Especial

O Corpo transcendental

Mais que uma companhia de dança contemporânea, o Grupo Corpo, fundado no ano de 1975, é uma referência mundial na sublime arte de coreografar movimentos do corpo — o que faz com a ousadia de misturar o popular com o erudito, o regional com o global, o passado com a contemporaneidade. O Corpo consagrou a própria universalidade, que parte do local em que nasceu, Belo Horizonte, mas persiste e parece estar ainda mais latente nos seus 40 anos de vida.

Reportagem Rita de Podestá
Fotos José Luís Pederneiras

 

A imagem típica do mineiro é a de povo desconfiado, devorador de queijo, cachaça e café doce. Imaginário que não persiste à toa, pois muito se confirma. Mas há contradições. Afinal, estereótipos parecem existir para serem questionados. Em Minas, a cultura popular reinventa-se. Em Belo Horizonte, a tradição esbarra na complexidade da metrópole. Com o andar do tempo o barroco fundiu-se ao modernismo, ao pós-modernismo, à contemporaneidade, criando um sincretismo cultural que nunca será estático.

Cenário perfeito para artistas que visam aos palcos maiores. Para mineiros que absorvem o passado, transformando-o em novas estéticas. Uma coisa é certa, na arte, só quem se arrisca consegue ultrapassar as montanhas. Guimarães Rosa, num texto publicado na revista “O Cruzeiro”, de 1957, já vislumbrava esse saber da hora de aquietar-se e do momento certo de avançar: “mineiro não se move de graça. Ele permanece e conserva. (…). Mas, sendo a vez, sendo a hora, Minas entende, atende, toma tento, avança, peleja e faz.”

Palavras que sintetizam bem a história do já bastante conhecido Grupo Corpo. Um grupo de dança contemporânea que, aos 40 anos de trajetória, relembra como fez da mineiridade um exemplo exímio de brasilidade.

Mais que um grupo de dança contemporânea, é um coletivo de pessoas apaixonadas pela dança que, depois de pelejar um bocado, tornou-se referência mundial no assunto.

É seguro falar que, dentre manifestações artísticas transformadoras, a força da dança se destaca (sem criar hierarquias), por expressar-se através do corpo e das sensações e sentidos. Mais seguro ainda é dizer que, no cenário da dança contemporânea mineira, não há como não ter no Grupo Corpo um exemplo ambíguo, de audácia e inovação, que mantém suas raízes e o respeito pela mineiridade astuta.

Pas de trois

Fundado em Belo Horizonte, em 1975, o Grupo Corpo é uma companhia de dança contemporânea, ao mesmo tempo em que é um grupo que festeja a música e o movimento. Não faltam histórias, marcos, conquistas. A trajetória, que completa 40 anos neste 2015, é extensa e, por isso, não permite compilações sem que haja lacunas. Cabe aqui a tentativa de evidenciar como esse grupo orgulha cada mineiro que o conhece. Como confirma Luis Fernando Verissimo, no texto que escreveu para o livro “Oito ou nove ensaios”, sobre o Corpo, organizado por Inês Bogéa, ex-bailarina da companhia e diretora da São Paulo Companhia de Dança: “Cada vez que vejo o Corpo, me dá um orgulho danado de ser seu conterrâneo”. O livro apresenta as fotos de José Luiz Pederneiras e textos de vários artistas, teóricos e pesquisadores que dissertaram sobre o grupo, sua história e suas interdisciplinaridades.

O Grupo Corpo (como coletivo, multidão, como aquilo que ocupa espaço e constitui, por fim, uma unidade) tem, dentre seus principais realizadores, os irmãos Rodrigo, Pedro Pederneiras e Miriam e os amigos Carmen Purri e Cristina Castilho. Por ser assunto familiar, a primeira sede foi a própria casa, onde os irmãos nasceram, no bairro Serra, em Belo Horizonte. Os pais, Manuel de Carvalho Barbosa e Isabel Pederneiras Barbosa, acabaram por ceder o local, afinal, pesava ali o sonho não de um, mas de três filhos, como numa pas de trois (dança de três). Com o tempo, ficou fácil justificar o empreendimento, mais até pelo retorno pessoal que pelo merecido retorno financeiro. O movimento inicial foi do Paulo, hoje diretor artístico da companhia.

