Altar na Igreja Matriz de Santo Antônio, em Ouro Branco.

 Patrimônio histórico – igrejas 

Exuberância Barroca 

Irregular. Imperfeito. Exuberante. Nenhum estilo artístico e arquitetônico se encaixa com mais harmonia em Minas Gerais que o Barroco. Suas formas excêntricas e dramáticas encontraram moldura perfeita entre as montanhas mineiras, no luxo do ouro que brotava dos rios e, principalmente, na gente de muita fé.

Hoje, o precioso patrimônio histórico, artístico e arquitetônico legado pelo estilo Barroco é o mais importante atrativo turístico e cultural, além de religioso, da Estrada Real — e, consequentemente, de Minas Gerais e do Brasil.

Para mostrar o quanto é significativo este patrimônio, esta reportagem conta a história e descreve os acervos artísticos e detalhes da arquitetura de  seis belíssimas igrejas: São Francisco de Assis, Basílica de Nossa Senhora do Pilar e Santa Efigênia dos Pretos em Ouro Preto; Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas; Matriz de Santo Antônio, de Tiradentes e São Francisco de Assis, em São João del Rei.

Fotos Eduardo Gontijo/Cezar Felix

Nascido na Europa absolutista, como arma da contrarreforma da Igreja Católica, o Barroco surge com a missão de enternecer e criar emoção capaz de tocar a alma da parcela menos culta e elitizada da população e, assim, frear o crescimento latente dos fiéis protestantes. Se em princípio era criticado pelas formas e pelo exagero de cores, aos poucos, o Barroco conquistou mecenas dentro e fora da igreja e se popularizou nos grandes palácios e templos do século XVII.

A moderação e a formalidade retratadas na arte renascentista davam espaço à opulência e ao contraste. Era a nova forma de entender o mundo, o homem e a espiritualidade. A dor e as misérias causadas pelo pecado e otemor a Deus são expressascom a ajuda de uma explosão de tonalidades vivas e sombras que dinamizam as obras e foram fundamentais na catequese da população ainda fragilizada por inúmeras guerras e sofrimentos da época.

Mais que um estilo artístico, o Barroco  transformou-se na identidade de uma sociedade e foi aclamado nas mais diversas manifestações culturais. O sagrado e o profano foram retratados na literatura, e as esculturas estão repletas de expressões dramáticas e trajes com sensação de movimento. Na pintura, a marca fica por conta da utilização de claros e escuros bem definidos. Já a arquitetura, grande joia do Barroco, preza pela ornamentação em demasia, muitas vezes vista com maus olhos.

A chegada do Barroco a terras de além-mar não foi mera casualidade. Nas distantes e novíssimas colônias americanas, o estilo, já coqueluche dos artistas europeus, encontrou terreno fértil para aprimorar conceitos, linhas e sentido. A opulência do Barroco foi fundamental para ajudar os jesuítas e demais missioneiros na importante missão de evangelizar o povo pagão e cheio de superstições que habitava essas terras.

Barroco mineiro: o uso da pedra-sabão nas esculturas e nos frontais de igrejas.

O auge em Minas

As primeiras obras da arte barroca no Brasil são caracterizadas pela ingenuidade e até pelo improviso. A dificuldade de comunicação entre as vilas litorâneas e a pouca intimidade dos artistas com as técnicas formais de produção caracterizam o período. Por outro lado, a presença dos jesuítas, grandes mestres da literatura e das artes plásticas, ajudou a alavancar o Barroco brasileiro em importantes centros, como Salvador e Recife.

Porém, o auge do Barroco no cenário nacional ocorre quando as Minas Gerais começam a exploração massiva de metais e pedras preciosas. As comunidades antes isoladas e perdidas entre as montanhas agora eram a nascente dos grandes pensadores. A vida cultural e artística borbulhava pelas ladeiras estreitas dos povoados mineiros e eclodia com a mesma intensidade e o mesmo brilho ofuscante do ouro.

A geografia do terreno também foi peça fundamental na consolidação da arquitetura barroca em Minas Gerais. A suntuosidade do estilo era perfeita aos edifícios erguidos no alto dos morros que se multiplicam na região. De qualquer ponto das cidades, era possível admirar a grandiosidade e o poder da fé, que parecia bem mais próxima dos céus e de Deus.

A distância do litoral e, com isso, da influência europeia contribuiu para o desenvolvimento de características únicas na arte barroca de Minas Gerais. O contato com a Europa era tardio e, na segunda metade do século XVIII, o barroco mineiro já possuía identidade própria. As imagens sacras conservavam traços menos duros e mais joviais, e a policromia era muito mais discreta, o que aproxima o Barroco mineiro do Rococó, estilo menos rebuscado, mas não menos impressionante.

Teto da matriz de Nossa Senhora Da Conceição, em Conceição do Mato Dentro.

Identidade esculpida em pedra

Não é de se estranhar que, das terras de Minas, saíssem os grandes mestres da arte barroca brasileira. Ouro Preto, cujo conjunto de arquitetura barroca é o maior do mundo, tombado como patrimônio mundial desde 1980, é o berço de incontáveis escultores, poetas e pintores do estilo. Nas igrejas, que resistem ao passar do tempo, é possível ainda admirar os encantos produzidos por Aleijadinho, Mestre Ataíde e diversos outros artistas, muitos deles anônimos e igualmente fascinantes.

