Fazer e pensar a fotografia

Os avanços tecnológicos ampliaram e as possibilidades de interação entre o fotógrafo e o seu público. Surgem novas formas de pensar a fotografia contemporânea — que ganha espaço em uma sociedade cada vez mais imagética. Na 4ª edição do Foto em Pauta, festival de fotografia de Tiradentes, o tema fotografia autoral, conceitual ou contemporânea  ganhou relevância nos debates.

Por Juliana Afonso

Corpos nus fora de foco. A bola de futebol embaixo dos pés sujos e descalços. Pedestres em contraluz sob o viaduto. As linhas de um espaço aberto que deixam de marcar os limites do campo para se transformarem, ao toque de um “clique”, em uma linda composição de cores e formas. Essas são simples descrições de imagens que já fizeram parte de exposições de fotografia contemporânea.

Mas alguém pode dizer que a bola de futebol embaixo dos pés sujos e descalços é uma imagem que compõe o fotojornalismo. Também pode ser dito que os pedestres em contraluz sob o viaduto é uma cena digna da fotografia de paisagem. O que então caracteriza a fotografia contemporânea?

Muito tem sido falado sobre essa nova categoria. Nos dicionários de língua portuguesa, a palavra “contemporânea” aparece como um adjetivo que faz referência a algo do mesmo da mesma época. A fotografia contemporânea seria, então, qualquer imagem capturada em um espaço de tempo recente, independente do objeto usado e da qualidade estética. Mas não parece que esses sejam os limites dessa nova forma de capturar o instante

Ideia na cabeça e câmera na mão

A fotografia contemporânea tem sido debatida por profissionais e amadores em todo o mundo. Esse também foi um tema recorrente no Foto em Pauta, festival de fotografia de Tiradentes. Na sua 4ª edição — que ocorreu entre os dias 26 e 30 de março — centenas de pessoas se debruçaram sobre esse e outros temas em exposições, workshops, palestras e debates. Além, é claro, dos encontros que aconteciam em cada uma das esquinas da encantadora Tiradentes.

Para muitos, a característica mais importante da fotografia contemporânea é a definição de conceitos, em contraposição à simples busca por locais especiais a serem fotografados. “O fato de ter uma foto sensacional não faz com que ela seja contemporânea. Todos os trabalhos expostos no festival têm como pano de fundo uma lenda, uma metáfora, um estudo anterior. Conseguimos ver que a pessoa realmente se aprofundou naquele assunto antes de mostrá-lo”, opina o fotógrafo Márcio Rodrigues, especializado em moda e em publicidade.

O conceito é tão importante que muitas vezes, em favor de uma proposta específica, a qualidade técnica é questionada. Isso é fácil de comprovar ao observar alguns trabalhos contemporâneos feitos com câmeras rudimentares onde a nitidez da imagem está em segundo plano.

Presença do autor

Outra característica marcante da fotografia contemporânea é a presença do autor. “Esse fotógrafo é tão presente na definição do conceito que, em alguns casos, ele até aparece nas imagens”, ilustra Eugênio Sávio, o coordenador do Foto em Pauta. Isso explica porque muitos profissionais preferem o termo fotografia conceitual ou autoral. “Nesse tipo de fotografia a importância não está apenas na documentação dos fatos e sim na interferência do autor”, afirma o fotógrafo Valdemir Cunha, especializado em cenários e personagens brasileiros.

Mas qualquer certeza dentro desse campo gera controvérsias. Alguns profissionais não concordam com a ideia de que a maior característica da fotografia contemporânea seja o conceito por trás da imagem. “Fotografia sempre foi ideia. Existiam pessoas com ideias interessantes antigamente e pessoas com ideias interessantes hoje”, afirma o fotógrafo e antropólogo Francilins Castilho. Desvincular imagem e conceito, independentemente do momento histórico no qual o profissional se insere, é no mínimo, arriscado.

A crítica não tem como objetivo deslegitimar o grupo de fotógrafos que se intitulam contemporâneos, mas alertar as pessoas quanto às fragilidades desse conceito, ainda recente. A própria palavra “contemporânea” deve ser revista, já que toda opinião sobre uma imagem incorpora aspectos da contemporaneidade, mesmo que as imagens tenham sido feitas há 200 anos. Nesse sentido, a expressão fotografia conceitual parece atingir melhor o objetivo.

