Três caminhos e um destino

O projeto Estrada Real é uma das iniciativas mais engenhosas das Minas Gerais de hoje. No entanto, é fácil perder-se no labiríntico balanço dos seus sucessos e fracassos. Como entendemos melhor uma coisa quando a comparamos com entes semelhantes, exploremos dois outros caminhos clássicos, o Caminho de Santiago e a Trilha dos Cátaros.

Por Claudio de Moura Castro

O Caminho de Santiago Compostela

Várias  estradas e trilhas levam peregrinos à famosa catedral de Santiago Compostela. A mais conhecida é o Caminho Francês, trilhado desde a Idade Média, através dos Pirineus e seguindo pelo Norte da Espanha. É uma teia de estradas, mais do que um percurso único. Já fiz alguns trechos, nas encostas dos Pirineus.

Os caminheiros de hoje encontram amplos atrativos ao longo das estradas, cruzando regiões que preservam seu aspecto medieval.  Facilitam o passeio as inúmeras pousadas e restaurantes – rústicos, pitorescos ou luxuosos. Como alguns acreditam em uma contabilidade do sacrifício, ao chegar ao céu, há um sistema de “passaportes”, carimbados ao longo da trajetória.

Em épocas mais recentes, caiu um pouco o conteúdo de fé e subiu o amor pelas marchas esportivas. Quantos querem fazer pontos na eternidade e quantos querem se vangloriar, diante de seus amigos praticantes do gênero? Até brasileiros se aventuram por lá. É a caminhada mais famosa.

Vale mencionar que é hoje exatamente o que era na época medieval: o trajeto para chegar a pé em Compostela, não importa se por devoção, prazer ou masoquismo.

A trilha dos Cátaros

Bem menos conhecido, mas não menos atraente, é o Caminho dos Cátaros (Sentier Cathare), no Sul da França, próximo de Carcassonne. Mas sua história não podia ser mais diversa.

Lá pelo século I, apareceu na região de Alexandria o movimento gnóstico, uma das versões da teologia cristã, ainda em fluxo. Mas as burocracias de Roma, já então poderosas e autoritárias, não acharam graça nesta dissidência. A primeira medida foi declará-la uma heresia. A segunda consistiu em mandar matar todos os praticantes da fé proibida. Como a  chacina não chegou a ser completa, os sobreviventes fugiram para o Oriente, alguns se refugiando na Bulgária, outros na Turquia. A história é um pouco turva, mas há evidência de que, na Idade Média tardia, os descendentes dos gnósticos decidiram voltar para a Europa. Escolheram a Provence, região que despontava na época.

Conhecidos como os Cátaros, conquistaram muitos seguidores, pela pureza da sua fé. Era um movimento intelectualizado e despojado, sem templos e oferecendo grande liberdade de discussão aos seus seguidores. Seus líderes conhecidos como  “les bons hommes”, aos poucos, foram convertendo as almas da Provence.

Por volta do ano 1200, ao ver progredir as conversões, se assusta o Papa Inocêncio III. Isso porque, um culto puro e virtuoso era uma séria ameaça ao catolicismo devasso e corrupto de então. Tinha duas opções: moralizar a Igreja ou liquidar a ameaça cátara. Escolheu a segunda. Começa então a Cruzada Albinense, com a missão de queimar vivos todos os cátaros. Ficou a faxina nas mãos de Simon de Montfort, um militar competente e cruel. Um século mais tarde, ao cabo de guerras sangrentas, praticamente todos os cátaros são eliminados, de cambulhada com aqueles que estavam por perto, fossem ou não praticantes. Segundo Montfort, ao chegar ao céu, Deus saberia quem seria quem. Na versão oficial da Igreja, fica registrado o esforço heroico dos Papa, a fim de eliminar tão escabrosa heresia.

Em 1945, dois garotos egípcios descobriram uma ânfora com 55 manuscritos, na língua cóptica e usando o alfabeto grego. Mercê de inúmeros desencontros, só por volta dos anos 1970 chegam aos teólogos, para  que decifrassem o achado. Descobriu-se então que discutiam a teologia gnóstica. Os textos revelaram uma visão muito próxima do que escrevem atualmente os teólogos católicos de vanguarda. Ou seja, foi uma enorme matança, para destruir o que hoje se considera uma versão intelectualizada e respeitada da doutrina cristã. Novas pesquisas históricas, sobre os cátaros completaram a narrativa da injustiça e barbárie do Vaticano.

