Luiz Gabriel Lopes e José Luis Braga

Mobilidade coletiva

Por Juliana Afonso
Fotos Rogério Alves Dias

Eu estava na praça Floriano Peixoto, no bairro de Santa Efigênia, em Belo Horizonte. Uma bicicleta veio em minha direção. Era José Luis Braga, voz, guitarra, violão, maratonista e gourmet. Logo encontramos Luiz Gabriel Lopes, voz, guitarra, violão, auxiliar de videografismo e cappuccino. Os dois são integrantes do Graveola e o Lixo Polifônico, uma das bandas de maior relevância no cenário mineiro de música independente. As irreverentes descrições mostram as dificuldades em definir uma identidade para a banda: “A gente tenta funcionar como um coletivo, onde todo mundo se responsabiliza pelo que acontece”, diz Luiz Gabriel. Difícil mesmo é definir o som que o Graveola faz. Durante os 10 anos de carreira, a banda já passeou pelo samba, pelo indie rock, pelo baião, pelo tango… Além da mistura de ritmos, o Graveola

faz parte de uma cena que mistura perspectivas e promove a união da política com a arte e a cultura. A banda apoia abertamente uma série de movimentos políticos de Belo Horizonte e acredita na importância de se pensar a cidade como espaço de convivência público e popular. Nesse clima irreverente, conversei com dois dos seis integrantes do grupo, em uma ensolarada tarde de sexta- feira.

— Hoje vocês são uma das bandas de maior renome no cenário musical mineiro. Quais as responsabilidades que isso traz?

— José Luis: Muitas. Conquistamos espaço no cenário independente após uma série de correntes que foram surgindo em Minas Gerais. Temos uma cena musical forte que vem de muito tempo, mas que ganhou força mesmo com o trabalho do grupo A outra cidade, formado por três músicos de Belo Horizonte, que começaram a tocar juntos nos festivais do Reciclo [casa de shows já extinta], no início dos anos 2000. Eram Kristoff Silva, Makely Ka e Pablo Castro. Eles fizeram um movimento musical que, talvez, tenha sido o que surgiu de mais interessante em termos de música mineira autoral nos últimos anos. Sem falar de outros tantos artistas em volta desses compositores. A gente bebeu muito na fonte dessa geração, que já não é mais a nossa.

— Então vocês fazem parte de uma nova geração da música mineira.

José Luis: Acho que sim. É difícil pontuar quando ela surgiu porque a história é algo muito processual. O grande marco pra mim é A outra cidade. O Graveola e outros músicos vieram nesta esteira, como o Gustavo Amaral, a Luiza Brina, o Rafael Macedo, a Juliana Perdigão, o Thiakov. Essa geração aparece em um momento em que a cena mineira passa por um processo de renovação.

— Essa renovação passa pela mistura de ritmos?

— José Luis: É uma tendência. Os discos de grandes compositores e de pequenos grupos musicais passeiam por muitos estilos. Virou uma coisa até meio lugar comum: ter um disco com um carimbó, um baião, um rap, um rock, uma valsinha, um samba, um tango… Acho que o Graveola é um pouco filho desta mistura. É difícil determinar um estilo. Talvez seja mais interessante dizer que os grupos,  aos poucos, encontram uma dicção e elaboram uma identidade.

— O público está mais aberto a essa experimentação?

— José Luis: Existe um público que quer consumir algo diferente do que é veiculado nas grandes mídias e eu acredito que seja um público crescente. Esse é o nosso público-alvo. Não que a gente ignore o público de massa, mas não dá pra dizer que a gente faz música para todo mundo. Queremos isso, claro, mas sabemos que para chegar ao mundo todo é preciso estar no mainstream, estar em outro tipo de circuito.

— Há uma definição para o que é o Graveola?

— José Luis: Éramos um grupo de amigos que se juntou para fazer música e que viu e sentiu o potencial das composições por meio da receptividade do público, e se tornou banda. Claro que não foi sem querer. Alcançamos visibilidade com muita luta, mas esse nunca foi o maior objetivo. O carro chefe é a vontade de criar, a vontade de tocar, e aquela sensação gostosa de conseguir cativar alguém. É muito legal ver o potencial da música de alcançar esteticamente os ouvidos das pessoas sensíveis. Isso de fato motiva a gente.

