Liberdade ao ar livre

Ouro Preto, a cidade histórica mais visitada do Brasil, guarda um tesouro para além da arte barroca estampada em seu conjunto arquitetônico. O olhar mais atento aponta para o contorno do horizonte: Itacolomi, um dos picos mais altos do interior mineiro. Com 1.772 metros de altitude, o contorno de duas faces de rocha — uma menor, a outra maior —  revela o filho da montanha. Ita – pedra; curumim – criança. Na região ideal para a prática de esportes ‘outdoor’, cultura e natureza são a combinação perfeita em um dos destinos mais versáteis do estado.

Reportagem Carolina Pinheiro
Fotos Tom Alves

As manhãs nascem encobertas pela névoa em Ouro Preto. Dizem que as nuvens baixas são como o sopro das montanhas sobre a antiga Vila Rica, a sussurrar para os viventes histórias do passado. A bruma branca e carregada que se espalha no alvorecer é uma constante a se abancar pelas ruas tal qual a brisa fresca, a atmosfera secular e as ladeiras de inclinação extrema. Tudo ao redor transpira condição limite. O vilarejo de 1711 foi erguido a ferro e fogo rente ao côncavo de um vale, com o propósito de transformar o terreno irregular em um dos maiores eldorados do Brasil.

Em meio ao relevo montanhoso, as belas paisagens de Cerrado e Mata Atlântica atraem milhares de adeptos da vida ao ar livre durante o ano inteiro. O vasto potencial ecoturístico marca presença desde o ponto mais alto, o Pico do Itacolomi. Do cume, serpenteiam diversas trilhas históricas, abertas pelos primeiros bandeirantes a fincar pé no local em busca de ouro. Destaque para as da Capela, Forno e Lagoa, localizadas no Parque Estadual do Itacolomi. Sua área de 7.543 hectares possui infraestrutura de camping e hospedagem em alojamento. Aconselha-se, para a realização de travessias mais longas, o acompanhamento de guias especializados.

Integrar pessoas e natureza

A cidade, que já foi capital de Minas Gerais, fica próxima a um mosaico de Unidades de Conservação, entre as quais o Parque Natural Municipal das Andorinhas. Campos rupestres e áreas remanescentes de Mata Atlântica abrigam cachoeiras refrescantes e nascentes de vários rios importantes, como o das Velhas, principal afluente em extensão do São Francisco. Nos arredores do centro de Ouro Preto e por 12 distritos — entre eles Lavras Novas, São Bartolomeu e Santo Antônio do Salto —, pode-se praticar trekking, montanhismo, rapel, cicloturismo, off-road, canoagem e escalada. O período indicado para o melhor aproveitamento da estada é o seco, que vai de abril a outubro.

Em Lavras Novas, vilarejo bucólico com população hospitaleira, inúmeras trilhas levam a quedas d’água — a dos Prazeres, Três Pingos e Namorados têm acesso com grau de dificuldade moderado. De acordo com Emerson Assis, proprietário da operadora Tomba Expedições Ecológicas e Culturais, Ouro Preto possui características naturais convidativas, que inspiram pela riqueza e diversidade. “A ideia é dar oportunidade de uma vivência diferenciada, que inclua o contato direto com o meio. As atividades ecoturísticas que promovemos integram pessoas e natureza. Nossos roteiros têm um enfoque preservacionista, que permite aos participantes refletir sobre a importância de conservar os recursos naturais do lugar”, afirma.

Os mais roteiros mais procurados são a expedição à mina de ouro, exclusivo da Tomba Expedições, uma aventura pelas galerias subterrâneas escavadas por escravos, em que o visitante terá que se agachar, se sujar e rastejar por passagens estreitas, sentindo na pele o que viveram os ancestrais africanos; e a trilha do Pico do Itacolomi, cujo caminho remonta ao período colonial, levando o turista a uma viagem no tempo. O acesso mais utilizado é feito pelo Morro do Cachorro. O trajeto de 2h30 até o cume possui trechos ora erodidos, ora sem obstáculo algum.

Escalada

A formação rochosa, que data da era geológica pré-cambriana, a primeira do planeta, colocou a região no topo do ranking de escalada mundial. Em 2007, foi descoberto, no Parque das Andorinhas, o principal setor para a prática do esporte em Ouro Preto. Segundo Gabriel Tropia, nome de referência em ‘boulder’ — modalidade que dispensa o uso de cordas, uma vez que o esportista faz ascensões em blocos que costumam variar de dois a cinco metros de altura —, a qualidade da rocha é exclusiva. “Muito difícil achar similar no mundo. Os escaladores chamam de “Ouro Teto”, pela sua característica negativa. Isso é bom, pois aumenta o nível de dificuldade para o praticante”, diz.

As diferenças básicas entre o boulder e a escalada tradicional se resumem em força, equilíbrio e noção corporal necessárias para a evolução dos movimentos. “Alguns levam anos para aprimorar um único movimento, é tudo muito preciso”, conta Tropia. Há sete anos, o município recebe o Festival Ouro Boulder, que acontece em Julho, época da alta temporada de escalada. “Temos mais de 200 linhas de boulder na região. São muitos blocos, cada um com vários pontos a explorar”, explica.

