Barcos ancorados no Porto de Manaus na luz do anoitecer.

A natureza esplêndida desenhada pelo Rio Negro e pela floresta Amazônica combinada com um importante legado histórico, além de uma gastronomia inigualável em sabores — tudo misturado a um patrimônio cultural sem precedentes no Brasil. Assim é Manaus, cidade símbolo e referência da Amazônia.

 Por Cezar Felix (texto e fotos)

Para escrever sobre Manaus, é preciso puxar pela memória e recordar a primeira caminhada feita pelas ruas de uma cidade diferente em quase tudo: de imediato, o clima é outro. O calor é intenso, mas existe na brisa que traz no ar (quente) um certo aroma que, é claro, vem do Rio Negro e da floresta Amazônica.Uma vez na rua, o rumo inicial é em direção ao Teatro Amazonas. Não há como descrever o impacto da visão do magistral monumento arquitetônico. Para quem é apaixonado pela história, além do encanto pela arte e pela arquitetura, falta ar de tanta admiração.

Vista do Teatro Amazonas, um dos mais importantes patrimônios da arquitetura brasileira.

O teatro ergue-se imponente em torno de um recanto adorável, o Largo de São Sebastião. Destaca-se no lugar o monumento localizado no centro da praça — que, aliás, tem o mesmo nome do santo tal qual a bela igreja dedicada a ele que fica logo em frente. Esculpido em mármore, a peça foi construída para simbolizar a abertura do comércio com outros países, decretado por D. João VI quando a família real já se encontrava no Brasil, em 1808.

O teatro é o grande símbolo que conserva a memória do Ciclo da Borracha.

O Monumento da Abertura dos Portos às Nações Amigas — de autoria do italiano Domenico de Angelis —, erguido ao redor de um chafariz,tem na base quatro caravelas “navegando” em diferentes direções, pois cada caravela representa os continentes Ásia, África, Europa e as Américas. No topo, há uma escultura de uma mulher, simbolizando o Amazonas.

O Monumento da Abertura dos Portos às Nações Amigas, no Largo de São Sebastião.

Detalhe interessante é o piso do passeio da Praça de São Sebastião — ela foi construída em forma de círculo e rodeada por frondosas árvores — desenhado por pedras (tipo portuguesas) pretas e brancas. Esta decoração simboliza o Encontro das Águas dos rios Negro e Solimões. Há estudiosos que garantem que o piso inspirou o desenho do calçadão da praia de Copacabana. O passeio foi inaugurado em 1901, e é uma das diferentes obras que foram pagas (ou patrocinadas) pela elite amazonense, enriquecida ao extremo pelo Ciclo da Borracha.

Vista de outro ângulo do Teatro Amazonas.

Esse período foi iniciado em 1879 com a valorização da borracha natural — uma gigantesca demanda causada pela Revolução Industrial — retirada por meio do látex produzido pelas seringueiras. O apogeu da economia borracheira se estendeu até ano de 1912 quando surgiu a concorrência (e a consequente perda de mercado) da borracha asiática.

O fato é que o inspirador Largo de São Sebastião é repleto de atrativos — os culturais, é claro, e os gastronômicos, além do religioso, representada pela Igreja de São Sebastião, cuja inauguração é datada de 1888.

Anoitece no Rio Negro, onde navegam inúmeros barcos e navios que ligam Manaus ao interior do Amazonas e outros portos do mundo.

Igreja de São Sebastião

Patrimônio histórico da capital amazonense, o templo pode ser identificado como eclético no que se refere ao seu estilo arquitetônico — isso porque reúne elementos dos estilos góticos e neoclássico.

Vista de onde localiza-se a Igreja de São Sebastião.

No interior, destaque para os vitrais e painéis oriundos da Europa, que refletem o início do Ciclo da Borracha. Vale muito a pena admirar os elementos artísticos dos vitrais da cúpula e do altar, além, é claro, de guardar alguns instantes para as orações.  

O belo altar da Igreja de São Sebastião.

Estilo arquitetônico eclético, pois reúne elementos dos estilos góticos e neoclássico.

