Palavras universais

Já consagrado como uma importante referência da música brasileira, o compositor Chico Amaral é um músico que navega com rara destreza entre MPB, o pop-rock e a música instrumental. É parceiro de Milton Nascimento e músicas de sua autoria foram gravadas por artistas como Ney

Matogrosso, Ivete Sangalo e Daniela Mercury; é letrista de grandes sucessos do Skank como “Garota Nacional”, “Vou Deixar”, “Tão seu” e “Pacato cidadão”, dentre outras canções de imensa repercussão. Na música instrumental, sempre encantando com o seu saxofone à frente de seu quarteto, ele marca presença em vários palcos — dos grandes festivais às casas noturnas de BH —, e já lançou dois CDs: “Singular” e “Província”, ambos aplaudidos por público e crítica. Nesta entrevista, Chico Amaral — agora também escritor, pois lança um livro sobre a música de Milton Nascimento — fala de música, analisa o potencial de Minas para o turismo, afirma que Minas tem a melhor culinária do mundo e critica com firmeza o descuido com o patrimônio histórico.

Por Cézar Félix
Fotos Rogério Alves Dias

— Como um bom mineiro, como um artista sensível às riquezas de sua terra e que conhece outros países e outras culturas, como o senhor analisa a potencialidade turística de Minas Gerais?

—  Minas já atrai muitos estrangeiros por seu bucolismo natural, por sua abundância de calor humano, por sua resistência cultural comovente. Há alguns anos minha mulher e eu ( a restauradora Maria Regina Reis Ramos, a Marrege) conversamos com uma agente de turismo paulistana, que nos dizia ser grande o número de turistas interessados em Minas, principalmente pelo turismo rural — os hotéis-fazendas em regiões campestres — mas também pelas cidades coloniais.

— Se o senhor fosse convidado a propor um roteiro de viagens a Minas Gerais para um turista, o que senhor sugeriria?

— A rota de Diamantina pela Serra do Cipó, com passeios pela região da Lapinha, Morro do Pilar — um pequeno santuário incrustado na serra — por Conceição do Mato Dentro e pela cidade do Serro. Uma ida a Tiradentes, por São João del Rei. Ouro Preto, também, sempre, por ser cidade única. A região dos lagos de Furnas e a nascente do rio São Francisco, na serra da Canastra. No sul, é muita bonita a região mantiqueira, de cidades como Passa Quatro e São Tomé das Letras. Seria capaz de apresentar também ao amigo turista alguns dos melhores botecos do mundo aqui em BH, desses que se situam em bairros como Santa Inês, Esplanada, Renascença, Pompéia, além do Mercado Central, é claro.

— O senhor apontaria alguma particularidade da cultura mineira que mais lhe encanta e que também pode encantar um turista?

— A comida deve ser colocada em primeiro lugar. Minas Gerais tem, sem dúvida nenhuma, a melhor culinária do mundo. Experimente — é só um exemplo entre milhares — almoçar no restaurante Tempero da Ângela, no Bichinho, perto de Tiradentes. No fogão: frango com quiabo, feijão tropeiro, tutu à mineira, lombo, couve, angu, farofa de ovos, jiló, feijão, arroz, linguiça, torresmo —  e as folhas: ora pro nobis, mostarda, acelga, couve, almeirão, serralha, taioba, chicória, rúcula, agrião, alface… Nossa comida reflete bem algumas qualidades da gente mineira: generosidade, hospitalidade, paciência, equilíbrio, e uma tranquila alegria de viver. Minas Gerais, de modo geral, encanta a qualquer um. É a co-existência do que está dentro — incluindo as virtudes citadas acima — com o que está fora: o tempo lento das pequenas cidades, o clima generoso das serranias, o equilíbrio entre cidade e natureza, o poder encantatório e sutil do cerrado — ao mesmo tempo aberto, sem as ocultações da mata, e velado em seu ecossistema de diminutos detalhes, de resistência invisível, de floração sobre pedra. Por fim (e não por último), não podemos deixar de mencionar as antigas cidades coloniais mineiras, com seu belo casario, seus templos de fina e única arte arquitetônica e decorativa, com os acervos de arte sacra tão importantes na cultura brasileira.

— Minas Gerais vive em uma constante luta para preservar o seu valioso patrimônio histórico e cultural,  que também é, em potencial, o seu maior atrativo turístico. Como o senhor analisa essas questões ligadas à preservação da memória, sobretudo aqui no seu Estado?

