Entrevista – Samuel Rosa

Minas, uma palavra ampla

O líder do Skank dispensa maiores apresentações. O cantor, compositor e instrumentista é um belo-horizontino “da gema” e um mineiro orgulhoso e apaixonado pela terra natal. Nesta entrevista, Samuel Rosa reflete sobre o potencial turístico de Minas Gerais e diz que é preciso fomentar ainda mais os eventos culturais, como forma de se ampliar a oferta de novos produtos turísticos. Dentre outros temas ligados à cultura, Samuel, é claro, fala de música — ele destaca a importância do Clube da Esquina — e de futebol, outra paixão, quando analisa a rivalidade entre as torcidas de Cruzeiro e Atlético.

Por Cézar Félix
Fotos Weber Pádua/Divulgação

— Sendo um artista de Minas Gerais, uma personalidade importante e um bom mineiro, como o senhor avalia o patrimônio histórico e cultural e o potencial turístico do nosso estado?

— Minas Gerais é um tema muito amplo. Minas é uma palavra ampla. Admiro demais o nosso patrimônio histórico: a arquitetura barroca grandiosa, o nosso acervo arquitetônico, que é riquíssimo. E, nisso, incluo Belo Horizonte, com as belas edificações da época da fundação e os outros padrões estéticos que se seguiram, dentre eles, o estilo art decô, tão bem representado por prédios de que gosto demais, como o Minas Tênis Clube e o Cine Brasil Vallourec. Por outro lado, lamento a nossa falta de consciência, de esclarecimento, de educação mesmo, quando se trata de pensar na preservação desse patrimônio. E não é somente preservar o que seria mais óbvio, o nosso patrimônio colonial — que, às vezes, vejo também muito abandonado. Há o caso de Ouro Preto, cidade onde persistem vários problemas e um crescimento desordenado. Outro triste exemplo é Itabira, de onde vem a minha família, uma cidade histórica que se perdeu quase que completamente. O casarão colonial onde a minha mãe viveu com os dez irmãos e os meus avós foi totalmente desfigurado, à revelia do poder público, que deveria ver isso com muito mais cuidado.  Quanto a Belo Horizonte, a minha cidade, reparo muito nas construções dela desde quando era muito jovem, nos anos 1970. BH era uma cidade muito mais harmônica nas edificações. Os bairros residenciais eram compostos por casas que, na grande maioria, foram jogadas no chão sem nenhum critério, sem planejamento urbano, sem um plano diretor e à mercê de uma desenfreada exploração imobiliária.

— BH, de fato, perdeu um considerável patrimônio histórico…

— Como não se lembrar da derrubada de um ícone da arquitetura de Belo Horizonte, o Cine Metrópole, um belíssimo edifício que cheguei a conhecer, que frequentei? Sou um saudosista. Penso sempre que, se BH tivesse sido preservada, se houvesse um plano de crescimento ordenado, obedecendo a um rigoroso planejamento, pelo menos dentro dos limites da avenida do Contorno, esta minha cidade natal poderia ser considerada hoje também uma cidade histórica, um patrimônio não só dos mineiros, mas de todos os brasileiros. Apesar disso, o que se preservou da arquitetura art decô, do ecletismo da Praça da Liberdade e do maravilhoso conjunto modernista da Pampulha tinha tudo para ter se tornado também uma referência turística, como é Minas Gerais, cuja principal vocação para o turismo é inegavelmente o patrimônio histórico, artístico e arquitetônico.

— Além desse grande patrimônio, o que faz com que os turistas se sintam atraídos pelo nosso estado?

