Imagens em festa

Festival de Fotografia reforça vocação de Tiradentes para programações cosmopolitas e aconchegantes.

Por Mariana Lage
Fotos Eugênio Sávio

 

Quão divertido e, ao mesmo tempo, quão intelectual e afetivamente excitante seria se você pudesse reunir colegas de trabalho e profissionais que admira num ambiente em que todos poderiam conviver de perto e trocar experiências, sem, contudo, o confinamento excessivamente próximo dos reality-show tão comuns no dia de hoje? Quão entusiasmante seria encontrar um ídolo, um expert daquela técnica que tanto aprecia, na rua, passeando numa praça de uma cidade pacata, tão pacata que a ambiência mesma, diversa daquela das metrópoles, propiciaria uma conversa gentil e aberta, em especial, demorada e parcimoniosa? Agora, considere que esta cidade palco do encontro seja uma cidade mineira, dessas históricas, em que as pessoas são receptivas e cujo tamanho e topografia fomentem a abertura e o diálogo.

Mais ainda, imagine quão empolgante seria se você, um leigo começando um hobby, pudesse mergulhar durante dois ou três dias num workshop que te abriria um mundo de possibilidade para manusear aquela máquina, que, para você, até àquele momento, ainda se parecia como uma mulher-loba, cheia de vontades, segredos e não me toques.

Se me permitem mais uma pergunta: quão divertido seria se num desses dias à noite você pudesse sair a pé sem rumo pelas ruas e não só testemunhasse diferentes trabalhos artísticos, como também, numa esquina, encontrasse um reduto em que todos aqueles profissionais, ídolos, experts e, talvez, colegas de trabalho estivessem lá disponíveis para um brinde, um bate papo ou uma risada?

Tudo isso faz parte da experiência que muitos fotógrafos, jornalistas e apreciadores da fotografia, seja ela documental, jornalística ou artística, viveram na terceira edição do Festival de Fotografia de Tiradentes, organizado pelo professor e fotógrafo Eugênio Sávio — que tem, diga-se de passagem, um talento ímpar para a curadoria.

Profissionais da imagem

Acontecido na primeira semana de março, entre os dias 6 e 10, o festival contou com uma disposição de exposições, workshops, leitura de portfólios, palestras, bate-papo, projeção de imagens e lançamentos de livros que fomentou, sobretudo, o encontro e a troca de experiências. Dentre outros destaques, Eugênio trouxe nomes de peso, desde os consagrados, como Maureen Bisilliat, aos mais recentes da fotografia contemporânea, vide a presença de trabalhos de João Castilho e Gustavo Lacerda, passando por profissionais importantes como Rodrigo Moura, curador do Instituto Inhotim, e Ronaldo Ribeiro, editor-sênior da National Geographic Brasil.

Nas ruas e nos corredores de centros culturais e espaços expositivos, era possível testemunhar com muita frequência uma abundância de elogios a toda organização do evento. E sabia-se, com muita clareza, que não se tratava de exaltações vazias ou baratas. Diga-se de passagem, as ruas, os corredores, os auditórios e as salas de exposições estavam sempre, senão lotados, cheios de gente.

Se Tiradentes comprovou que tem vocação para festivais culturais, o festival de fotografia organizado por Eugênio Sávio conseguiu colocar em relevo o que a cidade tem de melhor e o que melhor pode ser feito em termos de infraestrutura. Algo extremamente bem detalhado, com riqueza de conhecimentos e experiências compartilhadas e com exposições em diferentes formatos e plataformas por toda a cidade, fazendo com que o visitante explore os caminhos a pé e convidando a população residente a redescobrir recantos com olhar aberto para o belo e para o inesperado, dignos de tirar o fôlego.

Um exemplo da diversidade de plataformas expositivas? Enquanto as charretes carregavam turistas nos bancos da frente, o fundo de suas carrocerias exibia uma coleção de fotografia de natureza, assinadas por nomes como João Marcos Rosa e Luciano Candisani, fotógrafo da revista National Geographic Brasil. Na antiga estação ferroviária, uma festa para os olhos com o trabalho “Albinos”, de Gustavo Lacerda: de uma sensibilidade e delicadeza sem igual. No Centro Cultural Yves Alves, onde ocorriam as palestras, era possível ver imagens vencedoras de dez anos do Prêmio Conrado Wessel de Arte, com imagens de André François, Julio Bittencourt, João Castilho, Marcio Rodrigues, Marco Mendes, Ricardo Barcellos, Tadeu Vilani e Tiago Santana. Durante as palestras e bate-papo, conhecia-se trabalhos de destaque de gente como Gui Mohallem, Jonne Roriz, Márcio Vasconcelos e Gustavo Nolasco e Leo Drumond, estes dois últimos vencedores do Prêmio Jabuti 2012. Próximo ao Largo do Ó, reunião de fotografias, sob curadoria de Paulo Laborne, com o tema “Cuba – Imagens e Possibilidades”, num belo retrato cultural.

Na praça principal, ou Largo das Forras, uma estrutura de cinema a céu aberto projetava durante a noite portfólios de diversos profissionais, das mais variadas vertentes poéticas. Durante a projeção, a praça era palco de encontros despojados e bate-papos improvisados. No Espaço Escambo, os profissionais da imagem poderiam fazer troca de seus trabalhos. E quando menos se esperava, andando pelas ruas antigas de Tiradentes, topava-se com uma exposição ou instalação imagética no meio do caminho. Traduzindo em miúdos, foram cinco dias de verão em que Tiradentes respirou fotografia sem deixar de lado seus moradores, sem excessos típicos de festivais que atraem grandes multidões, mais interessadas na festa do que nos trabalhos exibidos. Não, o Festival de Fotografia tem o tamanho ideal, aliando o conforto mineiro de receber bem com o apuro estético e a seriedade profissional que também nos caracteriza.

Poder conferir uma instalação de fotografia num beco à meia-luz, poder encontrar registros do candomblé dispostos num matadouro em suas andanças ao acaso pela cidade, ou ainda, explorar toda Tiradentes em sua extensão e ver trabalhos primorosos, como a memorável obra de Maureen Bisilliat ou as belíssimas imagens do cangaço de Márcio Vasconcelos, é impagável.

Também é digna de elogios a forma inclusiva com que todo o festival aconteceu. Se um fotógrafo não pôde entrar na programação oficial por restrições de infraestrutura ou recurso do próprio festival, era possível compartilhar o espaço da cidade e mostrar o seu talento, numa programação paralela. Sem rivalidades ou territorialismos, reforçando a ideia de que o que importa para os idealizadores do festival é a oportunidade de trocar experiências e compartilhar conhecimento, além, claro, de aproximar o público dos profissionais e do universo da fotografia. Quem saiu ganhando nessas circunstâncias foram os apreciadores da fotografia, de dentro ou de fora da cidade histórica.

Tudo isso, sem dúvida, colocou em destaque a capacidade do festival de ser ao mesmo tempo cosmopolita, com referências de peso, e aconchegante, sem soar pequeno. Uma programação que fez de Tiradentes uma festa para os olhos.