Tantos caminhos que levam a Minas

Estrada Real, a mais famosa rota do interior brasileiro, é dona do mais valioso acervo de produtos turísticos do Brasil em função da imensa diversidade de possibilidades que oferece. Não há no país tamanha potencialidade para a atividade turística. Em 1 630 quilômetros, entre Minas, São Paulo e Rio de Janeiro, 199 municípios esbanjam atrativos e atrações em todos os segmentos possíveis: seja no ecoturismo, turismo de aventura, turismo cultural ou turismo de negócios. Os patrimônios natural e histórico aliados à cultura efervescente — onde se soma folclore, religiosidade, gastronomia, artesanato e todas as formas de arte — se encarregam de legitimar essa incomensurável riqueza.

A rota turística Estrada Real é dividida em quatro caminhos: Caminho Velho, Caminho Novo, Caminho de Sabarabuçu e Caminho dos Diamantes. 

Reportagem
Rita de Podestá e Natália Martino

Fotos
Alessandro Tocafundo/ Eduardo Gontijo/Jean Yves Donnard/Marcos Amend/Tom Alves/Rogério Alves Dias

O primeiro caminho que adentrava o Brasil não era mais do que uma das muitas trilhas indígenas do território da colônia. Tornou-se depois passagem para as várias expedições bandeirantes que desbravaram o Brasil. Só foi se notabilizar, porém, depois da descoberta de uma das áreas mais ricas em ouro do mundo, na região central do atual estado de Minas Gerais. Quando a magnitude da descoberta foi confirmada, uma Carta Régia proibiu, em 1702, a abertura de novas rotas e ordenou que todo o ouro fosse transportado por esse caminho, uma tentativa de impedir o contrabando e elevar os ganhos da Coroa Portuguesa.

Caminho Velho e Caminho Novo

Era essa a única rota oficial que ligava o litoral à região das minas — ou seja, de Paraty à antiga Vila Rica. Não se tratava de um caminho calçado de pedras, como se pode imaginar diante de alguns trechos que hoje se apresentam assim. A ânsia de procurar ouro não deixava espaço para tais preocupações. O “Caminho do Sertão”, como era conhecido por quem se dirigia à antiga Vila Rica (hoje Ouro Preto), ou “Caminho do Mar”, como era chamado por quem o percorria na direção oposta, não passava de uma trilha de terra que atravessava a densa Mata Atlântica e trechos de um Cerrado ainda intacto. Até hoje, o agora conhecido como “Caminho Velho”, passa por algumas dessas áreas naturais preservadas em estradas que alternam grandes trechos de terra batida com outros menores de vias pavimentadas. Percorrer os 630 quilômetros dessa rota implica em experimentar uma diversidade de sensações promovida pela variedade de climas, solos, paisagens e heranças históricas do caminho.

Desbravado para ser a alternativa mais rápida ao Caminho Velho, o Caminho Novo foi criado para suprir as necessidades de escoamento de mais trabalhadores e equipamentos da, então crescente, produção de ouro e diamantes. São mais de 500 quilômetros, jovens caminhos perto dos outros da Estrada Real. Sua criação é datada de 1698, mas foi entre 1722 e 1725 que a rota foi realmente definida.

De Ouro Preto ao Rio de Janeiro, essas estradas ligam as montanhas mineiras ao mar fluminense. Hoje,  são repletas de atrativos turísticos e histórias da época mineradora — causos e casos da construção do Brasil.

O Caminho Novo reserva aos viajantes uma série de elementos da época das bandeiras e das primeiras explorações do território.

Sabarabuçu e Diamantes

Se o Caminho Novo sobrepõe o Velho, o Caminho de Sabarabuçu vira a opção além dos Diamantes. Criado como uma rota alternativa para o Caminho dos Diamantes possui aproximadamente 160 quilômetros que ligam os distritos de Cocais (Barão de Cocais, MG) e de Glaura (Ouro Preto, MG). Pequeno, mas imponente. A distância pode ser curta, mas o percurso abriga lugares com muita história — e várias lendas. Uma delas diz que no século XVII existia uma enorme Serra toda de prata. A Coroa, animada com a possibilidade, resolveu procurar o lugar, e com a prata da casa financiou expedições oficiais para procurar a tal Serra do Sabarabuçu — nome de origem indígena que quer dizer “a serra que brilha”. No fim, descobriram que prata não havia por ali, mas muito ouro. O Bandeirante Borba Gato foi quem descobriu a riqueza.

A jornada histórica pelo Caminho dos Diamantes começa pela formação de um pequeno arraial chamado Tijuco. O ouro em abundância era um grande atrativo, mas não o suficiente para diferenciá-lo de outros povoados da região. Isso até a década de vinte do século XVIII, quando a descoberta de diamantes transformou-o em um dos lugares mais importantes da Colônia.