— A sua pergunta já coloca os elementos principais de uma reflexão. Não somos conservacionistas, infelizmente. Minas ainda apresenta algo nesse sentido — suas cidades históricas. Mas olhemos bem, por exemplo, para o entorno de Ouro Preto. Mais uns anos, e a ocupação desordenada, ou mal ordenada pelas prefeituras, transformará Ouro Preto numa outra coisa, numa coisa disforme, amorfa, tediosamente longa, destruindo o cenário mágico a que estávamos acostumados. Nestes tempos de insatisfação civil, por que não colocarmos em pauta a necessidade de resgatarmos a qualidade urbanística de nossas cidades? Estamos assistindo de braços cruzados à transformação das cidades mineiras em coisas horrendas. Por que gostamos tanto das cidades européias e não aplicamos aqui a mesma racionalidade? O uso do automóvel como única forma de transporte efetiva no Brasil já foi colocado nas críticas recentes. Restam muitas outras questões. Uma delas é a nefasta ação de construções verticalizadas, antiga e persistente praga que se beneficia de conchavos entre políticos, administradores e construtoras, e que destrói a cada semana a harmonia, o conjunto, a paisagem, a respiração, o espaço, a história, a razão das cidades. Por que o edifício faraônico, a torre, a megalomania construtora digna dos infernos asfixiantes espalhados por este mundo tão desigual? Aqui em Belo Horizonte, por exemplo, conseguiu-se plantar uma horrorosa torre ‘yuppie’ por cima do casario, entre os morros do bairro São Bento, verdadeiro monumento à nossa cretinice urbanística. Que modelo é esse que nos é imposto, de destruição ou construção desordenadas? Qual o político brasileiro sensível a tais questões? E são questões imediatas da vida, da beleza, da convivência entre as classes, do ambiente saudável para as crianças e idosos, do prazer de viver.

—  A atividade turística em Minas Gerais ainda não tem, infelizmente, a visão (e a cultura) de que a arte aqui produzida, sobretudo a música, tem imenso potencial como produto turístico. Quando o senhor se apresenta para grandes públicos, nos festivais de jazz, por exemplo, é possível vislumbrar essa potencialidade?

— Não só nos festivais de jazz, mas também nos bares de música ao vivo, é muito comum recebermos o carinho dos turistas, brasileiros ou não. Sei bem o que eles sentem. Às vezes, na solidão do estrangeiro, um ambiente com esse tipo de música, que é universal, traz aquele calor à alma, e estabelece imediatamente uma corrente de simpatia. Mas acho que fugi um pouco da sua questão. Queria dizer apenas que estes turistas percebem nossas peculiaridades de músicos mineiros, e nos incentivam. Quanto mais nos voltarmos pra isso —pra nossa história cultural — mais fortemente se realizará esta conexão com o que vem de fora. É muito por causa disso que meu último trabalho se chama “Província”.

— Como músico e letrista de reconhecido sucesso, que inclusive já fez história com o seu trabalho, o senhor acha que também nos dias de hoje existe uma efervescência cultural pós primeira década dos anos 2000, digamos assim, seja em Belo Horizonte, em Minas Gerais ou mesmo no Brasil? Ou o senhor acha que vivemos uma certa estagnação?

— Estagnação nunca. Há essa mudança na indústria fonográfica — podemos falar até em colapso — e nos hábitos de consumo de música, que mudam todo o cenário. Os artistas independentes, que têm de achar seus próprios meios de distribuição e exibição, ganharam em suas hostes a companhia de praticamente toda a MPB. Somos todos independentes. Um filósofo um tanto aborrecido, mas também interessante, que é o Deleuze, criou o conceito de “rizoma” pra falar de manifestações não hierarquizadas, sejam políticas, culturais, ecológicas… Vivemos esse momento rizomático, horizontal, plano, com poucas árvores despontando na paisagem. Mas o rizoma — assim coloca o Deleuze — é rico em acontecimentos, é includente, pois neutraliza as injustiças dos sistemas fortemente hierarquizados.

— Especificamente na música, o que o senhor diria que acontece de mais interessante hoje em Minas Gerais, tendo, é claro, a capital como maior referência?

