Fernando de Noronha foi uma das primeiras terras avistadas no Novo Mundo. De acordo com a história oficial, o arquipélago foi descoberto em 1503 pelo navegador italiano Américo Vespúcio, integrante da segunda expedição exploradora da costa brasileira.

Reportagem: Marina Rattes / Amanda Queiróz Caldeira / Assad Abrahão
Fotos: Jean Yves Donnard

Os primeiros registros do arquipélago, no entanto, são de autoria do cartógrafo espanhol Juan de la Cosa, que em 1502 delineou perfeitamente o conjunto de ilhas em um de seus mapas. Em 1504, a então chamada ilha de São Lourenço foi doada ao português Fernão de Loronha — que havia financiado a expedição de 1503 — e convertida na primeira capitania hereditária do Brasil.

Situada em um ponto vulnerável, na rota das grandes navegações que cruzavam o oceano rumo à América do Sul, Fernando de Noronha ficou abandonada durante mais de 200 anos. Neste período, foi cobiçada e ocupada por diferentes povos, a exemplo dos ingleses, no século XVI, dos holandeses, no século XVII, e dos franceses, no século XVIII. Para impedir que o lugar continuasse a ser invadido, Portugal optou em 1737 pela ocupação definitiva da ilha através da Capitania de Pernambuco. Foi construído então o maior sistema fortificado do século XVIII no Brasil, composto por dez fortalezas, entre elas a de Nossa Senhora dos Remédios.

De Colônia penal a Patrimônio Natural

Nesta mesma época, o arquipélago foi transformado em um presídio. Foram esses presidiários os responsáveis por erguer todo o patrimônio edificado e sistema viário que interliga as diversas vilas e fortes. Por medida de segurança — para evitar fugas e esconderijos —praticamente toda a vegetação original foi desmatada, o que resultou na alteração do clima da região.

Entre 1938 e 1945 Fernando de Noronha serviu novamente como colônia penal, desta vez, um presídio político. Esta condição voltou a prejudicar o meio ambiente local, devido à importação de espécies de fauna e flora e ao desmatamento desenfreado.

Outro episódio inesperado da história do arquipélago aconteceu em 1942, quando Fernando de Noronha foi transformado em Território Federal Militar e o Brasil concordou em que os norte-americanos — que entravam para a Segunda Guerra Mundial — montassem uma estação de rastreamento aéreo na vila do Boldró. A população local sofreu um enorme aumento e, para abrigar os cerca de 3 mil novos moradores, foi construída uma grande quantidade de casas pré-moldadas.

Nos anos seguintes, as Três Armas passaram a administrar o arquipélago em regime de rodízio, até que em 1988, o território foi reintegrado ao estado de Pernambuco. No mesmo ano, em uma área de 26 quilômetros quadrados, foi criado o Parque Nacional Marinho de Fernando de Noronha (Parnamar / FN). Treze anos depois, em 2001, Fernando de Noronha ganhou o título de Patrimônio Mundial Natural, concedido pela Unesco.

Passados mais de cinco séculos desde a chegada de Américo Vespúcio, Fernando de Noronha ainda guarda vestígios do passado nas diversas construções históricas que permanecem de pé. Andar pelas ruas da vila pode se transformar em um agradável passeio por diferentes períodos da história.

A Vila dos Remédios é um dos pontos mais badalados de Fernando de Noronha e também onde se encontram as construções de maior relevância histórica e melhor estado de conservação, como a Igreja e o Forte de Nossa Senhora dos Remédios e o Palácio de São Miguel.

Devido às suas condições favoráveis —como fácil acesso a água e ao ancoradouro — a Vila dos Remédios foi escolhida tanto pelos holandeses como pelos luso-brasileiros como o principal núcleo urbano de Noronha. A partir do século XVIII, toda a estrutura da ilha funcionava ali. A administração — com seus prédios públicos, os alojamentos carcerários e oficinas para presidiários —, a igreja, a praça de comando, as residências, o almoxarifado, a escola, o hospital e os armazéns que guardavam a produção agrícola e os suprimentos que chegavam do continente.

Durante os dois séculos seguintes, a Vila dos Remédios continuou a ser utilizada como principal núcleo da ilha. Até meados do século XX, sua estrutura original se manteve totalmente conservada. No entanto, com a ocupação norte-americana ocorrida durante a Segunda Guerra Mundial, o formato e as construções originais da vila foram perdendo espaço para as casas pré-moldadas.

