Elisa Freixo

Por Júlia Castro e Cezar Felix
Fotos Cezar Felix

A história da musicista Elisa Freixo confunde-se com os raríssimos e preciosos órgãos pertencentes às igrejas Basílica-Catedral da Sé, de Mariana, e Matriz de Santo Antônio, de Tiradentes. De 1984 até o recente fechamento da Catedral da Sé — para obras de restauração —, Elisa fez concorridos concertos, que se tornaram grandes atrativos turísticos de Mariana. O mesmo acontece há quase uma década, em Tiradentes, com belas apresentações na matriz, as quais emocionam tanto os moradores da cidade quanto (e principalmente) os turistas. Nesta entrevista, Elisa Freixo resume a trajetória dela como concertista e professora, além de explicar o quanto é importante conservar e divulgar esse tão importante instrumento musical. Ela também reflete sobre o potencial turístico de Tiradentes, cidade onde reside há nove anos.

— A senhora poderia realizar uma síntese da sua carreira ao longo dos anos em que esteve ligada à música e também ao patrimônio histórico e cultural?

— A partir da minha relação com a música, eu não imaginava que fosse me dedicar tanto às questões do patrimônio histórico relacionadas ao estilo barroco. Eu comecei estudando piano e tive uma formação paralela, com flauta doce, que foi o meu segundo instrumento. Também tive aulas de canto e, aos 16 anos, passei a estudar órgão. Já nessa época, eu atuava como organista litúrgica em uma igreja muito grande, em São Paulo, que dava muito valor à música e até hoje tem funcionários músicos, tem uma escola de música anexa…

— Qual é essa igreja?

— É a Catedral Evangélica, primeira igreja presbiteriana independente de São Paulo, localizada no Centro da cidade, na Rua Nestor Pestana, ao lado do Teatro de Cultura Artística. Essa igreja foi muito importante na minha vida: eu comecei a atuar lá — com 6 anos e meio de idade —, cantando no coro, e depois, com 11 anos, continuei como organista. Foi um lugar que me deu muitas chances, e muito cedo, de atuação profissional. Isso foi muito bom, porque eu perdi completamente o medo do público. No começo, é verdade, eu tinha pânico uma vez que a igreja é imensa e havia grande expectativa por parte do público. Então, gradativamente eu fui perdendo o medo das plateias. Logo em seguida, comecei a estudar órgão com um professor profissional e, enfim, segui estudando cravo e outros instrumentos musicais. Passei quatro anos e meio fora do Brasil, na Europa, me dedicando aos estudos.

— Onde a senhora estudou na Europa?

— Estudei na Alemanha, na França e na Suíça. Na Suíça, foi em caráter particular, mas, nos outros países, eu cursei escolas. Na volta ao Brasil, eu não sabia exatamente o que se apresentaria para mim em termos de oportunidades de trabalho. Porém, em pouco tempo, eu já estava com muitos alunos em São Paulo. Daí, de repente, surgiu Mariana no meu horizonte, e houve uma demanda muito clara para que um organista acompanhasse a execução de concertos logo que o órgão da Catedral da Sé foi restaurado, em 1984. A partir de 1985, no fim do ano, eu comecei a vir regularmente para Mariana, para ajudar. A cidade era muito pequena, muito tranquila e interessante para mim, recém-chegada primeiro de Hamburgo, na Alemanha, e depois de São Paulo, capital. Logo percebi em Mariana uma cidade com muitas carências materiais, fato gerador de um relevante estranhamento para mim. Por essa razão, eu fiquei muitos anos indo e vindo, sem conseguir me fixar na cidade de uma forma mais definitiva. Porém, já havia uma atuação importante em Mariana, além de algum apoio financeiro — baixo, mas já era alguma coisa. Daí, comecei a me entrosar também com Belo Horizonte, já tinha alunos e ministrava cursos em BH. Foi então que me mudei de São Paulo definitivamente para Mariana. A vida começou a ter um peso “barroco”; eu nunca tinha estudado o barroco como um foco central na minha vida.

