A natureza desenhou um coração

Conceição do Mato Dentro tem orgulho de trabalhar o mote “Capital Mineira do Ecoturismo”, uma justa referência ao imenso potencial turístico que possui — constituído, sobretudo, pelas indescritíveis belezas naturais e pelo rico patrimônio histórico, artístico e arquitetônico. Mas, ao mesmo tempo, o município abriga um dos grandes investimentos na área de mineração do Brasil: o Projeto Minas Rio, da multinacional Anglo American. A convivência entre a atividade mineratória (e os inegáveis grandes impactos que ela produz) e o turismo é agora um desafio cotidiano tanto do município quanto dos conceicionenses. Um aspecto positivo dessa convivência é o cumprimento das condicionantes ambientais por parte da companhia, como a realização das obras de restauração da Matriz de Nossa Senhora da Conceição e a revitalização de trilhas que dão acesso às deslumbrantes cachoeiras do Tabuleiro e Rabo de Cavalo.

Reportagem Cézar Félix
Fotos Rogério Alves Dias

 

As curvas da estrada que corta o maciço do Espinhaço em direção a Conceição do Mato Dentro aguçam os pensamentos em torno do quão é grandiosa a história dessas terras outrora repletas de ouro. Morada dos índios botocudos muito antes da chegada dos primeiros bandeirantes — afirma-se que o primeiro a adentrar esses sertões foi Fernandes Tourinho, em 1573 —, a região tem registrada na história o rastro contundente das imensas riquezas geradas pela mineração do ouro.

É repleta de simbolismo a forma como se deu o descobrimento do lugar onde hoje se ergue o município: em uma única “bateada” — ou seja, na utilização da bateia, uma espécie de peneira que se usa na lavagem da areia e que tem apenas um furo para escorrer a água —, o bandeirante Gabriel Ponce de Leon conseguiu apurar 20 oitavas de ouro, uma fortuna na época. Para se ter uma ideia, a oitava parte da “onça”, então a unidade de medida do ouro, correspondia a 3.585 gramas. Ponce de Leon era integrante da comitiva do bandeirante coronel Antonio Soares Ferreira, que, em 1701, efetivamente iniciou a conquista desse precioso rincão da Serra do Espinhaço, pois lá se descobriu uma das mais ricas lavras auríferas do nordeste das Minas. Logo em seguida, às margens de um ribeirão que ganhou o nome de Santo Antônio, os bandeirantes ergueram a Capela de Nossa Senhora Aparecida de Córregos, onde é hoje o bucólico Distrito de Córregos, que ainda conserva a linda capela, datada de 1738.

História grandiosa

Em 1702, o povoado surgiu sob a liderança de Ponce de Leon, um devoto de Nossa Senhora da Conceição que comandou a construção de uma capela. No ano seguinte, em 1703, chegou de Itu (SP) a imagem da santa, para abençoar e efetivar o funcionamento desse recanto de fé e devoção. Esse pequeno templo, anos depois, transformou-se na Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, símbolo maior do patrimônio histórico, artístico e arquitetônico da cidade, além de ser a referência maior dos conceicionenses.

Uma vez dentro da cidade, não há como ficar insensível ao impacto que causa a imponente matriz. Não apenas porque a linda arquitetura está quase que totalmente ofuscada pelas grandes cercas de metal que a envolvem. Em princípio, a impressão que se tem é de uma obra abandonada à própria sorte.

Porém, ocorre que a construção da igreja matriz tem uma longa história, que se confunde com a história do município: em 1722 foi concluída a capela-mor; em 1772, após a liberação de recursos por parte do rei dom José I, de Portugal, as obras recomeçaram e foram concluídas em 1822. Embora tenha sido tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) apenas em 1948, a Matriz já passou por várias obras de restauração e atualmente passa por mais um amplo trabalho de restauro.

O interior da igreja guarda uma importante decoração em estilo rococó e com elementos do barroco. Destaque para as pinturas dos painéis laterais e do forro da sacristia, obras que são atribuídas (não existe uma definição correta) a Manoel da Costa Ataíde, o Mestre Ataíde, ou ao artista Silvestre de Almeida Lopes, dono de importantes obras entre o Serro e Diamantina.

“Tal quais as tradicionais matrizes mineiras da primeira metade do século XVIII, a Matriz de Nossa Senhora da Conceição apresenta planta composta de nave, capela-mor e duas sacristias que se estendem ao longo das paredes. As torres são cobertas por telhados de quatro águas. O conjunto de talha dourada que reveste os três altares é datável de meados do século XVIII”, descreve o Iphan.

Outro tesouro da matriz é a pintura do centro do forro central, que revela um medalhão representando o Santo Sudário. “A estampa do rosto de Cristo que está no medalhão é uma das pinturas mais encantadoras e delicadas do patrimônio da arte religiosa do país, na opinião do historiador Rodrigo Melo Franco de Andrade”, informa a Secretaria de Turismo de Conceição do Mato Dentro.

