Ensaio

Cidades de bronze, sertões invisíveis

Por Júlia Castro e Gabriel de Oliveira
Fotos: Rogério Alves Dias

Nota de viagem

Esse ensaio é um exercício ficcional criado para promover diálogos entre duas obras literárias: “Cara-de-Bronze”, de Guimarães Rosa (conto integrante de Corpo de baile), e Cidades invisíveis, de Ítalo Calvino.As duas obras, escritas em épocas diferentes (1956 e 1976, respectivamente) e por autores também de estilos e tradições culturais diversas, apresentam em comum o caráter móvel dos personagens e a própria ação das tramas narrativas. Cidades Invisíveis traz o famoso viajante Marco Polo e recria as histórias narradas no Livro das Maravilhas, nas quais o mercador veneziano apresenta as viagens que fez ao interior do Império Mongol encomendadas por Kublai Khan, o grande imperador na época. Calvino recria o encontro entre Marco Polo e Kublai Khan e as narrações surrealistas e fantásticas das cidades. Guimarães Rosa, por sua vez, apresenta o personagem Cara-de-Bronze, velho fazendeiro que encomenda ao vaqueiro Grivo a narração sobre o “quem das coisas” do sertão, cujos caminhos não podia mais percorrer, em razão do delicado estado de saúde em que se encontrava. O vaqueiro, então, é convidado a recriar poeticamente o sertão, por meio de descrições surpreendentes das paisagens e lugares sertanejos. Marco Polo, um dos viajantes mais famosos de todos os tempos, e Grivo, um vaqueiro anônimo e errante, encontram-se nesse texto e convidam o leitor a uma prazerosa viagem pela imaginação, pelas palavras e pela memória.

Lá vinha, no horizonte do chapadão, o vulto de um cavaleiro intensamente curvado na montaria, o arção, a capa de vaqueiro e o chapéu em harmonia: cavaleiro e cavalo num só corpo, um só couro! O cavalo era o Quebra-Coco, o cavaleiro, o Grivo, um dos vaqueiros da fazenda do Urubuquaquá – terra de campos, brejos e matas escuras dos gerais. Diante da paisagem imensa e luminosa, Grivo e Quebra-Coco eram ainda insignificantes — quisquilhas da natureza —, a silhueta de um mistério, um vulto sombrio.

Na direção oposta à de onde eles vinham já era princípio de beira de chapada. As escarpas apontavam para norte/nordeste em seus movimentos topográficos, indo em direção ao fundo do vale. Lá, dormiam rios, veredas esparramadas e ornamentos de buritis. Era a paisagem contemplada naquele instante por um homem singular, recostado em árvore frondosa. Estava vestido de modo diverso, parecia deslocado do lugar, exceto pela poeira amarronzada do sertão, que descansava sobre os trajes. Parecia olhar para algo distante, sem qualquer ar de superioridade. Talvez estivesse pronto para uma peça de teatro ou para o Carnaval. O homem agia com absoluta naturalidade e se concentrava na paisagem, não parecia estar absorto em pensamento qualquer, mas mirava intensamente a extensão do firmamento.

A curiosidade direcionada para além do horizonte era a chave que fez com que esse viajante estivesse há séculos cruzando fronteiras geográficas e culturais. Não se sabe se estava incorporado por um andarilho que perdeu a razão, se era um ator que ensaiava uma cena ou mesmo se algum fenômeno metafísico era responsável por ele estar ali, em carne e osso: o caso é que estava naquelas paragens o próprio Marco Polo, um dos mais famosos viajantes de todos os tempos. Ele, que conheceu a glória e a fama, depois de ter deixado Veneza e percorrido o Império Mongol, conservava agora outras ambições. Estava mudado. Olhava as pinturas que retratavam os episódios narrados no Livro das Maravilhas e não se identificava com aquele jovem viajante.