Eu toco no órgão um repertório muito vasto, e a música barroca é a base de estudo de um organista a partir de grandes autores, como Bach, cuja técnica é muito difícil.

— A relação da senhora com a música era até aí perpassada por algum estilo específico?

— Eu toco no órgão um repertório muito vasto, e a música barroca, com certeza, é a base de estudo de um organista a partir de grandes autores, como Bach, cuja técnica é muito difícil. Portanto, é preciso estudar essa escola mais antiga, porque ela é a base da escola moderna. Comecei a conviver com o órgão histórico Arp Shinitger — que é muito desafiador, na medida em que, na verdade, ele não é só um instrumento musical, é “também” um instrumento musical. Trata-se de um objeto inserido em um contexto muito impressionante, no caso, a Sé de Mariana, uma das sés preservadas mais importantes do Brasil. Além de muito bem conservada, a Catedral-Basílica da Sé de Mariana tem muita história nos altares e na vida litúrgica. É impressionante o que a Sé possui de acervo como arquivos, partituras e dados catalogados; trata-se um corpus enorme de informações, com o qual a gente convive todos os dias. Como a Sé é muito instigante e o órgão é uma obra de arte de valor incalculável, ocorreu um processo interessante: ao invés de eu permear o órgão, o órgão Arp Shinitger começou a permear a minha vida. Eu pensava que, uma vez em Mariana, eu iria dar a minha parcela de colaboração, iria fazer concertos e formar pessoas. Porém, no final das contas, aconteceu justamente o inverso: eu fui tocada pela presença do órgão, e ele redimensionou a minha vida; o instrumento me deu outro olhar, outra escuta, outro gosto e outra área de atuação. Sendo assim, além de não perder o que eu tinha adquirido anteriormente — que era um repertório mais vasto e mais amplo —, eu comecei a me focar muito mais em um repertório mais barroco, e com muita força. Como consequência, fiz várias viagens para a Europa, com objetivos específicos, de conhecer órgãos dessa escola e de fazer cursos com especialistas da área.

— Então, após o órgão da Basílica-Catedral da Sé, surgiu outra fase da sua atuação profissional, correto?

— Exatamente, uma nova fase. Após os anos de estudos básicos na Europa — período em que eu tocava todo tipo de música —, nessa nova fase, eu fiz cursos temáticos em lugares que tinham órgãos históricos. Inclusive, eu fiz uma imersão maravilhosa, de dois meses, exatamente na região de onde vem o nosso órgão mariano, da casa Arp Shinitger.

— Onde a senhora fez essa imersão?

— Foi no Norte da Alemanha. Fiz a imersão em uma casa que possui mais de 20 instrumentos de teclados e onde pude conviver com diversos instrumentos históricos. Também a Europa, nos anos 1980, era muito dinâmica em se tratando de música barroca. Existiam muitos grupos com instrumentos originais que, aliás, eram muito valorizados. Havia muita vida, havia pesquisas, lançamentos de teses, dissertações e pessoas buscando arquivos… Foi um momento muito interessante. Então, convivendo com o órgão da Sé, eu percebi que era necessário restaurar outros órgãos, porque o Brasil tem um acervo pequeno (mas muito importante) de órgãos históricos. Não dá para se comparar com alguns países da América Latina, como o Peru e o México, donos de centenas de órgãos. Nós só temos 20 instrumentos.

— O acervo de órgãos é pequeno quando se leva em consideração o tamanho do Brasil. Eles são relevantes em razão de quais aspectos?

— São relevantes em razão da raridade, do valor, do estado de conservação, da história… cada um tem o seu perfil de valor. Nós conseguimos restaurar (os de) Tiradentes e São João del-Rei, e outra equipe conseguiu restaurar (o de) Diamantina; são quatro órgãos restaurados que estão em Minas Gerais. Eu imaginava que, a partir desses restauros, a vida fosse ficar mais fácil e que poderíamos trabalhar mais em conjunto, mas isso ainda não aconteceu. Então, na verdade, eu acabo gastando um tanto do meu tempo e da minha energia em Minas. Todavia, eu sinto, sinceramente, uma enorme demanda para sair. Isso porque eu sinto que ainda não começamos um projeto em Minas Gerais. A gente trabalha, mas a gente não conta com um projeto, não existem projetos, não existem ideias. Não existe um grupo que persegue algo: são coisas esparsas que acontecem aqui e ali. Há mais de 30 anos que fazemos concertos em Mariana, e não existe, no nosso entorno inteiro, sequer um curso para a formação de organistas.

