No centro histórico de Tiradentes, uma charrete contornava o Largo das Forras, a praça central da cidade. Na medida em que ela passava, as pessoas olhavam admiradas para a grande foto que a decorava. Todas as charmosas charretes foram decoradas com instigantes imagens dos habitantes de Tiradentes. A iniciativa foi a tradução do projeto ‘Moradores — a humanidade do patrimônio histórico’, cuja proposta foi a de valorizar a “mineiridade” como patrimônio imaterial de Minas Gerais.

O projeto foi  mais um dentre os vários atrativos da segunda edição do Festival Foto em Pauta, que aconteceu entre os dias 14 e 18 de maio de 2012 com a presença de renomados e promissores profissionais da fotografia, além de estudantes e apaixonados pela arte de capturar imagens.

O fotógrafo Eugênio Sávio, coordenador do evento, explica que o Foto em Pauta é um espaço para amadurecimento e convergência de ideias, e é realizado em uma cidade que estimula a prática da fotografia. “Tiradentes é muito inspiradora”, diz.

Do primeiro festival (que aconteceu no ano passado) para este segundo evento, houve um grande crescimento no sentido de uma maior participação de grupos interessados em fotografia. Foi uma verdadeira consolidação a resposta positiva do público e o apoio de diversos segmentos da cidade como hotéis, restaurantes e a prefeitura municipal.

O festival teve diversas atividades como debates, exposições e intervenções urbanas. Elas foram divididas em ‘Encontros para Fotografar’ e ‘Ciclos de Ideias’ quando dois especialistas no assunto conversavam e respondiam perguntas da plateia. Uma das principais discussões desse ano foi sobre a linguagem fotográfica e as diferentes formas de abordar um tema. Outro importante acontecimento da agenda foi a homenagem (mas do que merecida) ao mineiro Miguel Aun, um dos grandes da fotografia mineira e brasileira. Mas tão interessante quanto a programação oficial, foram os momentos informais, em espaços ao ar livre, bares e restaurantes, aonde as pessoas puderam trocar experiências sobre o tema fotografia.

Com o evento, Tiradentes ganhou ainda mais visibilidade na opinião de Eugênio Sávio: “Tanto os profissionais quanto os amantes da fotografia são ligados em tecnologia e também são formadores de opinião. As imagens que foram feitas na cidade vão circular em muitos lugares”, argumentou. Para outras informações sobre o Foto em Pauta é só acessar o site www.fotoempauta.com.br

(Juliana Afonso)



Conversas sobre a criação de um mundo pelo olhar

Chegava equipada e conectada. Conferia se todos os objetos necessários, e possivelmente necessários, caminhavam com ela, marcando o tempo de quem chegou mais ainda não está lá. Ao se aproximar de leves sorrisos iluminados pelo sol de fins de verão, pensava Tiradentes capturando uma atmosfera momentânea, uma nova alma de lugar.

Na porta do Centro Cultural Yves Alves, abrigo de expectativas e espaço de confraternização, se dirigiu a uma moça, identificada pela organização do evento. Queria perguntar: “— Quantos olhares são esperados para hoje?”, mas acabou recebendo a programação dos próximos dias. Do assunto fotografia se desdobravam propostas de reunião, encontros temáticos, conversas de aprimoramento, trocas de experiência. Pensou: a programação do Foto em Pauta bem poderia se chamar conversas sobre a criação de um mundo pelo olhar.

No jardim, pessoas se concentravam em pequenos grupos; alguns ocupavam os cantos e pareciam só observar, sem lentes. Foi quando encontrou um amigo, fotógrafo de diversas modalidades, como ele mesmo se descreveu, que estava ali para explorar os outros territórios que a fotografia dá acesso. Fazia parte do grupo espalhado pelo jardim. Buscava algum argumento para uma fotografia, talvez um objeto imóvel, ou qualquer coisa que o acaso lhe oferecesse. “— Estou pensando no verde”, disse- lhe o amigo.

Ainda contaminada pelo verde interiorizado naquela casa que, dentre tantas outras, doam unidade histórica à cidade, percebeu-se no segundo andar. Logo nos primeiros passos compreendeu, pela primeira vez, qual era a verdadeira natureza das paredes: não foram feitas para sustentar, mas para criar enquadramentos. Das paredes projetavam-se paisagens, traços que marcavam rostos, desenhavam detalhes de janela, porta, curral, cenas de lugares que conhecemos mesmo sem conhecer. Concordava com o texto exposto, cada uma das fotos-paisagem de Tiago Santana era como um “verso para o mundo”. Ali, naquele momento suspenso no tempo, ela não tinha dúvidas sobre o convite da mostra. A proposta incluía o deslocamento do observador de forma que ele pudesse habitar a ponta do olho do fotógrafo, ser sua concentração, estar no lugar que ele nos mostra.

