Muito bom de papo

O jornalista, escritor e produtor cultural, é criador do consagrado Projeto Sempre um Papo, a maior referência nacional no lançamento de livros — cujo fundamento é divulgar o livro e o autor, “pois eles não são dissociados”, como afirma. Nesta entrevista, Afonso Borges faz uma síntese dos 30 anos de existência do projeto, conta como é a convivência com os grandes escritores e opina sobre temas relevantes para a cultura, além de destacar que o turismo é a única saída para viabilizar o desenvolvimento econômico de Minas Gerais.

Por Cézar Félix
Fotos Eduardo Gontijo

— O senhor seria capaz de sintetizar o significado de 30 anos de existência do Projeto Sempre um Papo?

— Em 30 anos de existência do Projeto Sempre um Papo, o maior patrimônio que conquistei na minha vida, na construção dessa longa caminhada, foram os grandes amigos que eu fiz. Em quase 6 mil eventos, que passaram por 30 cidades diferentes, além, é claro, de Belo Horizonte, eu acompanhei a carreira dos maiores escritores brasileiros. Eu lancei, por exemplo, todos os livros do Ruy Castro, do Zuenir Ventura e do Fernando Moraes. O Sempre um Papo lançou livros de algumas gerações de extraordinários escritores que ainda produzem obras de extrema importância — e ainda são lançados no Projeto Sempre um Papo. No aspecto profissional, do ponto de vista de mercado, aconteceu uma transformação fundamental no que se refere ao marketing do livro. Isso porque era muito comum, no lançamento de um livro, dissociar autor e livro. A obra era lançada, mas o autor, não. O Sempre um Papo tem como foco divulgar o livro e o autor. Eles não são dissociados. Parece pouca coisa, mas não é. É exatamente isso que faz o projeto ter essa grande longevidade. Além do incentivo à leitura, à cultura e à divulgação do livro, o foco principal é a relação do público com o autor e os benefícios que esse contato próximo pode trazer para ambos. Então, quando há uma análise a partir desse ponto — outra questão importante: a entrada é sempre gratuita —, surge a clara percepção de que ocorre uma ponte que liga a cultura à educação. Imagine o seguinte: 2 milhões de pessoas aproximadamente já estiveram presentes em eventos do Sempre um Papo. Existem ainda as pessoas que assistem aos eventos pelo YouTube — são quase 3 milhões de pages views. Portanto, a partir do imenso contingente de pessoas atingidas pelo projeto, eu posso afirmar com tranquilidade que há o desenvolvimento de um processo consistente de educação a partir da oferta de um bem cultural. A pessoa vai lá, no Sempre um Papo, ouve o autor e aprende. A pessoa sai de lá com outra visão de vida, para além da leitura, e chega à educação. É esse aspecto humano o que eu mais destaco ao longo do meu trabalho. Hoje as pessoas me devolvem, me retornam em um intangível nível de satisfação. O que fica de mais importante nesses 30 anos é o olhar agradecido dessa gente que sai feliz do auditório, do teatro ou do evento ao ar livre. O que fica de melhor é o ponto de interrogação que nós colocamos nas mentes de milhares pessoas.

— Como o senhor se sente, convivendo com tantos grandes escritores?

— O Affonso Romano de Sant’anna faz uma brincadeira muito divertida: ele diz que, se eu fosse contabilizar o número de horas-aula a que eu assisti nas mediações do Sempre um Papo, isso daria talvez cinco ou seis universidades. A convivência com essas pessoas é o que há de melhor na minha vida profissional — e, é evidente, na minha vida pessoal também, pelas grandes e maravilhosas amizades que construímos juntos.

— O senhor diria que o Sempre um Papo deve a longevidade de 30 anos ao fato de BH manter uma tradição literária?