— As universidades federais não oferecem cursos?

— A UFOP (Universidade Federal de Ouro Preto) tem um curso muito voltado à formação de professores, como também a Universidade Federal de São João del-Rei. A UFMG oferece um curso de performance … Então, após trabalhar por 30 anos, um período maior que uma geração, vejo que as coisas não mudam. Isso é muito preocupante.

Muitos músicos ainda não compreendem os instrumentos como fontes primárias de informações fundamentais. Os órgãos precisam ser mais bem estudados nos cursos de formação de musicólogos.

— A respeito da questão da música barroca, da música sacra barroca, a senhora poderia explicar qual seria a importância e o alcance desse estilo musical?

— O período Barroco foi um momento em que o Brasil foi ocupado. Antes disso, na Renascença, não havia nada por aqui, além de poucas incursões. As coisas começaram a se movimentar em 1650, com o surgimento de núcleos urbanos, com as cidades ficando maiores e mais importantes, o que aumentou a circulação de pessoas. Diferentemente da história do México, por exemplo — que, na segunda metade do século XVI, já contava com imprensa, universidade, núcleos urbanos e conventos importantíssimos —, o Brasil só foi ter isso no meio do século XVII e, mesmo assim, sem universidade e sem imprensa. Então, nós vamos encontrar um Brasil nascendo a partir do período Barroco e com tudo aquilo que significou aquele momento histórico: os católicos — então vivendo uma época pós-Reforma Protestante —, em pleno movimento contrarreformista, no intuito de evangelizar os povos indígenas nas Américas e, é claro, no Brasil. Portanto, a partir da presença das ordens religiosas no país — que, no século XVII, começam a ter um papel mais importante —, começaram a surgir descrições muito bonitas de órgãos enviados para o meio da Amazônia, em 1680, além de informações interessantes sobre o número de quóruns das igrejas. A Igreja de São Francisco, no Recife, tinha importantes quóruns, que se revezavam nas missas. Foi quando começaram a surgir os textos sobre a vivacidade da música no começo do século XVII. Entretanto, nós só temos acesso a acervos materiais a partir do século XVIII. Antes disso, temos informações, mas não temos objetos, nem partituras, nem instrumentos musicais e temos poucos desenhos. O que chega a nós é a partir de 1700. Foram descobertas partituras em Mogi das Cruzes e em Itu. Temos registros de músicos que nasceram no Nordeste, na primeira metade do século XVII, por volta de 1720. A música começava a surgir. Hoje, os trabalhos relacionados aos arquivos no Brasil vêm vindo à luz lentamente, mas de forma bastante sólida. São acervos que são descortinados para um público formado por músicos e musicólogos, como também para leigos. Encontramos uma música escrita muito importante, de padrões europeus, em alguns desses arquivos, que foram produzidos por músicos europeus residentes aqui e também por alguns dos alunos deles. O interessante é que esses alunos eram pessoas miscigenadas: filhos de índios com portugueses ou de negros com portugueses ou mesmo filhos de portugueses ou de europeus de outras nações. Embora a colonização fosse portuguesa, as ordens eram internacionais. Portanto, a religião era internacional. Por essa razão, para cá, vieram músicas de todas as origens, por meio das ordens alemãs, italianas, francesas e espanholas, além das portuguesas. O que se vê é uma grande mistura, e ainda não se tem um parâmetro muito claro do que aconteceu. Os poucos órgãos que sobreviveram também são arquivos extremamente importantes. Eu lamento que muitos músicos ainda não compreendam os instrumentos como fontes primárias de informações fundamentais. Os órgãos precisam ser mais bem estudados, até nos cursos de formação de musicólogos, em todo o Brasil. Em diversas universidades, fala-se muito pouco sobre instrumentos, certamente porque há muito arquivo para estudar, muitas partituras… De modo que ainda não chegamos ao ponto de pesquisar instrumentos — salvo em casos muito esparsos.