Passagens históricas

A cada passo da caminhada pelo Centro de Conceição, a história da cidade pede passagem, representada por sobrados, como a antiga Casa de Câmara e Cadeia, de 1840; a Casa da Cultura, restaurada entre os anos de 2001 e 2002; e o Sobrado da Prefeitura Municipal, edifício do final do século XVII que ainda hoje conserva traços originais, apesar das diferentes intervenções ao longo dos séculos. O chafariz da Praça Dom Joaquim, de 1825, esculpido em pedra-sabão, é um monumento muito interessante. Tombado pelo Iphan, é considerado um dos mais originais entre os que existem em Minas Gerais.  “O projeto e a execução da escultura são de autoria do mestre José Caetano”, informa a Secretaria de Turismo, que também detalha aspectos da obra: “a estrutura do chafariz se constitui de uma coluna com cerca de 3,30 m de altura, torneada em duas partes. Na inferior, estão quatro carrancas em figura de vulto, sustentando com as costas o pedestal, onde se assenta um ‘guerreiro guarani’. As carrancas, medindo cada uma 0,57 m, são figuras nuas, suspensas no ar e abrindo a boca com ambas as mãos, por onde jorrava água”.

Na mesma praça, está o Colégio São Joaquim, que iniciou as atividades como escola em 1910. A bonita fachada ainda conserva traços coloniais, mas, no interior do prédio, existem pinturas de uma data próxima ao ano de 1790. Elas mostram pessoas vestidas com roupas da época. Todo o conjunto do Colégio São Joaquim foi tombado pelo Iphan em 1948.

Caminhando um pouco mais, chega-se ao Mercado Municipal, um prédio em estilo eclético, de 1931, restaurado em 2002. Lá dentro, todos os cheiros e sabores dos produtos tradicionais da região. Logo ao lado, ergue-se a linda Capela de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, pintada de azul-celeste e branco. Inaugurada em 1730 — e restaurada pela última vez em 2003 —, foi construída, conforme conta a história, por iniciativa dos negros alforriados e escravos. Isso porque eles foram proibidos de frequentar a matriz por causa de um incidente com os brancos no ano de 1727, durante a visita de dom Antonio de Guadalupe, então bispo do Rio de Janeiro.  A capela também é tombada pelo Iphan desde 1948.

Outro monumento colonial de destaque é a Capela de Santana, situada do lado oposto à Praça do Rosário, em local alto, chamado Colina da Santana. O singelo templo foi construído em 1744 e, depois de um período de abandono, em razão da decadência da mineração do ouro, foi reconstruído entre os anos de 1880 e 1886. Próximo à Capela de Santana, está outro atrativo interessante: o Cruzeiro da Forca. Trata-se uma grande cruz de madeira braúna, decorada com elementos que representam a paixão e a morte de Jesus Cristo, além da figura do galo no topo do Cruzeiro, uma referência bíblica ao galo que cantou três vezes enquanto Cristo era negado por Pedro, o apóstolo.

Santuário do Bom Jesus de Matozinhos

Ao se tratar de religiosidade, devoção e fé, continuando pelas trilhas da história, a paisagem de Conceição do Mato Dentro é dominada, lá do alto, pelo impacto da vista do Santuário do Bom Jesus de Matozinhos. A igreja impressiona pela grandiosidade, principalmente quando é avistada ao longe, já que tem localização estratégica, em lugar de considerável altitude. À noite, pela iluminação, o visual fica ainda mais bonito. O santuário é palco da maior festa da cidade e uma das maiores (e mais importantes) celebrações religiosas não só da região, mas também de todo o estado de Minas Gerais.

O Jubileu do Senhor Bom Jesus do Matozinhos acontece desde o ano de 1787, sempre no período entre os dias 13 e 24 de junho. Essa incrível tradição religiosa começou quando um escravo de nome Antônio Angola encontrou uma imagem do Bom Jesus Crucificado no meio de uma mata fechada. Ele a levou para o seu senhor, que era um padre chamado Manoel Santiago. O religioso abençoou a imagem e a levou para a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição. Porém, algo muito estranho ocorreu: a imagem desapareceu da matriz e reapareceu no mesmo local onde havia sido encontrada pelo escravo Antônio. Embora a imagem tenha sido levada novamente para a igreja matriz, ela tornou a desaparecer e a ser reencontrada no meio da mata. Essa situação se repetiu mais uma vez até que um português chamado José Correia, nascido em Matozinhos, Portugal, fez a promessa de que, se ficasse curado de grave enfermidade, construiria um abrigo para a imagem no lugar ao qual ela retornara três vezes. E assim foi feito. A história, todavia, não terminaria ali: após a promessa ter sido cumprida, a imagem foi abandonada no abrigo construído. Pouco tempo depois, a região foi assolada por uma forte estiagem que não cessava. O escravo Antônio sugeriu, então, ao padre Manoel que liderasse uma procissão com a imagem, para que a população pudesse rezar pelo fim da seca. A procissão saiu do abrigo na mata e iria até a matriz. Só que, no meio do caminho, desabou um temporal jamais antes visto e que durou 15 dias sem cessar. Essa foi a origem da romaria ao Bom Jesus de Matozinhos.

Pouco depois, por sugestão do bispo do Rio de Janeiro, dom Francisco João da Cruz, foi erguida uma capela primitiva em honra à imagem do Cristo Crucificado, considerada milagrosa. A capela foi inaugurada em 1760. Dez anos depois, a já existente irmandade do Bom Jesus do Matozinhos comandou a construção de um novo templo, que foi concluído em 1773. Essa igreja existiu até o ano de 1931, quando foi demolida devido ao precário estado de conservação. Foi nessa época que surgiu a atual igreja que abriga o Santuário do Bom Jesus do Matozinhos.