— Bom, nesse sentido, me permito extrapolar um pouco. Vamos à última pesquisa do Ibope relacionada a Belo Horizonte, realizada entre os anos de 2011 e 2012. BH é a cidade onde mais se lê no Brasil. Quarenta e um porcento dos belo-horizontinos leem pelo menos um livro a cada 30 dias. O número é igual ao registrado em Porto Alegre e maior que a média nacional, de 33%. BH é onde uma pessoa entra na livraria e sai com o maior número de livros per capta. Isso se deve ao Sempre um Papo? Eu acho que não. Mas seguramente o projeto tem a sua parcela de contribuição. O que precisa ficar claro é que essa realidade se deve principalmente à história literária da capital mineira.  O livro O desatino da rapaziada, de Humberto Werneck, desvela a história de escritores e jornalistas mineiros — que viveram e residiram em BH — que deixaram um legado de imensurável importância na literatura brasileira. O problema é que essa realidade não ainda está entranhada na história das pessoas de BH, ela não é conhecida pelos belo-horizontinos. Essa situação talvez se deva ao fato de BH ser uma cidade jovem, fundada em uma época muito ao início do século XX.  Todavia, nós não podemos deixar essa realidade passar despercebida. A cultura literária desta capital precisa ser não só reverenciada, mas também divulgada, trabalhada como um bem imaterial de imensa valia. Afinal, foi daqui que saíram grandes intelectuais e escritores, para formar novas mentalidades, novas maneiras do pensar no Rio de Janeiro (então a capital federal) e em São Paulo. Foram geniais escritores de gerações diferentes, mas do calibre de Carlos Drummond de Andrade, Murilo Rubião, Cyro dos Anjos, Autran Dourado, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Pedro Nava, Paulo Mendes Campos, Ivan Ângelo, dentre outros, e até Rubem Braga, capixaba que morou aqui. Portanto, não dá pra ignorar a força da literatura na formação cultural do belo-horizontino.

— O senhor diria, então, que o Sempre um Papo ocupa um lugar de destaque no que se refere ao fomento da cultura literária?

— Sim, sem dúvida. O Sempre um Papo está nesse contexto. Ele nasceu em 1986 — um pouco antes, havia terminado a ditadura militar — e teve um papel importante, de colocar na pauta do dia os grandes assuntos por meio dos autores. Tanto que os primeiros quatro anos do projeto foram dedicados a debates com a formação de mesas com cinco ou seis pessoas. Nos dois primeiros anos, o Sempre um Papo acontecia no ambiente de bar. Realizamos eventos no La Taberna e no Cabaré Mineiro; só depois que o evento foi transportado para os auditórios e teatros. Foi assim que surgiu o contexto de lançamento de livros e autores. Como eu sou jornalista e também faço a curadoria dos eventos a partir dos livros que estão sendo lançados no momento, o Projeto Sempre um Papo tem uma atualidade e uma contemporaneidade que nunca vai se esgotar.

Por quê?

— Porque, em primeiro lugar, o Sempre um Papo não é um projeto centrado. Não fala dele próprio, como muitos outros. Ele é focado no livro e no autor. Não fala de si. Em segundo lugar, porque ele acompanha de perto o mercado editorial e acompanha o que o autor lança de novo. Então, eu criei uma roda gigante, um moto-contínuo, no qual os autores se repetem no decorrer dos anos, porque eles sempre vêm lançar os seus próximos livros. Assim, essa rotina de fazer aqui a carreira do autor também se reflete no fato de que é produzida a educação de diferentes gerações. Se você for conversar com jornalistas, escritores, sociólogos e intelectuais que estão na faixa dos 50 anos, você vai perceber que eles, aos 20 anos de idade, já frequentavam o Sempre um Papo — época em que eu trouxe grandes nomes, como Haroldo de Campos e Décio Pignatari.

— Eu fui à primeira edição, no La Taberna. O Frei Betto foi o convidado…

— O que digo é que o Sempre um Papo contribuiu para formar mentalidades. Você deve se lembrar de algo que aconteceu naquele primeiro Sempre um Papo, no La Taberna. O que mais pode fazer a cabeça de uma pessoa que um bom livro e um bom papo? É assim que a gente se cria, se educa e se forma. Em todos os lugares do mundo as pessoas se formam ouvindo as outras pessoas, transmitindo e recebendo conhecimentos. Quando o Sempre um Papo saiu dos debates públicos e se fixou no escritor e na sua obra, houve uma grande melhoria na comunicação entre o autor e o público. Daí, eu volto àquele fenômeno dos olhos agradecidos das pessoas, olhos do conhecimento, graças à qualidade da informação que gera a educação. São os mesmos olhos que se repetem a cada evento. Agora mesmo, eu levei o sociólogo Sérgio Abranches para lançar o novo livro dele, A era do imprevisto, e lá estavam as pessoas agradecendo, dizendo o que pensam, como tudo aquilo ajudou e contribuiu para a construção das reflexões, das ideias. O livro é o eixo, e, por trás de uma grande obra, surgem as ideias. E as ideias são forças, como muito bem disse Nietzsche.

— Qual é a sua análise sobre a conjuntura do mercado editorial?

