Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu

Por Gabriela Barros Rodrigues e Júlia Castro

É possível dizer que quem escolhe estudar e trabalhar com turismo carrega consigo alguma dose de sensibilidade e inclinação para afetar-se e encantar-se por grandiosas obras de arte, patrimônios históricos, expressões notórias da cultura, criações da natureza. Talvez seja também possível dizer que aqueles que identificam-se com a atividade compreendida pelo turismo e decidem ingressar profissionalmente na área são, em alguma medida, pessoas predispostas a comover-se por tudo aquilo que pode ser considerado cotidiano, comum. Tal como o viajante, o turismólogo dirige seu olhar a partir do deslocamento que acaba por conduzir ao reordenamento e à redescoberta das coisas mais banais. Descobre riqueza no comum, captura os detalhes que escapam aos olhares mais apressados e reconhece-os como integrantes de belezas mais nítidas. Vê beleza e encontra poesia a todo o momento. Assim como o personagem de uma das novelas de Corpo de Baile, de Guimarães Rosa, o faz: em Cara-de-Bronze, Grivo é o vaqueiro que ao se tornar viajante-informante do poderoso fazendeiro Cara-de-Bronze, adquire a função de relatar em poesia o que lhe era familiar no Sertão, tal como: “ A rosação das roseiras. O ensol do sol nas pedras e folhas. O coqueiro coqueirando. As sombras do vermelho no braqueado do azul. A baba de boi da aranha. O que a gente havia de ver, se fosse galopando em garupa de ema. Luaral. As estrelas. Urubús e as nuvens em alto vento: quando elas remam em vôo (…).”[1]

O Sertão, poeticamente traduzido por Guimarães Rosa, marcou nossa trajetória de atuação na área do turismo. Com o espírito de fruição estética, de experimentação cultural, de observação interessada, movemo-nos pela curiosidade e pelo desejo de ajudar a aprimorar a qualificação profissional em turismo no norte de Minas Gerais. Desejo de ver o turismo acontecer de modo autêntico, de ajudar a mudar a vida de muitas pessoas, de contribuir para que o patrimônio ambiental e cultural do território do Sertão mineiro seja iluminado, celebrado e protegido.

Sobre o Mosaico do Sertão Mineiro

O território do Mosaico, marcado pelo domínio sempre expandido do agronegócio, é atravessado por áreas preservadas e conservadas do ponto de vista ambiental e dispostas de forma relativamente isolada umas das outras. Tal como ilhas, tais unidades de conservação representam inestimável valor sob o ponto de vista da conservação ambiental, arqueológica, geológica e, também, cultural. É interessante remeter à imagem dos mosaicos como desenhos delineados a partir de peças de materiais diferentes ── pedras, vidro, cerâmica, areia, plástico. O Mosaico Sertão-Veredas Peruaçu pode ser compreendido de maneira semelhante: um recorte na região norte/noroeste de Minas Gerais caracterizado pela diversidade que se espalha por 11 municípios, 12 unidades de conservação, uma Área Indígena (TI); tudo isso entremeado pelos chamados corredores ecológicos, zonas de amortecimento e reservas legais, além da presença de povos tradicionais que habitam o cerrado. A beleza do Mosaico advém do desenho harmônico que surge da diversidade de seu patrimônio.

A aludida diversidade não consiste unicamente nos aspectos ambientais desse território, mas, também, nas riquezas sociais e culturais. Instrumento de gestão integrada referenciado pela política de conservação ambiental brasileira, o Mosaico foi criado para ampliar as ações de conservação de modo a compatibilizar a biodiversidade e valorizar a sociodiversidade visando o desenvolvimento sustentável em escala regional (art 26; SNUC/Sistema Nacional de Unidades de Conservação). Composto pelos municípios de Arinos, Bonito de Minas, Chapada Gaúcha, Cônego Marinho, Formoso, Itacarambi, Januária, Manga, São João das Missões, Urucuia, o Mosaico Sertão Veredas-Peruaçu também abrange o município de Cocos, na Bahia.  Recomendada para a conservação ambiental por ser classificada como área de extrema e alta importância biológica, a região é rica em termos socioculturais: são 32 aldeias no Território Indígena Xacriabá, no município de São João das Missões, além dos quilombolas e outros povos tradicionais que vivem de forma harmônica com o Cerrado, tal como os catrumanos, matutos, sertanejos, ribeirinhos, cangaceiros, jagunços, geraizeiros, enxadeiros, moradores das periferias, lavradores, dentre outros.