—  Uma coisa que eu vi acontecer nos últimos anos, diferente da minha época, foi a presença de música popular na Universidade Federal de Minas Gerais. Só isso já provocou uma sensível mudança no panorama — com novos instrumentistas e compositores chegando a todo momento, sérios, bem equipados. E, como sabem as pedras, da quantidade vem a qualidade. Outras escolas — como a Bituca, de Barbacena — também estão contribuindo  para a formação de músicos, que já começam a se espalhar pelo Estado. Não demora muito pra voltarmos às orquestras de música popular, tradição soterrada pelas injunções do mercado. Temos também os festivais de música instrumental, chamados indiscriminadamente de festivais de jazz. Há muitos anos que eles agitam a cena musical, aproveitando-se do esforço contínuo dos instrumentistas mineiros, que praticam essa música e mantém um público interessado. Estamos falando de ondas musicais e culturais, e não propriamente deste ou daquele músico. Cabe, por isso, lembrar aqui o ressurgimento do carnaval de rua, com inúmeras bandas e blocos se apresentando em diversos pontos de Belo Horizonte, e animados concursos de marchinhas. Por fim, destaco o trabalho bem sucedido da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, com uma programação muito sólida, bastante prestigiada pelo público. A orquestra consolida sua estrutura agora com uma sede própria no Prado. Talvez seja o acontecimento mais relevante no cenário musical mineiro, atualmente.

— Das novas gerações da música de Minas, dentre bandas, cantores e compositores, quais os nomes que o senhor destacaria como grandes talentos?

— Destaques pra mim são o trompetista Wagner Souza e o saxofonista Breno Mendonça, que já chegaram de Juiz de Fora tocando e improvisando muito bem. Aliás, Belo Horizonte ganhou vários sopristas de qualidade: Serginho, Juventino, Brazilino, por exemplo. Na canção — que me perdoem os amigos — vou citar apenas um: Rodrigo Borges. Achei o trabalho dele muito maduro, muito legal. Mas tem uma pá de gente, da mpb, do samba, do choro, da black music, da música instrumental. Belo Horizonte continua boa de música.

— O senhor escreveu um livro sobre a música de Milton Nascimento. O que o senhor pode nos contar sobre essa obra?

— É uma tentativa de colocar a música do Milton de uma certa maneira no cânone da mpb. Digamos, sucintamente, que depois da bossa-nova o grande inovador — um inovador planetário — foi Milton Nascimento. Esse livro reúne ensaios, entrevistas com Milton, Wagner Tiso, Naná Vasconcelos, Eumir Deodato, Nivaldo Ornelas, Tavinho Moura, Nelson Ângelo, Amilton Godoy e outros, além de comentários sobre discos e partituras.

— E sobre os seus novos projetos musicais, o que vem por aí?

— Bom, estou trabalhando numas composições, pra fazer um próximo disco. Quatro já estão aprovadas, testadas no palco, inclusive.

— Não poderia deixar de perguntar sobre a parceria com o Skank e Samuel Rosa. Como é que começou esta história de sucesso?

— Minha parceria com o Samuel começou por indicação do Affonsinho, meu primeiro parceiro. Já contei diversas vezes a história: o Affonsinho gostava muito das letras que eu fazia pra ele. Fizemos tanta coisa juntos que numa ocasião até o Erasmo Carlos cantou uma destas canções, como convidado numa gravação. Quando o Samuel estava procurando um letrista no Rio para sua banda — acho que ainda era o Pouso Alto, e não o Skank — o Affonsinho me indicou e deu certo. No início eu fazia a letra antes, o que é muito mais fácil e muito pior para a música, com honrosas exceções. Fazia aquelas letras bonitas, não era esse velho enferrujado de hoje. Ontem, nestes meados tépidos de julho, me encontrei com os amigos do Skank e trocando reminiscências com o Samuel concordamos que já conquistamos duas Libertadores, pelo menos: uma com “Garota Nacional”, e outra com “Vou Deixar”. Depois do quarto ou quinto disco, invertemos o processo: o Samuel sempre manda a música antes, e eu coloco a letra. “Vou Deixar”, por exemplo, foi feita assim. “Três Lados” também. Para o disco que eles estão fazendo agora eu já compus uma música com o Samuel e uma com o Lelo, além de ter mandado uma letra avulsa. Acho que é isso, a nossa história parece ser eterna.

Minas já atrai muitos estrangeiros por seu bucolismo natural, por sua abundância de calor humano, por sua resistência cultural comovente.

Mais uns anos, e a ocupação desordenada, ou mal ordenada pelas prefeituras, transformará Ouro Preto numa outra coisa, numa coisa disforme, amorfa, tediosamente longa, destruindo o cenário mágico a que estávamos acostumados.

Os artistas independentes, que têm de achar seus próprios meios de distribuição e exibição, ganharam em suas hostes a companhia de praticamente toda a MPB. Somos todos independentes.

Que modelo é esse que nos é imposto, de destruição ou construção desordenadas? Qual o político brasileiro sensível a tais questões?