Além das riquezas e da notória beleza, o Barroco mineiro possui peculiaridades que o destacam de outras obras do mesmo período. O uso da pedra-sabão nas esculturas e nos frontais de igrejas e edifícios cria a sensação de dinamismo. Já nos interiores das naves, a prosperidade da região era representada pelo dourado que cobre enormes e majestosos altares e reflete a importância da fé para a gente daquele período.

Onde havia mãos capazes de garimpar o ouro, havia outras responsáveis por transformar pedras e barro antes sem vida em verdadeiras obras de arte. A singularidade e o esplendor do Barroco mineiro podem ser admirados nas cidades históricas como Ouro Preto, Congonhas, São João del Rei e Tiradentes.

Minas ainda guarda muitos tesouros barrocos. Apesar do fim do ciclo do ouro, em meados de 1760, o Barroco mineiro continuou sendo o principal eixo da cultura do estado. O declínio das irmandades, principais patrocinadoras na execução de grandes obras barrocas, pode ser notado no início do século XIX, quando a ostentação é substituída pela sobriedade do neoclássico. No entanto, as marcas deixadas pelo movimento barroco não abandonariam a alma mineira.

Obra-prima de Aleijadinho: uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no mundo.

Igreja de São Francisco de Assis, em Ouro Preto

A fé diante da perfeição

Encantar e catequizar. Essas duas funções primordiais do Barroco, que, com a grandiosidade e a suntuosidade das suas obras, fazia os fiéis se sentirem pequenos e indignos, foram levadas às últimas consequências na Igreja São Francisco de Assis, em Ouro Preto. Carlos Drummond de Andrade, um dos tantos que encontraram inspiração nas belezas do templo, chegou a falar até de certo constrangimento por não ter fé diante de tamanha perfeição.

 

Não creio em vós para vos amar.

Trouxestes-me a São Francisco

e me fazeis vosso escravo.

Senhor, não mereço isto.

 

Não entrarei, senhor, no templo,

seu frontispício me basta.

Vossas flores e querubins

são matéria de muito amar.

 

Dai-me, senhor, a só beleza

destes ornatos. E não a alma.

Pressente-se dor de homem

Paralela à das cinco chagas.

 

Mas entro e, senhor, me perco

na rósea nave triunfal.

Por que tanto baixar o céu?

Por que esta nova cilada?

 

Senhor, os púlpitos mudos

entretanto me sorriem.

Mais que vossa igreja, esta

sabe a voz de me embalar.

Perdão, senhor, por não amar-vos.

A pintura do teto, feita por Mestre Ataíde, é um espetáculo à parte. Foto Eduardo Gontijo.

O poeta, em “São Francisco de Assis” (publicado no livro Claro Enigma, de 1951), enaltece as belezas da igreja, os púlpitos bem torneados, as cores e a riqueza da nave central, as flores e querubins. Mais de meio século depois do poema de Drummond, tudo isso ainda encanta visitantes e fiéis nessa obra-prima tombada pelo Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1938, junto ao tombamento da cidade de Ouro Preto. A igreja é também uma das Sete Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo, segundo premiação realizada em 2007. “É o mais perfeito modelo do Barroco mineiro”, afirma o bispo emérito da Diocese de Oliveira, em Minas Gerais, Dom Francisco Barroso Filho.

A cada detalhe

As obras do templo começaram em 1766, auge da exploração aurífera em Ouro Preto. A proposta veio dos membros da Ordem Terceira da Penitência de São Francisco de Assis, primeira ordem criada na então Vila Rica, que reunia os nomes mais importantes da sociedade. Para realização da obra, foram contratados os dois artistas mais prestigiados da época: Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, responsável pelo desenho e pelo projeto da igreja; e Manuel da Costa Ataíde, o Mestre Ataíde, responsável pelas pinturas. A Igreja de São Francisco de Assis, concluída em 1810, não tinha como ficar nada menos que primorosa.

Aleijadinho utilizou recursos arquitetônicos incomuns aos templos mineiros. A fachada e o corpo principal possuem formas arredondadas, e as duas torres estão recuadas, ao contrário das igrejas da época até aquele momento. Quem observar com atenção verá que, na barra da saia da Nossa Senhora representada na portada, estão a mão de Cristo e a mão de São Francisco, simbolizando a união de ambos na fé católica. Outro elemento curioso é a tipoia que Nossa Senhora usa no braço. Muitos afirmam que Aleijadinho a esculpiu fazendo autorreferência.À esquerda, um anjo segura uma cruz e, à direita, outro anjo aponta para o centro da portada, que apresenta um brasão da coroa portuguesa e outro, da ordem franciscana.

Onde normalmente se encontra o óculo — pequena abertura na fachada, bastante comum em igrejas —, está um medalhão de pedra. Ali, está uma representação de São Francisco de Assis ajoelhado, recebendo os estigmas, em 1224, dois anos antes de sua morte. Segundo o guia turístico Walmir Pereira Gonçalves, a fachada apresenta referências militares.

Os óculos laterais remetem às construções militares, cujo objetivo era facilitar a vigília. As duas torres frontais aludem à forma de canhões e as cúpulas lembram capacetes usados na idade média. Todos esses elementos podem ser interpretados como uma alusão de Aleijadinho à idade média, quando viveu São Francisco.