De volta ao largo, é impossível não reparar no lindo casario que o cerca, quase todos (muito bem conservados) guardam na memória a época de fausto do Ciclo da Borracha. Ótimos e tradicionais restaurantes, instalados em imóveis históricos, são irresistíveis atrativos como o Caxiri e o Tambaqui de Banda. Há ainda o famoso Bar do Armando, o mais democrático de Manaus e templo da boemia. Para quem desejar experimentar o típico tacacá — com goma de tapioca, camarão, jambú e tucupi — é só chegar em um quiosque feito de ferro trabalhado. O que não falta também são sorveterias e casas especializadas em sucos da região — como o saboroso suco de taperebá.

Vista parcial de Manaus, com o Largo de São Sebastião em primeiro plano.

A cultura garante o seu espaço primeiro na Banca do Joaquim que, além de vender jornais e revistas, realiza lançamentos de livros. As galerias do Largo e Amazônica merecem ser visitadas. A primeira tem sempre uma exposição diferente no seu calendário de mostras temporárias e abriga a incrível exposição permanente “cidade Santa Anita”, do artista local Mário Ypiranga Monteiro. Já a outra é especializada na comercialização de artesanato, peças criadas com madeira, fibras e sementes, dentre outras matérias-primas, produzidas por várias etnias indígenas da Amazônia.

Prato da gastronomia típica: peixe com jambú e tucupi do Restaurante Caxiri.

Não há dúvidas: o Largo de São Sebastião pode (e deve) ser considerado um dos lugares mais interessantes do Brasil, principalmente pela imponente presença do Teatro Amazonas, um extraordinário monumento arquitetônico de estilo renascentista com detalhes pinçados no ecletismo. Todo esse esplendor tem uma contextualização histórica sem precedentes no Brasil.

Vista da capital desde o Rio Negro.

Teatro Amazonas, o símbolo maior

Inaugurado em 31 de dezembro 1896 — e tombado como Patrimônio Histórico em 1966 —, o Teatro Amazonas conserva boa parte do projeto arquitetônico e da decoração originais.

Em pleno auge do Ciclo da Borracha, período de efervescência econômica que refletia com a mesma força na cultura, a conjuntura econômica favorável exigia a construção de um empreendimento de tamanho porte. A seiva das seringueiras — e a coleta do látex — era assunto de interesse global, portanto, a elite amazonense precisava dar uma resposta ao mundo à altura da riqueza que acumulava.

Detalhe do projeto arquitetônico do Teatro Amazonas, fundado em 1896.

Contratou-se então o projeto arquitetônico de autoria do Gabinete Português de Engenharia e Arquitetura de Lisboa, cuja coordenação ficou sob a responsabilidade do arquiteto italiano Celestial Sacardim. Tanto os materiais necessários à construção quanto os profissionais especializados, vieram da Europa. Dentre os materiais, peças de ferro trabalhadas na Inglaterra, paredes de aço de Glasgow (Escócia), telhas da França, mármores (das estátuas, colunas e escadas) de Carrara e 198 lustres de Murano, ambos da Itália.

Tombado como Patrimônio Histórico em 1966, o Teatro Amazonas conserva boa parte do projeto arquitetônico e da decoração originais.

Os profissionais foram arquitetos, escultores, pintores e construtores. A decoração interna ficou a cargo do decorador Crispim do Amaral e o artista italiano Domenico de Angelis decorou o Salão Nobre. Próximo ao estilo Barroco, no teto dele está a magistral pintura “A Glorificação das Bellas Artes na Amazônia”, considerada a obra-prima de Domenico de Angelis. O piso, de madeiras brasileiras e europeias, merece ser observado pelos detalhes de muita beleza.

Com capacidade para 701 expectadores, o salão de espetáculos é distribuído entre plateia e três andares de camarotes. A decoração é um deslumbre. A começar pelo teto em forma de abóboda onde estão encravadas quatro telas que fazem alegorias à música, à dança, à tragédia e a que faz homenagem ao maestro brasileiro Carlos Gomes. As telas foram pintadas em Paris, obras da tradicional Casa Carpezot. No centro da plateia, um impactante lustre de bronze, também francês. Ainda na plateia, as máscaras das colunas são homenagens a dramaturgos e compositores da estirpe de Mozart, Verdi, Rossini, Moliére e Aristophanes. A cortina (o chamado “pano de boca”) do teatro foi criada em 1894, obra do brasileiro Crispim do Amaral. Considerada raríssima, a peça reproduz o encontro dos rios Negro e Solimões.