Antes de intuir a chegada do cavaleiro pelo lado oposto, Marco Polo observava atentamente o vilarejo localizado em um dos pontos remotos daquele vão. Dali do alto, via-se a fumacinha subindo vagarosamente do núcleo mais denso e animado no povoado, das ruelas amontoadas, imergia a névoa amarelada do entardecer, já misturada com dezenas de araras tricolores e um casal de urubus tremulantes. A mesma fumaça se confundia com os aromas que subiam dos fogões a lenha das casinhas e que agora Polo imaginava aspirar para dentro dos pulmões. Ali, sentia uma nostalgia ganhar vida no fundo do peito, tentava buscar na memória a origem dessa saudade, mas não podia reconhecê-la com precisão. Limitava-se, então, a perceber familiaridades e estranhezas que eram despertadas à medida que circulava pelo sertão.

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Certamente, assim como a terra e o céu, que se curvam nos altos dos planaltos, os viajantes que cavalgam ou caminham por essas superfícies possuem o dom de encontros fortuitos. Por isso, o veneziano, pela larga experiência que possuía, pressentia a chegada de um sertanejo, e o sertanejo, por intuição nata, sabia que toparia com o veneziano na beira de chapada, rente aos capins de penhasco: carrasco-do-campo, cigana-do-mato, chapéu-de-frade.

Cantarolando, se ouvia:

Buriti, minha palmeira,

é de todo viajor 

Dono dela é o céu sereno,

dono de mim é o meu amor…

Polo sentava-se em uma pedra para acender seu cachimbo de âmbar, levado pela nostalgia. Lembrou-se de Kublai Khan, o imperador Mongol que o presenteou com o estimado cachimbo. Pensava: “— Ah, grande Khan, se o senhor fosse imperador desses rincões de gado e urucuias, eu retornaria à sede de seu reino para narrar das riquezas dessas terras, servindo-me dos mesmos recursos daqueles tempos: traduziria a linguagem sertaneja para o senhor à minha maneira, para relatar-lhe as anedotas e observações de minhas viagens; caso minha tradução não fosse plena para causar-lhe compreensão e mais curiosidade, narraria com pulos, barulhos, mímicas, expressões e suspiros, imitando bichos, barulhos de carroça e demonstrando os gestos e trejeitos do povo sertanejo. Certamente, Khan, Vossa Senhoria entraria em estado de maravilhamento!”.

Enquanto isso, o cavaleiro continuava marchando lentamente e seguia entoando versos:

Buriti – minha palmeira?

Já chegou um viajor…

Não encontra o céu sereno…

Já chegou o viajor…

Grivo estava lembrando de Cara-de-Bronze, o fazendeiro que havia lhe encomendado novas narrativas do sertão. O dono das riquezas do Urubuquaquá já não queria saber dos assuntos corriqueiros da fazenda, da campeação dos vaqueiros ou do crescer das roças, do tempo de chuva ou de seca, das quantidades de gado: indagar as posses que tinha já não era suficiente para aquele homem tão enigmático. Estava interessado agora em outras notícias, narrações mais sutis do sertão, tão sutis que passam despercebidas para a maioria das pessoas. O vaqueiro deslocava um pouco o olhar, dando espaço para ver entre os elementos familiares da paisagem, algo bonito de surpreender…

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Não se sabe se Grivo e Polo se olharam com tamanha simpatia ou com abissal estranhamento naquele lapso de tempo. Fato é que, pouco a pouco, já prezavam a presença um do outro. O cavaleiro Grivo percorreu com o olhar as formas que aquele ponto colorido da paisagem apresentava, à medida que se aproximava de Polo. Observava o adorno da cabeça, um tipo de touca ou chapéu afofado que caía para trás, de cor vermelho desbotado. Os ombros do viajante estavam vestidos por uma túnica vaporosa, sobreposta por outras vestimentas que se mostravam como em camadas. Frontalmente, era possível observar três cordões dourados, não se sabe se eram feitos de fibras ou de metal enferrujado, acompanhados por três círculos que pareciam joias antigas ou medalhões. As calças eram também gordas em camadas e babados, e os sapatos, pontudos, com um leve empinar na pontinha, estavam gastos; o do pé esquerdo deixava de fora o dedinho daquele homem incomum.

— Bendito, viator  — saudou Marco Polo, com um farfalhar distinto. — De onde vem, qual é seu paradeiro futuro? Saberia me dizer para que delirar-se tanto por estes recantos desmedidos, de baixo de sol, chuva, estrelas e ventos?

— Folgo! — respondeu Grivo, pois tinha aprendido assim a saudação com outros estrangeiros que encontrava pelo caminho. Agia sem medo, porque nunca hesitava, não duvidada das coragens do seu caminhar.