O interior da igreja é muito detalhado. Os seis altares laterais são ornamentados ao melhor estilo Rococó, cheios de flores e guirlandas, muitas delas revestidas com talha de ouro. O fundo dos altares e as paredes da igreja levam as cores branco e dourado, tons que proporcionam leveza à obra. Na capela-mor, está representada a Santíssima Trindade, com a virgem, ao centro, sendo coroada, coberta por uma abóbada de madeira com quatro medalhões, um em cada canto. Nas peças do altar, é possível observar de perto as expressões faciais desenhadas por Aleijadinho, famosas pelos olhos amendoados, pelas maçãs do rosto salientes e pelo queixo bipartido.

Mãos escravas

Duas das principais obras dentro da igreja são os dois púlpitos, que Aleijadinho realizou com a ajuda de três escravos. As obras foram posicionadas no arco cruzeiro, incomum até então para as igrejas mineiras. A presença de negros na realização das obras chama a atenção de diversos especialistas. O historiador da arte Germain Bazin é um dos que admitem essa surpresa, como descrito no livro “A arquitetura religiosa barroca no Brasil”: “É surpreendente que a realização mais perfeita desse rococó português aconteça no Brasil, e não na metrópole, e que seja devida a um mestiço”.

A pintura do teto, feita por Mestre Ataíde, é um espetáculo à parte. Os tons de azul e vermelho foram amplamente utilizados para dar forma à representação de Nossa Senhora Rainha dos Anjos, rodeada de anjos que se espalham no céu com flautas, harpas e violinos. As colunas, desenhadas em perspectiva, dão a impressão de que a santa se afasta cada vez mais do mundo terreno e se aproxima do mundo divino. Ao lado dela, estão diversos anjos e querubins que tocam instrumentos e parecem festejar a elevação da santa aos céus. Ataíde pintou, ainda, uma série de painéis laterais que simulavam os azulejos portugueses, representando a vida de Abraão.

Com tantos traços artísticos minuciosos e encantadores, fica fácil entender por que os moradores dessa região são tão religiosos — como bem disse Drummond, não crer é quase uma heresia diante de tanta perfeição.

Basílica de Nossa Senhora do Pilar: um dos mais importantes exemplares do Barroco Português.

Basílica Matriz de Nossa Senhora do Pilar

Precioso acervo

Depois da enorme porta verde que separa a rua do interior da igreja, ainda é preciso ultrapassar outra porta, em madeira maciça, chamada quebra-vento, para encontrar os tesouros escondidos nesse templo. Vencidos os obstáculos, os olhos são preenchidos de detalhes inimagináveis. Anjos em cada um dos retábulos e adornos por todos os lados ocupam cada espaço da nave da igreja. “O Barroco tem horror ao vazio”, explica o guia turístico e auxiliar geral da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, José Geraldo Maia.

Um dos mais importantes exemplares do Barroco Português, também conhecido como primeira fase do Barroco, a Matriz de Nossa Senhora do Pilar é muito mais do que uma igreja. O templo foi reconhecido como Basílica pelo Vaticano em 2012. “Esse processo demora de 5 a 10 anos. O processo da Matriz de Nossa Senhora do Pilar demorou duas semanas. Foi o caso mais rápido da história”, se orgulha o historiador e diretor do Museu de Arte Sacra de Ouro Preto, Carlos José Aparecido de Oliveira. A rapidez no processo se deve à importância histórica da igreja e seu acervo único.

A esse tesouro se somam os mais de oito mil objetos da paróquia. “Não conheço nenhuma paróquia no Brasil que tenha um acervo tão completo e tão precioso a ponto de ter objetos para todos os tipos de cerimônias do calendário litúrgico”, afirma o historiador Carlos de Oliveira. O acervo da Paróquia de Nossa Senhora do Pilar seria ainda maior se não fosse um roubo no ano de 1973 que levou 17 peças de grande valor. Foi considerado o maior roubo de arte sacra do Brasil à época. Entre os objetos havia uma Cruz de Malta com rubis e brilhantes do início do século 18, e uma coleção de três cálices de prata foleados a ouro, usados no Triunfo Eucarístico, em 1733.

O que sobrou foi catalogado em 1980 com registro fotográfico e informações básicas, um inventário inédito no Brasil. Para abrigar todo esse acervo, foi criado um espaço em 1965, com o nome Museu da Prata e do Ouro, durante a supervisão de José Feliciano da Costa Simões, o Padre Simões. O cuidado do padre com o acervo o fez ganhar a alcunha de “Sacerdote do Patrimônio”. No ano 2000, o espaço foi transformado em Museu de Arte Sacra de Ouro Preto.

Entre o ouro e a prata

O brilho dourado do altar-mor e os
adornos que enfeitam as paredes. Foto Eduardo Gontijo.

Todo esse tesouro está na Matriz, construída em forma de um polígono de oito lados. São seis altares, todos talhados com esmero e cobertos com ouro. O brilho dourado do altar-mor se nota de longe, em adornos que enfeitam as paredes e conduzem os olhos ao centro da capela, onde está uma linda imagem da Virgem do Pilar, com o menino Jesus em seus braços. Ao redor da escultura, uma infinidade de serafins, querubins e anjos. Acima, o símbolo da Santíssima Trindade. A talha do altar-mor foi feita pelo entalhador português Francisco Xavier de Brito entre 1746 até 1751, ano de sua morte. É considerada a obra-prima do gênero naquele período.

