Minas, natureza e cultura como essência

O Diretor de Políticas Públicas da Fundação SOS Mata Atlântica — uma das mais representativas e atuantes ONGs do Brasil — diz que Minas Gerais pode fazer a diferença no Brasil no que se refere à atividade turística, mas alerta que o estado ainda é um “campeão” no desmatamento. Mário Mantovani afirma que a SOS Mata Atlântica tem uma presença firme em Minas e que o trabalho da ONG — na luta para reverter o processo de degradação da natureza — sempre tem como base asinformações nas mais qualificadas fontes.

Por Marcela Vilas Boas e Cézar Félix
Fotos Vania Cardoso

— Esta Sagarana discute a potencialidade turística de Minas Gerais e, dentre outras questões, defende que só é possível ter produtos turísticos se forem precedidos daproteção ambiental. Com relação à SOS Mata Atlântica, especialmente em Minas Gerais, o que acontece, o que tem sido feito nos últimos tempos?

— Tudo o que se refere a Minas Gerais está intrinsecamente ligado à natureza; o mineiro tem como principal vocação viver em contatodireto com a natureza. Isso é, por si só, algoimpressionante. E o mais interessante é que estavocação se associa com as manifestações culturais, com as tradições mineiras. O pano de fundo de tudo, a história de Minas Gerais, não se dissocia das montanhas ou das veredas. Até mesmo a comida tem a figura da natureza. Ou o trem mineiro, viajando pela paisagem. Ou seja, nada de Minas, sob qualquer ponto de vista, é desassociado da natureza: das águas, dasmontanhas, das matas, dos campos. Minas é a essência desta simbiose natureza emanifestações culturais. Pensando nisso, o que nós fizemos primeiro ao aqui chegar foi trazer informações qualificadas, dados científicos, para evitar aquele papo de que ambientalista é contra o desenvolvimento ou que só quer proteger bicho e não proteger gente. Buscamos sempre a melhor informação, com imagens de satélites, trabalho de campo feito com os melhores profissionais do Brasil. Portanto, hoje nós podemos afirmar que o problema ambiental em Minas segue em uma determinada coordenada.Trouxemos informação para que pudéssemos provar o que estávamos falando. E acho que conseguimos.

— É muito preocupante a situação do desmatamento em Minas Gerais?

— Sim. E temos que perceber isso como um alerta. Em um ano Minas foi o estado campeão em desmatamento, no segundo e terceiro anos também e só no quarto ano conseguimos que o Ministério Público interviesse. Há um processo inercial de degradação. Vimos que muitas empresas que se interessariam pela questão ambiental em Minas Gerais não querem entrar com uma proposta florestal bacana aqui já que está tudo queimado. Existem muitas empresasque fazem bem feito, porém elas são colocadasno mesmo patamar daquelas que atuam de forma criminosa. Nosso esforço é colocar uma lupa em Minas. A SOS Mata Atlântica não tem interesse econômico. O que nos importa é proteger a biodiversidade, o clima, a água, enquanto outros só querem ganhar mais e mais dinheiro. Queremos reverter esse processo de degradação com informação qualificada. E por isso a nossa presença firme em Minas Gerais.

— Como o senhor relacionaria a exploração ambiental com a atividade turística?

— Esse é o grande lance! Aparentemente o Brasil é o país que tem mais atrativos turísticos do mundo. Entretanto, ocupamos quase o 100º lugar em número de turistas. A Costa Rica tem mais visitantes do que o Brasil e tem metade do tamanho de Minas Gerais. O Brasil tem só cinco milhões de visitantes, e quase todos concentrados no Rio. Depois, temos Foz do Iguaçu nosso segundo destino turístico. E quem vai a Foz, não vai comprar muamba no Paraguai, vai ver natureza. O resto da atividade turística no país é o turismo sexual. E o Brasil tem parques maravilhosos. Aqui em Minasexistem belos parques, cada um mais lindo doque o outro — e todos praticamente sem visitas.São atrativos que poderiam agregar valor também para as comunidades do entorno, para a economia das cidades e que não se valorizam.Na verdade, o cidadão tem a sua parcela de culpa. Ele considera um parque como algo que pertence ao governo, ao IEF. Mas a terra é pública, é também de cada cidadão. Esse pensamento equivocado é uma das causas que atrasa o desenvolvimento do turismo. Hojenotamos atrativos de excelência, como as feirasde artesanato, tão comuns em Minas e não osenxergamos como potenciais turísticos. Tem alguma coisa que está desconectada da realidade. Minas poderia fazer a diferença no Brasil. O turismo de mar e sol tem em qualquer lugar do mundo. Mas e a biodiversidade de Minas Gerais? As veredas, as montanhas ou o sul de Minas, região adorada pelos paulistas? E por que não conseguimos isso? Tem tudo aqui. Comida boa, artesanato, patrimônio, biodiversidade, natureza. Parece que Deus disse: vou tirar o mar de Minas porque já tem de coisa boa demais aqui! Precisaríamos levar muito mais a sério esse turismo. E eu começaria pelas áreas naturais e públicas do Estado: pelos parques. Desde uma praça, até chegar a parques grandes como o do Cipó, do Vale do Rio Doceou da Canastra.