Monumentos relevantes

Atualmente, o conjunto histórico de Noronha conta com cerca de 20 construções relevantes. Vale a pena conferir a Igreja Nossa Senhora dos Remédios, principal templo católico da ilha. Tombada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 1981, esta construção, que data de 1772, levou 32 anos para ser totalmente concluída. Erguida em um terreno elevado, com a frente voltada para uma enseada, a igreja possui uma fachada de arquitetura simples e interior formado por nave-salão única e capela-mor em cantaria arenítica. Desde sua construção, sofreu duas grandes restaurações, a última delas em 1988. Dez anos depois, em 1998, o templo foi pintado, voltando a exibir suas cores originais.

A devoção à Virgem dos Remédios inspirou também a denominação do principal forte da vila. O Forte de Nossa Senhora dos Remédios, que data de 1737, é a mais importante das dez fortificações erguidas nos séculos XVII e XVIII para defender a ilha. Construído em um terreno alto, sobre as ruínas de um antigo reduto holandês, o forte tem a forma de um polígono irregular orgânico com quatorze ângulos e quatro edificações ao centro do terrapleno. Tombada pelo Iphan em 1937, a construção localizada ao norte da ilha serviu de abrigo para presos comuns e políticos ao longo da história.

O Palácio de São Miguel, por sua vez, pertence à história recente de Fernando de Noronha. Erguido em 1947, sobre as ruínas da antiga diretoria do presídio, funcionou durante décadas como sede do governo do Território Federal Militar.  Inaugurado em 1948, o casarão ainda guarda móveis de meados do século passado, duas obras do pintor pernambucano Wash Rodrigues e um vitral com a imagem do arcanjo São Miguel feito pela artista Aurora Lima.

Agradável recanto verde, o Jardim Elizabeth é um dos pontos mais procurados pelos turistas para dar um passeio ou simplesmente relaxar. Foi usado, a partir do século XVII, como espaço para a aclimatação de plantas trazidas da Europa e também como horta, pensada para abastecer a Vila dos Remédios. Além de uma farta e exuberante vegetação, guarda pontes originais do século XVII, terraços e estradas de pedra.

História oral

A cultura local de Fernando de Noronha está estreitamente ligada à sua história oral. São incontáveis as lendas, os relatos e os casos que permeiam o imaginário popular desta ilha tão singular.

Dizem, por exemplo, que o famoso pirata inglês do século XVII Capitão Kidd teria escondido seu extraordinário tesouro em uma caverna do arquipélago. Acostumado a saquear embarcações que navegavam pelos oceanos, o capitão teria sido perseguido nas redondezas e, com medo de ser capturado, teria guardado ali suas riquezas. Desde então, aventureiros de todos os cantos passaram a procurar as jóias do pirata. Até hoje nenhum foi capaz de localizá-las. Aliás, ninguém sequer ousou descer o íngreme paredão que leva à caverna. O lugar, é claro, ficou conhecido como Caverna do Capitão Kidd.

Parece ser que esta ilha está repleta de riquezas escondidas. Contam também que um velho estranho de longas barbas atraía pessoas a um lugar onde havia uma cruz formada por duas raízes de cajazeira. Ali estava enterrado um tesouro. Todos que se atreviam a cavar junto às raízes em busca das jóias, despertavam a árvore, que estremecia e movia violentamente os galhos, mesmo que não houvesse vento.  Tudo o que se sabe é que a região é mal-assombrada e fica perto da antiga estação de rádio da Marinha.

São muitas as histórias da época em que a ilha serviu como colônia penal.  Uma delas conta que a exuberante natureza local era utilizada para torturar os presidiários. Os indisciplinados eram isolados na Ilha da Rata sem comida e abrigo ou abandonados durante dias dentro de cavidades cheias de água. O relato mais assustador, no entanto, é o de que os presos muitas vezes eram atirados do alto do morro onde fica o Forte dos Remédios. Ao caírem na água, eram tragados por uma fresta que produzia um som bastante sombrio.  Este som ficou conhecido como Ronco do Leão e é hoje um dos atrativos turísticos de Noronha.

São infinitas as histórias e lendas. Mas, melhor que ler os relatos é escutá-los da boca de um fernando-noronhense. A dica é tirar um dia para dar uma volta pela vila e conversar com os moradores. Com certeza o visitante voltará para casa com um rico repertório de casos e entendendo melhor a surpreendente cultura deste lugar.