Até então, a pedra só havia sido encontrada nas Índias. Não demorou muito para o arraial, que foi a maior jazida de diamantes do mundo naquele século, ganhar, em 1730, o nome de Distrito Diamantino. Mais de 3 milhões de quilates da pedra foram retiradas dali e grandes fortunas foram criadas. A elite mais requintada da sociedade colonial se instalou na região. Era o cenário perfeito para histórias como a da lendária Chica da Silva, a bela escrava que encantou um dos homens mais ricos da região e sobreviveu no imaginário popular como “a escrava que se fez rainha”.

A prosperidade trazida pelos diamantes fez com que os caminhos que ligavam as antigas Vila Rica e Tijuco ganhassem grande importância para a Coroa Portuguesa. Se o auge econômico da região acabou na segunda metade do século XIX, quando a descoberta de grandes minas na África do Sul fez os preços do diamante despencar, a riqueza da história local permaneceu. Até hoje ela pode ser revisitada nos 350 quilômetros da principal rota real que ligava as duas cidades coloniais, atualmente Ouro Preto e Diamantina.

Terras altas e águas milagrosas

São tantos e diversificados os atrativos que é preciso orientar os destinos e os vários roteiros possíveis para que o turista possa usufruir ao máximo de sua aventura pelos mais ricos rincões ao longo dos caminhos reais.

A viagem pode começar pelo Caminho Velho em Minas. Basta seguir a rota em direção à subida para as cidades da região conhecida como Terras Altas da Mantiqueira. A temperatura cai e no inverno pode chegar a cinco graus negativos. Amantes de turismo no frio encontram em cidades como Itamonte, Passa Quatro e São Sebastião do Rio Verde, todas já em Minas Gerais, um terreno fértil. Comidas típicas de regiões frias e aconchegantes pousadas fazem parte do roteiro. A Mata Atlântica também alcança os topos dessas serras e é protegida por reservas como o Parque Nacional do Itatiaia, primeira reserva natural do Brasil, criado em 1937. Nele está o Pico das Agulhas Negras, que com quase 3 mil metros de altitude é um dos mais altos do país. A região oferece aos amantes do ecoturismo bons locais para a prática de montanhismo, escalada e trekking.

Ainda nessa mesma região, o Parque Estadual Serra do Papagaio e a Reserva Natural Matutu, próximos da cidade de Aiuruoca, guardam belas cachoeiras. As principais nascentes da região estão nessas duas reservas, consideradas pela Unesco como áreas prioritárias de preservação ecológica. A sede da Reserva Natural fica em um antigo casarão de uma fazenda secular que existia no local. Rapel em cachoeiras e cavalgadas estão entre as opções de lazer. O sul de Minas Gerais guarda também as estâncias hidrominerais do Circuito das Águas. Cidades como São Lourenço, Caxambu, Baependi e Cambuquira são famosas por suas águas medicinais e terapêuticas. Diversas fontes e balneários para banhos e massagens espalham-se pela região, que pode ser conhecida em passeios de charrete, pedalinho ou até teleférico.

Rota mística e histórica

Seguindo a estrada que levava os aventureiros em busca de ouro à antiga Vila Rica, chega-se a São Tomé das Letras, lugar ideal para os mais místicos. Alguns acreditam que a cidade seja um dos sete pontos energéticos da Terra e uma legião de espiritualistas e ufólogos é atraído para esse município que já ganhou o apelido de “Cidade Mística”.

Mais acima, entra-se na Trilha dos Inconfidentes, que inclui cidades como Tiradentes, São João del Rei, Prados e Lagoa Dourada. Essas três cidades precisam ser visitadas, não só pelo precioso patrimônio histórico (como será lido adiante), mas também  por características únicas no que se refere aos diferenciados atrativos turísticos: a cidade cujo nome homenageia o maior herói brasileiro tem hoje um vasto calendário de eventos como a Mostra de Cinema e os festivais de gastronomia e de fotografia, dentre outros. São João desponta por se tratar de uma cosmopolita cidade universitária, promove um famoso festival de inverno e pelo belo artesanato em estanho. Os mundialmente conhecidos artesanatos do distrito de Bichinho, o festival de música e a festa do Boi Mofado fazem a fama de Prados. Já Lagoa Dourada, além de berço do Jumento da raça Pêga, oferece a autência e deliciosa rocambole.

