Euclides Guimarães, inverno de 2013

Como sociólogo aprendi a me concentrar nas relações sociais, que são basicamente as conexões de sentidos que as pessoas vivem a praticar entre si. Entendamo-nos, seres humanos, como grandes usinas de sentidos, um bicho que se difere dos demais por agir a partir do momento em que encontra sentido em fazê-lo. As estratégias, as paixões, as intuições, as “vibes” fazem parte do incontável leque de possibilidades da experiência humana, ou seja, são produções de sentidos que, muitas vezes, nos conduzem à ação.

Para que uma relação social ocorra bastam duas pessoas, mas é claro que pode envolver muitas mais. Também é importante considerar que as relações, embora não se façam sem as pessoas, não são as pessoas, mas a parte delas que se dispõe a entregar-se, impor-se, vender-se, competir, cooperar ou compartilhar. Isso quer dizer que há sempre um lado irrelacionável nos sujeitos de uma relação. Esse lado não se ausenta dos complexos processos relacionais humanos, ao contrário, costuma alimenta-los subliminarmente. Com isso há sempre uma margem de mistério no jogo social, já que nunca se pode saber ao certo o que esperar do outro ou exatamente como tocá-lo. Contrariando esse mistério, mas nunca ao ponto de eliminá-lo, a cultura alicerça hábitos mais ou menos gerais e, seja pelas convenções que daí emergem, seja pelo aprendizado que o convívio traz, ações e reações tornam-nos até bastante previsíveis.

De qualquer forma quando os sujeitos se sujeitam às trocas sociais é inevitável que isso formate acordos e, com eles, envolvimentos. Há muitas maneiras de sujeitos se envolverem uns com os outros, visto que as usinas de sentidos que somos são capazes de acionar as mais variadas motivações: alguns acordos podem ser mais racionais, estratégicos, outros mais sentimentais, alguns podem ser fortuitos e passageiros, outros mais duráveis, de forma que as relações oscilam desde a mais frouxa conectividade até o mais intenso compromisso.

Sociedades são malhas de conexões de sentidos construídas por essas trocas. Sabemos que são históricas, pois, ao mesmo tempo, permanecem e mudam. Uma forma de observar as mudanças, que muitas vezes também permite avaliar a permanência, é detectando tendências gerais acerca do grau de envolvimento que se estabelece entre os indivíduos numa determinada cultura ou momento.

Nas condições históricas atuais, ao que tudo indica ineditamente, presenciamos um crescente aumento da conectividade em detrimento de um afrouxamento do compromisso. Essa pode ser, de um ponto de vista sociológico, a mais relevante característica da cultura na apelidada “era digital”. Se considerarmos a importância crescente que as mídias locativas (celulares, redes sociais, computadores móveis) vêm exercendo, veremos de pronto em quanta conectividade se faz a sociabilidade em nossos dias. Claro que o avanço tecnológico foi decisivo para desencadear o processo que aqui aludimos, mas as tecnologias respondem a demandas mais que as criam. Portanto não foram a web e o celular os causadores da alta conectividade de nosso tempo, eles apenas a potencializaram, na medida em que criam boas condições técnicas para sua realização.

Contudo acredito que o que, de fato, está por trás de todo esse processo é uma ética desenvolvida entre a modernidade e a posmodernidade, segundo a qual o principal compromisso de cada um é para consigo mesmo, algo que os sociólogos chamamos “sociedade dos indivíduos”. A modernidade inventou a lógica do “cada um para si” e a incute em cada um de nós desde a mais tenra infância, liberando-nos de uma responsabilidade maior que outrora ou alhures vinculava o indivíduo ao seu povo.

É a natureza e a intensidade desse vínculo que induz a prevalência de relações mais ou menos compromissadas, sendo que, por vezes, o grau de compromisso define o diferencial de uma relação. Tomando o exemplo das relações amorosas, pode-se casar, noivar, namorar ou simplesmente ficar; são tipos de relações amorosas que todos conhecemos estando ou não a vivencia-las e que se diferem entre si pelo grau de compromisso. Embora o glamour dos eventos possa fazer parecer o contrário, é obvio que o casamento é uma instituição em crise na contemporaneidade. De fato o significado tradicional dessa relação praticamente encontra-se em extinção. As pessoas se casam, mas não precisam mais continuar juntas até que a morte as separe. Isso significa que o casamento hoje é uma espécie de namoro incrementado com compromissos de sobrevivência. No casamento à moda antiga o compromisso é tão grande que prescinde da conectividade: era comum entre velhos casais a quase ausência de conexões e, no entanto, o compromisso estava garantido até o derradeiro instante. Por outro lado o contato amoroso fortuito e descompromissado que tem sido denominado ficar certamente não é uma invenção moderna, mas só há pouco ganhou legitimidade moral. Uma relação puramente sexual, se é que isso é possível, seria exclusivamente conectiva, mas o amor geralmente alimenta a disposição ao compromisso.

Voltando ao contexto histórico do nosso tempo que é visivelmente marcado pela alta conectividade em detrimento do baixo compromisso, podemos ser tentados a crer que a liberação moral para o ficar faria dessa modalidade de relação romântica a mais característica de nosso tempo. No rastro dessa ideia há razões para preocupar com a frugalidade das relações e até temer por uma tendência desagregadora ameaçando a coesão social. Eu diria que isso não está completamente fora de cogitação, mas a liberação para viver de forma mais descompromissada traz profundas inseguranças ao sujeito, como se o preço que o homem contemporâneo paga por sua liberdade ficasse cada vez mais caro em forma de insegurança.

Mas é notável como a mesma sociedade que cria as condições técnicas e éticas para o afrouxamento das relações também se mostre propensa a apresentar novas formas de compromisso, construir novos modelos de cooperação e comunidades e mesmo surpreender com mobilizações e movimentações sociais reagregadoras. Essa tensão entre agregar e desagregar será o assunto dos próximos artigos. Primeiro falaremos da importância do namoro e de uma valorização do amor, mesmo que sua forma mais pura seja pura teoria, depois falaremos de comunidades e coletivos e, por fim da difusão cultural que põe a viagem, a indústria do turismo e os intercâmbios culturais no cerne da questão sociológica contemporânea.

Euclides Guimarães é sociólogo e professor na PUC Minas e na FUMEC.

Nas condições históricas atuais, ao que tudo indica ineditamente, presenciamos um crescente aumento da conectividade em detrimento de um afrouxamento do compromisso.