Dispositivos e novas tecnologias

O mundo da fotografia não seria o mesmo sem as mudanças causadas pelas novas tecnologias. As primeiras transformações vieram com o avanço técnico dos próprios equipamentos fotográficos, que evoluíram em uma velocidade alucinante. Em 1988, a empresa Fuji laçou o primeiro modelo de câmera totalmente digital. Apesar de nunca ter sido comercializada, outras empresas se inspiraram no invento para criar seus equipamentos e, em poucos anos, o mundo estava tomado por materiais que permitiam a captura de imagens de todas as maneiras e distâncias possíveis.

Outras transformações tecnológicas que também contribuíram para o mundo da fotografia dizem respeito aos avanços das técnicas de filmagem, da internet e seus dispositivos de edição, e da telefonia móvel. Esses inventos também são amplamente utilizados por fotógrafos e amadores interessados em diversificar as suas obras.

Essa tendência faz com que os profissionais do ramo da fotografia possam experimentar e ousar ainda mais. “Existe um mundo que te pede um rótulo, mas todo mundo é múltiplo. Os fotógrafos de hoje editam essas imagens, tratam, fazem vídeo”, opina Guilherme Mohallem, fotógrafo e cineasta. Para ele, as possibilidades abertas pelos avanços tecnológicos são uma oportunidade de experimentar e de fazer coisas novas. “A fotografia precisa estar em diálogo com outros tipos de artes”, defende.

Ideias e projetos autorais

Com a transformação do fotógrafo em um profissional que domina o campo das ideias e projetos autorais — e não mais uma figura presa à sua câmera — ele vira um artista. “O fotógrafo tem experimentado divulgar o seu trabalho por meio de áudios e vídeos, se apropriando de ferramentas como os celulares, tablets e televisores, inclusive dentro de galerias”, conta Eugênio Sávio. O Foto em Pauta expôs alguns trabalhos em monitores e promoveu projeções de fotos e vídeos no Largo das Forras, praça central de Tiradentes.

O mais interessante é que as possibilidades abertas pela tecnologia não encerraram o uso de equipamentos e técnicas antigas. “Hoje tem gente que explora todos os recursos ligados ao filme e gente que faz fotografia analógica. O que a abertura tecnológica fez foi ajudar todo mundo a experimentar”, afirma Valdemir Cunha. Se funciona ou não, quem vai dizer é o mercado.

Redes sociais e aplicativos

E o mercado tornou-se amplo com as redes sociais e os aplicativos de compartilhamento de imagens. O público tem um acesso muito mais aberto ao trabalho de profissionais e amadores. Uma pessoa com um trabalho consistente pode se tornar conhecida nas redes sociais, por exemplo, e ser vista não somente por seus admiradores como também por curadores e profissionais da área.

O trabalho, como dito antes, precisa ser consistente “A gente tem que se preocupar menos com os meios e mais com a fotografia”, opina Valdemir. O conselho surge em boa hora, frente a um mundo que faz a cada dia mais e mais fotos. Segundo dados disponibilizados pelas redes sociais Facebook, Instagram e Flickr, são compartilhadas cerca de 125 bilhões de fotos por ano, mais de 14 milhões de imagens por dia. Somemos a isso o número de cliques tomados em nossos celulares e câmeras que guardamos em nossos computadores e teremos uma ideia da quantidade de fotos que nascem todos os dias no mundo. Segundo pesquisa da empresa ‘High Table’, a cada dois minutos o mundo tira mais fotos que em todo o século XIX.

No campo das sensações

A fotografia, assim como outros tipos de arte, é uma representação da realidade, pois nunca será capaz de captá-la em toda sua essência. Isso significa que ela não precisa ser perfeita — o que muitas vezes nem é seu objetivo — mas que seja capaz de transmitir algum tipo de ideia, sentimento, sensação, tanto de apego quanto de repulsa. É nesse sentido que o excesso de fotos tiradas em todo o mundo pode ser encarado como um problema ou como uma oportunidade.

Alguns fotógrafos buscam inspiração nos diferentes tipos de linguagem, na liberdade para misturar a imagem com outros dispositivos e nas possibilidades sensoriais que a fotografia pode despertar. “A melhor coisa que pode mover a vida é a paixão. Começo pelo tesão e o resto vai amadurecendo. É quando eu começo a materializar a obra”, responde Francilis, quando questionado sobre seu processo criativo. Para Márcio Rodrigues, ao contrário, o trabalho não vem de um momento de inspiração, mas de uma urgência “Tenho um mantra na minha cabeça que é ‘caminhe em direção ao medo’. Uso isso no meu trabalho para não ir necessariamente para onde eu quero, mas para onde eu devo”.