Já no teto do altar-mor, há uma linda pintura da Santa Ceia, de onde desce um lustre de 34 quilos de prata. “Naquela época não era luxo ter ouro, já que aquela era a região aurífera de maior prosperidade em todo o território brasileiro. Por isso trocava-se três quilos de ouro por um quilo de prata”, conta José Geraldo, ao mostrar a importância do luxuoso objeto. Os outros lustres da igreja — seis no total, um em cada altar da nave — são de cristais da Bohêmia e foram doados por Dom João VI em 1815.

Alguns altares são menos exagerados. Isso porque na igreja encontra-se também o Rococó, típico do século XVIII, que surgiu em favor da sutileza ao invés do excesso. O teto da nave é um dos melhores exemplos do estilo encontrados na igreja. O conjunto de pinturas santas feitas em 1768, atribuídas a João de Carvalhais, retratam momentos do Antigo Testamento. Os quadros estão ornados com molduras verdes, rosas e douradas, sempre em tons suaves. Entre uma imagem e outra há bastante espaço branco.

Uma dessas figuras desperta curiosidade: bem no centro do teto da nave há um cordeiro deitado em cima de uma cruz. À medida que o olhar se move pela matriz, a imagem parece mudar de orientação até que o cordeiro apareça por baixo da cruz. Mais do que mostrar a habilidade do artista, esse tipo de ilusão de ótica era usada para atrair fiéis em um momento em que a religião católica estava enfraquecida. Todas essas razões fizeram com que, em 1939, o templo fosse tombado pelo Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan).

 Templo vivo

 A Matriz de Nossa Senhora do Pilar tinha uma função muito específica no contexto colonial: ser o templo oficial do Estado português. Era ali que se celebravam os batizados, os casamentos e as mortes da família real. Era ali que a corte rezava e que a elite se encontrava. E também era ali que se realizavam as luxuosas festas da coroa. O tempo de festas onde o ouro era usado para tecer as roupas dos negros escravos que desfilavam na procissão acabou, mas as festas católicas continuam e mantém o espírito religioso da comunidade vivo.

Interior da Igreja de Santa Efigênia: uma obra simbólica do estilo Dom João V.

Igreja de Santa Efigênia

Mais perto de Deus

Embaixo das paredes cinzentas, encardidas pelo tempo, que dominaram por anos a Igreja de Santa Efigênia, em Ouro Preto, estava uma das obras mais simbólicas do estilo Dom João V, também conhecido como segunda fase do Barroco. Restaurada, foi reaberta ao público em 10 de maio de 2014. Também chamado de Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, o templo — hoje com paredes brancas e esquinas amarelas — se impõe, de cima do morro Alto da Cruz, contra o paredão verde do Parque Estadual do Itacolomi, que emoldura a paisagem. Os detalhes são muitos e merecem ser observados com apreço.

“O ouro dessa igreja não é tão carregado e, por isso, se vê nitidamente o trabalho do Barroco feito pelas mãos do homem. É das coisas mais bonitas que existem”, afirma Wilson Ferreira, 73 anos, administrador da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Brancos, também conhecida como Capela do Padre Faria. Apesar de trabalhar formalmente na “igreja irmã”, Wilson tem grande apreço pelos dois templos e sabe contar a história de cada um deles como ninguém. “A Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Brancos é da primeira fase do Barroco, e as pessoas vêm para ver sua beleza e sua riqueza. A de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos é da segunda fase do Barroco, e as pessoas a visitam para conhecer a história de Chico Rei”, relata. Afinal, foipor causa dessa história e dos detalhes que possui que a esta última edificação foi tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), em 1937.

A “corte” negra

História essa que, às vezes, toma contornos de lenda, às vezes, de realidade. Conta-se que um monarca e guerreiro nascido no Reino do Congo foi capturado por comerciantes portugueses de escravos e desembarcou no Brasil ao lado de centenas de outros africanos, no início do século XVIII — não sem antes perder a esposa e um filho durante a viagem de navio. O guerreiro foi parar em Ouro Preto, onde trabalhou duro até conseguir comprar sua alforria e se tornar proprietário da Mina da Encardideira, uma das maiores escavações da época. Comprou também a liberdade de vários irmãos de cor. Ganhou o respeito dos companheiros e passou a ser chamado de Chico Rei.

Junto da sua “corte”, fundou uma irmandade em honra de Santa Efigênia, santa negra conhecida por espalhar o cristianismo na Etiópia e no nordeste da África. A adoração à santa deu origem ao desejo de construir um templo. E é daí que teria nascido a igreja que hoje todos admiram. A história de Chico Rei foi contada de geração a geração, sem nunca ter sido comprovada. A existência do monarca negro fica a cargo das pessoas que hoje reproduzem tais narrativas, mas os registros daquela época não desmentem a história. A Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos foi mesmo fundada no início do século XVIII, mais especificamente em 1717.

Ela era composta por brancos e negros e tinha como templo de adoração a Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias. Após alguns desentendimentos, os homens negros da irmandade buscaram a construção de uma igreja para si, no Alto da Cruz, onde existia uma capela de Santa Efigênia. Assim, em 1733, deu-se início à construção daquela que seria a Igreja de Santa Efigênia. Diversos pedreiros, arquitetos e artistas foram responsáveis pela edificação do templo.