Essencialmente um circuito histórico, a região onde nasceram e lutaram os heróis da Inconfidência Mineira também é adornada por grandes atrativos naturais. A Área de Proteção Ambiental da Serra de São José, por exemplo, impressiona com seus paredões de rocha que chegam a ultrapassar os 100 metros. Quedas d’água e uma flora repleta de orquídeas e bromélias enfeitam o caminho de quem caminha ou cavalga na região.

A rota segue em direção a Ouro Preto e pouco antes de chegar à antiga capital da colônia portuguesa encontra pelo caminho a imponente Serra da Moeda. Considerada um dos fenômenos geomorfológicos mais antigos do planeta, a Serra formou-se há cerca de quatro bilhões de anos e é repleta de cachoeiras, trilhas e uma rica vegetação. No topo de um de seus morros está uma das melhores pistas de decolagem para vôo livre no Brasil. Mesmo para quem não se arrisca a voar de parapente, o espetáculo de cor que os praticantes promovem em meio ao verde da vegetação já vale a visita. Os rios da região também são propícios à prática de rafting.

Trilhas da natureza

Enquanto aventureiros seguiam procurando ouro nas minas durante todo o século XVIII, a Coroa Portuguesa buscava aumentar a fiscalização, diminuir seus custos e ampliar seus ganhos. Substituir o Caminho Velho pelo Caminho Novo — mais curto e que, chegando diretamente ao Rio de Janeiro, substituía um trecho de barco — foi uma das estratégias adotadas pela Metrópole. Enquanto um caminho novo era trilhado, o velho virava história.

De Ouro Preto ao Rio de Janeiro, essas estradas ligam as montanhas mineiras ao mar fluminense. Hoje,  são repletas de atrativos turísticos e histórias da época mineradora — causos e casos da construção do Brasil.

O Caminho Novo reserva aos viajantes uma série de elementos da época das bandeiras e das primeiras explorações do território. Como as fazendas, algumas hoje confortáveis e luxuosos hotéis que resgatam construções e costumes dos séculos XVIII e XIX.

O caminho é feito de serras. Com um salto no mapa e passando de raspão em Juiz de fora (MG), os passos se encontram num outro mundo de serras. A palavra da vez é natureza e o lugar é Conceição do Ibitipoca, que surgiu em 1692 com a chegada de bandeirantes. O nome, Ibitipoca, vem do tupi-guarani e significa “montanha que estala”.

Em 1822 a cidade recebeu a ilustre visita do botânico Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) que conheceu a Vila e a área que hoje corresponde ao Parque Estadual do Ibitipoca. O parque abriga uma rara e rica fauna e flora e está situado numa das regiões mais altas da Serra da Mantiqueira. No local encontram-se cavernas em quartzitos — hoje raras — terrenos montanhosos, cachoeiras, e lagos, além de uma fauna e flora diversificada. A Janela do Céu é um dos pontos mais procurados — uma corredeira emparedada por um cânion, que despenca em uma cachoeira de 20m de altura.

E por aí vai o caminho, subindo e descendo as Minas Gerais. É um atrativo atrás do outro. Como a região de Lavras Novas, Chapada e Itatiaia, cidades mineiras que reservam surpresas agradáveis a quem passa. Montanhas e muita, muita água. Em Lavras Novas, a pequena e turística cidade, com excelentes variedades de hospedagem e restaurantes, encontra-se a Cachoeira da Chapada — ideal para escalada. E a Serra do Trovão com seus imponentes 1740m de altitude que garantem uma vista privilegiada. Em Itatiaia uma bela igreja, casas de pau-a-pique e população com descendência escrava convivem harmoniosamente com um grande lago, cachoeiras e montanhas cobertas de espécies típicas do Espinhaço.

Rota alternativa

Para chegar até a serra reluzente de Sabarabuçu, os viajantes buscaram uma rota alternativa entre Ouro Preto (na época Villa Rica), no Caminho Velho, e Barão de Cocais, no Caminho dos Diamantes. Foi aí que surgiu o Caminho de Sabarabuçu, que margeia os meandros do Rio das Velhas e tem a Serra da Piedade, nos seus ilustres 1.762 metros, como grande atrativo. Além da mítica história a serra servia como referência de localização para quem chegasse às minas a partir de Raposos, Sabará e Caeté, todas cidades de Minas Gerais.

Todo o Caminho está dividido em trechos que guardam atrativos turísticos que vão do ecoturismo ao rico patrimônio histórico, cultural e religioso — são dezenas de igrejas e festas populares. Um trecho curto na quilometragem, mas extenso nos seus vários significados.

No caminho o destaque fica para a Serra da Piedade, antigamente conhecida como a Serra brilhante de Sabarabuçu. Uma noite no Pico da Piedade é imperdível, além de possibilitar uma bela vista panorâmica, o local próximo a Caeté conta com o observatório astronômico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG).