Na Provence, começa então um movimento para reabilitar os cátaros. Uma das iniciativas foi inventar uma trilha pedestre, conectando os melhores atrativos naturais com as fortalezas onde aconteceram as batalhas mais dramáticas. Aproveitam-se caminhos medievais, estradas vicinais e outras trilhas que evitam cidades. A cada 100 metros, pincelaram-se nas pedras e nas árvores o código de cores da trilha. São 250 km, de topografia rude e uma demografia rala e decadente. Preparam-se mapas e planejam-se os meios de hospedagem, para que não seja preciso andar mais de 25 km antes de achar uma pousadinha rústica. Como fiz essa trilha, atesto a sua beleza e interesse.

Note-se que a Trilha dos Cátaros foi inventada. Porém, sem que se promovessem grandes operações de marketing, os caminhantes franceses, logo viram os seus atrativos. Nada mais foi necessário para que se tornasse popular.

Estrada Real

A Estrada Real tem algo dos Cátaros e algo de Santiago de Compostela, mas também, aspectos próprios. Como Compostela, a estrada existiu de verdade, desde que começou o Ciclo do Ouro. Mas era uma via de transporte, não uma trilha de peregrinos. Por ela se chegava às Minas e aos Campos Gerais. Como Compostela, é um emaranhado de rotas, inútil buscar a autêntica.

Esse é até um aspecto positivo, pois permite consagrar como “verdadeiros” os trechos que oferecem mais interesse para caminhantes. Isto porque,  com o tempo, alguns segmentos do percurso viraram autoestradas. Se houvesse fidelidade absoluta às origens, os caminhantes compartilhariam parte do trajeto com caminhões de até trinta e duas rodas.

Ao contrário das outras, passa por pedaços horríveis. Casario feio, favelas e lugares não muito seguros. Esse problema não chega a ser intratável, mas não é trivial. Na Espanha e França, as regiões das trilhas ficam longe das grandes aglomerações, a paisagem preserva sua cara medieval e não há ameaças à segurança.

Mas nem por isso a Estrada Real deixa de ter estupendos atrativos, sejam as montanhas, as fazendas coloniais ou a própria construção da estrada, em muitos lugares, calçada em pedra. E não é preciso decantar as belezas das cidades históricas. Em resumo, a Estrada Real está à altura das outras, no que tem de melhor. Mas tem defeitos graves, não encontrados nas europeias. Alguns têm conserto, outros não.

Como a Trilha dos Cátaros, vive uma nova encarnação. A Estrada Real é a exumação recente de um conceito, evocando a epopeia do ouro mineiro e acenando com belezas excepcionais. Aliás, que me perdoem os outros estados, mas o barroco mineiro é mais lindo.

A ironia, no caso, é haver sido uma iniciativa da Federação das Indústrias de Minas Gerais, órgão de defesa e promoção dos interesses manufatureiros do Estado. O que a FIEMG tem de proximidade à Estrada Real? A rigor, nada, apesar de algumas contorções semânticas a fim de inventar um elo. Mas abençoemos a coragem e criatividade do ex-Presidente, Bogdan Salej. Rompeu as fronteiras de seu quintal e deu asas a uma ideia extraordinária.

Como trazer uma ideia nova, a um povo para quem caminhada é circundar a Praça da Liberdade, necessariamente, com os trajes esportivos da moda? Havia que vender o conceito. O marketing foi bem feito, caro e incluiu o financiamento de uma escola de samba. O nome pegou. Hoje é termo de uso corrente e com bons fluidos.

Além disso, houve consideráveis investimentos para preparar a estrutura de hospitalidade na região da Estrada Real (com fundos do BID). Esse jamais será um gasto perdido, pois é muito precário o atendimento em muitos lugares com bom potencial turístico. Talvez Ouro Preto e Tiradentes ofereçam uma hospitalidade sofisticada, mas isso não acontece, bem perto desses centros tradicionais de turismo.

Por malabarismos administrativas, parte do projeto acabou transferido para  a Secretaria de Turismo do Estado. A transição doeu, pois entra na camisa de força do serviço público, pouco apto para tais iniciativas. Além disso, seria mais um caso de que, inventado alhures, não é perfilhado pela burocracia adotiva?