O mestre de obras Antônio Coelho Fonseca conduziu a obra, a partir de 1733. As vistorias eram feitas por Manuel Francisco Lisboa, arquiteto e carpinteiro português, famoso pelos trabalhos que realizou em Ouro Preto, como os projetos da Matriz de Nossa Senhora da Conceição de Antônio Dias e da Igreja de Nossa Senhora do Carmo — além disso, ele é conhecido por ser pai de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. Manuel também executou as grades e assentos da igreja, junto com Antônio da Silva, entre os anos de 1743 e 1744.

O templo se impõe e emoldura a paisagem de Ouro Preto.

Feita para tocar o céu

 A ornamentação começou a ser feita no ano de 1747. As primeiras obras foram pensadas para os altares da nave, dedicados a Santa Rita, Santo Antônio Noto, São Benedito e Nossa Senhora do Carmo. O entalhador Francisco Branco de Barros foi quem os projetou. Os rostos dos anjos e outros detalhes foram pintados a mão, como forma de conferir maior realidade às esculturas. As estátuas que compõem os altares e homenageiam os santos foram feitas por Francisco Xavier de Brito e Manuel Gomes da Rocha. Os altares de cedro são adornados por arabescos que imitam folhas, flores, frutos e, mesmo, formas geométricas — grande parte coberta por folhas de ouro, colorindo de diferentes tons de amarelo e dourado o marrom da madeira.

Já os trabalhos na capela-mor se iniciaram em 1754 e tiveram como principais responsáveis Jerônimo Félix Teixeira e Felipe Vieira. Santa Efigênia ocupa um lugar central. Vestida com uma túnica preta e um manto branco, segura, com suas mãos negras, uma casa, alusão a sua função como auxiliadora dos que necessitam de moradia própria. Acima, está Nossa Senhora do Rosário. O altar-mor apresenta uma decoração suntuosa, com uso abundante de policromia — a arte de pintar e decorar certas partes de edifício, estátua e outras construções — em branco e dourado, características que deixam claro o pertencimento da Igreja de Santa Efigênia à segunda fase do Barroco.

A decoração externa começou a ser pensada anos mais tarde. A fachada do templo foi feita entre os anos 1777 e 1780. Dentro de uma janela de pedra, está uma linda imagem de Nossa Senhora do Rosário que, há dois anos, foi declarada, oficialmente, obra de Aleijadinho. Quem desconfiou da origem da peça foi Marcelo Coimbra, pesquisador especialista em Barroco mineiro, que observou, na estátua, diversas características típicas de Aleijadinho, como os olhos amendoados, o queixo elevado e os querubins na base da santa.

Os últimos trabalhos foram de construção da escadaria que dá acesso à porta principal da igreja, concluída, finalmente, em 1785. Hoje, a escada dá acesso a turistas e fiéis, curiosos e peregrinos de todos os cantos. Quem sobe os 41 degraus tem uma das mais belas visões de Ouro Preto. Segundo aqueles que primeiro pensaram a igreja, quem sobe os degraus dela também está mais perto de Deus.

No alto, emoldurando a cidade: a Matriz de Santo Antônio foi construída entre os anos de 1710 e 1736.

 Igreja Matriz de Santo Antônio

Esplendor e emoção

 “São 22 dias com funções, desde lavar as roupas até organizar as figuras, trocar as toalhas da igreja e ajudar a organizar as procissões”, afirma a zeladora da Matriz de Santo Antônio, Rosimeire Noronha, sobre as celebrações da Semana Santa. Um sinal de que segue viva a igreja de Tiradentes, construída no século XVIII — entre os anos de 1710 e 1736; sabe-se, porém, que, em 1732, ela já se encontrava praticamente pronta.

O órgão, também de três séculos atrás, é outro símbolo do convívio entre tesouro histórico e legado vivo. Às sextas-feiras, a organista Elisa Freixo realiza concertos com o instrumento; na apresentação,  um repertório amplo e com valorosa contextualização do valor histórico e musical do instrumento.

O órgão é o único de que se tem notícia, em todo o mundo, originado da manufatura de Simão Fernandes Coutinho. Este morava na cidade do Porto, em Portugal, e era um importante fabricante do instrumento. A peça foi adquirida em 1786 e custou, à época, 202 mil réis à Irmandade do Santíssimo Sacramento. O transporte dele se deu por navio até o Rio de Janeiro e, depois, por meio de mulas até o interior de Minas Gerais. O órgão acompanhava as principais celebrações da Matriz. “O órgão de Tiradentes possui 630 flautas, o que lhe permite um repertório de 1.500 a 1.800 músicas”, explica Elisa Freixo para a plateia que a escuta em mais uma noite de concerto.

O órgão não é a única coisa que fascina na igreja. Os detalhes artísticos aparecem ainda na portada, desenhada pelo mestre Aleijadinho. A imagem mostra um cordeiro, em referência ao apocalipse, passagem da Bíblia que confirma a volta de Cristo ao mundo dos homens. Ao passar pelo portão de madeira que separa o exterior do interior, o profano do sagrado, a primeira reação é a de espanto. É tanta beleza que se torna impossível fixar o olhar em algum detalhe. Anjos, pássaros, flores, coroas douradas, pinturas santas, frases em latim. Todos aparecem de uma só vez.

Anjos, querubins e serafins

Com calma e algo de tempo, é possível observar os detalhes, como as colunas de alguns dos altares laterais, que são sustentadas por peixes, ou mesmo as figuras divinas de duas, quatro ou seis asas, que representam, respectivamente, anjos, querubins e serafins.