— Onde estariam esses casos esparsos?

— Eu conheço uma tese da Unicamp (Universidade de Campinas), de uma pessoa que estudou os órgãos beneditinos; tem outra pessoa que estudou a música nas escolas jesuíticas; há um pessoal que estudou os jesuítas no Rio Grande do Sul, mas são estudos ainda muito amplos e ainda não estão muito focados. Acredito que haverá o dia em que se estudará o órgão da Matriz de Santo Antônio de Tiradentes, por exemplo, ou os órgãos das fazendas brasileiras. Infelizmente, ainda não chegamos a esse ponto. Nós nos encontramos em um cenário curioso: já há um reconhecimento, por parte das populações locais das cidades históricas — que possuem igrejas e instrumentos (ou as duas coisas) —, de que esses espaços precisam ser utilizados: são espaços litúrgicos e usados como tal para celebrações e rituais, dentre outros. Diferentemente da Europa — em que muitas igrejas não são abertas e não apresentam atividades —, aqui há uso, e há um grupo de pessoas que entende que é preciso liberar esses espaços para palestras ou, como faço sempre, para receber um grupo de estudantes de uma escola paulista. Eles vêm a Minas Gerais para fazer uma imersão na cultura mineira e barroca e, para isso, é essencial visitar a igreja. Há outras formas de ocupação das igrejas, a partir da promoção de cursos, de aulas de graduação e de pós-graduação ou até de festivais. Nós aqui, em Tiradentes, recebemos grupos específicos o ano inteiro. Então, existe uma modalidade da atividade turística voltada para essa questão do barroco — que, na minha opinião, ainda é muito maltratado e muito mal pensado. Existe um segmento em potencial, uma demanda que as cidades talvez ainda não tenham percebido, haja vista o fato de que os prédios históricos fecham nos finais de semana, quando deveriam estar abertos para a realização de cursos de extensão para turistas, por exemplo. É preciso que se promovam outras ocupações, outros usos, outros formatos, para atrair e movimentar gente, usos e recursos.

— Por parte dos músicos, há alguma movimentação no sentido de incentivar o uso das igrejas?

— Há um grupo de pessoas que quer dar uso aos instrumentos, aos espaços, às igrejas, mas o movimento ainda é incipiente e precisa ser mais organizado. Com isso, nós fazemos uma programação de concertos que é uma fonte de renda para um grupo de pessoas, tendo em vista que a igreja não tem condições de pagar salários, que são altos. A vida do músico é de alto custo, e nós temos, nos jornalistas e nos turistas, grandes parceiros, que divulgam e contratam nossos concertos — nós vivemos dessas fontes de renda.

— A senhora se dedica a outros projetos?

— Eu dou aulas e ministro cursos (abertos a alunos de qualquer nível) nas igrejas históricas mineiras, duas vezes por ano. Além disso, eu mantenho um grupo grande de alunos em São Paulo, com encontros mensais. Tenho também uma atuação intensa como concertista: eu viajo muito. Em 2017, fui quatro vezes ao exterior, sempre para tocar. Outra atividade a que me dedico são as viagens culturais. Fomos recentemente ao festival de música antiga da Bolívia, que é o maior do mundo. É um evento muito interessante: foram 153 concertos em 13 dias, e nós assistimos a 13 concertos. Eu ainda tenho projetos de restauro de órgãos, cada um em um diferente estágio do processo de restauração. Embora hoje esteja difícil de captar, esperamos verbas para o restauro de um órgão importante aqui de Minas, que fica em Barbacena. Temos também um órgão bonito, pequenininho e histórico, em Nova Lima, da Igreja Anglicana. Portanto, são projetos prontos, esperando captação. Tenho diversos projetos no interior de São Paulo e na capital. Tenho viagens à Europa para concertos, vou agora, em setembro, tenho agendas de concertos na França e na Suíça.