— Há alguma evolução da política ambientalno Brasil nos últimos anos?

— Eu acredito que a Fundação SOS Mata Atlântica levantou questões muito importantes nesse sentido. Cito como exemplo a lei do deputado Paulo Piau —PMDB-MG (proposta de emenda a lei ambiental que desconsideraria as matas secas como parte da Mata Atlântica permitindo, assim, sua exploração) que foi vetada pela presidente Dilma, mas que segue aí como um fantasma. Lembro que quandolançamos, em 1990, o primeiro Atlas dos Remanescentes Florestais da Mata Atlântica  — realizado pela Fundação SOS Mata Atlântica, em um convênio com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais, o Atlas tem a missão de monitorar e mapear o bioma — mostramos que o Rio de Janeiro era o campeão em desmatamento. A pressão da sociedade foi tanta que o Estado nunca mais atingiu esse patamar e hoje faz turismo respeitando as unidades de conservação. A sociedade, as organizações e as instituições se uniram para mudar aquele status. E conseguiram.

— Podemos dizer que, de 1990 para cá, tanto na política como na cultura, houve uma evolução no Brasil?

— No Brasil temos momentos de evolução. Nos anos 80, criamos uma constituição onde o meio ambiente foi contemplado. Isso foi inacreditável! Eu me lembro que para fazer a constituição, em Brasília, levávamos mobilizações, trazendo o tema ambiental para uma pauta que não existia no mundo. Nos anos 90, fizemos a base de uma legislação que é fantástica, mundialmente a mais evoluída que existe. O problema é que o Brasil não se adaptou para a lei ambiental. Os órgãos oficiaisque temos hoje não têm técnicos, não têm infraestrutura, orçamento. É um desequilíbrio imenso. O licenciamento ambiental, por exemplo, é como a “Geni”: todo mundo dá pancada, reclama, chuta. Mas a verdade é que temos municípios como Duque de Caxias (RJ)que tem mais de 20 técnicos para licenciar. Lá, todo mundo quer ser licenciado já que é bem atendido e sabe que o processo valoriza o município, dá recursos. Não existe nenhum outro instrumento no Brasil onde a sociedade pode fazer controle social a não ser com o licenciamento.

— O agronegócio não é tão vilão assim também, né?

— Não! o agronegócio é ótimo! É uma grande saída para o Brasil. Mas não podemos ser o modelo exportador de commodities. O Brasil tem 5,3 milhões de propriedades em 560 milhões de hectares. Porém, tem 60 milhões de hectares onde está soja, celulose, cana… E 200 milhões de hectares para bois, um boi para cada hectare, quando no mundo a média é de três. E onde estão os outros 300 milhões de hectares?São ocupados aqui, nas regiões sul e sudeste, para a especulação de terra, e se invade terra na Amazônia para expansão de uma agropecuária que é insustentável. Quando a gente faz esta conta e vê que 80% das terras está nas mãos de menos de 20% dos proprietários, e os 20% dos proprietários fazem a comida que a gente come, tem alguma coisa errada. E não tem sentido uma bolinha de soja sair de Rondônia e ir parar em Paranaguá num caminhão. O Brasil precisa, primeiro, fazer o processamento desse material.Aliás, em outra ponta, a gente continua mandando minério sem processar para fora. Não é possível ter uma economia com valores que quem define é a China. O que precisamos fazer? O agronegócio a gente já domina tecnicamente. Somos a ponta do mundo hoje. De importador passamos a exportador. Desenvolvemos a melhor tecnologia, temos o melhor clima, a melhor terra, o melhor solo. Tudo venta a favor. Por que a gente não agrega o meio ambiente? Então, quem levar uma tonelada de soja leva também reserva legal, proteção de biodiversidade, está protegendo água. Vamos agregar. Eu quero que em vez de ficar fazendo propaganda de um turismo que não existe, oferecendo futebol e mulher, vamos mostrar uma agricultura pra frente, que protege a natureza, que só tem menos de 20% do país com área produtiva e que consegue sustentar o mundo. É isso que nós temos que contar.

— O que o senhor aconselharia para quemquer vir a Minas Gerais em uma viagem de turismo?

— Eu sou suspeito! Começaria pela comida de Minas. Mas o que mais gosto daqui é o jeito de ser do mineiro, do estilo mineiro. Não sei se é porque minha mãe era mineira. E nem vou falar da natureza, ou vão dizer que só gosto da natureza. A natureza de Minas é a moldura. Eu valorizo as coisas terrenas: uma boa comidinha mineira, um bom torresmo. E eu morro feliz!

O que nós fizemos primeiro foi trazer informação qualificada para evitar aquele papo de que ambientalista é contra o desenvolvimento ou que só quer proteger bicho e não proteger gente.

Parece que Deus disse: vou tirar o mar de Minas porque já tem de coisa boa demais aqui! Precisaríamos levar muito mais a sério esse turismo. E eu começaria pelas áreas naturais e públicas do Estado: pelos parques.