São seis os altares laterais da igreja, cada um em honra a um santo. Os altares de Nossa Senhora da Conceição e de São Miguel e Almas são os mais antigos e foram construídos entre as décadas de 1720 e 1730. Os trabalhos de talha pertencem ao estilo Dom João V, também conhecido como segunda fase do Barroco.

A talha do altar-mor foi executada pelo português João Ferreira Sampaio, entre os anos de 1739 e 1750. Santo Antônio e São José ganham destaque central. Ao redor deles, está uma série de adornos que buscam não somente representar as figuras e conceitos do catolicismo, como também tornar o espaço atrativo aos olhos dos fiéis. Exemplo disso são os anjos que seguram uma cortina em cada um dos lados do altar, como se estivessem revelando aos fiéis um segredo especial.

Em oposição ao altar-mor, está o coro, uma grande varanda interna feita para acomodar o grupo de instrumentistas e cantores que acompanhavam o padre durante as missas e celebrações. O conjunto, da década de 1740, é rico em cores e adornos. A balaustrada apresenta uma série de colunas rosas bem torneadas, apoiadas em um corrimão azul decorado com conchas douradas. O teto do coro é pintado em estilo Rococó: as guirlandas estão pintadas de maneira simétrica e uniforme, deixando bastante espaço de respiro entre uma e outra.

Em oposição, o teto da nave é formado por quadros de pinturas sacras, emoldurados com madeira, como se fossem grandes caixotes. A obra é de Antônio Caldas e data do ano de 1750. O mesmo artista foi responsável pelo teto do altar-mor, construído em forma de abóbada e bem mais arejado que a nave.

Os trabalhos de talha pertencem ao estilo Dom João V.

Retorno no tempo

A edificação fica em um dos pontos mais altos da cidade. Maior que ela, só a Serra de São José, o lindo paredão verde que emoldura a igreja. O Livro de Receitas e Despesas da Irmandade do Santíssimo Sacramento foi perdido, o que impede a confirmação de datas mais precisas, e, apesar de diversos relatos indicarem que a Matriz foi construída entre os anos de 1710 e 1736, sabe-se que, em 1732, ela já se encontrava praticamente pronta.

Os anos seguintes foram de extensões e de edificação de novas partes da igreja. Foram acrescidos os consistórios e as sacristias ao redor da nave e do altar-mor. As modificações não pararam por aí, como descrito no siteoficial do Iphan:

“Ainda em fins daquele século, verificaram-se obras de remodelação da fachada ou reparos e só em 1807/10 a Irmandade do Santíssimo Sacramento decide demolir a frontaria e reconstruir outra ao gosto rococó, tendo para tal encomendado o projeto ao Aleijadinho”.

A igreja é campeã no número de reparações. No ano de 1893, foi realizada a primeira. O dinheiro para as obras veio da venda de algumas alfaias de prata, o que significou, em certa medida, perda de patrimônio. Em novembro de 1949, a edificação foi tombada peloIphan, e asegunda reparação, em 1960, foi feita pelo Instituto. Entre as intervenções, estava a restauração do forro da nave. Até a década de 1990, ocorreram outras três intervenções. A última foi entre os anos de 2000 e 2002, com o objetivo de reparar a estrutura da igreja.

Todas essas restaurações permitem ao visitante de hoje sensações similares às experimentadas pelos fiéis de outrora. Grandeza que reforça a fé, beleza que enche os olhos. Tudo experimentado sob o som de um órgão centenário capaz de transformar a igreja em uma máquina do tempo.

Santuário do Bom Jesus de Matosinhos: Patrimônio da Humanidade. Foto Eduardo Gontijo.

Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos

Uma obra prima graças à fé

No anfiteatro de montanhas

Os profetas de Aleijadinho

Monumentalizam a paisagem

As cúpulas brancas dos Passos

E os cocares revirados das palmeiras

São degraus da arte de meu país

Onde ninguém mais subiu

Bíblia de pedra-sabão

Banhada no ouro das minas

Assim Oswald de Andrade descreveu, no poema “Ocaso”, o Santuário do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas. O monumento é “mineiridade” do início ao fim. Está cravado no alto de um dos cerros desse estado sempre descrito por seus “mares de morro”. Ali, no topo do Morro do Maranhão, esculturas e obras arquitetônicas que expressam a elegância do Barroco mineiro, trabalhadas pelos seus maiores artistas: Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho; e Manuel da Costa Ataíde, o Mestre Ataíde. O conjunto nasceu de um fenômeno que também permeia muitas histórias contadas por estas bandas, o milagre.

Nos primórdios do povoamento de Congonhas do Campo, ainda nos primeiros anos do século XVIII, quando garimpeiros começavam a encontrar as primeiras pepitas de ouro na região, muitos homens eram acometidos por doenças desconhecidas e graves. Um dos que foram levados quase à morte pelas condições insalubres de trabalho foi o português Feliciano Mendes. Dizem que a melhora dele foi um milagre realizado pelo Senhor Bom Jesus de Matosinhos, para quem ele havia feito uma promessa — que começou a cumprir em 1757, com o início da construção do conjunto.

À época, Mendes colocou uma cruz no alto do Morro do Maranhão, onde imaginava o templo. O objeto segue exposto, agora, dentro da igreja sonhada, no corredor lateral direito. A obra se estendeu até 1790 e é considerada uma das primeiras manifestações da terceira fase do Barroco, o Rococó. Mendes procurou os maiores artistas de Minas Gerais para participar da construção do templo. Não apenas Aleijadinho e Ataíde deixaram suas marcas no local, mas também os pintores João Nepomuceno e Francisco Xavier Carneiro e o escultor João Antunes de Carvalho.

