Viva São Pedro, Santo Antônio e São João!

Junho é época de quentão, vinho quente, pamonha e milho cozido. Pipoca, brincadeiras, canjica, pé de moleque, correio elegante e fogueiras. Tempo de dançar, comer, arrumar marido e rezar. É tempo santo. São João, Santo Antônio, São Paulo e São Pedro. Junho é mês de Festa Junina. Na capital de Minas Gerais, acontece, há 40 anos, o Arraial de Belo Horizonte (Arraial de Belô, até o ano de 2017), um grandioso festejo junino. Essa realidade é ratificada pelo Ministério do Turismo, que classifica BH como um dos cinco maiores destinos turísticos no período junino.

Na capital e no interior do Estado, as festividades atraem milhares de pessoas. Além de belíssimas apresentações de quadrilha e de muita comida tradicional, as Festas Juninas mineiras contam com boa música, barracas decoradas, bandeirinhas e animação. O turista pode se desbravar por várias regiões de Minas Gerais, porém, em qualquer lugar, será recebido com hospitalidade e desfrutará de belas paisagens, opções de lazer, descanso e farta gastronomia.

O costume foi herdado e adaptado. Surgiu nos primeiros tempos da colonização, devido ao fato de que os santos festejados no mês de junho tinham tradições em Portugal. A miscigenação fez as raízes se fundirem, e a festa ganhou tradições mineiras.

As comemorações de São João (em 24 de junho) fazem parte do ciclo festivo que passou a ser conhecido como Festas Juninas e que homenageia, além desse, outros santos reverenciados em junho, como Santo Antônio (dia 13) e os apóstolos São Pedro e São Paulo (dia 29).

É Dia de São João!

São João Batista era primo de Jesus. Seus pais, Zacarias e Isabel, tiveram-no já com idade avançada. Cristo fez várias referências sobre João e o chamou de “o maior entre os nascidos de mulher”. São João foi conhecido por combater a hipocrisia e a imoralidade, porém pagou por suas palavras com o martírio: foi decapitado no ano de 31 d.C. Na história da igreja católica, João Batista foi o último profeta e o primeiro apóstolo de Cristo.

A história conta que Maria e Isabel ficaram grávidas no mesmo ano. A mãe de Jesus se propôs a ajudar Isabel, mas, para as duas se comunicarem, combinaram que, se o filho de Isabel nascesse à noite, ela deveria acender uma fogueira no alto do morro. Caso nascesse durante o dia, deveria colocar um mastro com uma bandeira branca como sinal, para que Maria soubesse. Quando São João nasceu, era noite. A fogueira foi acesa, e Maria foi visitá-lo. Levou de presente uma capelinha, um feixe de palha, folhas de manjericão e flores perfumadas. Com o tempo, surgiu o hábito de fazer-se a fogueira e levantar-se o mastro em homenagem ao santo.

Pulando fogueira

Na Festa Junina, fogueira é coisa séria. Não pode faltar. Em alguns lugares do interior, é comum guardar as cinzas da fogueira de São João até a quarta-feira de Cinzas, quando as pessoas se reúnem para rezar e passar a cinza na testa, lembrando a frase bíblica “Tu és pó e em pó te hás de tornar”.

O uso da madeira de imbaúba para a fogueira é proibido. Afinal, foi nessa árvore que São José escondeu Nossa Senhora e o Menino Jesus, quando fugiam para o Egito. Paus de videira também não podem ser queimados, pois a videira produz o vinho, que se transforma no sangue de Nosso Senhor Jesus Cristo no momento da Consagração, durante a missa.

As tradições são as mais diversas. No Vale do Rio São Francisco e no Vale do Jequitinhonha, as comunidades mantêm a fogueira acesa em frente às casas até o amanhecer, para que, quando São João passar, ele deixe a benção. Várias pessoas pagam promessas ao santo atravessando, descalças, as brasas da fogueira. Dizem que, de tão tamanha a fé, os pés não se queimam. A Comunidade do Matição, em Jaboticatubas, é um dos lugares onde ainda é realizado o ritual. Outro costume popular diz que, caso a fogueira seja mexida com os pés ou alguém faça xixi ou cuspa no fogo, “a vida se atrasa”, e nada mais dá certo. A lição se aprende, não se pode brincar com o fogo, pois esse é sagrado.