Continuava: — Estou virando o mundo em viagens, Deus me tenha, Deus o tenha. Virando o vazio dos lugares, preenchendo os vazios do mundo!

— Venho em paz! — disse Polo. — Sempre em paz, desde a época em que percorria a Europa e a Pérsia comerciando e, posteriormente, trazendo e levando, além de objetos e especiarias, relatos, histórias e notícias que tinha visto com meus próprios olhos e ouvido com meus próprios ouvidos. Quem mais gostava de me escutar era o grande Khan.

— Grande Khan? — perguntou Grivo. — Pois, por lá, ainda não passei… No lugar onde campeio gados e pastos, na fazenda do Urubuquaquá, é o “Velho” quem manda e desmanda: o Cara-de-Bronze, como é conhecido pelos companheiros vaqueiros. “Velho” não é alcunha, mas nome-de-lei: Segisberto Saturnino Jéia Velho, Filho. Homem de posses, na sisudez dos antigos! Agora o fazendeiro já está ancião idoso, não sai mais do quarto, adoeceu completo, reumatismos… E administra aquelas terras de dentro do quarto, quase ninguém entra naqueles escuros.

Talvez padeça de ambição desmedida, o nome desse nobre já carrega o gosto pela riqueza, rei Cara-de-Bronze… — Refletia Polo.

Grivo continuou: — Estou aqui é cumprindo a missão dada, para viajar, ver, ouvir e sentir! Primeiro, acharam que o fazendeiro doidara, veja bem, foi-se notando que ele chamava os vaqueiros, um a um, e jogava o sujeito em assuntos de remediolas, jogando palavras pelas sombras do pensamento. Queria que se falasse dos sentimentos das violas, da poesia de nuvens, das estrelas, lembrar das pessoas que já morreram, da beleza das mulheres, do luaral de cada noite, de onde o buriti seria o mais formoso… Dentre os vaqueiros do Urubuquaquá, me escolheu para esta viagem de imaginamentos, para levar até lá a alma do sertão, me pediu para chorar noites e beber auroras, procurar pelo quem das coisas… [c5]

Marco Polo esboçou singelo sorriso: — Ora, ora, nobre cavaleiro do sertão. És, então, um viajante poeta, um narrador de viagens, um coletor de estados de ânimo do ser e do mundo. Bem sei que esse é um ofício, uma arte que não é dada a todos. Eu mesmo era o mensageiro preferido de Kublai Khan, imperador que só tinha notícias de seu império por meio dos emissários que circulavam por seus domínios. Ele, contudo, queria saber mais que o trivial de descoberta de minas de pedras preciosas, os melhores preços de especiarias ou simples relatos de coisas e lugares. Eu relatava a ele maravilhas, impressões, sensações, sonhos distantes, memórias.

Grivo compreende Grande Khan, como se tivesse estado com ele.

— Acredito que Cara-de-Bronze necessite do mesmo remédio e do mesmo veneno. Coisas comuns e práticas da vida não são mais alimento para ele. O sonho e a poesia, o cheiro, as texturas, os ruídos são o que o fazendeiro precisa colecionar dentro de seu escuro quarto de repouso. É de sua cama que me escuta, quando nos reunimos para dar notícias de tudo e de todos. E o sertão, como tantos repetem, é o mundo! — disse o vaqueiro, indicando o vale que despontava à esquerda.

Polo concordou com a cabeça e seguiu a conversa:

— Veja, por exemplo, aquela cidade nos baixões do vale. Nos planaltos por onde andei, ela seria como Irene, cidade com vielas mal-iluminadas, onde todos os eremitas, pastores e outros passarinheiros fixam seu olhar e comentam as conjecturas da vida daquelas pessoas, dos usos do céu, das vozes de animais. Irene magnetiza os olhares de todos, assim como estamos agora a contemplar este vale.

— Sim — respondeu Grivo. — Sei que esses silêncios estão cheios de outras músicas. Mas o que imaginamos agora? Talvez uma mulher velha com rosário no pescoço faça o seu tear, fiando e tecendo o algodão, sentada em esteirinha de buriti. Será que ela entoa alguma canção perdida? De quem se lembra com tantos restos de saudade?