— Outro aspecto que acredito ser importante está relacionado ao fato de que as pessoas também podem ser atrativos turísticos — pessoas que viveram em um determinado lugar, que colaboraram para que esse lugar tenha se transformado em importante referência cultural. Por exemplo: visito Liverpool porque foi lá que surgiram os Beatles e vou a Londres por causa do The Who e dos Rolling Stones. Veja o nosso caso: temos grandes escritores, cronistas e poetas; os “cavaleiros do apocalipse” — Carlos Drummond de Andrade, Fernando Sabino, Paulo Mendes Campos e Hélio Pellegrino — frequentavam a Praça da Liberdade e gostavam de atravessar, na madrugada, os arcos do Viaduto de Santa Tereza. Eles também são referências da produção cultural mineira, fizeram história com memoráveis obras literárias. Então, por que não reviver essa história e resgatar a obra desses escritores geniais como atrativos turísticos na cidade onde eles viveram tantos grandes momentos de suas vidas? O mesmo ocorre com o Clube da Esquina. Muitos músicos e vários amigos que visitam a cidade querem conhecer a história de perto, querem ir à esquina das ruas Divinópolis e Paraisópolis, no bairro Santa Tereza, onde tudo começou.

— Então, o senhor acredita que principalmente para Minas Gerais a cultura tem grande potencial como produto turístico?

 — Acredito que sim, claro, mas a atividade cultural poderia ser muito mais bem aproveitada. Além dos atrativos típicos das cidades históricas, o que faz pessoas irem a Ouro Preto ou a Tiradentes, por exemplo, são os eventos culturais. Claro que já existem excelentes iniciativas, eventos já consagrados — como os festivais de cinema, de fotografia, de

gastronomia —, realizados com grande sucesso nas nossas cidades históricas. Mas é preciso incentivar a criação permanente de eventos culturais nas cidades que podem ser consideradas polos turísticos. Acho que o Skank deu a sua colaboração nesse aspecto quando gravou o DVD na Praça Tiradentes, em Ouro Preto. Frequentemente, ainda ouço, por esse Brasil afora, pessoas falarem que foram a Ouro Preto depois de assistir ao DVD, outras dizem que o show aguçou a vontade de conhecer Ouro Preto e por aí vai; e o mesmo acontece com o show do Mineirão. As pessoas comentam conosco que foram conhecer BH e Ouro Preto depois que assistiram a esses shows. Então, é fundamental aliar a questão da preservação, da revitalização e do cuidado com os nossos atrativos turísticos com o fomento de eventos culturais como espetáculos de música, teatro, dança e de todas as artes em geral. É disso que a gente precisa, penso eu.

— Vamos voltar à importância da cultura como referência turística em Belo Horizonte. Nesse sentido, qual é o papel do Clube da Esquina?

— A música de Milton Nascimento e do Clube da Esquina ficou muito associada a Minas, a ponto de ser chamada, quase que de modo tradicional, como “a” música mineira. Foi um movimento de muita importância, muito abrangente, de extrema qualidade. Temos grandes gênios musicais no Clube da Esquina. O que aconteceu depois de tudo aquilo construído por esse grupo — tudo tão grande — é que, de certa forma, muitas das outras músicas produzidas aqui já apareciam estigmatizadas, as pessoas chamavam, pejorativamente, de música que vinha das montanhas de Minas.

— Não foi o caso do Skank, correto?

— Na verdade, eu diria que o Sepultura, o Pato Fu e o Skank quebraram esse paradigma, apresentando músicas muito diferentes das do Clube da Esquina. A do Skank, por exemplo, veio muito associada ao ritmo, à eletrônica, diria, sem entrar na questão do mérito qualitativo, menos sóbria e mais ensolarada. A partir daquele momento, todos poderiam esperar que, de Minas e de Belo Horizonte, surgissem muitas outras coisas, e não somente aquela música maravilhosa, genuína, criada por Milton, Lô Borges, Beto Guedes, Toninho Horta e tantos outros. O Pato Fu veio com outra linguagem, o Virna Lisi, com outra proposta, o Skank, com outra. O Sepultura, mais louco ainda, entrou em cena voltado para o segmento “gringo”, mas com uma ideia muito original, muito própria. O que ocorreu, então, foi que a gente se desvencilhou do “estigma mineiro” no sentido musical. No entanto, o Skank fez questão de dar um drible: fazemos uma música diferente, mas somos mineiros, sim, tanto quanto eles, com muito orgulho. Mas, aí, aconteceu o seguinte: não só pelas letras de músicas que fazem referências às coisas, aos lugares de Belo Horizonte, e mesmo no teor, pelo assunto das letras, com várias menções a BH, e ainda em função dos grandes shows no Mineirão e na Praça Tiradentes, em Ouro Preto, o Skank ficou também muito associado a Belo Horizonte e a Minas Gerais — muito propositalmente, só que com outra linguagem, distante da do Clube da Esquina. Depois, com a minha aproximação ao Lô Borges, em razão de eu gostar demais da obra dele, aconteceu um diálogo artístico com o Clube da Esquina.