Já Rodrigo e Miriam começaram como dançarinos, sem saber ainda o que o futuro reservava a eles. “A Mirinha e o Rodrigo já estavam envolvidos com um grupo de dança, o Transforma, ligado ao colégio Arnaldo. Eles faziam um trabalho experimental de iluminação e artes plásticas, eu me interessei. Mas todos queriam se profissionalizar. Propus que criássemos uma companhia, para vivermos da dança”, conta Paulo.

Maria, Maria

O primeiro espetáculo foi “Maria, Maria”, com estreia em 1º de abril de 1976, no Palácio das Artes, em Belo Horizonte. Porém, a trajetória começara muito antes. Rodrigo Pederneiras, que viria a ser o coreógrafo do grupo, conta no livro “Rodrigo Pederneiras e o Grupo Corpo”, da Coleção Aplauso, como foi conquistado pelo balé após assistir a um espetáculo da irmã, a Mirinha. A certeza da paixão não deixava dúvidas: queria dançar. Difícil seria, nos anos 1970, como homem, escolher a profissão de dançarino numa capital ainda muito conservadora. Isso não o parou. No dia seguinte à apresentação, procurou a academia de dança do Colégio Arnaldo. Conquistou uma bolsa de estudo e se encontrou. Depois, em Buenos Aires, era a vez de encontrar um grande parceiro, por quem desistiria do vestibular para dançar no grupo dele. Era o argentino Oscar Araiz. Os pais de Rodrigo entenderiam o porquê alguns anos depois.

De Buenos Aires, veio o aprendizado, a inspiração e também parte dos responsáveis pela criação de “Maria, Maria”, todos da equipe do Oscar Araiz, este, encarregado de fazer a coreografia. “A intenção para nossa estreia era de criar um grande balé, uma superprodução que causasse impacto. Sabíamos que precisávamos de algo que marcasse a nossa chegada e decidimos convidar uma equipe de peso”, afirma Rodrigo. Assim fizeram, a mineiridade ficou por conta do Fernando Brant, criador do roteiro e dos textos, e, é claro, de Milton Nascimento, que logo abraçou o projeto. Paulo é enfático ao falar sobre a importância de ter tido esse trio de peso logo na estreia do grupo: “A produção foi bem pretenciosa, já com música composta, mas gosto de frisar sempre que foi a generosidade de Fernando, Milton e Oscar que tornou isso possível; eles já eram conhecidos, e nosso primeiro sucesso deve-se muito a eles.”

As canções compostas marcaram a música popular brasileira. Músicas que deram o pontapé para um balé que ousaria, no futuro, misturar o popular com erudito, o regional com o global, o passado com a contemporaneidade.

Fórmula de sucesso

O roteiro de “Maria, Maria” fala de uma menina que teve a infância vivida às margens do Jequitinhonha, que, aos 14 anos, casa-se com um homem que lhe dava doces em troca de filhos. Uma Maria como tantas Marias do Brasil, mas que se enviuvou cedo e descobriu que existia um mundo além. Uma narrativa popular e contestadora, que ganhou coreografia e som, num espetáculo cheio de vozes, movimentos e brasilidades. Deu certo. Na estreia, teatro lotado. O sucesso veio representado em turnês internacionais e repercussões retumbantes. Jovens que desbravaram o mundo com a dança. Carmem Purri, conhecida como Macau, tinha apenas 18 anos quando foi convidada por Paulo para fazer parte do grupo como bailarina. Entrou, portanto, na maioridade, através da arte. “Estreamos o espetáculo ‘Maria, Maria’ com enorme sucesso, o que acabou definindo a trajetória de vida de vários de nós. Eu não tive dúvidas que era aquilo que queria fazer naquele momento.” Hoje, Macau é assistente de coreografia.

Porém, apesar do excelente resultado, Rodrigo conta que, por muito tempo, a principal lembrança que tinha da estreia era um grande tombo que levou no palco. Mal sabia que, da queda, daria um enorme salto.

