Uma terra sem fronteiras definidas, da qual brota ouro e diamante. Aventureiros tentam a sorte e escravos sonham em encontrar um veio mais recheado de pedras preciosas, que lhes renderia prêmios e, quem sabe, a liberdade. Eram assim as Minas Gerais do fim do século XVII, início do século XVIII. Um local onde não entravam as Ordens Primeira (padres) e Segunda (freiras) por proibição da Coroa. Mas a fé não poderia ser vetada. Na falta de líderes religiosos, nasciam as irmandades, cada uma dedicada a um santo, a uma causa. Sem a igreja para ditar rígidas regras, cada uma moldava rituais e homenagens ao próprio modo. Assim, nasciam festejos com características regionais tão marcantes que até hoje fazem do folclore mineiro um dos mais ricos do país.

Fazem parte não apenas do folclore, mas também das festas religiosas, dois conceitos que, em Minas Gerais, se misturam. A sobriedade que envolve os cultos e as orações em outros lugares aqui ganha cor e música. É o resultado da miscigenação da sociedade mineira, que, nos tempos coloniais, era mais vigorosa que no restante do país, já que a estrutura da exploração do ouro permitia, por exemplo, a ascensão social e econômica de negros e índios. Dessa possibilidade, nasceram algumas das manifestações mais belas que hoje fazem parte da identidade do povo da região. É o caso do Congado, por exemplo. Uma festa religiosa, que honra Nossa Senhora do Rosário, com fortes contornos folclóricos baseados na história de Chico Rei, suposto escravo que comprou a alforria e se tornou um respeitado líder negro na região de Vila Rica, atual Ouro Preto.

Congado
Um rei não perde a majestade

Um rei sequestrado, jogado em um navio ao lado da esposa, dos filhos e de toda a sua corte. Obrigado a atravessar um oceano para uma terra desconhecida, onde de rei passaria a escravo. A história não tem registros escritos, mas sobrevive na oralidade da lenda contada e cantada. É da vida e da crença de Chico Rei, sequestrado no Congo e levado para as minas da antiga Vila Rica (atual Ouro Preto), que teria nascido uma das manifestações culturais e religiosas mais ricas do país, o Congado.

O congado e um dos seus rituais.

Conta-se que Chico Rei perdeu a esposa e a filha antes mesmo de desembarcar no Brasil, vítimas dos maus-tratos sofridos no navio. Ao chegar aqui, foi enviado para as minas de ouro, onde conseguiu economizar o suficiente para comprar a própria alforria e a do filho. Em liberdade, comprou a Mina Encardideira, que se transformou em uma das mais produtivas da região. Foi assim que Chico Rei retomou a majestade: não apenas se enriquecendo, mas usando todo o ouro que adquiria para libertar outros escravos. Parte da sua riqueza, ele teria usado para financiar a construção da Igreja de Santa Efigênia.

Em honra a Nossa Senhora do Rosário.

Chico Rei também encontrou uma nova rainha, e os dois se tornaram devotos de Nossa Senhora do Rosário. Edificaram para ela uma igreja, fundaram uma irmandade e, claro, uma guarda de Congado — como muitas das que hoje se espalham pelo país, especialmente por Minas Gerais, onde, de acordo com levantamento preliminar do “Mapeamento das Congadas de Minas Gerais”, feito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), existem mais de mil grupos de congado.

Os grupos se apresentam em forma de cortejo.

Cor e ritmo nas ruas

Surgido nos tempos do Brasil Colônia (entre 1530 e 1850), o Congado é uma expressão de fé e devoção que ganhou o coração dos escravos que trabalhavam nas lavras de ouro em Minas Gerais. Mesmo com a Abolição da Escravatura, em 13 de maio de 1888, os grupos de Congado mantiveram vivo o ritual da salvação. E ainda hoje se apresentam sob a forma de cortejo, tendo basicamente cinco conjuntos rituais, com 36 pessoas.

Os cortejos de Congado perpetuam a tradição.

