Estrada Real: quatro caminhos, vários destinos e imensos encantos

As curvas das montanhas de Minas Gerais desvelam um dos roteiros mais sedutores de todo o país, a Estrada Real. São 1.630 quilômetros (ao redor de 199 municípios de Minas Gerais, Rio de Janeiro e São Paulo) que formam um mosaico de grandiosas histórias, costumes interioranos, artes tradicionais e sabores autênticos em meio a inúmeros cenários paradisíacos — dos caminhos Velho, Novo, dos Diamantes e de Sabarabuçu.

Estrada Real em revista

Esta “Estrada Real em revista” mostra os caminhos da Estrada Real a partir de duas vertentes: o patrimônio  cultural e o patrimônio natural, tesouros de inestimável valor.

Nas 100 páginas desta muito especial edição desfilam temas como folclore e festas religiosas, gastronomia, arte, arquitetura, artesanato e arte popular, além do registro da rica biodiversidade que embeleza cada um dos caminhos  reais. Junto ao esplendor da natureza, preservada nos parques estaduais e nacionais (unidades de preservação permanente), surgem as mais variadas possibilidades que o turista encontra para aproveitar ao máximo a Estrada Real: simplesmente todas as possibilidades de lazer proporcionadas pelo ecoturismo estão ao seu dispor, incluindo as melhores opções de hospedagem e de alimentação — com conforto, sossego e os mais deliciosos sabores.

Este conteúdo aqui descrito é ilustrado pelas mais incríveis imagens, inéditas e exclusivas, cuidadosamente produzidas para informar e emocionar o leitor.

As fotos desta edição — assinadas por profissionais da mais alta categoria — apenas reproduz, com o máximo de apuro técnico e imensa fidelidade, as maravilhas dos patrimônios histórico e cultural da Estrada Real — o tesouro maior, universal, um legado do povo brasileiro para toda a humanidade.

Aproveite esta revista! Viva a Estrada Real!

Caminho Velho

O caminho que irradia beleza é fruto de um dos momentos históricos mais importantes do país: a descoberta do ouro nas nascentes, nos rios e no solo mineiro.

Tudo começou em meados do século XVII, quando diversas expedições saíram do litoral com o objetivo de explorar o interior do Brasil. Alguns grupos eram financiados pela Coroa Portuguesa, as chamadas “entradas”. Outros iam por conta própria, as chamadas “bandeiras”. Estas foram maiores e mais bem-sucedidas. Em busca de metais preciosos e de índios e negros para o mercado escravo, as bandeiras e seus bandeirantes foram grandes responsáveis por abrir caminho pelo vasto território brasileiro.

Durante o percurso, os bandeirantes observaram que pelo leito dos rios corriam pequenas pepitas de ouro. Os boatos sobre as terras cheias de metais preciosos pareciam finalmente ganhar corpo… Aqueles eram os primeiros indícios do que seria a maior quantidade de ouro descoberta até então em todo o mundo.

Foi iniciada então uma era de frenética busca pelo metal, pois já estava provado que aquela era mesmo uma região de muitas minas e imensas riquezas. Os bandeirantes então se estabeleceram em vários locais e, consequentemente, foram responsáveis pela criação  de povoados e vilas. Entre os mais relevantes estavam Sabará, próximo à Serra do Sabarabuçu; Diamantina, emoldurada pela Serra dos Cristais e Ouro Preto, o “Eldorado” brasileiro, nas entranhas da Serra da Mantiqueira.

Ouro Preto desempenhou papel importantíssimo na história do país.

Tornou-se referência na economia e na cultura. Como descreveu governador da província no início do século XVIII, o português Simão Ferreira Machado: Ouro Preto era “em virtude de sua posição natural, a cabeça da América íntegra; e pelo poder de suas riquezas, a pérola preciosa do Brasil”.

O bandeirante Antônio Dias de Oliveira se estabeleceu no local em 1698. Em poucos anos aquele conjunto de arraiais se tornou vila, cidade e, em 1720, capital da nova capitania de Minas Gerais. Ouro Preto vivia seus anos de glória e riqueza. Sua população se multiplicava e afloravam o número de peças teatrais, saraus de literatura, bailes e jantares finos. Multiplicavam-se também os cabarés e o comércio ilegal de minerais, que vendia a promessa de enriquecimento fácil.

A Coroa Portuguesa fazia o possível para controlar o escoamento de ouro. O caminho oficial, traçado com pedras irregulares, seguia de Ouro Preto até a cidade de Paraty (RJ). Era chamado de Caminho do Ouro. Hoje, é conhecido como Caminho Velho.

