O arquipélago vulcânico de Fernando de Noronha abriga vasta diversidade de flora — com vegetação predominante composta por espécies típicas do agreste nordestino. As 21  ilhas e ilhotas também abrigam tartarugas e golfinhos, além do maior número de colônias reprodutivas de aves marinhas entre todas as ilhas do Atlântico Sul.

Reportagem: Marina Rattes / Amanda Queiróz Caldeira / Assad Abrahão
Fotos: Jean Yves Donnard

“O Paraíso é aqui. Infinitas águas e infinitas árvores; aves muito mansas, que vinham comer às mãos; um boníssimo porto que foi bom para toda a tripulação”. Estas foram as palavras usadas por Américo Vespúcio para descrever, em 1503, a ilha que acabava de encontrar. Passados mais de 500 anos, estas palavras continuam a descrever com perfeição a sensação de quem chega pela primeira vez em Fernando de Noronha.

Existe uma grande diversidade de fauna e flora neste arquipélago vulcânico. Para se ter uma idéia, estas 21 ilhas e ilhotas possuem juntas 400 espécies de plantas, 55 espécies de aves migratórias, 95 espécies de peixes, além de grande quantidade de tartarugas e golfinhos. Além disso, abrigam o maior número de colônias reprodutivas de aves marinhas entre todas as ilhas do Atlântico Sul Tropical, totalizando mais de 40.

A vegetação predominante é composta por espécies típicas do agreste nordestino, com árvores nas áreas mais elevadas e arbustos nas superfícies baixas.  A Mata Seca, encontrada na Ponta da Sapata, representa 25% de toda a vegetação de arbustos e árvores da ilha habitada. Ela é utilizada pelas aves marinhas e terrestres para a construção de seus ninhos. As principais espécies arbóreas e endêmicas são a Gameleira, o Mulungu e a Burra Leiteira. Também se observa na região a única ocorrência de mangue insular no oceano Atlântico Sul, em uma área de 1500 metros quadrados localizada na baía Sueste.

Assim como em outras ilhas oceânicas, Fernando de Noronha apresenta uma avifauna exuberante — muito mais variada e singular que seu grupo de anfíbios, répteis e mamíferos. Entre as aves de maior concentração no arquipélago estão a viuvinha, que constrói seus ninhos utilizando algas coletadas na superfície da água, a viuvinha grande, o trinta réis de manto negro e a viuvinha branca. Podem ser encontradas ainda seis espécies de aves parentes dos pelicanos: os mumbebos branco-grande, marrom e de patas vermelhas, a catraia e os rabos de junco de bico amarelo e bico vermelho. Merece destaque a espécie endêmica Vireo gracilirostris, pássaro insetívoro e frutívoro conhecido como sebito. Também passeiam por aqui mais de dez espécies de maçaricos e batuíras. São as aves migratórias de longo percurso que se deslocam do hemisfério norte para descansar e se alimentar na região.

Variada fauna marinha

As inúmeras piscinas naturais permitem o contato direto com a variada e exótica fauna marinha do arquipélago. As águas que rodeiam as ilhas estão repletas de peixes, esponjas, algas, moluscos e corais, dentre eles o mais abundante no arquipélago, o Montastrea cavernosa. Peixes coloridos como a donzela de rocas, o sargentinho, a coroca e moréia são facilmente encontrados em águas rasas. Nas águas mais profundas podem ser vistos o frade, o budião, a ariquitam, a piraúna, o borboleta, o lambaru e as arraias, entre outros.

Fernando de Noronha é famoso por seus golfinhos rotadores, que podem atingir até dois metros de comprimento e 90 quilos. Todos os dias ao nascer do sol, eles se deslocam em grandes grupos rumo à Baía dos Golfinhos, uma área de águas calmas e protegidas. Utilizam esta área para descansar e reproduzir. À tarde saem para se alimentar de pequenos peixes e lulas em alto-mar. Este é o único local onde ocorre concentração de golfinhos rotadores em todo o Oceano Atlântico. A conservação da espécie é possível graças à proibição de circulação de embarcações e mergulho na enseada, em vigor desde 1986. É também proibida por lei federal a caça e captura de todas as espécies de cetáceos — golfinhos, botos e baleias —em águas brasileiras.

De dezembro a maio — período de chuvas no arquipélago — as tartarugas aruanas se agrupam nas praias do Leão e do Sancho. Durante a noite, as fêmeas vão até a areia para depositar seus ovos, que permanecem incubados durante 50 dias.

Mergulhando nas águas transparentes de Noronha, o visitante pode se deparar com as tartarugas-de-pente — espécie altamente ameaçada de extinção. Elas usam o arquipélago apenas como local de crescimento a alimentação. Sua origem e suas rotas migratórias são desconhecidas pelos pesquisadores.

Medidas de proteção ambiental

O perfeito estado de conservação de Fernando de Noronha se deve por um lado às diversas medidas de proteção ambiental adotadas na região a partir da década de 1980 e por outro à consciência ecológica da população local.

A primeira ação de grande impacto teve inicio em 1984, quando o Centro Nacional de Conservação e Manejo das Tartarugas Marinhas Tamar / Ibama se instalou no arquipélago. O objetivo do programa é zelar pelas fêmeas, ovos e ambientes de reprodução das tartarugas marinhas, além de avaliar e acompanhar suas populações por meio da marcação e recaptura dos animais que utilizam o arquipélago como área de alimentação, crescimento e repouso.  A praia do Leão é a área de desova mais propícia para o monitoramento diário, concentrando 80% das ocorrências. As demais desovas acontecem entre as praias do Sancho e da Conceição. Desde 1990, mais de mil tartarugas já foram marcadas pelo Tamar. Outra vertente do programa é a sensibilização e educação ambiental, realizada principalmente por meio do Centro de Visitantes — Museu Aberto das Tartarugas Marinhas, localizado na Alameda Boldró.

Parque Nacional Marinho

Em 1988 — mesmo ano em que o arquipélago deixou de ser Território Federal Militar e voltou a fazer parte do estado de Pernambuco — foi criado, por decreto federal, o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha (Parnamar/FN). Formado por dois terços da ilha principal e todas as ilhas secundárias, totalizando uma área de 112,7 quadrados e um perímetro de 60 km, o parque protege os ecossistemas terrestre e marinho, preserva a fauna e flora locais e colabora para a educação ambiental e a pesquisa científica.

A entrada de turistas é permitida de forma controlada, consciente e sustentável, visando impedir qualquer prejuízo para o meio ambiente. Além da famosa taxa de preservação ambiental exigida para a entrada na ilha, inúmeras normas de comportamento devem ser respeitadas pelos visitantes. Dentro da área do parque é proibido, por exemplo, alimentar animais, coletar sementes, raízes, frutos, conchas ou corais, nadar com os golfinhos, visitar ilhas, ilhotas ou rochedos, acampar ou praticar mergulho sem a intermediação de uma empresa credenciada.

O restante da área do arquipélago que não faz parte do Parnamar foi transformado, em 1989, em Área de Proteção Ambiental (APA). A APA está dividida em espaço de uso residencial, espaço de atividades múltiplas e zonas especiais de preservação.

A riqueza ambiental perfeitamente conservada de Fernando de Noronha fez com que, em 2001, o arquipélago fosse reconhecido pela Unesco como Patrimônio Natural Mundial. Visto internacionalmente como uma espécie de selo de qualidade ambiental, o título faz crescer a responsabilidade e o compromisso de visitantes e moradores em contribuir para a proteção do arquipélago.