Algumas das maiores relíquias desses artistas estão nesse que é considerado um dos maiores conjuntos de arte colonial do Brasil. Composto por uma praça com seis capelas que remontam os passos da Paixão de Cristo, uma enorme igreja que leva o nome do santuário e 12 profetas que guardam a entrada do conjunto, o monumento foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (Iphan), em 1939. Em 1985, foi proclamado, pela Unesco, Patrimônio Mundial.

Profetas ao céu

Nem é preciso entrar na basílica para se ter a dimensão da riqueza artística do conjunto. O espetáculo começa já aos pés da escadaria que dá acesso à igreja, onde dois profetas saúdam os visitantes: são Isaías e Jeremias. O primeiro, vidente que anuncia a chegada de Cristo. O segundo, portador da visão dos camponeses sobre a situação de Israel, “rogo que meu povo volte ao Senhor”, como está escrito no pergaminho. Subindo a escada pelo lado esquerdo, o visitante se encontra com Baruc. A túnica curta e as botas são traços de um personagem jovem e inexperiente. Na mesma posição, do lado direito, está Ezequiel, mais conhecido como “profeta do exílio”, por ter sido banido da Babilônia junto ao povo de Israel no ano de 597 a.C.

Logo acima, está o profeta Daniel. Dois elementos chamam atenção na estátua: o leão aos pés e a coroa de louros ao redor da cabeça. Segundo a Bíblia, Daniel também foi ao cativeiro da Babilônia. O dom de interpretação de sonhos que possuía o tornou prestigiado junto aos governadores, mas invejado junto aos homens que ali viviam. Foi, então, lançado à fossa dos leões, mas salvo por Deus. Logo em frente, está Oséias, no último degrau da escadaria, do lado direito do Santuário. Uma pena se apoia sobre a barra do manto e realiza o movimento de quem está escrevendo. O profeta Joel, à direita de Oséias, também carrega o utensílio.

Na mesma posição de Joel, do lado esquerdo, está Jonas olhando para o céu, expressão que exalta a capacidade dramática de Aleijadinho. Aos pés de Jonas, a baleia que faz alusão à história que conta que ele fora engolido por um “grande peixe” e teria passado três dias no estômago do animal até sentir-se arrependido por ter fugido à missão que Deus lhe delegara — a de avisar os sírios que parassem com seus atos de crueldade ou sofreriam a ira divina. No extremo, esquerdo está Amós. É a única estátua que apresenta, nas expressões faciais, um ar de serenidade, possível referência ao fato de Amós ser um homem do campo. No extremo direito, encontra-se a representação do profeta Naum, que, ao contrário, apresenta uma feição que denota certa preocupação.

À frente de Naum, está Habacuque e, do lado oposto dele, Abdias. São as únicas esculturas que têm um dos braços erguidos aos céus. Habacuque é o profeta que questiona Deus por não entender como o Senhor é capaz de “se abster” frente à injustiça que acomete seu povo. O turbante dele é o mais complexo entre os das estátuas. Abdias também foi bem desenhado e executado pelo mestre, o que pode ser notado pela túnica e pelo manto bem delineados. São eles os últimos a recepcionar os visitantes, cujos próximos passos os levarão para dentro da basílica.

História em tamanho real

Nas 66 esculturas de madeira policromada em tamanho real, talhadas por Aleijadinho e pintadas por Ataíde. Foto Eduardo Gontijo.

Uma vez na nave da igreja, avistam-se as colunas que sustentam o arco principal e a imagem de Jesus crucificado, que traz serenidade ao invés de angústia, talvez pela pintura ao fundo da capela. Simples e harmoniosos, os altares laterais são os melhores exemplares de Rococó da igreja. Foram construídos entre os anos 1765 e 1722 e receberam douramento logo depois. As pinturas que colorem as paredes representam a vida de Cristo e são pontos de grande interesse na decoração do espaço. O autor é João Nepomuceno Correia e Castro.

A pintura é importante em toda a igreja. Além dos painéis laterais e da paisagem por trás da imagem de Cristo na cruz, há, ainda, o teto da igreja: no forro da capela-mor, Cristo é sepultado e, na nave, Cristo ressuscita. Também nas capelas que circundam o conjunto arquitetônico, a importância da pintura é evidenciada. Nas 66 esculturas de madeira policromada em tamanho real, talhadas por Aleijadinho, as pinturas são elementos fundamentais para o realismo incomum nas expressões de cada personagem. Os responsáveis por elas foram Manuel da Costa Ataíde, nos três primeiros passos de Cristo, e Francisco Xavier Carneiro, nos demais.

Assim, dentro das capelas de paredes brancas e portas azuis, erguidas entre 1799 e 1875, com tetos em forma de cúpula, estão representados os últimos passos da vida de Cristo. Na primeira capela, a Santa Ceia. A partir daí, dispostas em ziguezague, as estruturas abrigam as passagens que representam o Horto das Oliveiras, a prisão de Cristo, a flagelação e a coroação de espinhos, a subida ao calvário e a crucificação. Passos que, sem dúvida, são observados com admiração pelos olhos dos visitantes.

 

A Igreja de São Francisco de Assis é uma das mais importantes obras do Barroco mineiro.