O conjunto arquitetônico do santuário é constituído por igreja, convento, escadaria e alguns elementos erguidos posteriormente, como o altar externo, assinado por Oscar Niemeyer, a casa dos romeiros, a via-sacra e a sala dos milagres, que está abaixo do altar-monumento. A igreja, cujo edifício mede 47 m de comprimento por 18 m de largura e 34 m de altura, é formada por nave, capela-mor e sacristias laterais. O estilo arquitetônico pode ser definido como eclético, pois vai do neogótico ao mourisco. As obras de talha, em estilo rococó, foram tombadas pelo Iphan, assim como os ornamentos — eles datam do período que vai de 1805 a 1811 —, que ilustram cenas bíblicas. Há ainda os belos vitrais, instalados ao longo das paredes da nave, com obras que desenham cenas da vida de Cristo.

Cenários encantadores

Os caminhos que rompem as serras que formam o maciço do Espinhaço — a cordilheira do Brasil — nos domínios do município de Conceição desvelam cenários encantadores a cada curva. A fartura impressionante de nascentes, córregos, ribeirões e os rios que cortam aquelas paragens provocam o sentimento momentâneo de uma grande ilusão de que todas essas águas são infindas, que são recursos inesgotáveis. Ilusão à toa, infelizmente.

Todavia, o encanto não se perde, muito pelo contrário. As belezas se multiplicam nas paisagens formadas por ainda generosas porções de mata atlântica, nas plantas inconfundíveis, típicas do bioma cerrado (ipês, gameleiras, braúnas, jatobás, paus-de-óleo e até a raríssima sucupira) e nos sempre belos campos rupestres — orquídeas, bromélias, cactos, canelas-de-ema, sempre-vivas se espalham entre imensas pedras.

A riqueza da região fica evidente, vai além do legado das antigas lavras auríferas e da atual mineração do ferro, como comprova a beleza dessas terras, esculpidas por serras e vales fluviais, encravadas entre as bacias dos rios São Francisco e Doce. As belezas naturais ainda preservadas sustentam um imenso potencial turístico. Não é por acaso que a prefeitura local trabalha o conceito de “Capital Mineira do Ecoturismo”, justamente porque atrativos como as diversas quedas d’água, piscinas e poços naturais movimentam as atividades ligadas ao ecoturismo e ao turismo de aventura.

Nesse campo, o destaque, é claro, é a espetacular Cachoeira do Tabuleiro.

Com 273 metros de queda livre, é a queda d’água mais alta de Minas Gerais e a terceira maior do país. O paredão com tons avermelhados a coloca também entre as mais belas do Brasil. Elementos de matas de galeria, cerrado e campos rupestres compõem a vegetação do entorno. Na parte alta da cachoeira, há outras quedas e lagos, vários deles próprios para banho, e, na parte baixa, existe um poço de 700 m² e 18 m de profundidade.

A cachoeira localiza-se no Distrito de Tabuleiro, a 19 quilômetros da cidade, e, para conhecê-la, é preciso ir até a entrada do Parque Estadual da Serra do Intendente. A trilha que leva ao poço, uma caminhada de uma hora e meia, está atualmente interditada para revitalização. Porém, a poucos metros da portaria, existe um mirante natural que proporciona uma espetacular vista. Desse local, a paisagem desenhada da formação rochosa de onde as águas desabam lembra um coração. Por isso, a deslumbrante queda d’água é também conhecida como a “Cachoeira do Coração”, que é também uma das sete maravilhas da Estrada Real.

Belezas da Serra do Intendente

Outros recantos de muita beleza se revelam atrativos imperdíveis para os apaixonados pela natureza. Eles começam pelas outras cachoeiras e poços, todos encantadores.

Nas proximidades da “Cachoeira do Coração”, é possível conhecer locais como o Poço Pari, o Poço do Vau, a Piscina da Lapa do Rio Preto e a Cachoeira do Zé Cornicha.

O Poço Pari é formado pelo encontro do Córrego Grande com o Rio Preto. O resultado é uma piscina natural de tonalidade caramelo, com 200 m². A mata ciliar preservada em volta e a praia de areias e pedras alvas completam o belo cenário. Está localizado em uma propriedade privada, que cobra uma pequena taxa para visitação; é preciso ter muito cuidado, pois há perigo de afogamento em alguns lugares — que estão devidamente sinalizados. O mesmo cuidado, em razão de algumas pedras submersas em partes mais profundas, é aconselhável para visitar o belo Poço do Vau. Também formado pelo Rio Preto, é ladeado por matas ciliares e rochas, assim como a Piscina da Lapa do Rio Preto, com incríveis 800 m².

Outra beleza do Parque Estadual da Serra do Intendente, a Cachoeira do Zé Cornicha está localizada em um afluente do Rio Preto, próximo ao Boqueirão ou Cânion do Rio Preto. Grandes paredões rochosos, de aproximadamente 90 m de altura, desenham a cachoeira de 60 m de queda que cai em um poço de 30 m²e profundidade de até 2 m. A água é fria e transparente, mesmo com uma tonalidade marrom. As lajes ou lapas ao redor e as bromélias gigantes e sempre-vivas são outras belezas que emocionam.

A Cachoeira Rabo de Cavalo, mais um tesouro da Serra do Intendente, tem queda de 150 m. Na parte mais alta, há outras cachoeiras, poços e lagos, mas a maioria dos visitantes prefere a parte baixa, atraída pelo grande poço, excelente para banhos, porém é preciso ter muito cuidado, pela extensão e pelo volume d’água. A Rabo de Cavalo fica a aproximadamente 24 km de Conceição do Mato Dentro, seguindo em direção ao Distrito de Itacolomi. A partir daí, caminha-se em torno de 40 minutos até a cachoeira, em uma trilha que está sendo totalmente revitalizada.