— Luiz Gabriel: A gente tenta funcionar como um coletivo, onde todo mundo se responsabiliza pelo que acontece, não só no âmbito musical. Tentamos trabalhar de uma maneira autogestionada.

— Como é o trabalho de divulgação da banda?

— José Luis: Com o download gratuito dos três discos conseguimos muito alcance. Fomos beneficiados também por um grande circuito de festivais que aconteceram pelo Brasil afora. Montamos parcerias com a Abrafin [Associação Brasileira de Festivais Independentes] e com o Fora do Eixo [rede de coletivos da área cultural] durante uma época. Já tocamos em Cuiabá, em Recife, em João Pessoa, em várias cidades do interior de São Paulo. Temos um fã-clube em Belém do Pará. São 40 ou 50 pessoas soltando essa sementinha. Esse é o lance desse novo cenário. A coisa se prolifera, cria tentáculos, se espalha de alguma forma. E temos beagá, a nossa casa. A gente criou uma relação de cumplicidade com a cidade, e de militância, de confrontar uma política de utilização do espaço público que a gente discorda.

— Existe um cunho político e social nas canções do Graveola e também na postura de vocês como músicos?

— José Luis: Todo mundo, em graus diferenciados, pensa na música como instrumento político. Ela não deve ser panfletária. A canção não precisa falar sobre política para ser política — até porque isso vai depender mais das nossas atitudes como cidadãos. A gente está muito ligado com o que surge desde a Praia da Estação [ver quadro], que é uma tendência de se pensar novas maneiras de fazer política. O Graveola esteve presente na primeira Praia, no Fora Lacerda [ver quadro], na Assembleia Popular Horizontal [ver quadro], no Tarifa Zero [ver quadro] e em outros movimentos. Defendemos princípios políticos comuns, mas cada um de nós se envolve de uma maneira. Tem pessoas que doam mais tempo e energia para estar no ‘front” e isso é importante. O Luiz Gabriel é mais atuante.

— Luiz Gabriel: Eu acho que a gente é personagem disso, assim como todos os grupos que participam deste processo. Não somos protagonistas mais do que ninguém. Essa postura política é algo que está no nosso cotidiano. A gente tenta aproveitar o poder de mobilização da banda para fortalecer esses movimentos. A impressão que eu tenho é que estamos vivendo um momento de construções coletivas. E isso tudo é fruto de um acúmulo que vem desde a Praia da Estação, desde o renascimento do carnaval, desde as ocupações urbanas —coisas que se criaram a partir das necessidades da cidade.

— Você acha que os belorizontinos têm vivido a cidade?

— José Luis: Isso é difícil dizer. A gente vive um momento em que a sociedade civil tem se fortalecido em decorrência de vários fatores. Os grandes veículos já não são os únicos formadores de opinião. Talvez, uma das poucas vantagens dadas pelo nosso estado democrático, tenha sido a possibilidade de monitorar as políticas direcionadas para as nossas cidades e se pronunciar. No momento, temos um modelo de gestão que beneficia certas diretrizes urbanas como a construção de rodovias e de grandes centros comerciais, além de uma recusa às questões sociais de base. Mas não basta ficar indignado e falar mal de governo. É preciso apoiar atitudes, posicionamentos e movimentos que propõe novos modelos. A gente sabe das dificuldades de se operacionalizar uma coisa dessas em um estado tão retrógado como Minas Gerais. Mas levantar essa bandeira já é o início para acelerar uma discussão mais profunda.

— Deixar de reclamar e fazer-se ouvir. Essa é a interseção que a questão política ganha na arte?

José Luis: Toda arte é uma leitura do mundo e, de certa forma, a gente faz política quando diz algo sobre o mundo. Isso vira um discurso que as pessoas endossam e esse discurso ganha um potencial de transformação da realidade devido à visibilidade da banda. É claro que quem faz música independente tem mais liberdade. Não existe ninguém para censurar. Por isso mesmo é preciso saber fazer política na hora certa, pois existem situações em que a política se confunde com a panfletagem. O Graveola não defende nenhum candidato e nenhum partido. Ser apartidário não significa ser apolítico.