É  bonito também poder vislumbrar do alto, o mar de morros da cidade de Glaura, cujo trecho pertencente à Estrada Real é marcado por oscilações de subidas e descidas íngremes. A paisagem compensa cada subida. No caminho se pode ver os Picos do Itacolomi e do Itabirito, antigos pontos de referência para os bandeirantes. Por causa do relevo montanhoso, na região é possível encontrar mais de 60 cachoeiras, algumas muito belas e cercadas por matas.

Área de proteção ambiental

Perto de Glaura se avista um horizonte verde: São Bartolomeu que tem a importante responsabilidade de preservar toda área verde das nascentes do Rio das Velhas. A área de Proteção Ambiental da Cachoeira das Andorinhas abrange 90% do distrito. Já o Distrito de Nova Lima, São Sebastião das Águas Claras, mais conhecido como Macacos, é um recanto repleto de cachoeiras e natureza exuberante. Muito próximo da capital do Estado, o local atrai os belo- horizontinos para uma fuga rápida da salva de pedras em troca da prática do ecoturismo, trekking, cavalgadas e ciclismo, dentre outros. Além disso, ali encontram-se vários restaurantes e charmosas e sossegadas pousadas que convidam cada vez mais o turista que almeja a deliciosa dupla natureza e descanso.

Também muito próximo à capital está Rio Acima com suas diversas cachoeiras e nascentes. É a única cidade mineira com 100% do território localizado dentro da APA Sul — área de proteção ambiental que comporta 14 municípios da Grande BH. Em sua divisa com Itabirito, encontra-se um relevante trecho da Estrada Real que fazia a ligação entre Santa Bárbara e Ouro Preto por meio da única passagem na Serra do Espinhaço. Esta passagem é conhecida como Bocaina e está localizado na Serra do Gandarela, que faz parte da serra do Espinhaço. Sendo a única passagem para a Serra do Ouro Fino (hoje Santa Bárbara), na época do império os escravos fugitivos armavam ciladas para as tropas reais em busca de ouro, armas, animais de carga e suprimentos.

Lugares que um dia foram estratégicos para fugas de escravos, hoje são perfeitos para a fuga de turistas das grandes cidades. À pé, à cavalo, de bicicleta ou de carro. O tamanho do percurso permite que cada um movimente-se da forma que queira — com aventura ou conforto. Viajar por esse percurso é voltar ao passado, e no fim do dia descansar numa das paragens, que já abrigou tantos tropeiros e aqueles que percorriam as Minas Gerais a procura de ouro. É encantar-se com as maravilhas naturais, e aquelas construídas pelo homem, que trilham o Caminho de Sabarabuçu. Ecoturismo, cultura, gastronomia e excelentes hospedagens — pode estar certo que esse pequeno caminho surpreende até as maiores exigências.

As mais surpreendentes belezas

Percorrer essa rota é se surpreender todo o tempo com aa belezas naturais que guardam as serras atravessadas pelo Caminho dos Diamantes.

Tudo começa na Serra do Espinhaço, que cerca Diamantina. Bem perto da cidade está o Parque Nacional das Sempre-Vivas, onde localizam-se as principais nascentes de dois importantes rios, o Jequitinhonha e o São Francisco. As sempre-vivas, flores homenageadas no nome da reserva, são encontradas em abundância na região e são assim chamadas por não murcharem nem perderem a cor depois de secas. Estão muito presentes no artesanato local. A fauna do parque também é rica e conta com vários animais em extinção, como as onças parda e pintada, o lobo-guará e o tatu canastra.

Durante todo o trajeto, é a vegetação formada por campos rupestres e trechos de cerrado, repleta de orquídeas e bromélias, que acompanha o viajante. Do alto de um dos morros da Serra do Espinhaço, o Pico do Itambé, consegue-se uma bela vista panorâmica, que inclui Diamantina e a vila de Capivari. O mirante está dentro de um Parque Estadual que leva o nome do pico. Cachoeiras e paredões locais também oferecem boas opções para rapel e escalada. Seguindo em direção a Ouro Preto, chega-se ao Parque Natural Municipal Ribeirão do Campo, em Conceição do Mato Dentro, demarcado para proteger uma das mais imponentes cachoeiras do país. Tabuleiro é a queda d’água mais alta de Minas Gerais e com seus 273 metros de queda livre, é a terceira maior do país. Como se não bastasse, ela ainda conta com um grande poço, ideal para banhos.