— O mercado editorial é só crescimento. Cresce em progresso, em uma curva ascendente. Claro que a crise de agora gerou fatores episódicos, como o fato de o governo ter parado de comprar livros, sobretudo de literatura infanto-juvenil e juvenil, e é claro que houve um baque. Porém, os lançamentos se sucedem, e as pessoas ainda continuam adquirindo livros. Sabe o que atrapalha o livro e a leitura? É a implicância que existe, sobretudo no meio acadêmico, com o livro e a leitura. É um tal de fazer e divulgar pesquisas afirmando que brasileiro não lê, porque não gosta de ler e coisa e tal. Eles se esquecem de que existem tantos outros afazeres na sociedade dos quais as pessoas também não gostam. Qual o percentual de pessoas que vai ao teatro, ao cinema ou ao clube? Aposto que também são altos os índices relativos às pessoas que não gostam de frequentar esses lugares. Vamos trabalhar arduamente para que as pessoas adquiram o hábito da leitura. Vamos parar de criar teses mirabolantes, fantasiosas e até enganosas como se fosse o fim do mundo o fato de existirem pessoas que não gostam de ler. É preciso deixar a leitura seguir o seu curso natural a partir de um princípio no qual eu acredito piamente: só a leitura forma cidadãos. Esse é o foco principal, fundamental, que remete à educação.

— E a relação da leitura com as novas tecnologias, com a era digital, o que vai acontecer com o livro?

— O e-book, eu remeto à tecnologia, e não à leitura. Se você precisar ler um livro no tablet, você vai ler. Mas, se você puder escolher, eu aposto que você vai preferir o livro (de papel). É um objeto que quem gosta tem apreço; você consegue se concentrar segurando o livro. O livro promove uma concentração que nenhuma outra atividade do fazer humano consegue promover na mesma medida. E, se você tem concentração, você consegue fazer outras atividades, pois é uma virtude do cérebro. Você é mais eficiente no trabalho, dirige melhor, atravessa uma rua com o devido cuidado, escuta o que os seus filhos têm a dizer. A concentração se perde em função de outra coisa que eu chamo de distrações digitais: jogos, filmes, imagens, músicas e mais um monte de coisas desse verdadeiro matagal tecnológico. Mas nenhum desses gadgets possui o que o livro faz: educar o cérebro a ficar concentrado. Quando você tem paz para ler um livro, tudo de bom pode acontecer. Acho que os gadgets tecnológicos vieram como acessórios, e não para concorrer com o livro. Todos esses aparelhos já vêm com uma obsolescência programada. O livro, não. O livro é eterno.

— Com relação a um tema fundamental da proposta editorial desta revista, como o senhor analisa a potencialidade turística de Minas Gerais?

— Eu declaro o seguinte: no dia em que um governo perceber que a única saída de Minas Gerais é o turismo, este estado vai mudar para muito melhor. Promover o desenvolvimento do turismo é a única saída para que seja viabilizada a estruturação de uma atividade econômica perene e sustentável. Pense que só a Torre Eiffel, em Paris, recebe por ano (6 milhões de visitantes) quase que o mesmo número de turistas que o Brasil inteiro (recebe); pense que o México recebeu 35 milhões de turistas durante o ano de 2016, e o Brasil não passou de 6, 6 milhões de turistas no ano da Copa do Mundo e no ano das Olimpíadas. Basta observar e se espantar com esses números para perceber o tamanho da potencialidade que temos, principalmente no que se refere ao nosso estado. Minas Gerais é um estado mediterrâneo riquíssimo em cultura e dono do maior patrimônio histórico do país. A natureza nos brinda com serras, rios, cachoeiras, sertão e cerrado. Há, ainda, as incomparáveis originalidade e qualidade da arte e da arquitetura, do artesanato, do folclore e as tradições das festas populares, além da extraordinária gastronomia. Todas essas riquezas estão prontas para serem consumidas. Basta elencar esses atrativos para perceber o tamanho da potencialidade turística. Não há dúvida, na minha opinião, de que o eixo de um governo moderno e inovador deve ser voltado para desenvolver o turismo, inclusive porque a mineração caminha velozmente para o esgotamento.

— E hoje, após 30 anos de estrada, qual é a avaliação que o senhor faz do Sempre um Papo como um produto cultural?