O mastro também é importante, nele, os devotos amarram pedidos, produtos agrícolas, retratos. Também ajudam a carregá-lo até o local onde será suspenso. Ele é preparado com muito entusiasmo. Durante a subida do mastro, observa-se o respeito e as orações — todos querem tocá-lo e fazer os pedidos.

Santo casamenteiro

Santo Antônio também é bem lembrado durante os festejos. O nome de batismo dele é Fernando de Bulhões y Taveira de Azevedo. Nascido em Lisboa, em 1195, estudou Teologia, Filosofia e Ciências em Coimbra, onde ordenou-se padre. Na volta de uma viagem a Marrocos, na África, um acidente fez com que a embarcação em que estava fosse arrastada até as costas sicilianas da Itália. Desembarcou lá e morou alguns meses em Messina, no Convento dos Franciscanos, até que seu superior o levou a Assis, onde conheceu pessoalmente Francisco de Assis.

Percorreu toda a Europa para combater as heresias de sua época e morreu em 1231, sendo canonizado um ano depois. Santo Antônio é protetor de Portugal desde o período imperial. A popularidade dele chegou ao Brasil por meio dos portugueses e por influência dos frades franciscanos.

Ela existe, também, pelo fato de Santo Antônio ser considerado um “santo casamenteiro”. É simpatia, e reza, que não acaba mais. Durante o ciclo junino, misturam-se criatividade e fé, e a moças solteiras fazem de tudo para chamar a atenção do Santo. Algumas das simpatias dizem que basta esconder o menino Jesus de Santo Antônio ou amarrar este último de cabeça para baixo, perto da cama do devoto. Há quem conte que, se enfiar uma faca que nunca foi usada numa bananeira, no outro dia, ao tirar a faca, a pessoa vai encontrar, na árvore, a letra do início do nome do rapaz com o qual a devota solteira se casará.

Mas há quem se case já na noite de festa, pois não pode faltar, entre os caipiras, a noiva e o noivo da noite de São João e, é claro, de Santo Antônio.

Não pode faltar a noiva e o noivo.

Arrumando a festa

Em todos os lugares, há produção de ornamentação típica, feita com bandeirolas, balões, lanternas, flores e outros adereços. A diversão começa com os jogos. As crianças se animam com tanta opção, e os adultos acabam por não resistir. São montadas barraquinhas de jogos como pescaria, bola ou argola na garrafa, boca de palhaço, rabo no burro, correio elegante, prisão do amor.
As comidas também são atrações importantes. Para esquentar o inverno recém-chegado, bebidas típicas, como quentão, vinho quente, caldos e canjica. Para adoçar, cocada e pé de moleque são recomendados — além de pipoca, amendoim torrado, maçã do amor e a comida típica que varia de região para região.

O traje é que dá cor e alegria às festividades. Vestidos floridos de chita, enfeitados com fitas e rendas, laçarotes de fitas para os cabelos em tranças. Os homens vão de calças escuras, camisas xadrez coloridas, botas, chapéus e lenço no pescoço. Nos arraiais juninos, são comuns o forró, a quadrilha e o batuque, mas é a quadrilha a dança mais tradicional.

O forró, a quadrilha e o batuque.

Ela chegou ao Brasil com a Família Real. É uma dança adaptada à dança inglesa, que foi para a França, de onde navegou até Portugal, para, finalmente, desembarcar no Brasil. Era uma dança de salão executada aos pares, nos saraus do início do século XIX, e que foi recriada e moldada às diversas partes do país. Hoje existem as mais diversas marcações da dança, tudo depende da criatividade do marcador ou do cantor de quadrilha. Com o tempo, tornou-se bem brasileira, com o tempero certo e típico de cada região.

Arraial de Belo Horizonte

Todo ano BH é cenário do já consagrado Arraial de Belo Horizonte (até ano de 2017, era chamado de Arraial de Belô), um dos maiores festejos juninos do Sudeste brasileiro. Criado há 40 anos, é promovido pela Prefeitura, em parceria com a Empresa Municipal de Turismo de Belo Horizonte (Belotur). As principais atrações da festa são os festivais de quadrilhas e os desfiles juninos realizados em praças da cidade, com carroças e personagens típicos.

O Arraial de Belo Horizonte foi criado há 40 anos.