Quando o assunto é cachoeira, a região é imbatível. Na Área de Proteção Ambiental (APA) Peixe Tolo, a água escorre de um paredão de 120 metros que, no meio do caminho, as divide e forma duas quedas — é a cachoeira Rabo de Cavalo. O poço que se forma embaixo chega a 6 metros de profundidade. Já na APA Serra do Intendente, a maior queda alcança 200 metros de altura. As duas reservas são ótimas opções para trekkings e cavalgadas. Outra bela reserva natural em Conceição do Mato Dentro é o Parque Municipal do Salão de Pedras, formado por blocos rochosos que foram transformados em interessantes esculturas pela ação do vento, da chuva e do sol.

Patrimônio sagrado entre serras

O mais célebre parque natural do Caminho dos Diamantes fica pouco a frente. Trata-se do Parque Nacional da Serra do Cipó. Com mais de 30 mil hectares, a reserva guarda encantos como a cachoeira da Farofa, que despenca por um paredão de 180 metros, e o Cânion das Bandeirinhas, que conta com uma sucessão de quedas d’água e piscinas naturais. Ao redor do parque, a APA Morro da Pedreira sedia afloramentos rochosos ideais para escalada. A prática de rafting é com um no rio Cipó e em alguns dos seus trechos é permitida a prática de pesca esportiva — espécies como o pacu, o bagre e a traíra são encontradas em abundância. A região conta também com sítios arqueológicos que guardam esqueletos humanos, instrumentos utilitários e pinturas rupestres de mais de 10 mil anos de idade.

Próximo a Itabira, cidade onde nasceu e viveu o poeta Carlos Drummond de Andrade, está outro povoado que serve como ótimo ponto de partida para caminhadas ecológicas e prática de ecoturismo. Itambé do Mato Dentro. O trecho da rota que corta a vila passa por várias antigas fazendas e tem sido muito percorrido a cavalo, na companhia de condutores e guias especializados. Pedalar também é uma ótima maneira de fazer o trajeto. Os destaques da região são as cachoeiras da Vitória e da Serenata.

Pode-se dizer que o Parque Natural do Caraça, entre Catas Altas e Santa Bárbara, é um dos destaques do Caminho dos Diamantes. O local é considerado um santuário ecológico e oferece caminhadas e banhos em piscinas naturais. À noite, são comuns encontros com o lobo-guará. Dizem que a Serra assemelha-se ao rosto de um gigante deitado, daí a origem do nome Caraça — a grande cara. O atual parque compreende uma área de 11.233 hectares onde convivem os ecossistemas da Mata Atlântica e do Cerrado, caracterizando-se como uma área de transição. Para os mais aventureiros a opção é subir o Pico do Inficionado, com 2.046 metros de altitude, cerca de 5 horas de caminhada. Nele, há a Gruta do Cantenário a mais profunda do mundo em formação quartzito. A Cascatona, como o próprio nome sugere, é uma imponente cachoeira com seus 80 metros de queda d’água. Seu acesso é feito por uma trilha bastante arborizada, sendo comum esbarrar-se com esquilos, macacos e aves ameaçadas de extinção e endêmicas da região.

Inestimável valor histórico-cultural

A Reserva Particular do Patrimônio Natural do Caraça, além das belas cachoeiras, dos morros, das formações rochosas, das ricas floras e faunas locais, abriga parte da história mineira. No meio da reserva havia uma capela em estilo barroco construída em 1770 pelo Irmão Lourenço, religioso português. Mais tarde, já em 1820, os padres lazaristas que herdaram as terras fundaram o colégio e seminário do Caraça — uma espetacular construção em estilo gótico — que formou grandes intelectuais nos seus 150 anos de funcionamento, como os presidentes da República Afonso Pena e Arthur Bernardes. O prédio foi destruído em um incêndio em 1968, mas suas ruínas foram transformadas em um centro cultural em 1989. Antigas construções viraram pousadas. O complexo arquitetônico de inestimável valor histórico-cultural compreende o Santuário de Nossa Senhora Mãe dos Homens e o antigo colégio setecentista.

É só um dos exemplos de quanta história se esconde entre a natureza e as pequenas vilas desse caminho. Claro que Diamantina, com seu Passadiço da Glória, que sobre a rua liga dois belos casarões, ou o Mercado Municipal, que abriga uma feira de alimentos e artesanatos em construção do início do século XIX, se impõe pelo conjunto histórico que abriga. Mas a cidade não é a única sede de belas construções coloniais. Em Catas Altas, próximo ao Caraça, por exemplo, está um harmonioso conjunto arquitetônico desse período, com casarões e igrejas do século XIX. A bucólica Biribiri, por sua vez, conserva até hoje o prédio da tecelagem fundada como alternativa econômica no período de decadência dos diamantes, na segunda metade do século XIX. O teatro, a escola e as residências operárias completam o conjunto. A Igreja Matriz de Milho Verde, no alto de uma colina da Serra do Espinhaço, também causa admiração nos visitantes.