Indescritíveis belezas cênicas

Na mesma região, também dentro dos domínios do Parque Estadual da Serra do Intendente, localiza-se o incrível cânion do Peixe Tolo, de indescritível beleza cênica. Para chegar lá, é preciso viajar 25 km desde Conceição até o distrito de Itacolomi. Em seguida, chega-se ao povoado Parauninha e, mais um trecho depois, já é a região do cânion. A partir desse ponto, só é possível chegar ao destino final caminhando aproximadamente por duas horas e meia. O trajeto de cerca de 5 km só pode ser realizado com acompanhamento de um guia turístico devidamente credenciado. A trilha é de uma beleza imensa, com amplos paredões de rocha e lajes que formam magníficos poços de águas cristalinas. O ápice fica por conta da Cachoeira do Peixe, com estonteantes 200 m de queda d’água, considerada a segunda maior da região. Embora o paradisíaco lugar seja um atrativo e tanto para os aventureiros, é preciso ter autorização do Instituto Estadual de Florestas (IEF) e da Secretaria Municipal de Turismo para a prática de esportes de aventura.

Outros dois interessantes atrativos estão na saída para BH. São as cachoeiras Três Barras e São Miguel.  Os 30 m de queda livre da primeira cachoeira podem ser conferidos no povoado de Três Barras. A paisagem é atrativa, e os poços de baixo e de cima são apropriados para banho. São 13 km saindo de Conceição do Mato Dentro MG-010, sentido Belo Horizonte. Com uma piscina natural e cercada de muito verde e plantas nativas, a Cachoeira de São Miguel é boa pedida de passeio para quem quer passar uma tarde agradável junto à natureza. Destaque para pinturas rupestres, atrações à parte. A queda d’água fica a 17 km de Conceição no mesmo povoado de Três Barras.

O Parque Municipal Salão de Pedras é outro imperdível atrativo do município. O lugar é tão rico em recursos naturais e também em sítios arqueológicos e pinturas rupestres, datadas de até 5 mil anos, que se tornou área da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço. Ao longo dos séculos, a ação dos ventos e das chuvas transformaram as rochas em incríveis esculturas naturais.

O parque é um dos melhores locais do planeta para a prática da escalada na modalidade “boulder”. Por isso, recebe a visita de turistas e esportistas de várias nacionalidades, praticantes desse esporte de aventura. No Salão de Pedras, estão situados os principais balneários mais próximos da cidade, como Água Quente, Baú, Ginásio, Padre Elói, Lago Azul, e o Poço das Ninfas.

“Capital Mineira do Ecoturismo”

Conceição do Mato Dentro tem orgulho de trabalhar o mote “Capital Mineira do Ecoturismo”, uma justa referência ao imenso potencial turístico que possui. Ao mesmo tempo, o município abriga um dos maiores investimentos na área de mineração do Brasil: o Projeto Minas Rio, da multinacional Anglo American. Para se ter uma ideia, a companhia espera produzir 26, 5 milhões de toneladas de minério de ferro até julho de 2018. Isso vai acontecer após a aprovação da licença ambiental para a implantação da fase 3 do projeto, que prevê investimentos de R$ 1 bilhão a partir do mês de julho de 2017.

No entanto, a Prefeitura de Conceição do Mato Dentro, por meio da Secretaria de Turismo — pasta sob o comando de Rejane Ottoni —, garante que os investimentos na atividade turística são também prioritários: “para o desenvolvimento do nosso potencial turístico, a prefeitura elaborou o ‘Plano Estratégico da Atividade Turística’, com foco no ecoturismo, no turismo cultural, no turismo religioso e no turismo rural”. Segundo ela, “pesquisas e diagnósticos foram realizados no primeiro trimestre de 2017, e o plano será implantado ao longo dos quatro anos da atual gestão, com a priorização de alguns dos atrativos naturais e histórico-culturais, os quais receberão investimentos em sua estrutura receptiva, como melhoria nos acessos, sinalização, georreferenciamento, banheiros, alimentação, segurança e informações turísticas”. Rejane Ottoni argumenta que um dos objetivos principais do plano é lançar Conceição do Mato Dentro como destino de férias, além de local para passeio nos finais de semana e feriados.

Com planos ambiciosos, a secretária afirma que será criado o Centro de Atendimento ao Turista (CAT), a ser instalado em local de fácil acesso, na entrada da cidade, e o Centro de Atendimento Virtual (CATVirtual), que contemplará um Banco de Informações Turísticas. “As reservas nos atrativos turísticos vão poder ser realizadas pelos próprios turistas e agências. Vai haver suporte em tempo real ao turista em trânsito pela cidade, com mapas, rotas e trajetos para todos os atrativos e estabelecimentos, independentemente da localização do turista”.

“Turismo vivencial”

As propostas da Secretaria de Turismo ainda contemplam outras iniciativas, como a criação de “vários eventos e a reformulação dos já existentes, para manter e atrair mais turistas. Esportes de aventura, gastronomia, religião e cultura, serão os temas principais desses eventos”. Rejane Ottoni também aposta no “turismo vivencial”, “que também será incentivado, dando oportunidade para que — por meio da valoração da cultura regional — as pessoas conheçam Conceição do Mato Dentro de forma participativa, e não só de maneira contemplativa, como é o mais comum”, argumenta.