Estavam no começo de uma empreitada audaciosa e, para sobreviver, realizavam longas turnês com o grupo.  Ocorreu que “Maria, Maria” acabou por tornar-se um nome mais forte que o do Grupo Corpo. Foi quando perceberam ser preciso um novo e marcante espetáculo, que encantasse públicos e atraísse empresários. A próxima produção de grande repercussão, novamente com a coreografia de Araiz, foi “O último trem”, de 1980. A trilha sonora manteve a fórmula de sucesso — com composições inéditas de Milton Nascimento e Fernando Brant.

O momento era de supremacia do governo militar, que decretou, em 1966, a desativação da estrada de ferro que ligava Minas Gerais ao porto, ao mar. Distritos e municípios que viviam em função da ferrovia foram abandonados.  “O último trem” veio como um lírico e marcante protesto, além de um importante registro histórico.

Ambos os espetáculos apresentavam uma tendência que seria, um dia, distante da estética explorada pelo Corpo. Todavia, já era nítida a preocupação com a originalidade, seja na relação da música com a coreografia seja na cadência tão particular seja na força instigante da pas de deux (dança de dois).

Caminhando por conta própria

A fase seguinte marca os primeiros passos de Rodrigo como coreógrafo. Certamente ele aprendeu a caminhar depressa. “Cantares”, em 1978, entre “Maria, Maria” e “O último trem”, foi o primeiro solo que fez, pouco conhecido. Em seguida, outras cinco coreografias “Tríptico” e “Interânea” de 1981, “Noturno” e “Reflexos”, de 1982, e “Sonata”, de 1984. Mas o grande salto que deu foi com “Prelúdios”, quando o antes bailarino provou que o acidente no primeiro espetáculo era, na verdade, um prenúncio de novos e bem-sucedidos caminhos.

“Maria, Maria” tornava-se passado feliz. “Prelúdios” foi aplaudido de pé no Theatro Municipal do Rio de Janeiro. O balé, inspirado nos 24 prelúdios de Chopin, foi interpretado pelo pianista mineiro (como deveria ser) Nelson Freire. Era balé, era clássico e era contemporâneo. Era universal, mas era brasileiro. Ao fim, a cortina se fechou para abrir o novo futuro da companhia. Eles eram, mais que nunca, o Grupo Corpo.

Nos anos seguintes, começariam a desenvolver um idioma próprio. Uma nova sintaxe, condicionada somente ao corpo que entrava para essa grande família. O clássico daria lugar ao samba, ao tango, às onomatopeias musicais, à percussão. O grupo mineiro passou a aventurar-se, cada vez mais, na abstração, deixando o enredo perder a linearidade e a cronologia da narrativa. A primazia era do movimento e do som como delineadores do tempo.

Todo ganho era investido na equipe e na sede, foi preciso trabalho duro e muita, muita criatividade. O patrocínio da Shell, em 1989, possibilitou uma criação mais tranquila e estável. Em 2000, a Petrobras tornou-se a grande apoiadora cultural e financeira do Corpo. Patrocínios que permitiram ao grupo convidar artistas para compor canções exclusivas, tornando una a ligação coreografia e som.

Para um grupo de dança contemporânea no Brasil e em Minas, tais apoios são a garantia de uma liberdade criativa, com possibilidades de ousadia. Sem dúvidas, um direito conquistado. “Sou livre para dançar, para amar, para criar meus filhos. Sou livre, mas não me deram este direito, eu é que conquistei”, (Trecho do roteiro de Fernando Brant, do espetáculo “Maria, Maria”).

Passos bem planejados

No livro “Oito ou nove ensaios sobre o Grupo Corpo”, o artista plástico, mestre em filosofia e doutor em artes Marco Giannotti descreve e analisa as diferenças entre o clássico e o barroco, tendo como base os espetáculos do Corpo. Sobre a estética do grupo, ele diz que “a sua qualidade não pode ser medida por conceitos tão estranhos ao mundo moderno. Mas não deixa de ser interessante resgatar alguns conceitos do passado que parecem se fundir e até se diluir no mundo contemporâneo e que permanecem de alguma forma presentes como referências da nossa percepção”.

Passado contemporizado em “Missa do orfanato”, de 1989, que teve como trilha sonora a “Missa Solemnis k. 139”, de Mozart. Dentre as novidades, a estreia de Freusa Zechmeister como figurinista. Responsabilidade que ela não mais largaria e que executaria sempre de modo harmônico à luz, ao som, ao movimento e ao cenário.