Detalhe da cúpula externa do teatro: formada por 36 mil peças.

O teatro conta com um museu, cujo o acervo, dentre outras peças, mostra as sapatilhas da bailarina Margot Fonteyn — que lá se apresentou, em 1975, com o The Royal Ballet de Londres — e dos bailarinos Ana Laguna e Mikhail Baryshnikov que, em 2010, apresentaram o balé “Três solos e um dueto”.

É preciso admirar, na área externa, a cúpula formada por 36 mil peças —importadas da Lorena, França — representando as cores da bandeira do Brasil.

Centro Histórico, referência cultural

Uma referência importante da história da capital amazonense — e também do Amazonas —, é o Palácio Rio Negro. Legado da arquitetura da ‘belle epoque’, o imóvel, erguido em uma área de 4,7 mil metros quadrados, pertenceu até 1911 a um rico comerciante de borracha alemão chamado Waldemar Scholz. Na ocasião, dizia-se “não basta ser rico, tem que ostentar”. Com a decadência do látex, ele foi obrigado a vendê-lo a um coronel seringalista local que, por sua vez, em 1917 vendeu o palacete para o estado do Amazonas. Até 1995, era a residência oficial do governador.

O centro histórico conserva o legado da arquitetura da ‘belle epoque’.

Após ser revitalizado, em 1997, tornou-se o Centro Cultural Palácio do Rio Negro. O lugar guarda um relevante acervo, desde mobiliário da época, várias telas e fotografias de todos os ex-governadores amazonenses. Fazem parte da programação do espaço, lançamentos de livros, recitais de músicas eruditas e exposições temporárias.

Detalhe da arquitetura da Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

Em um dos prédios mais antigos de Manaus, datado de 1861, considerado um dos mais importantes da cidade, localiza-se o Palacete Provincial, um espaço de exposições. Após ser restaurado — foi recuperada a arquitetura inspirada nos estilos europeus do século XIX —o palacete abriga, desde 2009, a Pinacoteca do Estado, a Exposição Esculturas do Mundo, o Museu Tiradentes, o Museu da Imagem e do Som do Amazonas (MISAM), e a ala de Arqueologia e Museu de Numismática Bernardo Ramos. Ainda faz parte da programação, exposições temporárias e atividades culturais.

Destaque para a Pinacoteca do Estado: muitas das obras são  assinadas por artistas  locais, cujos trabalhos viajam pela paisagem da Amazônia e desvelam cenas cotidianas da realidade local. O acervo reúne mais de 200 obras, entre pinturas, fotografias, gravuras e esculturas.

Muito interessante também é a Exposição Esculturas do Mundo, formada por 31 “réplicas  autenticadas” de obras de diferentes museus do mundo: são objetos da pré-história, da Grécia Antiga, do Egito Antigo e da Renascença.

O Centro Histórico oferece atrativos culturais como os importantes museus.

O porto e o mercado, lugares irresistíveis

O Centro Histórico de Manaus apresenta mais um belo atrativo: o Mercado Adolpho Lisboa. Conhecido popularmente como “mercadão”, é um dos lugares mais frequentados da cidade — tanto pelos manauaras quanto pelos turistas. Projetado em um charmoso estilo arquitetônico ‘art noveau’, foi reinaugurado no ano de 2001, totalmente restaurado, após mais de 130 anos de história.

O Mercado Adolpho Lisboa foi projetado em um charmoso estilo arquitetônico ‘art nouveau.

Reconhecido como patrimônio histórico nacional, tombado pelo IPHAN – Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, o Mercado Adolpho Lisboa é mais uma herança dos tempos áureos da borracha.

O prédio, rico em detalhes arquitetônicos, divide-se nos seguintes pavilhões: Pavilhões Pará e Amazonas, Pavilhão da Carne e do Peixe e Pavilhão Frontal.

Vista do pôr do sol no Rio Negro na região do mercado.

São 182 boxes que comercializam a imensa variedade dos peixes amazônicos e as frutas nativas da floresta, carnes e verduras, além medicamentos tradicionais (como folhas e raízes para chás) e artesanato típico — produzido com matéria-prima Amazônica e com grande variedade de tipos e tamanhos.