A secretária reconhece que, para implantar um plano “de tal magnitude”, a Prefeitura de Conceição do Mato Dentro entende que “será necessário um esforço conjunto entre iniciativa privada e poder público, sendo vital o desenvolvimento de um ‘ecossistema empreendedor’ no município”. Ela explica que, para isso, executará ações “para viabilizar fatores que criam um meio favorável ao empreendedorismo”. Nesse sentido, “a principal ação estratégica será a capacitação humana, tanto de empreendedores e recursos humanos como de alunos da rede pública de ensino”.

Terra das cachoeiras gigantes

A comunidade conceicionense demonstra ter consciência do que o turismo, nos dias de hoje, representa para o município. O gestor cultural, músico e empresário Deco Lima — proprietário do Radiola Studio Bar — considera que a cidade está “pronta para receber turistas”. Ele aponta um fator interessante que existe em Conceição, típico de uma cidade em busca da convergência de interesses. “Por um lado, o nativo ainda não tem consciência de que vive em uma cidade turística; há ainda certo despreparo. Por outro lado, muita gente nova agora vive aqui, então ocorre que existe muita gente pensando a cidade de outra forma, e isso inclui questões fundamentais, como turismo, educação, cultura e desenvolvimento sustentável”. Deco acrescenta que é muito bom perceber que existe uma estrutura pronta e preparada para receber: “estamos com a faca e o queijo na mão!”, exclama. O músico, porém, critica um “hiato” que ocorre no município em razão de uma “estratégia de trabalho” da vizinha Serra do Cipó. “O trade turístico do Cipó trabalha a Cachoeira do Tabuleiro, o nosso principal atrativo, como um produto agregado aos atrativos de lá. Então, o turista vem ao Tabuleiro e volta para a Serra do Cipó. Ele não fica em Conceição”, aponta.

O empresário Samuel Taets Junior, proprietário da Pousada da Gameleira — localizada no Distrito do Tabuleiro, muito próxima da “Cachoeira do Coração” —, reconhece a abrangente potencialidade turística do município, mas faz “críticas construtivas” sobre “os equívocos” no modo de trabalhar esse potencial, sobretudo por parte de autoridades públicas. Samuel lembra que “Conceição é abençoada com muitas ‘obras divinas’”, pois tem vários balneários muito próximos do centro urbano, “como o Baú e o Águas Quentes, dentre outros”. Ele acrescenta que somente na crista da Serra do Intendente, existe uma concentração das maiores cachoeiras de Minas e do Brasil. “Em um raio de 10 km, existem cinco cachoeiras com mais de 100 m de altura”, diz. O empresário é enfático ao afirmar “que esse patrimônio não é trabalhado adequadamente”, como exemplifica: “isso poderia ser trabalhado como um produto turístico da ‘terra das cachoeiras gigantes’, e nada acontece”, reclama.  Outro aspecto salientado por  ele diz respeito à rica biodiversidade local. “Trata-se de outro fantástico produto turístico que passa despercebido. Afinal, são mais de 4 mil espécies de plantas e outras tantas espécies de aves; por essa razão, eu recebo aqui biólogos e também ornitólogos, vindos de várias partes do Brasil e também do exterior”.

Samuel defende que todas as questões relacionadas à atividade turística exigem “uma visão macro sobre como trabalhar adequadamente todas as potencialidades oferecidas pelo município”. Segundo ele, torna-se fundamental a presença de gestores com capacidade técnica, sejam profissionais liberais que atuam na área sejam empresas especializadas. “Aqui eles teriam muitas ferramentas para trabalhar”.

Se houvesse uma “gestão profissional”, conforme diz Samuel, não haveria alguns graves problemas: “Não existem, por exemplo, placas de divulgação da Cachoeira do Tabuleiro na Rodovia MG-010, e isso é uma grande falha, pois ignora-se o nosso principal atrativo”. Outro ponto criticado por ele é o fato de a Secretaria de Turismo não funcionar nos finais de semana, “justamente quando é maior o número de visitantes”.

Mas um aspecto que Samuel faz questão de criticar está relacionado à Cachoeira do Tabuleiro, cuja trilha de acesso que leva ao grande poço passa por obras de revitalização sob responsabilidade da companhia Anglo American. “Há uma grande divulgação de que a trilha está sendo revitalizada, mas eles simplesmente se esquecem de que existem vários outros atrativos no município. Ou seja, vende-se um conceito de que somente existe a Cachoeira do Tabuleiro. Para mim, é incompreensível, um erro estratégico grotesco não aproveitar o gancho da trilha em revitalização para divulgar maciçamente os outros maravilhosos atrativos”, encerra.

Turismo presente

A presença dos turistas e o fluxo de visitantes interessados nas belezas naturais dos domínios da terra conceicionense são uma realidade tratada com carinho por pessoas e empreendedores como Neusa Ferreira, uma simpática senhora, proprietária do Restaurante da Família, que serve deliciosos pratos da cozinha típica local, a “comida caseira”. Após servir à reportagem uma deliciosa galinha caipira ensopada, com ora-pro-nóbis, quiabo e angu, acompanhados de feijão, farofa, salada — com todas as folhas e legumes cultivados no quintal do restaurante —, ela conta que percebe a presença de cada vez mais turistas na região. Inclusive, dona Neusa também trabalha em uma grande pousada próxima de seu restaurante. “De uns anos para cá, aparecem muitas pessoas que procuram as cachoeiras e lugares sossegados para descansar. Ainda tem o pessoal das bicicletas e até estrangeiros”, diz ela. “Anteriormente, era muita gente de BH, mas agora aparecem muitas pessoas de outros lugares”, completa.