Todo esse tesouro encontra-se cada vez mais ameaçado pela expansão das atividades agropecuárias, principalmente pela produção de soja e de carne. A produção de carvão vegetal destinado às indústrias siderúrgicas, também representa uma força que ameaça a conservação das características singulares da região, bem como o próprio Cerrado. A expansão da fronteira agrícola, pastagens e demandas das indústrias, tende a crescer cada vez mais de modo que as áreas de conservação socioambiental são objeto de esforços múltiplos, como os do Instituto Rosa e Sertão, que buscam criar possibilidades para dinamizar economicamente e socialmente o entorno das UC’s.

Pé no sertão, percorrendo o Mosaico

Minas são muitas, já dizia Guimarães Rosa. Mineiras de nascença, de vivência e de coração, surpreendemo-nos sempre com a diversidade do patrimônio histórico-cultural e ambiental que caracteriza o estado em suas mais variadas geografias e contextos regionais. Para compreender melhor o norte de Minas Gerais, recomenda-se uma abordagem à mineira: chegando de mansinho, como quem não quer nada, falando pouco, observando e escutando muito, as chances de “chegar mais” —  mais perto e mais fundo — são maiores. Pois bem, assim buscamos proceder quando a oportunidade de trabalharmos com turismo na região surgiu a partir do Projeto Turismo de Base Comunitária do Mosaico Sertão-Veredas Peruaçu, realizado pelo Instituto Rosa e Sertão[2], com o apoio da Caixa- Fundo Socioambiental e em parceria com a Lag Consultoria e Empreendimentos em Cultura, Esportes e Educação e a Ong Casa Comum (Belo Horizonte/MG).  A diversidade, o porte e o contexto econômico desse território implicam estratégias de gestão socioambiental que são desafiadoras e exigiu de nós — duas turismólogas mineiras com traços de estrangeiras em sua própria terra — capacidade de refletir sobre o desenvolvimento do turismo nessa complexa região.

Trabalhamos em dois cursos que aconteceram entre 2012 e 2013 no âmbito do Projeto voltado ao desenvolvimento da atividade turística em sua versão comunitária ou de base local que estaria alavancada no protagonismo e participação popular para a criação de produtos enraizados nas características locais, na responsabilidade socioambiental e na geração mínima de impactos. Os cursos abrangeram os municípios integrantes do Mosaico que foram “alcançados” após quilômetros e mais quilômetros percorridos em estradas de terra, poucas asfaltadas e algumas cujas obras para asfaltá-las foram interrompidas sem grandes explicações. A sensação de isolamento, causada principalmente pelas condições de acesso e trânsito na região, nos parecia cada vez mais nítida na medida em que realizávamos os cursos. Crescia, também, o desejo de plantar uma semente, deixar uma contribuição para as comunidades, trocar experiências e multiplicar esperanças de melhoria nas condições de vida e trabalho locais.

Em 2012, realizamos, junto ao Instituto Rosa e Sertão, o Curso de Educação Ecocultural — voltado aos professores do ensino médio e fundamental da rede pública de ensino da região, além de gestores e profissionais ligados à área de conservação e turismo. Já em 2013, executamos o Curso de Empreendedorismo ligado à hospedagem e alimentação. Durante tais atividades, percebemos alguns entraves fundamentais: a falta de um dispositivo essencial para a conservação da socio biodiversidade, o Plano de uso e manejo do Parque Nacional Grande Sertão Veredas e Cavernas do Peruaçu, cuja ausência implica restrição à visitação comum. Tal situação reverbera de maneira negativa nos locais de entorno dessas Unidades de Conservação.

Com um pequeno histórico de atividades anuais agendadas de visitação, com foco em Turismo Científico, o preparo da “comunidade hospedeira” e a sua espera em relação ao dia em que o turista ou o visitante irão chegar, de fato os visitar e usar de seus serviços, revela-se uma contradição. Há todo um processo de estruturação de apoio voltado a fomentar a prestação de serviços de hospedagem de base comunitária, como  Break & Breakfast  – Cama e Café, formação de condutores e outras ações que acontecem nas comunidades de entorno dessas Unidades de Conservação que, por sua vez, permanecem fechadas ao público (ou possuem estrutura restrita para a visitação), o que, realmente, impede que  tais comunidades consigam “emplacar” o produto turístico.