O mercado conta 182 boxes que comercializam a imensa variedade dos peixes amazônicos e as frutas nativas da floresta, carnes e verduras, além medicamentos tradicionais e artesanato típico.

Há ainda lanchonetes e pequenos restaurantes que oferecem várias delícias: sucos de frutas Amazônicas, peixes (assados ou cozidos), comidas caseiras características da região norte e petiscos diversos da melhor qualidade, ótimos para acompanhar a cerveja gelada. Vale destacar a simpatia dos comerciantes: todos muito atenciosos e dedicados a informar as características (e os sabores) dos produtos que comercializam.

A arquitetura de inspiração neoclássica da Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

Matriz de Nossa Senhora da Conceição e o Porto de Manaus

O Centro Histórico conserva na sua paisagem a primeira obra arquitetônica da capital dos amazonenses: a Catedral Metropolitana ou Matriz de Nossa Senhora da Conceição. O templo está no mesmo local — em uma elevação em frente ao porto e voltada para o Rio Negro —, desde 1695, quando foi erguida pelos padres carmelitas. Após ser ampliada, a Matriz foi destruída por um incêndio. Porém, em 1878 ressurgiu nos moldes atuais, com um estilo arquitetônico onde predomina o neoclássico.

Projetado por ingleses e inaugurado em 1907, o Porto de Manaus fica na margem esquerda do Rio Negro.

Já o Porto de Manaus, o maior porto flutuante do mundo, tem um movimento intenso. Desde o incessante vai e vem dos viajantes aos inúmeros tipos de embarcações ancoradas. Ali fica claro porque os rios amazônicos são tão fundamentais para tudo que está relacionado à vida dos habitantes da região norte. O tamanho do porto é justificado pela imponência dele, pois tem capacidade, conforme os dados da administração, para “operar tranquilamente com quatro navios simultaneamente em qualquer período do ano e mais três navios durante a cheia do Rio Negro”.

O movimento do porto é intenso: o colorido dos muitos barcos ancorados.

Projetado por ingleses e inaugurado em 1907 — portanto, em pleno Ciclo da Borracha —, o Porto de Manaus fica na margem esquerda do Rio Negro à 13 km do encontro com o Rio Solimões. Vale muito a pena apenas observar o colorido do intenso movimento de passageiros e mercadorias. A propósito, além das inúmeras pessoas, o porto fluvial recebe mercadorias de grande porte (destinadas ao Polo Industrial de Manaus) e imensos navios transatlânticos, repletos de turistas vindos de  diferentes países.

O projeto arquitetônico da Arena Amazônia é inspirado em um cesto de palha indígena.

Outra importante construção de Manaus é a Arena Amazônia, estádio construído para a Copa do Mundo de 2014, com capacidade para 44.300 pessoas sentadas. Embora criticado por muitos, e considerado um mega elefante branco, o projeto arquitetônico da Arena é muito bonito. Projetado pelo arquiteto alemão Ralf Amann, a serviço do conceituado escritório Gerkan Marg und Partner (GMP), sediado em Hamburgo, Alemanha, o design — cujas fachadas e coberturas fazem parte de uma única estrutura metálica — é inspirado em um cesto de palha indígena.

Conforme o informe oficial do governo do Amazonas, a Arena da Amazônia “é um espaço de padrão internacional, que permanece como legado após a Copa do Mundo para o Estado.” A nota acrescenta que trata-se de “um espaço multiuso que pode receber jogos de futebol, shows, eventos, feiras e visitações. Pode também ser adaptada para receber jogos de futebol de areia e de esportes de quadra como vôlei e basquete”.

A Arena da Amazônia agenda visitas programadas — para grupos de até 20 pessoas — e visitas guiadas para o turista de terça a sábado.

A incrível vista da floresta do alto da torre do Musa.

Exuberante natureza da Amazônia

Os outros espetaculares atrativos de Manaus, como não poderia deixar de ser, estão diretamente relacionados à exuberante natureza da Amazônia. Um programa imprescindível para o turista é visitar o Musa — Museu da Amazônia, um paraíso que abrange 100 hectares da Reserva Florestal Adolpho Ducke — uma floresta primária que fica nos arredores de Manaus — pertencente ao INPA — Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia.