Renato Batista, há 15 anos administrando a entrada de turistas no Poço do Vau, concorda: “cresceu muito o número de visitantes de outros lugares, pois antes eram mais frequentes as visitas de pessoas da região”. Ele repara um fato interessante: “os turistas são muito ecológicos, eles procuram manter o lugar sempre limpo”. O casal de turistas Denise Borges e Eduardo Affonso, ambos de Belo Horizonte, frequentadores da região há mais de uma década, também nota um movimento muito maior de turistas nos últimos anos: “não há dúvida de que o turismo cresce, basta verificar o aumento do número de opções de hospedagem”, diz Eduardo, que acrescenta: “noto muita gente em busca de aventuras, vejo pessoas que gostam de fotografar e as que são apaixonadas por cachoeiras e piscinas naturais”. Denise acredita que projetos como a Estrada Real ajudaram a atrair mais turistas, “pessoas interessadas em aproveitar o que a natureza oferece”. Para ela, esse ponto da Serra do Espinhaço “é perfeito para os ecoturistas, pelas incomparáveis belezas naturais que são de fácil acesso”.

A observação da turista Denise foi fácil de ser comprovada devido à presença, na estrada que leva à Cachoeira Rabo de Cavalo, dos amigos paulistanos Fernando Lucena, Karla Amaral e Juliana de Meneses. Os três, com 27, 26 e 25 anos, respectivamente, estavam de férias do trabalho e decidiram conhecer a Serra do Espinhaço: “visitar a Cachoeira do Tabuleiro foi a nossa primeira opção já que somos apaixonados por ecoturismo e por Minas Gerais”, diz Fernando. “A beleza dos outros lugares, como a Cachoeira Rabo de cavalo, também nos surpreendeu”, confessa Karla. “E vamos ao Cânion do Peixe Tolo, o lugar é incrível, não dá para ir embora sem conhecê-lo”, completa Juliana.

O impacto da mineração e as condicionantes ambientais

A rotina de Conceição do Mato Dentro se transformou depois que a companhia Anglo American iniciou o Projeto Minas-Rio de extração e beneficiamento do minério de ferro. Em 2016, foram produzidas 21,6 toneladas de minério e, em 2018 — assim que começar a fase 3, após a aprovação da licença ambiental por parte da Secretaria de Estado de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável de Minas Gerais (Semad) —, a produção deve chegar a 26,5 milhões de toneladas.

No que se refere ao convívio entre a atividade turística e um projeto de mineração de tamanha envergadura, a Secretaria de Turismo de Conceição informa que o município foi beneficiado nas duas fases do Projeto Minas-Rio “com condicionantes que contemplam o desenvolvimento da potencialidade turística do município, como, por exemplo: revitalização da trilha Ecológica Cachoeira Tabuleiro (em andamento)/Rabo de Cavalo; Trilha Ecológica Cruzeiro da Forca/Mirante; Trilha Ecológica Cruzeiro da Forca/Antena de TV; Trilha ecológica e Pista de Voo Livre (em licitação), além dos roteiros turístico, histórico e cultural”.

Para obter importantes esclarecimentos da Anglo American sobre o relacionamento institucional da companhia com a comunidade e para que a companhia pudesse registrar a posição oficial sobre fatores como os impactos social e ambiental provocados pela mineração, além do cumprimento das condicionantes, a reportagem recebeu da Assessoria de Imprensa da Anglo American respostas a importantes questões propostas. A reportagem, a convite da Anglo American e acompanhada de profissionais da companhia, visitou as trilhas revitalizadas e as obras de restauração da Matriz de Nossa Senhora da Conceição.

— Com as atividades da mineração em pleno desenvolvimento, as quais resultam em grandes investimentos por parte da Anglo American, qual é, em linhas gerais, a política da companhia na gestão dos impactos tanto na área rural quanto na urbana?

— Desde o início da implantação dos empreendimentos, temos a preocupação de atuar de forma sustentável, respeitando o meio ambiente e as comunidades onde estamos. Sabemos que a instalação de empreendimentos de grande porte gera mudanças nos locais onde eles são instalados. O nosso desafio é potencializar os efeitos positivos gerados pelo Minas-Rio, compartilhando ganhos mútuos e minimizando os efeitos negativos. Temos diversas medidas de monitoramento, controle, mitigação e compensação de impactos, detalhadas no Plano de Controle Ambiental (PCA) do empreendimento, como o Programa de Gestão de Recursos Hídricos, o Programa de Gestão da Qualidade do Ar e o Projeto de Compensação Florestal.

Dessa forma, buscamos a continuidade operacional de nosso negócio ao mesmo tempo em que contribuímos para a melhoria da qualidade de vida nos municípios onde estamos inseridos. Isso tem sido feito por meio de investimentos em áreas que são fundamentais para a sociedade, como a geração de emprego e renda, a educação, a saúde, a infraestrutura, a segurança pública e o meio ambiente. Além disso, buscamos incentivar o empreendedorismo em outras frentes da economia local, como a agricultura e o turismo, por exemplo.

— Há uma grande preocupação por parte dos ambientalistas em torno do “maior mineroduto do mundo”, pelo uso dos recursos hídricos. Qual é a resposta da companhia com relação esse tipo de questionamento?