Já toquei em todos os países da Europa e em muitos países na América Latina. Eu preciso ir sempre à Europa — não só para tocar, mas eu tenho que ir ver os meus colegas, visitar órgãos e empresas.

— A senhora pode falar um pouco mais sobre a sua atuação como musicista no exterior?

— Já toquei em todos os países da Europa e também em muitos países da América Latina, onde eu toco menos do que poderia. Isso porque eu toco muito no Brasil. Aqui, eu faço concertos e, após realizá-los, eu ganho condições para viajar, pois eu preciso ir sempre à Europa — não só para tocar, mas também eu preciso ir ver os meus colegas, visitar órgãos e empresas. Os concertos que eu faço no Brasil pagam a viagem, para que eu possa ficar lá por um tempo. No ano passado, por exemplo, eu fiz 10 concertos na Europa. Foi muito interessante, toquei praticamente quase só em órgãos históricos, em cidades também muito interessantes: toquei na Alemanha, na região de Berlim; toquei duas vezes em Portugal — em Lisboa, na Igreja de São Vicente de Fora, e em Faro, na região do Algarve, onde há um órgão irmão do de Mariana. Foi ótimo, eu me senti em casa. Aliás, foi a quinta vez que eu fui a Faro, em função dessa união dos órgãos. Eu gosto de tocar, de fazer parte dos grandes festivais. Quando me convidam para esses eventos, eu vou com muita alegria. Embora não seja o meu foco principal na carreira, é algo que faço para que eu possa avaliar a minha qualidade, para me expor, mostrar o meu toque a um público diferente do nosso — às vezes, mais exigente, dependendo do lugar; às vezes, públicos iguais aos nossos, e ainda há os públicos em formação, como também há os muito especializados.

— Mas a senhora ainda tem o Brasil como prioridade?

— Sim. A minha prioridade é fazer concertos no Brasil; mas aqui existem muito poucos concertos, porque o nosso público é muito leigo em órgãos; mesmo o público formado por músicos ainda é muito desavisado com relação a órgãos. Há pessoas que compram CDs e têm gosto sofisticado, mas em geral o público brasileiro precisa ser formado. Por isso, meus colegas e eu tocamos muito, porque nós acreditamos que o instrumento órgão é público e precisa ser conhecido. Em segundo lugar, porque eles são instrumentos maravilhosos, que recebem um repertório muito amplo. E, em terceiro lugar, porque é a nossa forma de sustento, nós não temos patrocínios e caminhamos conforme nós trabalhamos.

Tiradentes precisa dos turistas, é um lugar lindo e está preparado para receber. Tem ótimos hotéis e pousadas, tem restaurantes de qualidade e tem bons serviços. Entretanto, falta algo primordial a ser resolvido: existem eventos sem identidade com a cidade.

— Com relação a Tiradentes, como a senhora avalia a potencialidade turística da cidade?

— Tiradentes fez opções. A principal opção da cidade foi se focar no consumo e no comércio. Então, ela virou um espaço histórico que abriga festivais e eventos. É raro você ter um final de semana livre no município. Em geral, aqui há um evento a cada duas ou três semanas. Quando eu digo evento, é algo grandioso, pois você não consegue sair de casa. São realizados todos os tipos de eventos: ligados a motociclismo, cerveja, cinema, teatro, fotografia, música e os mais variados congressos. Acontecem eventos que combinam muito bem com a cidade, mas existem outros que não têm absolutamente nenhuma identidade com o espaço. Os próprios moradores chamam a cidade de Tiradentes de “galinha de ovos de ouro”: as pessoas querem ganhar dinheiro (nada contra ganhar dinheiro), mas é preciso determinar critérios. Em primeiro lugar, é preciso respeitar os moradores da cidade e também o patrimônio histórico. Eu acho que os eventos precisam se adequar ao espaço, às características de uma cidade histórica. Tiradentes precisa dos turistas, é um lugar lindo e está preparado para receber. Tem ótimos hotéis e pousadas, tem restaurantes de qualidade e tem bons serviços. Entretanto, falta algo primordial a ser resolvido: existem eventos sem identidade com Tiradentes e, portanto, sem uma política para adequá-los. Por isso, a cidade precisa compreender quais são as modalidades de turismo que são as mais interessantes e que efetivamente dão retorno ao município e à população dele. Isso não está claro para nós, que vivemos aqui.