Lago das vitórias régias no Musa.

O Musa, que é também um magnífico jardim botânico, possui mais de 3 km de trilhas, que são percorridas por meio de passeios conduzidos pelos guias da instituição. Um fantástico atrativo é a torre de observação (totalmente feita de aço) de 42 metros de altura. É grande a emoção quando surge a vista panorâmica da floresta. Compensa o esforço de subir os 242 degraus da torre. Uma vez no topo, é só alegria.

Lagos de peixes como tambaqui e pirarucu são atrativos do Musa.

Criado em janeiro de 2009, o Museu da Amazônia ainda oferece como atrativos exposições, viveiro de orquídeas e bromélias, aquários, um lago repleto da linda vitória-régia e de peixes como o pirarucu e o tambaqui, além de laboratórios experimentais de serpentes, insetos e borboletas. “No Musa, são desenvolvidas pesquisas em divulgação e popularização da ciência e da educação científica e cultural”, como esclarece a direção do Museu da Amazônia. “É uma casa de cultura e ciência, de convivência e celebração da diversidade do ser no mundo. Um lugar onde os humanos e não humanos vivem juntos, felizes”, encerra.

A “voadeira” rompe o Rio Negro e leva a atrativos como o Bosque da Ciência e o Museu do Seringal.

O passeio pelas trilhas é guiado por um monitor que durante o caminho explica com riqueza de detalhes os fascinantes mistérios da fauna e da flora — destaque para o esplendor do Angelim-pedra, uma árvore linda e dona de um troco gigantesco — desta que é a maior floresta urbana do mundo. As atrações seguem o roteiro: serpentário, aquário de peixes amazônicos, o lago das vitórias–régias e as exposições. Também é possível agendar passeios para observar e fotografar aves e para se deslumbrar com o nascer ou pôr do sol do alto da torre.

Espécies de peixes, como o boto, são atrações do Bosque da Ciência.

Seringal revivido e  Bosque da Ciência

 Um complexo construído em 2001 — localizado no Igarapé São João — que foi cenário de um filme, produzido em 2001, acabou se transformando no Museu do Seringal. O filme “A Selva” (Brasil/Portugal), dirigido por Leonel Vieira, e estrelado por Maitê Proença e Chico Diaz,  deixou esse legado para Manaus, pois reproduz com perfeição um seringal original.

São sempre impressionantes as paisagens ao longo do Rio Negro.

O sofrido cotidiano dos seringueiros que sustentavam com o seu trabalho a riqueza gerada pelo Ciclo da Borracha, é apresentado em uma visita guiada de uma hora. O roteiro segue pelo galpão de armazenamento da borracha, casarão do seringalista, barracão de aviamento (onde os seringueiros compravam equipamentos de trabalho e alimentos), capela de Nossa Senhora da Conceição, casa do seringueiro, o “tapiri” (onde era feita a defumação da borracha) e até um cemitério. Completa a rota, a bonita trilha dos seringais, de onde o látex era extraído, e a casa da farinha, onde a mandioca era prensada e ralada. Ou seja, um retrato fiel da vida e dos costumes dentro de um seringal.

Passeios pelas trilhas revelam os fascinantes mistérios da fauna e da flora.

É notável o contraste entre a vida do “barão” seringalista e dos seringueiros — basta comparar a casa do patrão com a humilde moradia do capataz chefe. Todos os detalhes da vida no seringal e da história da borracha são contados pelos guias, relatos impressionantes.

É bom acrescentar que o trajeto até o Museu do Seringal é um ótimo passeio. Geralmente, pega-se uma lancha, ou “voadeira”, no ponto mais conhecido, na Estrada da Ponta Negra, e a viagem dura por volta de 30 minutos. No trajeto pelo Rio Negro, tem-se uma boa noção da vida nas comunidades ribeirinhas, pois a “voadeira” é também o meio de transporte dos habitantes da zona rural manauara. A lancha passa pelas casas flutuantes e entra nos igarapés, paranás e lagos.

Bosque da Ciência, ao INPE, foi Inaugurado em 1995 em uma área de 13 hectares.