— O Grupo Anglo American está focado em reavaliar seus processos em todo o mundo para atingir um uso mínimo de água. No Minas-Rio, reutilizamos 63% de água na operação – mina, planta de beneficiamento, mineroduto e terminal de minério de ferro no Porto do Açu –, provenientes de reúso via barragem e planta de filtragem. O mineroduto que liga a mina em Conceição do Mato Dentro (MG) até o porto em São João da Barra (RJ) foi planejado para um consumo otimizado de água, sendo que a polpa é constituída por cerca de 30% de água e 70% de minério de ferro.

Para a operação do Minas-Rio, a Anglo American possui outorga, concedida pelo Instituto Mineiro de Gestão das Águas (Igam), para captação de 2.500 m³/h de água no Rio do Peixe, em Dom Joaquim (MG), quantidade que atenderá à capacidade de produção nominal do empreendimento, que atualmente está em fase de ramp-up.  A quantidade de água que captamos obedece ao nível de vazão de água do Rio do Peixe, que também precisa abastecer outros usuários da bacia. O nível de vazão é acompanhado pelos dados dos monitoramentos dos recursos hídricos, que são feitos diariamente. Assim, garantimos nunca ultrapassar a quantidade licenciada, mas, principalmente, que os limites de captação durante períodos de estiagem sejam sempre respeitados. À medida que a vazão do Rio do Peixe diminui, a captação é reduzida ou até mesmo totalmente paralisada (em situação de forte estiagem), possibilitando que os cursos d’água sejam dedicados aos usuários prioritários, que são os seres humanos e os animais.

— Conceição do Mato Dentro, de certa forma, conseguiu grande destaque como um município com imenso potencial para o ecoturismo e o turismo de aventura, além do turismo religioso em razão da romaria de Bom Jesus de Matozinhos. A cidade também guarda interessante e rico acervo do patrimônio histórico e arquitetônico. Na opinião da companhia Anglo American, é possível que Conceição do Mato Dentro mantenha a vocação turística diante de tão vultoso empreendimento?  É possível a boa convivência entre as atividades turística e mineradora?

— Certamente! Acreditamos que é possível que a mineração contribua para o desenvolvimento sustentável e, no caso de Conceição do Mato Dentro, para a atividade turística. Temos contribuído, inclusive, para fomentar o turismo na região por meio de diversos investimentos. Desde abril, estamos implantando, em conjunto com a prefeitura, novas estruturas nas cachoeiras do Tabuleiro e Rabo de Cavalo, como escadas de madeira, corrimãos, passagens e mirantes para que o visitante possa admirar a beleza da região. Também estão sendo instaladas placas indicativas para facilitar o acesso e garantir que ninguém se perca no caminho. Outra ação é a sinalização da Estrada do Charco, uma via de acesso pouco usada, que liga a Rabo de Cavalo à Tabuleiro, permitindo que o caminho seja melhor utilizado pelos turistas, para percursos tanto a pé quanto de bicicleta.

Além disso, por meio da aquisição, da regularização e da mobilização de terras, contribuímos para a preservação do Parque Estadual da Serra do Intendente, localizado nos distritos de Tabuleiro, do Itacolomi e de Ouro Fino, em Conceição do Mato Dentro, e nos municípios de Congonhas do Norte e Santana do Riacho. Ele foi criado em 2007, pelo Instituto Estadual de Florestas (IEF), com o objetivo de proteger o patrimônio natural local.  Ao todo, 2 mil hectares já se tornaram unidades de preservação permanentes. Nós já regularizamos e mobilizamos mais de 100 hectares para a Unidade de Conservação do Monumento Natural da Serra da Ferrugem. Também estamos desenvolvendo a terceira fase do Crescer – Programa de Empreendedorismo, com atividades de capacitação e assessorias presenciais para jovens e empreendedores locais pelos próximos três anos. Uma das frentes de atuação dessa fase do programa é justamente o turismo.

Sabendo da importância delas para a história e para o turismo religioso, a Anglo American também investiu na restauração de igrejas históricas na região. A pista de caminhada e a via-sacra em torno do Santuário Bom Jesus do Matozinhos, em Conceição do Mato Dentro, foram revitalizadas pela empresa, com o investimento de R$ 1,1 milhão. No Serro, a Igreja do Rosário também foi restaurada com recurso financeiro da empresa. Em Alvorada de Minas, estamos construindo, ainda, o Centro de Cultura, Lazer e Turismo da cidade.

É nosso papel, enquanto empresa socialmente responsável, contribuir para que o município diversifique sua matriz econômica para além da atividade mineral. O turismo é, sem dúvida, uma das grandes vocações de Conceição do Mato Dentro, e é nossa intenção continuar contribuindo para o desenvolvimento do município nessa frente.

— Como as condicionantes para obtenção das licenças ambientais, principalmente no que se refere à fase 3 do projeto Minas-Rio, podem ajudar no desenvolvimento de toda a potencialidade turística do município?

— Ao conceder uma licença ambiental, o órgão ambiental competente impõe, ao empreendedor, uma série de condicionantes, cujo cumprimento é determinante para a manutenção da licença obtida ou a obtenção de novas licenças. Essas condicionantes correspondem a medidas mitigadoras, ou seja, medidas para minimizar, compensar ou reparar os impactos gerados, além de ações para potencializar os impactos positivos.