Vocação para o turismo rural

E patrimônio, por ali, vai muito além das construções. Na região do Serro, produtores rurais tiveram o privilégio de ter seu modo artesanal de produção do queijo transformado no primeiro bem imaterial do Brasil. Para os interessados em conhecer esse trabalho, a Fazenda Engenho de Serra recebe visitantes diariamente e os permite acompanhar a produção do laticínio. A sede da propriedade, um bem conservado sobrado colonial, conta também com um pequeno alambique e peças antigas, como carro de boi.

A Engenho da Serra só recebe visitantes durante o dia, mas para os interessados em turismo rural, algumas fazendas da Rota dos Diamantes oferecem hospedagem. Uma opção charmosa é a propriedade à margem do rio das Velhas que, depois de servir como retiro para religiosas no século XVIII e engenho de cana-de-açúcar posteriormente, acabou transformada na Fazenda das Minhocas. Além de manter sua sede intacta, o local, próxima a Jaboticatubas, ainda conta com uma deliciosa comida mineira preparada no fogão à lenha. Na pousada rural Termas do Rei, nos arredores de Itabira, serenatas de viola, sanfona e causos em torno da fogueira criam o clima para uma volta ao Brasil colonial.

Depois de percorrer esse trecho da Estrada Real, sem dúvida serão necessárias muitas noites sentados próximo à fogueira para relembrar tantos causos ouvidos e vividos. Seja nas fazendas, nos parques naturais, nas vilas ou nas cidades, a Rota dos Diamantes oferece um dos mais completos roteiros para conhecer a história, as raízes e as tradições do povo mineiro. Uma dose de cachaça, um pedaço de queijo e a mesa estará posta para que essa viagem inesquecível seja revivida quantas vezes se desejar.

Resistente história

Todo esse cenário natural povoado pelas tradições locais se torna ainda mais perfeito quando aliado ao rico patrimônio histórico formado pelo conjunto das construções deixadas pelos colonizadores. Nas ladeiras de Ouro Preto chama a atenção a Matriz de Nossa Senhora do Pilar, considerada uma das mais belas construções do barroco brasileiro. Mais de 430 quilos de ouro e 400 de prata foram usados para recobrir o altar da construção que conta com 470 anjos esculpidos. A Igreja de São Francisco de Assis é também um dos destaques da arquitetura colonial da cidade, considerada um dos mais importantes trabalhos de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, e de Manuel da Costa Athayde, o Mestre Athayde. O casarão, hoje sede do Museu da Inconfidência, é um dos mais imponentes edifícios da antiga Vila Rica. Originalmente, eram a Casa de Câmara e a Cadeia de Vila Rica, hoje guarda parte da história política e social da região no período da Inconfidência Mineira.

Mas não é só de Ouro Preto que vive o patrimônio histórico do Caminho Velho. Em São Tomé das Letras, por exemplo, a curiosidade é o uso intenso das pedras da região nas construções. Inúmeras casas construídas com quartzito lembram vilarejos coloniais da região andina. Muros e calçamentos também são feitos com as chamadas “pedras de São Tomé”. O túnel da Mantiqueira, por sua vez, marca a divisa dos estados de São Paulo e Minas Gerais e, inaugurado em 1882, foi uma das últimas grandes obras do período Imperial. Seus 997 metros de comprimento serviam de atalho para transpor a Serra da Mantiqueira.

Em São João del Rei (MG) são famosas as badaladas dos sinos. Eles estão em todas as capelas e igrejas da cidade e são usados, desde a época da mineração do ouro para transmitir recados à comunidade. Cada toque, único e inconfundível, anuncia um acontecimento, seja ele nascimento, morte ou casamento. A Igreja de São Francisco de Assis e a Ponte da Cadeia estão entre as principais construções. A vizinha Tiradentes, à qual São João se liga por meio do trem Maria Fumaça, também conta com marcantes construções coloniais, como a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, construída em 1708. A Matriz de Santo Antônio é um caso a parte: é considerada uma das mais belas construções barrocas do Brasil. Erguida em 1710, é o segundo templo mais rico em ornamentos de ouro do Brasil e ainda abriga um orgão de 1788, que está entre os 15 mais importantes do país.

Não se pode também esquecer de Congonhas, casa dos 12 profetas, estátuas  esculpidas em pedra-sabão por  Aleijadinho, referências da genialidade de um homem de história impressionante. Do alto de uma colina os profetas, que se encontram no adro Santuário de Bom Jesus do Matosinhos, desde o início do séc. XIX, destacam-se na paisagem pela beleza e imponência.