— Como você avalia o mercado da música independente?

— José Luis: É complicado não ter bandas que representam a música brasileira no mainstream. Ao mesmo tempo, isso fortalece o mercado independente. Não digo em termos financeiros, mas em termos de visibilidade. O acesso a internet, as crises das gravadoras e uma série de outras questões possibilitaram uma visibilidade maior, uma facilidade de acesso e de divulgação que antes não existia. Hoje em dia o termo “independente” está um pouco obsoleto. O Skank é uma banda que já não tem selo de gravadora. O Pato Fu também grava em um estúdio na casa deles.

— A música mineira sempre foi conhecida pelo refinamento estético. Belo Horizonte ainda carrega esse legado?

José Luis: Eu acho que existem heranças. O nosso berço é o Clube da Esquina. Foram grandes as influências para a nossa música pela questão da profundidade das harmonias, de complexidade dos recursos sonoros, de melodias mais rebuscadas. Eles inovaram. Mas temos que atualizar esse discurso. Em uma reportagem sobre a cena musical mineira para o jornal “O Globo”, a manchete dizia “Netos do Clube da Esquina”. A gente sempre vai pontuar a importância deles na formação do cancioneiro mineiro, mas eles não vão ser os eternos pais ou avôs. Já existem outras influências. A cena mineira trabalha com referências do mundo inteiro. Se somos filhos ou netos do Clube da Esquina, também temos outros avós.

— Atualmente a cena musical mineira tem algo que a torna diferente das cenas das outras cidades no Brasil?

José Luis: O que existe agora, de maneira ímpar, é uma cena artisticamente diversificada e de muita qualidade. Tem muita coisa acontecendo, muitos compositores novos, muitas referências musicais. Vejo vários grupos mineiros que poderiam tocar em circuito nacional, mas a visibilidade do que se produz em Minas, do ponto de vista macro, ainda é pequena se comparado a outros estados. Os grupos não conseguem se projetar da forma que merecem. Outro ponto é trata-se é uma cena musical unida. O fato de beagá não ser uma cidade tão grande também contribui. Existem laços afetivos realmente fortes, independentemente das diferenças estéticas. Os músicos aqui trocam composições, arranjos, participações em shows.

— Luiz Gabriel: Eu começo a sentir uma necessidade de me aproximar de outras galeras, no sentido de troca criativa. Tem um tanto de gente produzindo em Belo Horizonte e eu estou particularmente impressionado com a nova geração. Ela pegou o lastro tanto da linguagem, quanto da formação de um público consumidor de cultura independente e chegou com força total. Já não tem o carma de inventar uma cidade, responsabilidade que a nossa geração pegou para si. Essa galera de 20 e poucos anos já nasce nesse contexto de cidade inventada: existe carnaval, existe Praia da Estação, existe uma série de eventos realizados nos espaços públicos. Ela também já nasce na rede e se movimenta dentro dela com muito menos pudor. Os meninos do Duelo de MCs [ver quadro] tem 100 mil visualizações por vídeo. Lembro que pra gente publicar algo no Youtube era quase uma sensação de desconforto (risos). Eles não têm isso. Se eu fosse fazer uma previsão otimista, eu diria que quem vai se dar bem é essa galera..

— O que vocês produziram nesses 10 anos de trabalho?

— José Luis: Nos últimos cinco anos, lançamos três discos, dois um pouco mais profissionais, com qualidade de estúdio. Fizemos dois lançamentos que lotaram duas casas de show importantes em Belo Horizonte, o Palácio das Artes e o Francisco Nunes. Também fizemos um lançamento no Dandara, uma ocupação urbana. Essa é um pouco a nossa responsabilidade: já que estamos sendo vistos, temos o potencial de defender nossos ideais e de mostrar isso pra quem ouve a gente.