O que aconteceu então com a Estrada Real? Vejamos uma pista. Tanto quanto sei, não houve até hoje um só caminhante na gestão do projeto. Pelo que consta, Salej jamais fez a clássica subida do Triglav, o pico mais alto dos Alpes Eslovenos, na sua terra natal.  E tampouco seus seguidores tem sido adeptos das caminhadas de longo curso.

Na prática, pouco se fez para os verdadeiros caminhantes. São elegantes os marcos de concreto, testemunhando a presença da Estrada Real. Mas cem metros adiante, não há nenhum vestígio de orientação para quem se aventure. Nada há de semelhante às trilhas dos Cátaros, marcadas a cada tantos metros e, sempre, em todas as encruzilhadas.

Na verdade, praticamente não foram demarcadas as trilhas, apesar de um ou outro projeto. Ou seja, a Estrada Real é uma teoria, um conceito, não um roteiro explícito.

Nos Cátaros, é possível até viajar sem mapas, tão bem delimitadas são as trilhas. Mas os mapas existem e são detalhados.

Em contraste, a Estrada Real é vítima da nossa pobreza cartográfica. Os últimos mapas do IBGE são da década de 1980 e a versão em papel esgotou-se. Na prática, os mapas divulgando a Estrada Real mostram uma linha ligando Ouro Preto a Diamantina, por exemplo. Mas nenhum detalhe adicional. Ou seja, para caminhantes, a cartografia disponível é da mais completa inutilidade. Somente com guias é possível fazer alguns trajetos.

Não é difícil usar os registros de GPS dos jipeiros e caminhantes, para criar mapas bem mais detalhados. Mas, eis minha tese, como não há e não houve caminhantes no projeto, isso não aconteceu. Ou seja, na prática, a Estrada Real para caminhantes não passa de uma ideia ainda não implementada.

Contudo, o conceito transmigrou para o turismo das cidades do ouro. Virou a marca registrada desse turismo urbano e semiurbano. Nada de errado. Enquanto não se demarcarem trilhas, é um subproduto nobre e que não pode ser menosprezado.

Sugestões para uma trilha de verdade

Caminhar não é caso perdido. Há muito a se fazer para tornar a Estrada Real uma trilha de verdade. Vejamos algumas sugestões.

1. Investir seriamente na demarcação das trilhas. A proposta de marcar todo o percurso, de Paraty a Diamantina, é uma miragem prejudicial. É mais realista encontrar os melhores trechos e fazer um serviço bem feito, nesses locais próximos de onde vão os turistas. Para isso, é pincel e lata de tinta, não mausoléus de concreto.

2. Vender a ideia de que não se busca a pureza de trilhar as centenas de quilômetros, em lugares bonitos e  feios. Caminhantes podem ir somando pedaços, um de cada vez.  Assim é no Apalachian Trail (no Leste dos Estados Unidos). Lá, a maioria dos caminhantes planeja fazer a trilha em cinco ou dez anos. Em cada férias, caminha um trecho. É preciso também não ter vergonha de pular os trechos ruins (autoestradas, favelas etc.). Por que não marchar apenas nos pedaços bonitos? No Tour du Mont Blanc, um clássico, as empresas de aventura levam os clientes de van, nos trechos onde é necessário descer ao plano e às estradas asfaltadas. Por que o purismo?

3. Resolver os problemas de estacionamento seguro para os caminhantes. Perde a graça a caminhada, se tememos encontrar o carro sem o rádio ou os pneus. Por que não, acertar também serviços de taxi ou vans, para retornar as pessoas ao local onde deixaram o carro? Isso inclui fixar tarifas corretas e as regras dos serviços.

4. Combinar com jipeiros e outros aficionados do GPS, para criar mapas atualizados, sobrepostos àqueles mais velhos do IBGE. Se bem conversado, pode ser um projeto do tipo Wiki, onde todos colaboram voluntariamente. Essa será a matéria prima para os mapas das diferentes modalidades de locomoção (caminhantes, ciclistas, motociclistas, jipes, cavalos etc.). Uma lista de coordenadas de GPS – como oferecida – não serve para quase nada.

Em conclusão, a Estrada Real percorre um belíssimo cenário, com montanhas e fragmentos do mundo colonial. Mas ainda não há trilhas marcadas e identificadas nos mapas. Sem isso, a Estrada Real permanece apenas como um apelido para as cidades do ouro. O que falta nem é difícil e nem caro. Contudo, como os caminhantes são poucos, a vontade coletiva de remover as barreiras continua débil.