— No DVD que o senhor gravou com Lô Borges, essa aproximação, essa identidade musical fica evidente.

— Por eu ter crescido em BH, não fiquei isento a um contexto musical que aqui existia e existe, apesar de eu ter escutado várias outras coisas, de fontes diversas. O Clube da Esquina sempre esteve presente na minha casa quando eu era criança, por causa do meu pai. Depois, conversando com amigos, músicos do Rio e de São Paulo, pessoas da minha geração cujos pais apreciavam boa música, percebi que eles também ouviam a música do Clube da Esquina. Quando cheguei à adolescência, comecei a tocar guitarra, embora sempre apaixonado pelos Beatles, voltei a ter contato com a música do Clube da Esquina. Só que os caras, além do Bituca, já tinham vários discos solo. O Lô já tinha, o Toninho, também, o Beto, idem, assim como o Flávio Venturini após o 14 Bis. Então, comecei a tocar essa música, a estudar esse som e me apaixonei de novo. Apesar de gostar muito de todos eles, o Lô foi o cara que comecei a acompanhar mais de perto em shows e em discos. O mais intrigante é que os caras nos nutriam de dois modelos: o musical — olha a complexidade harmônica, a elaboração, o refinamento e a sofisticação — e, pela nossa “menos-valia”, pelo fato de permanecerem fora do eixo Rio-São Paulo, de manterem uma identidade local muito clara. Eles eram a prova viva, absoluta, de que você poderia ter vivido em Belo Horizonte, crescido e produzido uma música maravilhosa e interessante aqui, mas não só para o Brasil, como também para o mundo. Eu, um garoto de 16 anos, refletia: “cara, essa música me emociona tal e qual a música dos Beatles”. Esses caras nasceram e vivem na minha cidade! Isso foi um estímulo inacreditável. Eles se tornaram modelos de muita motivação, me fizeram pensar que era possível fazer boa música sem precisar ter nascido no Rio, em São Paulo ou em Liverpool. O Lô nasceu em Santa Tereza, o Milton é de Três Pontas e o Beto nasceu em Montes Claros. Isso é muito legal. É justamente isso que falo para explicar o que significa esse encontro entre o Lô e eu. Estou dividindo o palco com um ídolo, um cara que é modelo para mim. Isso é um privilégio que só quem é músico pode ter. Aliás, a música já me presenteou por estar ao lado de grandes artistas, de tocar ao lado de gente como Milton Nascimento, Paralamas do Sucesso, Jorge Ben Jor e até Carlos Santana. É uma sensação inexplicável. Você está ali no palco e se lembra da sua formação musical, o quanto de influências você recebeu desses caras.

— Há alguma influência mais marcante na sua carreira?

— É muito difícil mensurar qual música foi mais importante para mim. O Santana, eu ouço desde a adolescência, por influência dos meus tios. É inesquecível aquela cena dele tocando “So sacrifice” no Woodstock. Mas o Santana vive longe, e os outros estão aqui, bem perto. A verdade é que tudo isso é um imenso privilégio. Nada acontece à toa, esses encontros acontecem porque unem pessoas que têm certa afinidade atemporal; esses encontros são presentes da música.

— O senhor acompanha as novas gerações de músicos de Belo Horizonte? Qual é a sua opinião sobre o trabalho deles?