A instituição COOP SERTÃO[3], com foco ao incentivo, reconhecimento e realização de atividades extrativistas na região, também é uma parceira na promoção dos produtos do lugar e dos povos ali viventes, divulgando o destino por meio da atividade de comercialização e escoamento, por exemplo, de polpas de frutas. Destino esse, que diga-se de passagem, é riquíssimo e com alta capacidade de tornar-se um roteiro semelhante ao Deserto do Jalapão,  no estado de Tocantins, que é formado por 8 municípios e uma estrutura de deslocamento entre os mesmos que se assemelha ao nosso mosaico sertanejo.

O município de São João das Missões onde o TI — Território Indígena do Povo Xacriabá — está situado já vem sendo visitado, também na modalidade cientifica, mas sem que essa visitação seja concebida como turismo ou um “momento turístico” pelos próprios indígenas dessas aldeias, implicando em baixo nível de organização e de usufruto econômico que poderia ser gerado a partir de tal fluxo de visitantes. Ainda sem fluxo de turistas estabelecido, mas com relevante potencial para o desenvolvimento de produtos de ecoturismo, turismo comunitário e cultural, a localidade de “Buracos e Buraquinhos” foi contemplada pelo Projeto Turismo de Base Comunitária. Algumas famílias quilombolas receberam “Kits hospedagem”, contendo itens de hotelaria como jogo de lençóis, travesseiros, dentre outros, para que assim possam receber o turista dentro de suas próprias casas (hospedagem familiar).

Enquanto alguns pontos do território do Mosaico são preparados para receber um fluxo de turistas que hoje é ainda pouco expressivo, alguns eventos já apresentam um histórico de importância e visitação, como a Festa da Serra das Araras que acontece em comemoração a Santo Antônio. Na pequena localidade, durante alguns dias de celebração e fé, se reúnem visitantes, romeiros, pagadores de promessas e devotos do Santo casamenteiro, sendo mais um grande motivo de visitação ao Mosaico.

O sertão… o sertão é dentro da gente!

As pessoas. As histórias, o Ribeirão de Bois, a Cachoeira da Arara, a linda arquitetura de Januária, o doce quebra queixo vendido na Praça Central de Manga, as Festas de carro de Boi, os ingredientes exóticos do cerrado, a beira do rio em Itacarambi … São tantos esses mosaicos… Todos apaixonantes, todos de suspirar ao se pensar em estar lá…aquele por do sol, o cheiro, a sensação da “andança” de antigos rupestres que por ali, há muitos mil anos, transitavam e deixaram uma concentração de desenhos e pinturas impressas naquele conjunto de pedras, lapas e cavernas que contam uma historia certamente de um outro tempo. Enfim.

Ao estar em sala de aula em um polo de formação do Mosaico, fizemos uma “chuva de ideias” com a pergunta: – O que é o Turismo? Nesse momento, proliferaram palpites, definições e conceitos extraordinários expressos em palavras como amor, dinheiro, serviço, carinho, dentre outras. Dentre elas, uma definição foi marcante, proferida por um antigo indígena Xacriabá: “ (…)  turismo é pensamento.” E quando solicitado para um melhor esclarecimento, respondeu: “…porque o pensamento é o planeja-ação. Isso é turismo”(2013). E não é que dentre as reflexões múltiplas construídas no ambiente acadêmico, por especialistas e profissionais da área, busca-se resumir o turismo como atividade que necessita de planejamento, de projeção, ao mesmo tempo em que depende de organização e de visitação, ou seja, de ação?

Que as bênçãos do sertão caiam nas graças de todos que tiverem oportunidade de ver e sentir o que esse lugar tem a oferecer. Por certo algo que dificilmente se enquadra em categorias pré-estabelecidas, a ponto de beirar ser um não-lugar.

Gabriela Barros Rodrigues é turismóloga e mestre em Biodiversidade e Conservação pela UFMA. 

Júlia Castro é turismóloga e mestre em Geografia (UFMG); é professora e pesquisadora.

Tal como o viajante, o turismólogo dirige seu olhar a partir do deslocamento que acaba por conduzir à redescoberta das coisas mais banais. Ele descobre riqueza no comum e captura os detalhes que escapam aos olhares mais apressados.