Há ainda as seis capelas, erguidas em frente à Basílica, que formam os Passos da Paixão, uma representação da Via Sacra. No interior das capelas estão belas imagens, também em tamanho natural, esculpidas pelo artista em madeira de cedro — e que foram colorizadas por outro gênio, o Mestre Athayde.

O conjunto de imagens é tão monumental que foi considerado pelo francês Germain Bazin, estudioso do barroco mineiro, um dos mais belos da Terra. Por todas essas qualidades, o conjunto foi tombado pela UNESCO como Patrimônio Cultural da Humanidade.

Em Cachoeira do Campo, a Igreja Nossa Senhora de Nazareth, onde foi aclamado o primeiro governador eleito pelo voto popular nas Américas, Manuel Nunes Viana, líder da Guerra dos Emboabas, segue em pé como testemunha da história.

Bucólicas e cosmopolitas

Às margens do Caminho Novo surgiram pequenos povoados em função de hospedarias e armazéns como o Santo Antônio do Paraibuna, que daria origem à cidade de Juiz de Fora — que hoje tem entre seus atrativos, museus e construções do século XIX.

No quesito história e cultura, o município abriga importantes construções, como o Museu Mariano Procópio, o mais antigo de Minas, com o prédio renascentista do século XIX. Contornando os palacetes, o jardim idealizado pelo francês Auguste Glaziou, que também projetou os jardins do Palácio Imperial de Petrópolis. Arte também passa por esses caminhos. Existem 14 painéis de Cândido Portinari espalhados por todo o país em local público. Entretanto, Juiz de Fora é a única cidade a possuir dois deles. Os painéis as “Quatro Estações” e “Cavalos”, estão na fachada do edifício modernista do Clube Juiz de For a: as obras foram adquiridos em 1956.

Uma parada obrigatória é em Barbacena — conhecida como Cidade das Rosas —, cujo destaque são as Igrejas — a Matriz da Nossa Senhora da Piedade, de 1743, e do mesmo período a Igreja de Nossa Senhora do Rosário que, segundo se conta, expôs em 1792 o braço de Tiradentes. Entre Rosas e loucos, ali está também o famoso Museu da Loucura inaugurado em 1996 e localizado no antigo Hospital Colônia de 1903. Foi o primeiro hospital psiquiátrico de Minas Gerais.

Com histórias bucólicas, Santana dos Montes, um pouco mais adiante, tem como cartão-postal a Praça da Matriz, Patrimônio Histórico Municipal, com cerca de 30 casarões ao seu redor. Mas a grande atração da praça, é mesmo a Igreja de Santana, com portas e janelas originais, e um sino do lado de fora. Em seu interior, um altar barroco folheado a ouro, pinturas de Francisco Xavier Carneiro (discípulo de Mestre Athaíde) e imagens dos séculos XVIII e XIX. Entre elas a imagem dourada da padroeira, Nossa Senhora Santana. Um obelisco, em comemoração ao centenário da paróquia, está no centro da praça, ponto importante, onde ocorrem todos os eventos e as principais manifestações culturais e populares de seu povo.

Entretanto, se falarmos de igrejas, são tantas que fica quase impossível citá-las com a atenção que merecem. E fogem as palavras para descrevê-las — é preciso ver e sentir como é estar dentro desses pequenos (ou grandes!) templos que serviram de apoio espiritual para tantos viajantes e trabalhadores. Como descrever a sensação de chegar-se ao alto do Pico do Pião, a 1762m. de altitude, e deparar-se com a presença de um altar de cimento no alto da Serra de Ibitipoca? São as ruínas da Capela Senhor Bom Jesus da Serra, destruída pelos raios e pelo tempo, restando apenas o altar. A primeira missa celebrada no Pico do Pião foi em 15 de Agosto de 1925, muito antes da construção da capela em 1932. Lendas dizem que o sino de bronze da capela se encontra abandonado na mata abaixo. Tudo porque um certo Sr. Lino depois de tantas badaladas, acabou por perder o sino paredão abaixo. Hoje a imagem do santo Bom Jesus do Pião, antes na capela, está no Arraial de Mogol, porém voltada em direção ao Pico — diz ainda a lenda que por vontade própria do santo. Por que duvidar? Afinal, é beleza que não se cansa de admirar.

Volta ao tempo

Para a próxima viagem, vale lembrar que poucos lugares ao longo da Estrada Real guardam testemunhos tão importantes de antigas fazendas na constituição da vila do ouro. Ao visitar Santana dos Montes, Cristiano Otoni e Carandaí, tem-se a sensação de uma volta ao tempo.