— Foram 30 cidades em 30 anos. Estive no Rio de Janeiro e estou há12 anos no Sesc São Paulo. Estou em Sete Lagoas e em Araxá, no FliAraxá. Eu vou aonde eu possa contar com um patrocinador, pois trata-se de um evento gratuito. Eu preciso dizer, entretanto, que o mais importante produto cultural do Sempre um Papo são os vídeos em DVD. Isso porque eu descobri que evento é vento, pois, quando você vai embora, o evento acaba. Então, há 20 anos, eu documento em vídeo todos os eventos. São mais de 300 programas produzidos, com uma hora de duração cada um deles. Tudo gratuito. Estão todos no YouTube do Sempre um Papo, disponíveis para download. Há, ainda, os filmes Cultura para Educação, uma série que eu criei, viabilizada pela Lei Rouanet — Lei Federal de Incentivo à Cultura. Trata-se de uma caixa com cinco unidades de DVD. Cada caixa tem três programas do Sempre um Papo, porém com o conteúdo focado no aluno. Os 15 minutos iniciais, que trazem a fala do autor, são editados especialmente para as salas de aula, assim como o restante de cada filme, que traz a discussão sobre o autor e o livro. Já estamos na oitava série, um elenco inigualável para ser discutido em sala de aula, não tem nada igual no país. Um produto da literatura e do escritor que vai para a educação. Já há oito anos que distribuímos as caixas de DVDs em mais de mil escolas de Minas Gerais e de alguns estados brasileiros.

O senhor se referiu à Lei Federal de Incentivo à Cultura. Como um respeitado produtor cultural, qual é a sua opinião sobre as leis de incentivo?

— . Minas Gerais é o único estado do Brasil onde, há muitos anos, as três leis funcionam muito bem. É fundamental destacar a importância de Minas no contexto das leis de incentivo. É claro que existem aspectos nas leis que precisam ser urgentemente aprimorados. Mas o que efetivamente falta é aprimorar a leitura das leis por parte dos gestores públicos. Até hoje as leis são escritas à luz das concorrências públicas; até hoje o gestor público, principalmente o gestor da fiscalização, não entende, por exemplo, os custos da criação intelectual. É diferente a valoração da criação. Até hoje as regras da fiscalização são as piores que existem. Estamos submetidos a uma fiscalização brutal por parte dos gestores públicos, por falta de conhecimento, pela ausência de compreensão do que é o fazer cultural. Esse é o maior nó. Se você errar uma nota fiscal, você tem que devolver o dinheiro. A forma como trabalhamos não é algo linear, mas é uma atividade que devolve à sociedade várias vezes em dinheiro o que é investido pelo estado na renúncia fiscal. Vou colocar aqui uma questão polêmica: imagine que a Cláudia Leitte ou o Michel Teló receba recursos da Lei Rouanet. Um show recebe no máximo 70% de dinheiro incentivado. Esse dinheiro que o artista recebe, seguramente ele devolve duas ou três vezes mais para a sociedade em forma de tributos ou contratação de terceiros e outros resíduos positivos para o município que realiza o evento. Quando o estado investe em cultura, ele está investindo no próprio estado, mas o estado não enxerga essa realidade. Outro exemplo: o FliAraxá, que eu promovo, eu devolvo para o município de Araxá recursos em forma de contratações temporárias, contratos de serviço, de aumento do turismo, na forma de hotelaria, restaurantes, trajetos e passagens aéreas, dentre outros. Isso significa três ou quatro vezes o valor do dinheiro incentivado. E digo mais: há ainda o valor intangível: o menino que tinha 10 anos quando o FliAraxá começou, há cinco anos, hoje é mais um grande leitor. Ou seja, houve o resultado de um investimento na formação de um leitor, na formação cultural de uma criança e na educação. E, então, como quantificar isso?

— Como surgiu o Afonso Borges escritor da obra “Olhos de carvão”?

— Eu demorei 54 anos para resolver escrever esses contos. Dias atrás me perguntaram se eu guardei esses contos por muitos anos. Não, eu escrevi esses 26 contos no ano passado, em 2016. Toda a minha vida estão neles: as experiências que eu compartilhei na infância e todo o meu aprendizado a partir da convivência com os escritores. Trechos mínimos, contos mínimos, reportam a um caso que o Saramago me contou. Tem uma história de infância que eu misturo com a história de uma moça que eu conheci e que foi torturada. Outra história remete ao que vi em Istambul e nas grutas de Goreme, na Capadócia; daí, eu imaginei outra história ao conhecer a história real. É um livro, é ficção, mas 99% dele representam a mais pura realidade.

O mais importante produto cultural do Sempre um Papo são os vídeos em DVD. Eu descobri que evento é vento, pois, quando você vai embora, o evento acaba. Há 20 anos, eu documento em vídeo todos os eventos.

O que efetivamente falta é aprimorar a leitura das leis de incentivo por parte dos gestores públicos. Estamos submetidos a uma fiscalização brutal pela ausência de compreensão do que é o fazer cultural.