Por esse mesmo percurso chegavam os escravos africanos e diversos tipos de mercadorias como alimentos, roupas, móveis e até mesmo artigos de luxo. Nos primeiros anos da exploração de ouro no interior do Brasil, esse também foi o caminho da formação de vilas, da construção de igrejas, da catequização de índios, do nascimento de crenças, da criação de mitos.

O Caminho Velho estava traçado, mas era bastante precário e inseguro. Além dos problemas em terra, existiam perigos em mar: no trajeto Paraty – Rio de Janeiro, de onde as mercadorias e os metais seguiam para Portugal, as embarcações corriam o risco de serem atacadas por piratas. A necessidade de abrir outra rota entre as minas e o mar era cada vez maior.

Caminho Novo

Um novo caminho começou a ser aberto em 1699 sob a responsabilidade do bandeirante Garcia Rodrigues Paes.

A rota saía do Rio de Janeiro e passava por cidades como Petrópolis, Juiz de Fora e Ouro Branco até chegar a Ouro Preto. Assim criou-se o Caminho Novo, como é chamado atualmente.

A ideia era que a nova trilha, além de mais rápida — os viajantes conseguiam percorrer todo o trajeto em um terço do tempo que gastavam no anterior —, fosse também mais segura. Por isso que apesar de o caminho ter sido concluído em um ano, só foi oficialmente aberto em 1707— após a melhoria da via para o trânsito de pessoas e animais de carga.

Mas o desbravamento do Brasil não tinha cessado. Em meados do século XVIII uma grande quantidade de mineiros seguiu em direção à Serra do Espinhaço, instigados pelos boatos de que a oferta de pedras preciosas por ali era tão grande quanto os depósitos de ouro das minas de Ouro Preto. O boato se confirmaria. Naquela altura, no Vale do rio Jequitinhonha, já estava criado o Arraial do Tijuco, embrião da cidade de Diamantina.

Caminho dos Diamantes

A importância do arraial foi tão grande que a administração colonial criou um novo trajeto, ligando Diamantina a Ouro Preto.

Assim, o ouro e as pedras preciosas encontradas ao norte da província podiam ser igualmente escoados para Portugal. Consolidou-se então o Caminho dos Diamantes.

O afã que levou vários bandeirantes a desbravar a região da Serra do Espinhaço foi o mesmo que levou uma série de aventureiros a explorar a Serra da Piedade. Diziam que ela tinha um “brilho especial” e que o motivo certamente era a quantidade de ouro, prata e pedras preciosas.  Era preciso encontrar um caminho alternativo até ali e, dessa vez, ao invés de começar em Ouro Preto, partiu-se do distrito de Glaura, seguindo o rio das Velhas, até chegar à cidade de Barão de Cocais.

Caminho de Sabarabuçu

Foi criado assim o Caminho de Sabarabuçu. Descobriu-se mais tarde que o brilho reluzente da Serra da Piedade era na verdade da sua composição rica em minério de ferro.

O lugar, porém, também guardava grandes depósitos de ouro. Como resultado desta riqueza,  reluziu, como destaque, a cidade de Sabará, hoje famosa por suas igrejas, casas e casarões coloniais ainda bem conservados.

Em resumo, em uma rápida observação sobre aquele processo histórico, a conclusão óbvia é que a Estrada Real mudou o eixo econômico e político do país da região nordeste —  dos seus vastos latifúndios açucareiros —  para a região sudeste.

O roteiro mais completo do Brasil

Corria o ano de 1999 quando a FIEMG (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais), decidiu estruturar um circuito turístico que fosse capaz de resgatar essa história e os caminhos que foram abertos há mais de 300 anos com o objetivo de descobrir ouro, pedras preciosas e, é claro, desbravar o território brasileiro.

O roteiro turístico Estrada Real nasceu após muita pesquisa e exaustivos trabalhos de campo.

A Estrada Real é  o roteiro mais completo do Brasil devido à grande diversidade de opções de lazer e também de negócios. O turismo gastronômico encontra autenticidade nos sabores, desde o sabor dos queijos mineiros feitos no alto da Serra do Espinhaço até o peixe fresco do litoral carioca. O turismo de negócios também se desenvolve na região. Cidades como Ouro Preto, São João del Rei, Tiradentes, Diamantina, Caxambu e Paraty recebem grandes eventos, feiras e festivais todos os anos graças aos seus atrativos naturais e históricas, além da estratégica localização entre três grandes capitais brasileiras (Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo).

As modalidades de ecoturismo e  turismo de aventura ganham cada vez mais força: rica em cachoeiras, rios e montanhas, a Estrada Real é procurada por milhares de pessoas em busca de esportes como escaladas, voo livre e mountain bike ou simplesmente para reverenciar a natureza. Só na ER que o turista tem o privilégio de compartilhar paisagens estonteantes em meio a uma cultura secular.