Como parte do Plano de Controle Ambiental (PCA) do licenciamento da fase 1 do Minas-Rio, desenvolvemos o Programa de Apoio ao Turismo, com o objetivo de transformar potencialidades dos municípios de Conceição do Mato Dentro, Alvorada de Minas, Dom Joaquim e Serro em realidade econômica, promovendo o fortalecimento do turismo na região e a conciliação dele com a atividade minerária. Uma das iniciativas desse programa foi o “Circuitos do Conhecimento”, por meio do qual quase mil pessoas dessas cidades participaram dos cinco ciclos de cursos de qualificação profissional, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac).

A Anglo American está trabalhando também, em parceria com o Conselho Municipal de Turismo de Conceição do Mato Dentro, no desenvolvimento do Roteiro Turístico Histórico Cultural, que envolve a elaboração de seis rotas que destacarão a história cultural e também os atrativos naturais da região. Além da sinalização dessas rotas com placas indicativas e totens, serão criados site e aplicativo para smartphone, para orientação do turista. A empresa também capacitará os agentes públicos de turismo para receber os turistas e lançará uma campanha de divulgação de todo o roteiro. A previsão é de que todo o trabalho seja concluído até o fim deste ano.

Para além das condicionantes, desde a implantação do Minas-Rio, o poder público municipal das quatro cidades tem recebido apoio técnico e financeiro da Anglo American para a adequação de várias de suas infraestruturas e de serviços prestados à população. Além disso, com o aumento da geração de emprego e renda na região, houve o aquecimento de diversos setores da economia, o que gerou investimentos e melhorias na rede hoteleira e na prestação de serviços, por exemplo. Isso, sem dúvida, contribuiu para melhorar o potencial turístico da região. Durante a fase 3, continuaremos investindo, de forma a proporcionar desenvolvimento às comunidades locais e cidades anfitriãs.

Pau de sebo

O artista plástico conceicionense Paulo Virgílio de Carvalho Silveira, conhecido por todos pelo apelido “Grilo”, que inclusive é o nome artístico adotado por ele, inaugurou no mês de maio a bela escultura “Pau de Sebo”, instalada no Largo do Rosário.

Autor de outras esculturas instaladas na cidade, como as obras “Homem do Mato Dentro” — que fica na Praça do Fórum — e “Artesãos”, que está na Rua do Artesanato, Grilo conta que a inspiração para criar o “Pau de Sebo” remete à infância dele, sobretudo na época das festas de São Sebastião, às quais o artista frequentava acompanhado do pai. “Eram festas grandiosas, ricas em tradições de religiosidade e fé, que aconteciam em Conceição e também em Diamantina. Fiz o primeiro esboço da escultura há 21 anos”, conta. Agora, se mostra feliz e orgulhoso por ter mais uma obra assinada por ele instalada na sua cidade natal e no Largo do Rosário. “A escultura ‘Pau de Sebo’ está em um lugar perfeito”, destaca. “A distância da igreja foi devidamente respeitada, e houve a aprovação do Iphan e do Conselho Deliberativo de Patrimônio Histórico (Condepa) de Conceição de Mato Dentro”, como fez questão de esclarecer.

Matriz de Nossa Senhora da Conceição em restauro

A empresa Cantaria Conservação e Restauro, responsável pelos trabalhos de restauro da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, ainda não tem uma previsão de quando será finalizado o minucioso trabalho. Vale registrar que a matriz está fechada há quatro anos, desde quando os serviços foram iniciados.

O engenheiro Ricardo Senra, um dos proprietários da Cantaria — ele é sócio da esposa Dulce Senra, a restauradora responsável —, conta que, ao fazer a recuperação das paredes da capela-mor, foi descoberta uma inestimável riqueza em forma de arte. Esse tesouro estava oculto debaixo de camadas de tinta de uma repintura realizada em primórdios do século XX. No total, foram descobertas dez pinturas que retratam cenas da vida de Nossa Senhora e de Jesus Cristo. Dentre as imagens, destacam-se o Batismo de Cristo, os Reis-Magos com o Menino Jesus e Maria com Santa Isabel.

Mas as grandes descobertas não param por aí: “em 1816, também aconteceu uma repintura. Foi jogada uma pintura por cima de uma imagem do forro, em estilo rococó, datada de um período entre 1730 e 1800”, como explica Senra. Como se não bastasse, em 1933, outra pintura foi realizada em cima do rococó. Diante de tão importantes descobertas, Senra conta que eles tomaram uma decisão: “chamar a comunidade, o Iphan, e assim tomamos a decisão de avançar nas remoções dessas pinturas”.

Na remoção de todas as repinturas, os restauradores da Cantaria chegaram às pinturas parietais. “A pintura original do forro forma um conjunto com as ponturas parietais”, esclarece Senra. Foi necessário, então, realizar uma rigorosa pesquisa, para melhor compreender todo esse vasto cenário que se abriu. “O artista responsável por pintar as cenas retratadas nos azulejos das paredes se inspirou nas gravuras publicadas em um livro romano de 1607, de autoria do artista Bartolomeo Ricci”, comprova ele, mostrando o livro para a reportagem. “As gravuras de Ricci estão nas parietais e foram reproduzidas com fidelidade ao original, porém existem algumas modificações em que o autor imprime sua interpretação própria”.

Diante de tantas e importantes revelações, uma informação impressionante é que nenhum dos registros históricos acerca dos elementos artísticos da Matriz de Nossa Senhora da Conceição mencionava todas essas pinturas.

Não resta dúvida de que muito já foi feito e ainda há muito que fazer.