Para conhecer mais das coisas sempre belas da Amazônia, o Bosque da Ciência, também ligado ao INPE, é um lugar perfeito. Inaugurado em 1995 em uma área de 13 hectares de floresta nativa, é uma das principais instituições brasileiras voltadas para aproximar as pessoas da produção científica.

Embora densa e fechada, por isso muito rica em biodiversidade, a floresta é cortada por trilhas bem demarcadas. Inclusive, há uma trilha suspensa, excelente para a observação da flora e fauna aérea. É até muito comum, no caminho, visualizar animais como preguiças, pacas e capivaras. Mas é um privilégio poder observar nos tanques bichos (geralmente resgatados) como o peixe-boi e os viveiros das ariranhas e dos jacarés.

O trajeto pelo Rio Negro até o Museu do Seringal é repleto de belezas.

Já a Ilha da Tanimbuca surge em volta da maravilhosa árvore de mesmo nome. Com mais de 600 anos de idade, tem cerca de 45 metros de altura e é a última da antiga floresta primária que havia no lugar. A ilha é cortada por um riacho, onde vivem espécies de quelônios e peixes, que tem a companhia de palmeiras nativas como o tucumã e o açaí.

O Bosque da Ciência tem uma programação de eventos e de exposições ao longo do ano, atividades que acontecem no chamado Paiol da Cultura.

Praia da Ponta Negra no final de tarde.

Ponta Negra                          

De volta ao perímetro urbano da capital, não há como não visitar a Praia da Ponta Negra, lugar que também é chamado oficialmente de Complexo Turístico da Ponta Negra. É uma área nobre, repleta de condomínios luxuosos e  hotéis. À beira da praia do Rio Negro, espraia o largo calçadão com 5 km de extensão, feito com pedras portuguesas e com o mesmo desenho da Praça de São Sebastião — a mesma referência ao Encontro das Águas Negro e Solimões.

Ao longo da praia existem quadras para futebol e vôlei, pistas de skate e patins e muito espaço para caminhadas, corridas e para pedalar com as bicicletas. Três mirantes foram construídos estrategicamente para observação do pôr do sol e para observar a grande ponte Rio Negro. Completam o leque de atrativos, os vários bares e restaurantes, que oferecem grande variedade de comidas e bebidas, inclusive as típicas. No Anfiteatro, são realizados eventos durante todo o ano, com destaque para o Festival Folclórico do Amazonas.

Na orla da Praia da Ponta Negra, vista a partir do Rio Negro.

Na vidada do ano, a Praia da Ponta Negra é cenário de uma grandiosa queima de fogos, um espetáculo que se compara à festa mais famosa do Brasil, os fogos da praia de Copacabana.

O que não passa despercebido na paisagem do Rio Negro é a ponte que cruza o rio desde Manaus até a outra margem, a quase 3,6 km de distância. É a maior ponte estaiada de 400 metros (seção suspensa por cabos) do Brasil sobre um rio e a segunda do mundo, menor apenas do que ponte sobre o Rio Orinoco na Venezuela. 


A praia da Ponta Negra é uma referência para atividades de lazer.

A Ponte Rio Negro foi inaugurada em 2011 após quatro anos de obras. São quatro faixas de trânsito, duas em cada sentido, e as faixas dos dois lados para pedestres. A estrutura central, em forma de diamante, tem um formato aerodinâmico para reduzir o atrito com os ventos. O mastro central apoia dois vãos de 200 metros de altura. Tais dimensões, fazem com que a ponte seja considerada — ao lado do Teatro Amazonas —  um importante monumento arquitetônico da região Amazônica.

Ponte do Rio Negro: 3,6 km de extensão e arquitetura ousada.

São sempre impressionantes as paisagens ao longo do Rio Negro.

Detalhe da ponte estaiada que cruza o Negro.

Encontro mágico das águas

Seja lá qual for o voo que chega a Manaus para aterrissar no aeroporto da capital, o anúncio do comandante é praticamente certo: observem o Encontro das Águas. Os felizardos que ocupam os assentos ao lado das janelinhas voltadas para os rios, evidentemente, se deleitam com o visual. Ao longo de cerca de 10 km de extensão — podendo chegar a incríveis 22 km na época das cheias —, as águas escuras do Rio Negro e as barrentas (ou amarelas) do Rio Solimões não se misturam.