O espetáculo pesa, comove. Os bailarinos em figurinos camuflam-se no palco com os cabelos desgrenhados, a caminho da missa, enquanto batem os pés no chão, anunciando o peso da vida. Deus parece estar presente na luz branca que se mescla com a coloração do cenário, a cor de terra, o barro, pintado pelo artista plástico Fernando Velloso. Os braços e o olhar estão dirigidos ao alto, a algo maior, como se clamassem as divindades, mas fica a impressão de que alguma força opressora contrai os ombros dos bailarinos e os joga ao chão, insistentemente. O contexto era aquele, da ditadura militar. Sendo assim, a mineiridade barroca e a religiosidade atualizam-se, ao retratarem uma opressão descarada.

Rodrigo conta, ainda no livro “Aplauso”, sobre a reação do pai, católico praticante, ao assistir ao espetáculo: “(o pai) tinha receio do que pudesse realizar ao levar uma missa aos palcos. Estava mexendo em algo que para ele é sagrado. No dia da apresentação em Belo Horizonte, sentou-se na plateia para assistir e, pela primeira vez na vida, o vi chorar. Quando terminou, me abraçou e senti algo tão especial que até hoje não tenho palavras para descrever.” Não é difícil deduzir que esse não foi um choro individual. O espetáculo foi um sucesso de público e uma curva acentuada na trajetória do grupo. Reencenado 15 anos depois, em 2006, quando foram comemorados os 250 anos de nascimento do compositor austríaco, despertou as mesmas emoções perturbadoras.

O erudito e o popular

Porém, é em “Nazareth”, de 1993, que o erudito e o popular se unem com maior força. O trabalho resulta do entrelaçamento de características da obra de Machado de Assis (1839-1908) e de Ernesto Nazareth (1863-1934), grande colaborador na formação da música popular instrumental brasileira, que compunha, principalmente, ao piano. O desafio foi proposto e cumprido pelo também compositor e músico, José Miguel Wisnik (outro grande representante da música popular e crítico de literatura).

A referência machadiana veio de “Esaú e Jacó”. No romance, a personagem Flora toca uma sonata ao piano. O momento histórico e presente do texto é a queda da monarquia, acontecimento que parece transmutar-se na música de Flora, como uma sensação de caos, de desordem. Um momento de não poder, que levará a alguma mudança significativa. Algo parecido com o marco que a “Missa do orfanato” representa para todo o Grupo Corpo.

Em artigo escrito para a Folha de São Paulo, em 7 de novembro de 2004, Wisnik afirma o caráter híbrido da trilha, que tem perfeita sintonia com o grupo. “Havia esse cruzamento, então, de erudito e popular em ‘Nazareth’. E o grupo Corpo também estava no mesmo processo. Eles começaram fazendo, vamos dizer, espetáculos de natureza mineira: ‘Maria, Maria’ (com música de Milton Nascimento) e ‘O último trem’. Depois passaram um período fazendo peças clássicas européias e estavam então voltando — em 1992, quando eu os conheci — para a música brasileira, a música contemporânea brasileira, com ‘21’”.

O espetáculo “21”, cuja estreia foi em 1992, anterior a “Nazareth”, instaurou uma nova linguagem na coreografia do grupo, a qual perdura. A dança passou a se mostrar para além do tato e do movimento. Assistir ao espetáculo é ouvir, ver, sentir, excitar-se e emocionar-se. As cores são das festas de rua, de São João, da chita do baião, do congado. São listras, flores, verde limão, rosa choque, vermelho batom. A presença do popular mineiro é resgatada no figurino e no cenário, entretanto, funde-se numa mistura que parece mais cosmopolita que regional. Ali, os sentidos se exaltaram e se uniram num sentimento só, enquanto escutam o som envolvente, artesanal e único da composição do músico Marco Antônio Guimarães, do grupo mineiro Uakti — parceria que perduraria até a comemoração de 40 anos do Corpo. A quebra dos quadris, o entra e sai da cena, a comunhão som e corpo, a sensualidade aliada à música instrumental, são todos elementos estranhamente comuns e inovadores. Por fim, em “21”, há uma síntese de peso do que consiste a companhia desde então.