— Acompanho na medida do possível, não como gostaria. Agora, porém, começo pouco a pouco a acompanhar mais, inclusive muito influenciado por meu filho Juliano, que também toca, tem uma banda e me convida para ir a alguns shows. Recentemente, fui ver uma banda de gente muito jovem, na casa dos 20 anos, chamada O Caso. Gostei e assisti a coisas muito interessantes. Depois vi outra banda, essa com um pouco mais de cancha, e fiquei estupefato, a banda se chama Junkie Dogs. Os caras cantam em inglês, que é algo muito difícil. E, na minha opinião, rock tem que ser cantado em inglês. Por outro lado, você pega a música do Lô, que tem muitos traços do rock, e escuta as músicas dos Mutantes, da Jovem Guarda, e os caras cantavam brilhantemente em português! Isso é muito intrigante, é genial, muito impressionante para mim. Enfim, vi esses caras, os Junkie Dogs, e gostei muito. Também vi a banda Dom Pepo, uma garotada muito legal que tenho escutado. Gravei com o rapper Renegado, e foi um encontro muito bacana. Gravamos uma música chamada “Rotina”.  Outra surpresa muito grande foi o convite que recebi do Graveola e o Lixo Polifônico, gravei com eles a música “Talismã”. Que legal! O som deles me lembrou o do Caetano Veloso do início da década de 1980, coisas do disco “Cores e nomes”. É uma garotada muito fera! Ocorre que hoje vejo que a maré não está muito favorável para quem faz uma música de conteúdo, uma música para os jovens ouvirem. É até meio careta dizer isso, mas é a realidade.

Trata-se de um fenômeno mundial. Você pode contar nos dedos as bandas que surgiram de alguns anos para cá que tocam e lotam estádios. São muito poucas as que conseguem esse feito. Não tenho fatos, argumentos, é mais uma intuição, para entender por que essas bandas que produzem uma música de alta qualidade não conseguem mais fazer o ‘crossover,’ ou seja, sair do ‘underground’ de Belo Horizonte para tocar em grandes estádios, para multidões, e terem as músicas   executadas à exaustão no rádio. Foi exatamente esse fenômeno que aconteceu com o Skank e seus contemporâneos e também foi o que aconteceu com as bandas dos anos 1980.

— Mas, no caso dessas bandas de hoje, não seria a internet, ao invés do rádio, o melhor meio para divulgar as músicas?

— Mesmo considerando que vivemos em outra época e que a música deles toca e aparece na web, acho que isso não agrega popularidade. Ao contrário, fica restrito a nichos. E, pela atual condição do mercado fonográfico, as gravadoras não se interessam por essa música mais elaborada, de qualidade. É o retrato do tempo de maré desfavorável em que vivemos, infelizmente.

— O senhor também gosta muito de futebol, é um grande torcedor do Cruzeiro. O que o senhor diria sobre essa rivalidade entre Cruzeiro e Atlético, tão típica de Minas Gerais?

— Dá pra falar um monte de coisas sobre Cruzeiro e Atlético. É muito curioso o seguinte: são torcidas totalmente opostas, rivais, que têm comportamentos completamente distintos, apesar de surgirem da mesma matéria-prima, os mineiros do interior e de Belo Horizonte. A torcida do Atlético tem aquele fanatismo das massas, que remete um pouco às torcidas argentinas. Já a torcida do Cruzeiro é mais comedida, mais exigente e desconfiada, assim como são os mineiros — o mineiro não é expansivo, é mais comedido. A torcida do Atlético é muito passional, expansiva, sem controle e não pensa no amanhã. Por isso, eu acho a torcida cruzeirense mais mineira do que a torcida atleticana. Talvez seja por isso que o Cruzeiro tem mais torcedores no interior. O Atlético é um time que valoriza a tradição, é um clube essencialmente tradicional. O Cruzeiro, por ser um time muito recente — apesar de ter sido fundado em 1921, começou a ser grande nos anos 1960 —, é um time mais contemporâneo, com maior visão de futuro.

É fundamental aliar a questão da preservação, da revitalização do nosso patrimônio histórico — e do cuidado com os nossos atrativos turísticos—, com o fomento de eventos culturais como espetáculos de música, teatro, dança e de todas as artes.

A música de Milton Nascimento e do Clube da Esquina ficou muito associada a Minas, a ponto de ser chamada, quase que de modo tradicional, como “a” música mineira. Foi um movimento de muita importância, muito abrangente, de extrema qualidade.

 Você também pode se interessar por Chico Amaral