— E essas questões estão ligadas diretamente à conservação do patrimônio…

— Com certeza e também à forma como as pessoas entendem o patrimônio: o patrimônio histórico é uma fonte de renda ou é um bem que devemos preservar para as próximas gerações? Aliás, é fundamental educar as novas gerações no sentido da conservação do patrimônio histórico. Isso já tem um nome técnico: gentileza intergeracional ou cuidado intergeracional; ou seja, você cuida agora e põe isso na mão da próxima geração. Porém, a nossa própria geração precisa entender sobre como ela usa esse patrimônio. A questão é: nós vamos usar a cidade para quê? Ainda não existe essa resposta aqui, em Tiradentes. Muitas pessoas conversam, você tem grupos de discussão na internet, e temos uma associação comercial interessada no tema. A prefeitura agora não está em condições de debater essas questões, visto que administra grandes problemas emergenciais. Essas ações precisam mesmo ser protagonizadas pelos cidadãos. Como ocupar a cidade?

Com relação a esses grandes eventos que eu acho que não têm identidade com Tiradentes — e até mesmo em datas como o Carnaval ou mesmo nos feriados mais longos —, a cidade é literalmente invadida. É algo desesperador: muitas vezes, ficamos sem internet (a partir das 16 ou 17 horas), e cai a energia elétrica. Para uma cidade tão pequena, com 7,5 mil habitantes, as coisas precisam ser melhor resolvidas, e essa é uma questão muito urgente. Você não pode ter uma circulação imensa de carros pelo Centro Histórico. É preciso planejamento, o que não há! Eu sinto que a cidade não sabe para onde ela caminha, em se tratando das direções corretas. Ao mesmo tempo, temos uma mobilização por parte de pessoas muito bem-intencionadas, que querem soluções e buscam por elas; essas pessoas, porém, ainda não têm a força de propor uma ocupação que seja sustentável sob o aspecto da economia legada pelo turismo. Veja, por exemplo, o evento das motocicletas: a cidade recebe cerca de 10 mil motociclistas, e esse evento de fato coloca Tiradentes no mapa nacional. Agora, é preciso saber o seguinte: qual é o real custo desse evento para o município?

— A senhora reside em Tiradentes há quanto tempo?

— Há 9 anos.

— O que há de bom no cotidiano da cidade?
— A minha relação com a cidade é o órgão; ou seja, o meu trabalho e um grupo de amigos muito simpáticos.

— A senhora sugeriria algum roteiro especial para o turista?

— A cidade tem quatro lindos museus. Vale muito a pena percorrer um roteiro cultural, incluindo um passeio às igrejas de São João del-Rei, que estão muito bem conservadas. Há os concertos musicais à noite, que acontecem todas as sextas-feiras, às 20 horas. Nós também fazemos concertos para grupos fechados: recebemos diversas escolas, e os concertos ocorrem em qualquer horário, após o fechamento da Matriz de Santo Antônio, às 17 horas. Basta agendar antes. Realizo ainda concertos na minha casa, para grupos específicos. Nos finais de semana e feriados, eu abro a minha casa para concertos e visitação aos meus instrumentos. Tiradentes tem uma excelente rota de ateliês de ótimos artistas plásticos, como ceramistas, pintores, escultores, além de belos móveis artísticos. O turista pode comer muito bem aqui: da gastronomia mineira à internacional. Eu recomendo as pizzarias Bartô e Atrás da Matriz e os restaurantes Gatu e Tragaluz.