Uma mescla de tradições africanas e europeias, o Congado se manifesta em forma de cortejo que, por onde passa, deixa cor e música. Os integrantes exibem roupas coloridas, geralmente confeccionadas por membros dos grupos e enfeitadas com fitas em tons que representam o manto de Nossa Senhora. A música conserva raízes africanas, apesar de hoje já serem cantadas em português. São geralmente entoadas na companhia de violas, tambores ou caixas, pandeiros, reco-recos, agogôs, triângulos, chocalhos, zabumbas e um apito — este último empunhado pelo primeiro-capitão, que determina o início e o fim de cada canção.

Os integrantes protegem o rei e a rainha congos.

Além do primeiro-capitão, o cortejo é formado pelos alferes da bandeira, que vão sempre à frente, levando o estandarte de Nossa Senhora e abrindo o caminho do batalhão. Os alferes dividem as primeiras fileiras com o príncipe, a princesa e a madrinha do estandarte. Protegidos por todos os integrantes, estão o rei e a rainha congos. Há, ainda, o mestre, que é um estudioso do congado; o contramestre, que auxilia o mestre; o capitão-regente, que organiza a orquestra; os juízes, que, por sua vez, disciplinam todo o batalhão; e os marinheiros, que tocam, dançam e compõem o batalhão.

A força de uma tradição que se renova.

Cada um leva seu adereço. A espada representa a defesa e abre caminho, enquanto os tambores são a voz do louvor e os instrumentos de comunicação entre os integrantes e Nossa Senhora do Rosário. A coroa, por sua vez, evidencia a soberania de Nossa Senhora e é também, ao lado do rosário, da espada e dos tambores, um instrumento de defesa. Tudo é feito para louvar: as fitas, os espelhos e adereços aludem, principalmente em suas cores, à santa adorada.

Rosário sagrado

No meio de todo esse ritual, destaca-se o Rosário, oração que consiste na recitação de 150 Ave-Marias, intercaladas por Pai-Nossos. O primeiro terço do rosário é dedicado aos mistérios gozozos, que falam de alegres passagens da Bíblia, entre eles, o nascimento de Cristo. O segundo terço é destinado aos mistérios dolorosos, da agonia à crucificação. E o terceiro, aos mistérios gloriosos, da ressurreição de Cristo à coroação de Maria como rainha do céu. Não se conhece bem a origem dessa devoção, mas acredita-se que Nossa Senhora teria aparecido para o espanhol São Domingos Gusmão com um rosário nas mãos. Logo em seguida, São Domingos fundou, em 1215, a Ordem dos Pregadores e, até hoje, os dominicanos ostentam um rosário em sua cinta.

Ritmo, música, dança e fé.

A propagação da prática pela igreja católica, por sua vez, tem origem nos chamados “Reis Católicos” — Fernando e Isabel —, que expulsaram da Espanha os mulçumanos invasores, no final do século XV, o mesmo acontecendo em Portugal. No entanto, tempos depois, novo perigo abateu-se sobre o Sudeste da Europa e a Europa Central. Assim, formou-se uma forte aliança entre países católicos, culminando, em 7 de outubro de 1571, na Batalha de Lepanto, no estreito que comunica o Mar Jônico com o Golfo de Corinto, entre turcos e cristãos. Conta a história que, antes dessa batalha, os cristãos rezaram o santo Rosário, sendo atribuída à prece a vitória que alcançaram sobre um poderoso inimigo.

Seja qual for a origem, os cortejos de Congado perpetuam a tradição e seguem pelas ruas de Minas Gerais em cantos de devoção e agradecimento àquela que escolheram como rainha: Nossa Senhora do Rosário. Uma das danças é emblemática para simbolizar essa devoção, a manguaras, que representa a batalha em defesa de Nossa Senhora. Com muita destreza e habilidade, os dançantes empunham varas, que batem umas nas outras, seguindo a marcação rigorosa do tempo e do ritmo das músicas. Louvor alegre, como não poderia deixar de ser em Minas Gerais.