Mountain Bike

Em um polo de mineração como Ouro Preto, vários foram os caminhos criados para o trânsito de pessoas e mercadorias. Entre oficiais e clandestinas, trilhas ligavam a cidade a povoados vizinhos. A do Chafariz de Dom Rodrigo de Menezes, de 1782, virou ‘point’ do esporte ‘mountain bike’. Antônio José Duarte Gonçalves, o Ticorico, um dos ‘bikers’ mais conceituados do estado, comenta que o Chafariz é um trajeto que chama a atenção por diversos aspectos. “Escolhemos uma trilha que não passasse somente por lugares legais, mas que tivesse um apelo histórico. Eis a isca para a realização do pedal.” Por outro lado, a incidência de montanhas, mata fechada e pedras exige condicionamento físico.

Martuse Fornaciari, um dos idealizadores do coletivo Btt (bicicleta todo terreno) Gerais, pondera sobre a escolha do percurso: “trata-se de uma trilha de 22 km que em dia de chuva exige bastante técnica. Teve muita aventura. Vira e mexe, precisávamos empurrar a bike. Lembrei-me da época em que era criança, quando me enfiava no mato sem noção do que iria encontrar”, afirma. Ouro Preto é palco da Copa Ouro Preto de Mountain Bike, além de integrar um dos roteiros de cicloturismo mais cobiçados, a Estrada Real. Por 20 anos, foi cenário da maior prova de mountain bike das Américas, o Iron Biker Brasil, que hoje acontece em Mariana. “O Iron foi um evento de referência no estado, o primeiro a trazer estrangeiros para o Brasil, mais de 1.200 atletas de inúmeras nacionalidades”, afirma Ticorico.

Os pedais pela região costumam durar o dia todo e proporcionam o contato com a cultura campesina da zona rural de Ouro Preto. Em um passeio, o biker pode experimentar os tradicionais doces caseiros de São Bartolomeu, apreciar o artesanato feito em prata de Santo Antônio do Leite e terminar o dia em uma confortável pousada em Glaura — com direito a roda de viola no início da noite. O ouro-pretano Erley Lemos dá algumas dicas de trilhas. “Além das trilhas do Jacu Encantado, Imperial e Inferno Verde, a da Cachoeira das Andorinhas parte da Praça Tiradentes com destino a São Bartolomeu, passando pela Cachoeira das Andorinhas, Pedra do Jacaré e Floresta Estadual do Uaimii”, conta. Ela tem 40 km, com duração de sete horas (ida e volta).

Arte de rua, poesia a céu aberto

Ao andar por Ouro Preto, o visitante faz um passeio pela história do Brasil. A terra de Tomás Antônio Gonzaga e Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, é um verdadeiro museu ao ar livre. São 13 igrejas, como a Matriz de Nossa Senhora do Pilar; a Igreja de São Francisco de Assis, uma das maiores obras-primas de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho; e a de Nossa Senhora da Conceição. Mais de uma centena de casas possui placas na fachada com dados históricos sobre o imóvel — acervo do projeto Museu Aberto Cidade Viva. Os museus da Inconfidência, de Mineralogia e do Oratório estão entre os mais procurados. O município abriga o maior conjunto de arquitetura e arte barroca do mundo, tombado pela UNESCO em 1980 como Patrimônio Cultural da Humanidade. Em qualquer esquina, alameda, ponte ou praça, atrativos não faltam.

No bairro Antônio Dias, a Rua Bernardo Vasconcelos é chamada de corredor cultural, tamanha a concentração de artistas. Próximo à feira de pedra sabão, no Largo de Coimbra, está o ateliê de Tonico dos Telhados, um dos últimos pintores de rua de Ouro Preto. A menina de seus olhos, como chama carinhosamente o teto das residências, guarda segredos sobre o tempo e o espaço que quase ninguém vê. “Uma passagem da bíblia, de São Lucas, fala assim: ‘tudo o que dissestes às escuras, será revelado às claras. Tudo o que dissestes entre quatro paredes, será proclamado pelos telhados.’ É poesia a céu aberto”, afirma.

Nascido há 60 anos, o pintor autodidata se diz um privilegiado por ser ouro-pretano. “As minhas raízes estão aqui. Ouro Preto tem arte espalhada por todos os lados. Criei-me no meio dela”, conta. O ambiente que divide com o escultor santeiro Antônio de Pádua Inácio serve como ponto de referência. O seu lugar mesmo é na rua. “A cidade é a grande fonte de inspiração. Por mais que caminhe, sempre descubro coisas novas, detalhes que ainda não tinha reparado. Jogo para o cérebro e o cérebro para o ‘gestualité’, que é a gestualidade dos traços da criação. De lá, vai tudo para o cavalete. Minha busca é por novos caminhos. Os telhados me mostram para onde seguir. Sou eu, a paisagem e a liberdade.”

Serviço

QUEM RECEBE
Tomba Expedições Ecológicas e Culturais
(31) 3552-2509
www.tombaecotur.com

COLETIVO DE MOUNTAIN BIKE
www.bttgeraes.com