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Por alguns minutos, os viajantes se calaram para ouvir, então, canções que não existiam. A partitura imaginária do veneziano era como a ligação das ilhas de sua cidade natal, separada por canais (ou pausas) e ligada por pontes (ou por ligaduras de notas em sequência). Já o fundo da melodia do cavaleiro era formado pelos distintos sons madrugais dos brejos e baixões (do monjolo que range em par de minutos, que depois se mistura ao socó e aos sapos do brejo); e, na sequência, do amanhecer (o sacudir do gado inquieto com a manhã, a sinfonia dos pássaros, os cachorros alegres no latir). Ambas as canções falavam de conversações no escuro, de formatos de orvalho, de ideias de vento, de festas enluaradas, fogueiras, namorações…

Enquanto as melodias se duplicavam, o sol praticamente desaparecia pelos contornos do cânion. A noite se sobrepunha, as luzes das ruelas e das casas fulguravam gradativamente, como que a preencher ainda mais de cores o pensamento dos dois transeuntes. Ainda parlamentavam do lugar:

— Aqui realmente é parecido com a cidade de Irene, tão querida por aqueles que estão sempre em estado de deriva — disse Polo. — Mas nunca saberemos como ela seria vista de dentro: os meninozinhos vindo pelos caminhos e pedindo benção, uma tropa que passa com cargas, os diálogos de cachorros e pessoas. Tudo é tão móvel que a cidade muda de face à medida que nos aproximamos dela. A cidade de quem passa sem entrar é uma; é outra para quem lá está agora; e já é distinta amanhã, novamente, para quem parte e para quem ficou.

— As cidades, então, são como as miudezas da natureza desses gerais que conheci — conclui Grivo. — Sempre demudando, inclusive em seus nomes inventados. Pelos caminhos por onde andei, o arrebenta-cavalos pegou a se chamar babá e bobó, depois teve o nome de joão-ti, foi o que teve… Toda árvore, toda planta demuda de nome quase que em cada palma de légoa, por aí…

— O próprio nome dos lugares muda tantas vezes quantas são as línguas estrangeiras — relembrava Polo os milhares de nomes que aprendera —, e cada lugar pode ser alcançado de outros lugares, pelas mais variadas estradas e rotas, por quem cavalga, guia, rema e voa!

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Agora o viajante centenário procurava, entre as camadas de suas roupas, algum objeto. Grivo olhava sem entender. Nisso, surge nas mãos de Polo um tubo bem ornamentado, com um pergaminho envolto no interior. Vagarosamente desenrolado e estendido pelo veneziano por cima da pedra, o pergaminho exibia estranhas grafias, ilustrações e gravuras que representavam todo o globo terrestre, com os continentes, os reinos longínquos, as rotas dos navios, a tabua de marés, as fases lunares, a atividade dos peixes e os portos mais exuberantes.

Naquele mapa infinito que os dois contemplavam, iluminado pela vela acendida por Polo, eles se indagavam sobre as inimagináveis tramas que envolviam as viagens que fizeram. Grivo comentava dos segredos do sertão, das travessias entre campinas, chapadas e chapadões, de lindas veredas, dos velhos com os quais se deparava pelo caminho e das histórias que contavam sobre as valentias do passado. Por sua vez, o veneziano transmitia o que ouvia nas cidades pelas quais passara e o que já havia conhecido pelo império do grande Khan: castelos em meio a areias movediças, cidades em volta de muralhas, formas disformes de animais, lugares à beira de abismos ou vilarejos dentro de palacetes. Contemplar o mapa era viver novamente e recriar cada uma dessas viagens.

Polo ainda dizia: — Localizar os lugares, quer seja no mapa, quer seja na memória dos acontecimentos ou dos sentimentos, é sempre mais fácil de fazer quando buscamos o ouvido do outro para ajudar a puxar esse fio, concorda comigo, prezado cavaleiro?

Grivo olha devagar, para entender melhor o que quer dizer o pitoresco viajante.

—Por exemplo, no momento em que tento lhe explicar meu pensamento sobre o que estamos há algum tempo dividindo por aqui, a sua expressão me ajuda a continuar. Se me olha devagar, é porque ainda não captou o sentido do que digo, mas está em vias de construir esse significado. E, se lança um olhar interessado nesse ponto exato da frase que pronuncio, é porque seu entendimento guia o meu pensamento. É como se o seu ouvido comandasse a minha fala.