O clássico, o barroco, o religioso, o mineiro, o Brasil, o mundo passaram a dialogar entre si, cada vez mais, nas obras dos irmãos Pederneiras. O que explica o desafio de falar sobre esse grupo sem revisitar cada momento da sua trajetória. Não há passos mal planejados, todo o grupo movimenta-se, ora cauteloso ora impulsivo, mas cada etapa foi crucial para a construção do que é hoje o Corpo.

Por um triz

As grandes estreias e longas turnês viraram rotinas. Tornou-se comum ao belo-horizontino aguardar o dia de ir ao Palácio das Artes, curioso sobre o novo espetáculo e ansioso para rever algum já aplaudido. Revisitá-los desperta sempre novas sensações, seja qual for a obra apresentada. Seja “Bach”, de 1996, com a música de Marco Antônio Guimarães e um cenário quase futurista, seja a africanidade de “Benguelê”, na voz instrumento de João Bosco, de 1998. Seja a sensualidade cubana apaixonante de “Lecuona”, de 2004, ou o ritmo de “Onqotô”, de 2005, que, apesar do título mineiro, ganhou brasilidades diversas na voz e na composição de Wisnik e Caetano.

Todavia, a história começa sempre muito antes da estreia e envolve pessoas, interessados, entusiastas e, é claro, bailarinos mais que dedicados. Prontos, inclusive, para colaborar quando o coreógrafo rompe o menisco do joelho esquerdo, bem na preparação daquele que dizem ter sido o balé mais difícil dançado pela companhia. “Triz”, cuja música e coreografia inspiraram-se no mito grego de Dâmocles (que, por ordem de Dioniso, tem sobre a cabeça uma espada suspensa por um tênue fio). A trilha é do pernambucano Lenine (que fez a primeira parceria com a companhia em 2007, no espetáculo “Breu”), que privilegiou o som dos instrumentos de corda, com destaque para a rabeca do violinista francês Nicolas Krassik. Entre fios e cordas, foi por pouco, mas esse pouco foi mais que o suficiente para render muitos aplausos.

Sempre cabe mais um

Antes de se unirem por meio do Grupo Corpo, os irmãos seguiam seus próprios caminhos profissionais. Rodrigo desistiu do vestibular para dedicar-se à dança. José Luiz, o mais velho, chegou a graduar-se em Medicina; já Pedro conquistou o bacharelado em Engenharia. As irmãs, desde sempre, abraçaram as artes e reencaminharam os irmãos. Foi Paulo o grande influenciado, que largou a arquitetura e enveredou-se pelo teatro, no qual debutou em 1975. Hoje, ele é diretor artístico da companhia, responsável pela luz dos espetáculos e participa da criação dos cenários. Há um consenso sobre a gestão cuidadosa que realiza, a qual garante a unidade dessa comunidade tão unida.

Trabalho que envolve unir todo o processo criativo e a identidade do espetáculo. “Eu vejo o caminho que foi proposto pela Freusa, pelo Rodrigo e tento encontrar uma união de tudo, um conceito do espetáculo. Só depois de tudo pronto que são criados o tema, o conceito final e o título.”

São mais de 50 pessoas na equipe. Cada uma tem a sua função, mas todas olham por todas. Além de Rodrigo, do núcleo inicial, permanecem os ex-bailarinos e irmãos Pedro e Míriam Pederneiras, Carmen Purri (Macau), Cristina Castilho e Fernando de Castro. Completam a equipe o artista plástico Fernando Velloso e Freusa Zechmeister, que participa do núcleo de criação.

Os bailarinos suportam rotinas pesadas de ensaios, além de inúmeras viagens nacionais e internacionais, porém a leveza vem da união entre todos da companhia. O familiar existe, mas não apenas pautado por um sobrenome. O trabalho é colaborativo, não há solidão. Dança, música, luz, figurino, cenário, tudo se integra nas criações.

Cabe ao Paulo tecer as redes que firmam essa unidade e iluminá-la. Ao Rodrigo, fica a tarefa de encontrar as formas como se dará a caminhada, enquanto Pedro preocupa-se com os detalhes que cabem ao diretor técnico. Freusa dá unidade e identidade às vestes de tribos que se criam e se revelam no cenário pintado por Fernando Velloso. Imagens que, por sua vez, serão cuidadosamente eternizadas na fotografia de Zé Luis. Já Mirinha, depois de muito dançar, coordena o projeto “Corpo Cidadão”, que une dança e cidadania, abrindo espaço para moradores da periferia de Belo Horizonte. Por fim, os bailarinos, que traduzem todo esse trabalho através do movimento e das coreografias que chegam como pancadas ou afagos aos nossos olhos.