As águas escuras do Rio Negro e as barrentas do Rio Solimões não se misturam.

Isso ocorre devido às diferenças de densidade e de velocidade. O primeiro corre a 2 km/h enquanto o segundo registra entre 4 e 6 km/h.  A temperatura do Negro é de 28 graus e a do Solimões, 22 graus; o material orgânico é diferente: algas e vegetação aquática no Negro e erosão do solo no Solimões, que também tem maior profundidade. A foz do Negro é em Manaus — depois de percorrer 2.250 km desde a nascente — e o Solimões, que desceu cerca de 1.700 km, continua sua jornada, já com o nome de Amazonas.

O Rio Negro chega em Manaus depois de percorrer 2.250 km desde a nascente na Colômbia.

De tão marcante, conforme registrado pelo IPHAN, o Encontro das Águas é um fenômeno natural, hidrológico, declarado patrimônio cultural brasileiro.

Além da estonteante beleza e da potência como atrativo turístico, os dois rios têm trajetórias distintas. O Rio Negro nasce a 1,6 metros de altitude na Colômbia, na Serra do Junaí. Por incrível que pareça, a nascente dele é formada por águas claras, pois são afloramentos de águas subterrâneas. Durante o trajeto da sua jornada, o rio carrega galhos e folhas da floresta que se decompõem tornando assim as águas escuras. Ele, portanto, desce pelo norte do Amazonas, e cruza os municípios de São Gabriel da Cachoeira, Santa Isabel do Rio Negro, Barcelos e Novo Airão, até desembocar em Manaus.

O Rio Solimões percorre 1.700 km até se encontrar com o Negro; neste ponto, já com o nome de Rio Amazonas.

O Rio Solimões, por sua vez, nasce nos andes do Peru com o nome Marañón. Este se une a um Rio chamado Ucayali e formam o que os peruanos — e a maior parte dos países do mundo — chamam de Rio Amazonas. Assim que adentra o Brasil no município de Tabatinga — e após cruzar municípios como São Paulo de Olivença e Tefé, dentre outros —, passa a ser chamado de Solimões. Somente após o Encontro das Águas, é que efetivamente passa ser chamado pelos brasileiros de Rio Amazonas — que até desaguar no oceano Atlântico, entre os estados do Amapá e Pará — completa 6.400 km de extensão. Na foz do Amazonas quando o rio adentra o Atlântico é quando ocorre mais um raro e deslumbrante fenômeno, a Pororoca. As águas fluviais do maior rio do mundo em volume d’ água formam violentas ondas quando se encontram com o mar. O fato é que a elevação da água do rio chega a seis metros de altura e ela desce a uma velocidade de 30 km por hora. Nos instantes da invasão do mar, é gerado um grande barulho, um som que não se repete em nenhum outro lugar do mundo.

Também de outro mundo é o Encontro das Águas. Observar de perto essa magia é um programa obrigatório. Existem vários roteiros disponíveis. Barcos partem do bairro da Ponta Negra, no pier ou nos portos do Roadway ou da Manaus Moderna, no centro.  Há ainda um ponto muito conhecido, mais próximo do Encontro das Águas, chamado Porto da Ceasa. Ali funciona um quiosque de atendimento ao turista e são ofertados diferentes possibilidades de passeios.

O crepúsculo reflete nas águas do Rio Negro nas proximidades do Rio Solimões.

Mas quem quiser observar as águas sem ter que viajar de barco, é possível chegar até uma falésia chamada Mirante da Embratel. Para chegar lá, é preciso contar com ajuda de guias.

Não há dúvidas de que chegar às águas de barco é algo muito especial, simplesmente indescritível. As águas negras e barrentas merecem ser tocadas para que se possa sentir as nuances das diferenças entre elas. Pela força das correntes, não é apropriado arriscar um mergulho. É melhor usufruir da contemplação plena. Depois, basta levar na alma e no fundo do coração, um sentimento de felicidade pelo privilégio de ter conhecido um lugar único no planeta, uma cidade chamada Manaus: incomparável pela natureza exuberante, pela peculiar formação histórica e cultural e pela beleza inexplicável de toda a gente que habita a capital amazonense.

As habitações características dos manauaras ribeirinhos.