Na pausa para um café, pôde entender melhor a dimensão do Festival de Fotografia de Tiradentes, que já estava em sua segunda edição. Pessoas se concentravam na fila para assistir quem costuma mais “dar a ver” do que ser visto. Hora de ouvir grandes fotógrafos em suas histórias, perceber seus trejeitos, manifestar afetos, adivinhar correspondências entre pessoa e artista. Enquanto aguardavam as palestras, alguns se distraiam com suas câmeras fora de ação, como se as ninassem, calmamente, observando as imagens já capturadas, regulando dispositivos. A presença significativa de mulheres, de pessoas de diversas idades, a fez refletir sobre a fotografia como uma arte cada vez mais expansiva e potente. Foi quando se deu conta que adentrava Zonas de Densidade e de Rarefação, uma exposição coletiva.

Um poste sobre um montinho de terra cujos fios seguem em direções diversas. Uma árvore solitária que resiste em um espaço amplo e vazio por destruição natural ou humana. “— Onde será que foi tirada essa fotografia?”, se perguntava a todo momento. As plaquetas só informavam o nome do fotógrafo, o que não diminuía a vontade de dialogar. Erosões urbanas contrapostas por um céu azul e estrelado, onírico. Tudo parecia refletir a desmesura humana. “— Eles falam sobre uma nova ordem do território”, alguém comentou ao seu lado, e ela, capturada pela próxima imagem, já deixara de pensar. Percebeu então que uma luz mais clara passava a iluminar a sala. Imaginou o calor do sol nas ruas da cidade e saiu.

Brancos, verdes e amarronzados polvilham em cores a sensorial Tiradentes. Mirava as construções, a Serra de São José, e tudo lhe parecia tão congruente que beirava a inexistência. “— Aquele casal ali na frente só confirma a minha impressão”, disse a si própria, quando cruzou com uma garota e um rapaz em trajes de época, distribuindo alguns folhetos. Nas ruas, fotógrafos, amadores ou não, se concentravam em silêncio, como quem espia um animal selvagem. Na frente da igreja, uma criancinha dava um de seus primeiros passos e se tornava alvo fácil para os que exercitam a entrega ao acaso, o proveito do instantâneo. O silêncio, só interrompido por cadenciados clicks, a fizeram lembrar Roland Barthes, para quem o órgão do fotógrafo não é o olho, mas o dedo.

Ela sentia que Tiradentes ganhava centímetros de visibilidade a mais, que passava de uma cidade rígida, tesa, plana, para uma paisagem que se movimentava com elegância e humor. Nas charretes, amplos retratos de moradores da cidade; na praça, fotografias penduradas em varais, soltas ao vento, abertas, prontas para surpreender quem passa distraidamente. Pensou sobre si mesma, nas razões de não ter escolhido ser fotógrafa, apesar de supor que não faria feio. Sonhou uma câmera na mão, produziu um enquadramento enquanto caminhava se equilibrando sobre as pedras do calçamento.  Circundou a praça, na busca do melhor ângulo para uma fotografia imaginária, quando se sentiu observada.  Impulsivamente buscou um abrigo instantâneo, uma árvore que diminuísse seu grau de exposição, mas logo percebeu que à sua direita, o garçom e as pessoas sentadas na mesa ficaram estáticas, o burro que puxava a charrete se cristalizou, assim como a mulher que atravessava a ponte, o senhorzinho que carregava uma cesta com queijos e o cachorro que virava o pescoço para coçar as costas com a boca. Sentiu que os pés já perdiam o movimento, e que a sua saia ganhara um balançar interrompido; ensaiou um olhar e o sorriso mais revelador que podia. Um clarão. A morte daquela tarde em Tiradentes encerrou alguma imagem íntima, que se tornara inenarrável.

(Júlia Castro)


Júlia Castro é turismóloga e colaboradora da Revista Sagarana. É mestranda em Geografia pela UFMG e desenvolve pesquisa relacionada ao tema das viagens em diálogo com a geografia e a literatura.