Sem falar nos músicos, que são, sem dúvida, integrantes cruciais da família. Eles ganham total liberdade para fazer as criações. São compositores nacionais de peso que acompanharam e acompanham o grupo, como João Bosco, Caetano Veloso, Wisnik, Arnaldo Antunes, Uakti e Tom Zé.

Seja pela talentosa equipe artística seja pelos insistentes e competentes Pederneiras, o Grupo Corpo enche de orgulho o belo-horizontino, o mineiro e, por que não?, o brasileiro espectador.

O corpo muda com a vida, a vida muda com o corpo

Com os 40 anos, novas mudanças. Depois de anos tendo Rodrigo como condutor de todo o processo criativo das coreografias, o Grupo Corpo terá Cassi Abranches, ex-bailarina, abrindo os caminhos de uma nova década, com o espetáculo “Suíte branca”. Uma escolha segura. Cassi entrou para a companhia na montagem de “Santagustin”, em 2001. Veio de São Paulo com o objetivo de ser bailarina do Corpo: meta cumprida. Quatorze anos depois, é convidada para preencher uma página em branco. Para iniciar um novo capítulo, o qual é precedido de muitas histórias que não clamam por um fim — o que se espera é um clímax.

Para preencher a página, foram escolhidas não as cores de “Prelúdios” ou o escuro de “Breu”, nem o terracota de “Missa do Orfanato”, mas o branco, a cor que reflete todas as outras. A trilha foi composta por Samuel Rosa e executada pelo Skank. Um grupo mineiro tradicional, consolidado no cenário musical, mas que não deixou de trazer inovação. A composição de Samuel para a peça é mais rock and roll, menos balé. O resultado é enérgico, dinâmico, intenso. A resposta da trilha vem em movimentos iguais, numa angulação como a de um pêndulo que marca as horas, que anuncia um tempo que não para.

Porém, como é esperado, o passado e o presente conversam mais uma vez. A segunda coreografia dessa data redonda é “Dança sinfônica”, assinada por Rodrigo e que evidencia ser o momento não só de transição, mas de coexistência de épocas. Sua obra espia o passado, relembra todos que passaram pela companhia e tinge o palco de um vermelho barroco, sonorizado pela parceria sempre certeira com Marco Antônio Guimarães. O grupo musical Uakti, dessa vez, gravou junto à Orquestra Sinfônica de Minas Gerais. Mineiríssima parceria. Era essa a intenção. Por fim, a leveza e a força da obra ganharam seu máximo com a bailarina Silvia Gaspar, que permanece quase todo o tempo no ar — como se o futuro tirasse os pés do chão e lançasse voo para novos sonhos.

A criação de Rodrigo envolve, propositalmente, recortes técnicos e memórias afetivas. Comemora cada ato da companhia e mostra como o grupo é capaz de manter as raízes mineiras e ainda ser inovador e cosmopolita. Mário de Andrade acreditava que o barroco mineiro era expressão nacional, por ser uma proposta de abrasileiramento do barroco europeu. Assim é o Grupo Corpo, patrimônio brasileiro que vem de Minas, com o qual os mineiros orgulhosamente se identificam.

Uma coisa é certa. A casa do Grupo Corpo é Belo Horizonte. Minas. O chão, a raiz de onde saem ideias que irão ganhar o mundo. “Não criamos quando estamos em turnês. O lugar da criação é em BH, em casa, onde podemos concentrar”, afirma Paulo.

Nesse sentido, eles terão sempre um pouco de “Maria, Maria”, que acaba por descobrir que seu lugar é o mundo. Essa universalidade parte do local persiste e parece estar ainda mais latente nos 40 anos de vida do grupo. Quando se evidencia o exemplo perfeito de mineiros que entenderam, atenderam, tomaram tento, avançaram, pelejaram, até que foram lá e fizeram, muito bem-feito, por sinal.

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