A capital ganha ares interioranos. É recriada uma legítima cidade do interior bem no Centro da cidade, na Praça da Estação. Tudo começou em 1979, quando a Prefeitura de Belo Horizonte criou o Forró de Belô, consolidando os vários grupos de quadrilha existentes na cidade e, paralelamente, estimulando a criação de novos. A partir de 1980, sob a coordenação da Belotur, o evento transformou-se no Arraial de Belô e deixou de ser apenas uma grande festa para se transformar em uma busca por manter viva uma identidade cultural. A cidade toda se mobiliza. O arraial resgatou a tradição junina nas escolas municipais e na comunidade local. Uniu o tradicional ao contemporâneo e, às tradições, uma programação personalizada; dessa forma, atrai pessoas de todos os gostos e idades. Hoje, o Arraial de Belo Horizonte é produto turístico nacional consolidado, além de ser querido de muitos belo-horizontinos.

O Arraial de Belo Horizonte: identidade cultural.

O grandioso evento, que celebra em grande estilo as tradições das festas juninas, conta com a participação de quadrilhas de vários bairros da capital mineira. Vêm compadre e comadre de todo lugar. Ao som do arrasta-pé, a ordem do quadrilheiro tem que ser cumprida à risca. Os grupos são muitos e, apesar da disputa acirrada, formam uma grande família vestida a caráter. As ruas enchem-se das cores fortes das roupas e de contagiante alegria. O treinamento para a apresentação pode durar meses, tudo tem que estar bem-feito. Os grupos são avaliados por um júri, em cinco quesitos: conjunto, coreografia, caracterização, marcador e casal de noivos. As quadrilhas vencedoras recebem prêmios em dinheiro.

Quadrilhas de vários bairros de BH.

O evento celebra em alto estilo as tradições.

Só de ver, dá vontade de dançar e fazer o charmoso “balancê”, no caso das damas, ou o irresistível cumprimento dos cavalheiros, gestos simples que despertam sorrisos fáceis. Nas ruas e avenidas de Beagá, os caipiras mais charmosos aprumam as charretes, arrumam os vestidos coloridos e os chapéus, para convidar todos a entrarem na dança.

Os grupos são avaliados por um júri em cinco quesitos.

Na edição de 2018, comemorativa das quatro décadas de festividades juninas, o Arraial de Belo Horizonte inovou ao incorporar a gastronomia mineira ao tradicional evento de concurso de quadrilhas. Ocorreram oficinas com a presença de importantes chefs de cozinha e concursos gastronômicos; foram criados circuitos culinários e realizadas festas e quermesses.

“Em sua 40ª edição, o Arraial de Belo Horizonte também ganha um novo contorno,” diz Aluizer Malab, presidente da Belotur. “Ele já possui excelência no concurso de quadrilhas, nos shows e em sua tradição. Agora, com a valorização da gastronomia — que ganha estrutura própria totalmente ambientada na Praça da Estação, com a Vila Gastronômica —, o Arraial também se destaca na diversificação do público, atendendo a uma camada maior da sociedade belo-horizontina”, argumenta.

Para se ter uma ideia da grandiosidade do concurso de quadrilhas, existem dois grupos: o Grupo de Acesso e o Grupo Especial, que reúnem mais de 50 agremiações, protagonistas de uma acirradíssima disputa. Em 2018, a campeã do grupo de acesso foi a quadrilha Beija-Flor de Minas. Em segundo lugar, ficou a Quadrilha Trem D’Minas e, em terceiro, a Grêmio Recreativo Arriba Saia. Já a Arraial do Milho Verde foi a quarta colocada. As quatro primeiras vão se apresentar no Grupo Especial no próximo ano.

Quadrilha Beija-Flor de Minas.

Com uma bela apresentação em homenagem aos personagens de Monteiro Lobato, com o tema “Arraial do Sítio do Pica-Pau Amarelo”, a Quadrilha Fogo de Palha foi a grande campeã do Arraial de Belo Horizonte. O segundo lugar ficou com a Quadrilha Pipoca Doce, seguida da Quadrilha São Gererê e da Quadrilha Fulô de Laranjeira.

A Quadrilha Fogo de Palha: a grande campeã.

“Somos conhecidos pela perfeição no alinhamento, na roda, e acho que isso é um diferencial que nos deu a vitória”, avaliou Juan Borges, presidente da agremiação. “O coração fica a mil, esperando sempre a nota dez. Já estávamos muito felizes por termos conseguido colocar no tablado todo o trabalho que a gente pesquisou e realizou durante um ano. O resultado é consequência disso”, pontua.