Igreja São Francisco de Assis, São João del-Rei

De onde os sinos dobram

A procissão já estava prestes a alcançar a Igreja São Francisco de Assis, em São João del-Rei, e ninguém escutava as tradicionais badaladas que sempre marcam as celebrações da Semana Santa na cidade. O silêncio prenunciava que algo estava errado. Naquele dia, o sineiro Juca Pilão foi encontrado morto, com um ferimento na cabeça causado pelo sino. A tragédia aconteceu no início do século XX, e há quem diga, até hoje, que o sino, batizado de Jerônimo, chegou a ser julgado e preso — alguns acreditam até que condenado à morte, ou seja, derretido.

A história é uma das tantas que conferem ainda mais encanto a esse templo religioso, uma das mais importantes obras do Barroco mineiro, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) desde 1938. Os sinos são parte importante do monumento: são quatro torres feitas especialmente para abrigá-los. Em conjunto com os sinos de outras igrejas da região, eles “dobram” de forma coordenada, para anunciar nascimentos, falecimentos e celebrações. Assim, fazem de São João del-Rei a “cidade onde os sinos falam”.

Outro importante pedaço da Igreja São Francisco de Assis é envolto por lendas. Conta-se que a imagem do senhor do Monte Alverne, que hoje triunfa no altar-mor, foi criada espontaneamente por um mendigo que pediu abrigo no templo. Os membros da Venerável Ordem Terceira de São Francisco, responsáveis pela Igreja, já estavam decididos a encomendar uma imagem em Portugal, quando encontraram a belíssima obra de arte no quarto que abrigou o sem-teto. Até hoje, não se sabe o nome do autor da imagem. Mas ninguém sai da igreja sem se impressionar com a perfeição anatômica da peça.

Exuberância artística

Esse local cheio de histórias e estórias marca posição na Praça Frei Orlando, em meio a arbustos floridos e árvores frondosas. As palmeiras imperiais são organizadas de forma que, às 18h, suas sombras formam o desenho das cordas de uma lira. Algumas dessas linhas levam o olhar do visitante até a escadaria da igreja, onde flores de pedra estão cuidadosamente esculpidas. Os dois lances de degraus em ziguezague, que levam até o pátio frente à igreja, apresentam um corrimão sustentado por lindas colunas de mármore branco. Os muros, também de mármore branco vindo de Portugal, circundam todo o espaço aberto em volta da igreja, o adro.

O tamanho da igreja fascina. As enormes colunas e os suntuosos altares causam no espectador uma sensação de pequenez, exatamente como pretendia a arte barroca. Entre as características mais marcantes da arquitetura da edificação, está o arco abatido que sustenta o coro, com um enorme vão livre, uma maravilha da engenharia daquele tempo. A nave é composta por seis altares de madeira, executados entre os anos 1800 e 1830.

Os altares estão cheios de guirlandas, flores e anjos, mas algo menos exagerado que os altares das igrejas que fazem parte do chamado Barroco português. Para fazer jus ao tamanho do teto, eles apresentam um frontão bastante alto, que realça ainda mais a exatidão das esculturas de madeira. De cima de cada um dos altares, pende um lustre de cristal. No centro da igreja, está o centro das atenções: a representação da Santíssima Trindade, rodeada por uma belíssima talha dourada.

O retábulo,de autoria de Luiz Pinheiro Souza,é uma clara transição do estilo Dom João V ao estilo Rococó. No centro do altar-mor, um enorme lustre de cristal Baccarat. Conta-se que o objeto foi um presente de Dom Pedro II, que ficou encantado com o templo. Nas paredes laterais, duas grandes telas feitas em 1879, que representam “A última ceia” e “A traição no jardim”.

A construção do templo, todo feito em alvenaria, começou no ano de 1744 e terminou no ano de 1804. Contou com amaestria de Aniceto de Souza Lopes, que executou os baixos relevos do frontão e do medalhão da portada, em 1809. O medalhão é uma das obras mais representativas da igreja, pois nela está a imagem de São Francisco de Assis ajoelhado no alto do Monte Alverne, na Itália, onde recebeu os estigmas de Jesus Cristo, no ano de 1224, dois anos antes de morrer.

Toques de mestre

A nave é composta por seis altares de madeira, executados entre os anos 1800 e 1830. Foto Eduardo Gontijo.

A imponente igreja, em cores que misturam tons amarronzados e cinzentos, tem marcado, em sua história, o nome de Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho, mestre do Barroco. Foi ele que fez o primeiro projeto da igreja, mas seus riscos não foram usados integralmente — mais tarde, contratou-se Francisco de Lima Cerqueira, que fez algumas mudanças na planta original. Entre as alterações, estão a substituição das torres oitavadas por torres redondas, a mudança no trado dos óculos da nave e, internamente, das pilastras do arco cruzeiro.

Não se sabe exatamente o que foi trabalho de Aleijadinho. Segundo o pesquisador e professor aposentado do Departamento de Ciências Sociais da Universidade Federal de São João del-Rei Antônio Gaio Sobrinho, “muitos acham que a portada e algumas imagens de dentro da igreja são de autoria de Aleijadinho. Não existe essa certeza, é tudo baseado em estilo, pois nada consta no Livro de Receitas da cidade. Podemos afirmar com segurança que ele atuou na feitura de várias peças, mas não em todas as que lhe atribuem a autoria”.