinha”. Em seguida, é feita a brasagem, ou seja, o cozimento do malte. A próxima etapa é selecionar as leveduras da cerveja — há uma levedura específica para cada tipo de cerveja. O processo de produção segue para ser minuciosamente avaliado no laboratório;  finalmente,  é realizado o engarrafamento e a rotulagem.

A garantia da qualidade no processo de produção da Falke está na fermentação prolongada e no uso de malte puro, sem adição de outros cereais. É um fluxo simples, porém complexo.

O novo galpão, em fase final de construção,  será um dos mais modernos do país. A sua capacidade produtiva vai chegar a de 60 mil litros mensais.

Mais do que especial

Algumas cervejas da Falke recebem uma especial atenção. É o caso da Monasterium —Cerveja Belgian Strong Ale, Tripel, a primeira da categoria produzida no Brasil. A partir de  uma receita criada por monges belgas, esta cerveja é produzida com malte de cevada, malte de trigo e aveia. É envasada em garrafas de champagne e passa por um processo de refermentação numa adega subterrânea revestida com pedra fria e mantas que garantem a temperatura constante de 19 graus, sem uso de ar condicionado. Na adega, várias garrafas descansam ao som de cantos gregorianos. Marco Falcone explica que a vibração da música, como uma suave onda, atravessa a garrafa enquanto a levedura está viva. Com isso, seu metabolismo celular é alterado para melhor. “A levedura é vida; do lado de fora, ela pode morrer pela temperatura e pela trepidação”.

Outro irresistível atrativo da Falke fica por conta da degustação da cerveja Monasterium Marco usa um sabre e abre a garrafa com um corte, como fazia Napoleão ao comemorar suas vitórias. Não resta dúvida: cada gole da bebida merece uma comemoração.

Outras cervejas produzidas pelos Falcone também têm relação com a música: é o caso da ‘Vivre pour Vivre’, uma cerveja que passa por três fermentações com a adição de jabuticaba. Baseado no filme de mesmo nome —, uma produção de 1967, do diretor francês Claude Lelouch — recomenda-se degusta-la ouvindo a canção ‘Theme de Vivre’.

Beba menos, beba melhor

Beber menos e melhor é o lema dos “cervejeiros especiais”. O consumo deve ser responsável e de qualidade. O modo de consumir a cerveja artesanal também é importante. Por isso, todos os rótulos da Falke têm a indicação do copo adequado e a temperatura ideal para servir a cerveja — nada de “estupidamente gelada”. Para quem deseja aprender mais, há um curso semestral oferecido pela cervejaria.

O que pode-se facilmente comprovar é que saborear uma cerveja Falke Bier significa aliar conhecimento, prazer e lazer. Pode-se dizer o mesmo ao desbravar os caminhos da Estrada Real. Portanto, nada mais sensato do que degustar juntos os caminhos e a cerveja com a merecida atenção.

Saúde, e boa viagem!

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