Essa declaração ratifica o real tamanho do evento, além de demonstrar a dedicação e o profissionalismo de todos que trabalham para fazer acontecer o Arraial de Belo Horizonte.
Não é por acaso que o Ministério do Turismo e a Embratur elegeram Belo Horizonte um dos cinco maiores destinos turísticos no período junino, ao lado das cidades de Bragança (PA), Campina Grande (PB), Corumbá (MS) e São Luís (MA).

Belo Horizonte: destino turístico no período junino.

Conforme a Belotur, o público aprovou o evento. De acordo com a pesquisa de satisfação realizada pela Belotur, por meio do Observatório do Turismo de Belo Horizonte, de zero a dez, o evento na Praça da Estação, no geral, ganhou nota 8,8. Foram entrevistadas mais de 500 pessoas. A pesquisa também registrou que em 2018 o gasto médio por participante no evento foi de R$ 30,50, o que significa aumento de 27% em relação a 2017, quando foram registrados R$ 24 de gasto por participante.

Aluizer Malab assegura que a festa se aprimora a cada ano. “O Arraial de Belo Horizonte está cada vez maior, as quadrilhas estão cada vez melhores, o que também atrai um público que vem se diversificando”. O presidente da Belotur observa que houve a presença de “muitas famílias, entre crianças e idosos”, participando dos festejos na Praça da Estação. “Acendemos holofotes para a Gastronomia Mineira Junina e montamos estrutura segura e confortável para que ela funcionasse com excelência. O resultado foi uma alegria, percebida entre organizadores e público em geral”, assegurou.

Fé e tradição

Existem em Minas Gerais várias localidades que mantêm a tradição de rezar o terço e a Ladainha de São João, de vela acesa, no altar da casa do devoto. Altar esse que mantém uma fita ligada ao Santo, para ser beijada e, ao lado, a bandeira que subirá pelo mastro, com a estampa do santo homenageado.

Viajando por Minas, é possível encontrar diversas tradições juninas que parecem não sofrer ação do tempo. A festa, que, apesar de religiosa, tem costumes profanos, faz parte de certas cidades e acalenta os corações de fiéis dos santos padroeiros dos festejos. Ao mesmo tempo, música, encontros, cores e sons dão alegria e regozijo àqueles que não resistem a uma boa festa de rua, com muita dança e comida saborosa.

Uma ótima opção é a Festa Junina “Arraiá du Sô João”, em Itanhandu, município que pertence à Região Terras Altas da Mantiqueira. A festa é um bem imaterial registrado e protegido por lei pelo Iepha. A tradicional Festa Junina ocorre durante o feriado de Corpus Christi. O curioso é a dobradinha ítalo-mineira. Durante toda a festa, o público saboreia as delícias das culinárias italiana e caipira, além de comidas típicas.

Na comunidade do Bonfim, no município de São Gonçalo do Rio Preto, próximo à Diamantina, é realizada a Festa do Senhor do Bonfim. A comunidade é a mais antiga do município e apresenta a tradicional Marujada, que homenageia Senhor do Bonfim e São João Batista. Em Diamantina, o festejo não pode faltar, afinal Santo Antônio é padroeiro da cidade. A festa é realizada na Catedral Metropolitana e na Capela do Pão de Santo Antônio, com trezenas e barraquinhas. Não falta suspensão de mastros e fogos de artifícios para comemorar o dia santo.

Na cidade de Lima Duarte, as tradicionais festas de arraial recebem inúmeros visitantes, que desfrutam das comemorações e da natureza da região. Procissão, fogueira, leilão de prendas, forró, além de belas cachoeiras. Já em Cristiano Otoni, cidade que pertence à Associação de Circuito Turístico Villas e Fazendas de Minas, é no mês de junho que é realizada a melhor festa da cidade: a Novena de Santo Antônio. Nas ruas, há grupos de viola e muita música, além de missas, barraquinhas, som, fogos, gincanas e belas quadrilhas.

Seja para comer doces e se esquentar com quentão, seja para agradecer ou pedir bênçãos, seja para dançar ou assistir ao desfilar de saias floridas e chapéus. As festas juninas são parte do calendário e, por isso, parte da tradição brasileira, sendo que cada região a representa mantendo viva a diversidade do nosso país. No caso de Minas, isso é feito como um bom mineiro sabe fazer, com muita viola, muita prosa e muita fé de que a vida simples pode, sim, ser sinônimo de vida boa.