— Luiz Gabriel: Também conseguimos levar a música do Graveola para o exterior. Foram quatro turnês na Europa, desde 2010, com um resultado super legal. O trabalho lá fora andou numa velocidade muito maior do que aqui dentro pela própria estrutura desse mercado. Existe um interesse maior pela música que vem de outro lugar, principalmente pela música brasileira. Ela é um cartão de visitas.

— Vocês estão produzindo novos discos?

— Luiz Gabriel: Vamos lançar um CD em janeiro só para download. Esse trabalho se chama Dois e meio e foi feito de uma maneira mais caseira e experimental, nos moldes do Um e meio. Experimental não no sentido de vanguardista, no sentido de experimentação mesmo. É um exercício de estudo, de expansão das linguagens. É interessante que as pessoas percebam que a banda não é só aquela coisa bem resolvida e acabada, mas um lugar de transições, de imprevistos. Foi um disco produzido de uma maneira bem dispersa. Ele tem a participação de pessoas que fazem parte do nosso círculo de trabalho, de afeto e de convivência. Vamos fazer um show de lançamento no dia 9 de fevereiro do próximo ano, no Verão Arte Contemporânea. Para 2014, a gente também quer produzir um álbum de estúdio. Já temos alguns arranjos, mas estamos no começo. Também é um processo lento. Até porque a banda passou por uma reestruturação esse ano. Ficamos quase seis meses parados. Saíram dois integrantes, entraram dois novos. Damos continuidade ao trabalho agora.

— Vocês veem diferença entre a música que vocês gostam de fazer e ouvir, e a música que as pessoas gostam de escutar? Ou isso não existe?

Luiz Gabriel: A gente tem um público legal para a dimensão da banda. O que as pessoas gostam de ouvir no rádio é uma realidade muito distante para nós porque estamos inseridos na cena da música independente. Falar das preferências da massa é difícil. A gente vive uma época em que a massificação da música brasileira permite poucas nuances. Não é nem uma questão de se discutir qualidade estética, mas de pensar a repetição, a mesmice. O problema é a falta de abertura. E isso não só com o sertanejo e o funk. A música popular brasileira que a gente tem acesso é de uma geração que se consolidou e não abriu espaço para outras coisas.

— José Luis: Isso é evidente nas rádios que tocam MPB no Brasil. Elas não dão a devida abertura para a música independente. Até a definição do que é música independente brasileira e do que é música popular brasileira é padronizada.

Entenda os movimentos

Praia da Estação: evento em reação a um decreto criado pelo prefeito Márcio Lacerda que proibia a realização de atos na praça de mesmo nome. A primeira edição aconteceu em janeiro de 2010. O decreto foi revogado meses depois. O movimento ganhou força e não parou mais. Uma vez por mês, os banhistas belorizontinos vestem suas sungas e maiôs e aproveitam o dia com música e cultura, regados pelas fontes de água da praça.

Fora Lacerda: movimento criado em julho de 2011 que questiona as propostas de Márcio Lacerda, prefeito de Belo Horizonte.

Assembleia Popular Horizontal: espaço de debates criado após as manifestações que ganharam as ruas de todo o Brasil, em junho de 2013. Da Assembleia surgiram 11 grupos de trabalhos temáticos que se reúnem regularmente.

Tarifa Zero: movimento que defende a gratuidade do transporte público na capital mineira. Surgiu dentro do Grupo de Trabalho de Mobilidade Urbana da Assembleia Popular Horizontal.

Duelo de MCs: evento que acontece semanalmente em BH com o objetivo de divulgar a cultura hip hop por meio de batalhas de rimas e outras atividades. O duelo acontece desde 2007, embaixo do Viaduto Santa Tereza. É um dos eventos populares mais importantes da capital e se tornou referência em todo Brasil.

Alcançamos visibilidade com muita luta, mas esse nunca foi o maior objetivo. O carro chefe é a vontade de criar, a vontade de tocar, e aquela sensação gostosa de conseguir cativar alguém.

A gente criou uma relação de cumplicidade com a cidade, e de militância, de confrontar uma política de utilização do espaço público que a gente discorda.

A cena mineira trabalha com referências do mundo inteiro. Se somos filhos ou netos do Clube da Esquina, também temos outros avós.