Grivo sorri: — Quer dizer, então, senhor Polo, que você, que percorreu cidades dos mais diversos tipos, formas, com tamanhos diferentes, modos de viver estranhos, até exagerados, quando não totalmente do avesso, bichos e comidas, barulhos e cheiros quase inimagináveis, conclui que o mais importante da viagem não é ver para conhecer, mas é contar para os outros o que viu e viveu, de modo a dar a entender para o outro e para si mesmo o real sentido da viagem?

— Quero dizer, caro Grivo, que o que percebemos nas cidades visitadas, nas estradas e nos caminhos que seguimos, nos contatos com gentes diversas, com suas adorações e seus hábitos, preferências e pavores, só existe em um lugar indefinido dentro de nós mesmos. É algo que a palavra falada não acompanha, pois a palavra está sempre um pouco a mais, sempre um pouco a menos da matéria exata que queremos transportar de nós para os outros. A viagem é a construção dessa matéria. Mas, se não tentarmos nos transportar em direção ao outro, a viagem se torna um peso inerte na memória, um cadáver pelo qual não temos sentimentos.

— Nesse sentido, hei de concordar com o senhor, seu Polo. Desde que Cara-de-Bronze me explicou o que queria de mim, logo tive entendimento que ele buscava coisas que estavam em um lugar muito diferente e bonito dentro do meu ser, como todos os raios de sol que tomei, do amornado do lombo do cavalo, do desejo de pegar a cabrocha bonita com flor no cabelo, o toque suave na madeira do balcão de seu João Canário e a cor da parede por volta das quatro horas da tarde, quando o sol entra de banda e reflete no sabor da cachaça que ele me vende… Na verdade, isso tudo que acabo de dizer não é coisa só minha, é vivência de todos os que nascem e crescem por aqui e em qualquer parte. A diferença é que, enquanto muitos deixam essas coisas vividas se tornarem cadáveres enterrados, eu sei fácil fazer esses defuntos falarem. E como falam bem, quando alguém quer escutar.

— Veja, nobre Grivo, se tu sabes colocar seus defuntos a falar, pode fazer acordar os outros enterrados dentro das pessoas. Nisso consiste a arte de narrar as viagens — disse Polo.

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A iluminação esparsa no vilarejo do fundo de vale abrandava-se pausadamente cada vez que os dois viajantes terminavam as frases, agora já ocasionais e macias, como a brisa do anoitecer. Parece que, naquele momento, as palavras já faziam menos sentido que a calma para apreciar o movimento da noite a invadir o alto da chapada: o cheiro das plantas, o rumor das árvores, o formato do orvalho que se assentava pelo chão, junto das lembranças inebriadas de outros tempos e lugares que emergiam ali, entre a realidade e uma linguagem invisível.

Do mesmo modo que os viajantes intuíram anteriormente aquele encontro, quando Grivo despontava no Chapadão em seu cavalo, agora ambos sentiam que era hora de seguir por outras travessias. Entreolharam-se por alguns instantes e sabiam que não precisavam de despedidas, afinal não tinham certeza se aquilo era um encontro para reviver o passado ou para reencontrar o futuro. Notavam, no entanto, que um viajante era o espelho do outro em negativo: um se reconhecia no outro, descobrindo o que não tinha vivido e o que não viveria dali em diante.

O que Grivo deixou de ser por um instante ou de possuir era revelado pelos lugares narrados por Polo. As estrelas e urubus recriados por Grivo, por sua vez, completavam algo que o veneziano também nunca poderia ter em mãos. O espelho refletia, naqueles instantes, a brotação de coisas que se dão entre a viagem que realizavam e as respectivas narrativas, uma imagem única, que os levava para sempre ao caminho do sumidouro do infinito.

Gabriel de Oliveira é viajante e pesquisador do sertão rosiano; é mestre e doutorando em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais.

Júlia Castro é também viajante e pesquisa a ideia de viagem na literatura, desenvolvendo tese de doutorado em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais. É colaboradora da Revista Sagarana desde 2009.