Hoje, na região, concentram-se mais de 20 fazendas dos séculos XVIII e XIX, muitas recuperadas e algumas tombadas pelo Patrimônio Histórico e Artístico do Estado (Iepha). As grandiosas fazendas surgiram no século XVIII, e são donas de uma arquitetura peculiar. Grande parte está aberta à visitação e outras se estabeleceram como agradáveis hotéis-fazendas. Santana dos Montes é um dos principais municípios integrantes do Circuito Turístico Villas e Fazendas, o segundo certificado pela Secretaria do Turismo de Minas Gerais. O circuito conta com 12 municípios.

Um destaque para antiga Fazenda Fonte Limpa, que hoje se transformou num belo hotel-fazenda. A construção tombada pelo Monumento Histórico e Artístico de Minas Gerais é datada da metade do século XVIII. Conservados estão também os cenários onde está instalada, em meio às florestas e cursos d’água. Já a Fazenda do Tanque, tombada pelo patrimônio Municipal, tem sede datada de 1863. Hoje também é hotel e fabrica uma cachaça de qualidade. E seguem as históricas fazendas, como o Solar dos Montes, cuja sede ocupa um casarão do século XVIII, situado na Praça da Matriz da cidade e rodeado de jardins e quintais. No restaurante a culinária mineira se soma à cozinha internacional, portuguesa e espanhola, acompanhadas de bons vinhos.

Outras belas fazendas que merecem ser visitadas são a da Pedra; da Posse; do Antônio Quirino e do Santinho. Logo na divisa com Cristiano Otoni, a Fazenda da Pedra foi edificada pelos escravos em cima de uma grande pedra que forma a base da construção. Um dos últimos sobejos da arquitetura bandeirista. Conserva a senzala, o tronco para castigar os escravos e outras antiguidades, como o mobiliário original. Em processo de tombamento está a Fazenda do Santinho, do século XVIII, com mobiliário de época, e um pátio calçado em pedras, de onde se avista a Cachoeira do Santinho.

Prosperidade de outrora

No Caminho de Sabarabuçu, as vizinhas Sabará e Caeté guardam valiosos patrimônios. Em Caeté parte do patrimônio artístico e arquitetônico encontra-se ainda bem conservado. A matriz de Nossa Senhora de Bom Sucesso, que foi a primeira igreja de alvenaria construída em Minas, é uma das belas obras do barroco, rococó — e sobre a qual se expressou Saint Hilaire: “Não somente não vi, em toda a província de Minas, uma só que fosse tão bela, mas ainda duvido que exista no Rio de Janeiro alguma que se lhe possa comparar”. Nessa igreja são encontradas algumas obras de Aleijadinho e um belíssimo Museu Sacro. Outras atrações imperdíveis da cidade são o Museu Regional e a Casa João Pinheiro (Solar do Tinoco), do século XVIII, um casarão de dois pavimentos que pertenceu ao Barão de Cocais e foi adquirido por João Pinheiro da Silva (ex-governador de Minas Gerais) em 1893, para sua residência e de sua família.

Em Sabará (MG), a grande prosperidade de outrora recorrente da exploração de minas de ouro, rendeu à cidade construções exuberantes. Na antiga Rua Direita, foram construídos os primeiros casarões no século XVIII. No século seguinte, ganhou belos chafarizes. Na mesma rua está o prédio da prefeitura, construído primeiramente para ser o Solar do Padre Correia, cuja capela guarda uma obra do Aleijadinho. Exalta-se também uma das mais antigas casas de ópera do Brasil, o Teatro Municipal de Sabará, de 1819.

Na cidade em que Borba Gato assistiu uma missa numa pequena capela existente encontra-se ainda o Museu da Escravidão e a Fazenda dos Cristais, construída na primeira metade do século XVIII, hoje com ruínas da senzala e extensos blocos de pedra arredondados. Sabará ainda tem seus segredos nada escondidos, como o Museu do Ouro, uma construção de pau-a-pique de 1730 no Morro da Intendência; a Igreja Nossa Senhora do Carmo, fundada em 1761, com obras de Aleijadinho; e a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Conceição, de 1710, cujo estilo arquitetônico é o primeiro do período barroco, com uma curiosidade: o interior tem traços nitidamente orientais, o que denuncia a influência das colônias portuguesas da Ásia.

Nesse caminho, é preciso subir o a Serra da Piedade, antigamente conhecida como a Serra brilhante de Sabarabuçu. Uma noite no Pico da Piedade é imperdível, além de possibilitar uma bela vista panorâmica, o local próximo a Caeté conta com o observatório astronômico da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Neste mágico  lugar, a 1 746 metros de altitude, o Santuário de Nossa Senhora da Piedade convida a momentos de reflexão e de orações como formas de expressão da fé em Deus.