O que as criações contemporâneas buscam fazer, independente do processo que cada um realiza, é provocar seu interlocutor. “Ela tende a fugir de uma simples interpretação. Não é simplesmente um conjunto de imagens esteticamente bonitas. Às vezes elas não são nem esteticamente bonitas a primeira vista, mas aquilo causa uma sensação de estranhamento que você passa a entender e admirar”, analisa o fotógrafo Tom Alves, especialista em fotografia de natureza. Para ele, é importante que o observador entenda que a mensagem nem sempre é transmitida de forma linear.

Fotogenia nata

Minas Gerais é destaque no contexto da fotografia contemporânea. Alguns dos mais importantes expoentes dessa arte nasceram em Minas. Alguns deles já foram reconhecidos pelo Prêmio Conrado Wessel de Arte — um dos mais importantes do país — como João Castilho, Pedro David, Gustavo Lacerda e Márcio Rodrigues. “Quando você fala que é fotógrafo e é mineiro já te olham com outros olhos” afirma Márcio, orgulhoso.

A verdade é que a fotografia mineira é, certamente, uma das mais importantes do Brasil. Alguns fatores contribuíram para dar mais visibilidade à fotografia produzida em Minas. Houve um crescimento no número de cursos técnicos, graduações e mestrados que se debruçam sobre essa arte, além da realização de eventos como Festival Internacional de Fotografia de Belo Horizonte e o próprio Foto em Pauta. “Também realizamos, em BH, uma série de encontros com importantes autores da fotografia. Eles aproveitam a oportunidade para mostrar seus trabalhos, lançar livros e conversar com um público amplo”, informa Eugênio Sávio.  

Minas Gerais é também local de experimentação. As cidades coloniais, com suas ruas de pedras e suas casinhas brancas de janelas e portas coloridas, são muito visitadas por profissionais e amantes da fotografia. Isso sem contar as curvas das montanhas que se abrem em cânions e lindas cachoeiras. “A herança mineira é muito valiosa e as paisagens de Minas são belíssimas, tanto as naturais quanto históricas”, afirma Tom Alves.

Quatro anos de celebração da fotografia

Em um beco estreito da cidade de Tiradentes, desses bem escondidos, cobertos por folhas e bouganvilles rosas, os nativos e os turistas eram surpreendidos por um varal cheio de fotos. Eram imagens de brasis perdidos, de países desconhecidos e paisagens estonteantes. Muitos tiravam fotos das fotos. E fotos de si mesmo, na frente das fotos. A cidade estava cheia delas, propositais e espontâneas.

Durante os quatro dias em que o festival Foto em Pauta esteve em Tiradentes — entre os dias 26 e 30 de março — a cidade respirou arte. Essa edição consolidou o trabalho de quatro anos da equipe liderada por Eugênio Sávio, idealizador do projeto. “Esse é um dos festivais de fotografia mais importantes do Brasil ao lado do Festival Internacional de Fotografia de Paraty.  Eu gosto muito do Foto em Pauta principalmente por acontecer em Tiradentes. O festival proporciona uma série de encontros com profissionais e amantes da boa fotografia em espaços que vão muito além dos locais de exposição”, elogia Valdemir Cunha.

De fato, o festival sempre se preocupou em oferecer uma oportunidade de contato entre palestrantes e participantes, além de encher a cidade com exposições gratuitas, para que até os visitantes mais distraídos possam desfrutar do evento. Palestras, debates, workshops e projeções das mais diversas técnicas e temas também fazem parte da programação.

Esse ano o festival fez um forte investimento na equipe de curadores com a proposta de pesquisar mais a fundo a fotografia contemporânea em Minas, além de resgatar obras antigas, recurso que pode gerar releituras poderosas. Isso aconteceu com a exposição “A democratização do retrato fotográfico”, do já falecido diamantinense Assis Horta, uma das mais comentadas de todo o evento. “Foi um caso emblemático porque além da própria beleza das fotos, foi um esforço de recuperar um trabalho que foi feito sem ambições artísticas, mas carregado do que, hoje em dia, chamaríamos de trabalho contemporâneo”, conta Eugênio. Ainda assim, ele reforça que a programação do evento não deve ser entendida como um retrato da fotografia mineira contemporânea — e sim como um olhar para essa fotografia.