As luzes visíveis e invisíveis do Brasil

O fotógrafo Valdemir Cunha viaja pelas regiões mais remotas do país para mostrar todas as imagens do Brasil e contar as histórias ocultas da nossa gente por meio dos rostos anônimos de tantos brasileiros.

Por Natália Martino

A casa era longe de tudo. Foi preciso um misto de avião, carro, barco e caminhada para chegar até lá. O cenário, sem dúvida, gratificante: a Floresta Amazônica exuberante, preservada pelos moradores da Reserva Extrativista Chico Mendes, no Acre. A chegada do fotógrafo Valdemir Cunha à choupana levou consigo algumas novidades. No celular, um pequeno vídeo de férias apresentou o mar às cinco crianças da casa. O brilho dos olhos admirados só aumentou quando seus ouvidos escutaram “Trem Caipira”, de Villa Lobos. “Ouviram a música muitas vezes até a bateria do celular acabar”, conta Valdemir. Na casa sem luz elétrica, porém, o fotógrafo garante que aprendeu mais do que ensinou. “A comida feita naquela noite, a medicina tradicional, a forma de vida daquelas pessoas, tudo é muito enriquecedor”, diz. São esses tesouros escondidos pelo interior do Brasil que Valdemir Cunha vai buscar, e fotografar, em suas viagens.

“Brasil Invisível”

Suas fotos, sempre emolduradas por esplendorosas paisagens naturais, são recheadas com personagens tão surpreendentes quanto anônimos. Ao jogar luz sobre os moradores de regiões inóspitas, o fotógrafo pretende, como ele mesmo diz, “apresentar o Brasil ao Brasil”. Sua obra que mais coroa esse esforço é o livro “Brasil Invisível”, lançado em 2012. Em 240 páginas, fotos em preto e branco apresentam personagens improváveis que ele encontrou em suas viagens. Eles vêm de toda parte, afinal, como o Valdemir destaca, população isolada não é apenas aquela no interior da Amazônia. “São José dos Ausentes está a poucas horas de Porto Alegre, mas tem uma comunidade onde não há nem luz elétrica”, cita o fotógrafo. Por isso, seus livros contemplam todas as regiões do país. Está lá, por exemplo, o Manuel dos Santos, lá de São Bento do Sapucaí, em São Paulo, tropeiro que segue até hoje levando em mulas as mercadorias para onde os carros não chegam — divide o tempo entre o trabalho, cada vez mais escasso, e os desfiles com a tropa, que já lhe rendeu muitos troféus.

Brasil Natural

Tem também o cacique Kunibu, lá de Rondônia, que segue por ali com medo de homem branco e fazendo benzimentos pra soprar para longe os espíritos ruins toda vez que chega gente nova na aldeia. Mineiro também tem. Ali bem no norte, naquela parte do Estado que o povo da capital só vê pela televisão quando a seca aperta, no município de São Francisco, ele achou Anísia Macedo. Dela pouca gente já tinha ouvido falar, mas o pai dela, esse sim era famoso. Está lá, eternizado por Guimarães Rosa em um dos seus mais célebres livros, Grande Sertão: Veredas. Era Antônio Dó, jagunço impiedoso que andou por aquelas terras tirando a vida de quem lhe conviesse. Mas Anísia é diferente: anônima, traz à vida crianças. Em uma região ainda não descoberta pelos médicos, 62 bebês já nasceram pelas mãos da parteira. “Ela redime o pai fazendo o oposto do que ele fazia”, conta Valdemir.

Essas pessoas são, para o fotógrafo, a essência do povo brasileiro. Elas estão em todos os 13 livros publicados por ele. Engana-se quem pensa que títulos como “Brasil Natural”, com imagens das sete regiões brasileiras mais belas na concepção do fotógrafo, e o recém-lançado “Brasil Litoral”, com seleção semelhante na costa do país, não tratam de pessoas. “Não sou fotógrafo de natureza. Uma imagem de um chão rachado pela seca ou de um barco no meio do mar são maneiras de falar sobre a forma de vida de quem mora por ali”, conta. Ao visitar as páginas sobre o Pantanal do livro “Brasil Natural”, por exemplo, estão lá fotos das águas que tomam conta do lugar durante metade do ano, mas também estão registrados os homens pantaneiros, que, aliás, serão tema de um novo livro do fotógrafo em breve. Nas linhas sobre o lugar, escritas pelo jornalista Xavier Bartabutu, parceiro de Valdemir, informações sobre os moradores, seus hábitos, suas dificuldades, suas peculiaridades.

Onde tudo começou

O Pantanal merece um capítulo à parte na vida de Valdemir Cunha. Ele não esconde sua paixão pela região, que considera a mais bela do Brasil. Um dos seus livros é apenas sobre essas terras onde a água controla o ritmo da vida. Foi ali que sua carreira ganhou impulso, quando fotografou, em 1992, ao lado do consagrado diretor de televisão e cinema Jayme Monjardim. Àquela época, Monjardim tinha conquistado seu lugar sob os holofotes com a novela Pantanal, exibida pela Rede Manchete, e tinha sido contratado para fazer estudos de locação para uma série francesa. Convidou Valdemir para acompanhá-lo na missão ao ver as imagens que o fotógrafo produziu dos cavalos do diretor — fotografar esses animais para revistas e concursos foi o trabalho para o qual Valdemir se dedicou no início da carreira. “Nem sei como ele me convidou, eu era ainda muito iniciante. Quando o via entrando no rio cheio de jacaré, eu até entrava atrás, mas ficava assustado”, diz Valdemir rindo da inocência dos primeiros tempos.

Dali em diante, foi uma carreira em ascensão. “O trabalho com o Jayme me tornou conhecido”, conta Valdemir. As fotos do Pantanal renderam uma matéria na recém-criada revista Caminhos da Terra. A partir de então, publicou vários outros ensaios na revista, da qual acabou se tornando editor de fotografia. Foi assim que ele acabou rodando 80 países no mundo. “Era o paraíso. Eu fazia as pautas, então decidia para onde viajaria e com que jornalista. Mas eu sabia que aquilo não duraria para sempre”, diz. Valdemir foi o diretor de fotografia da revista até o título ser extinto, em 2008, e já durante os mais de 15 anos de trabalho à frente da publicação, observava o modelo de negócios de fotógrafos consagrados, como Araquém Alcântara. “Ele fazia um trabalho de documentação consistente e os livros eram incríveis”, diz Valdemir sobre o trabalho de Alcântara, que tinha publicações sobre regiões, povos e animais brasileiros que poucos conheciam.

Ao mesmo tempo, Valdemir rodava o mundo e percebia que o Brasil, aos poucos, virava moda. “A economia do país melhorava com o Plano Real e, lá fora, as pessoas usavam a camisa da seleção brasileira e bebiam caipirinha. Eu pensava: o Brasil vai pegar”, conta. De acordo com o fotógrafo, desde esse momento ele pretendia juntar as duas coisas, o modelo de negócios baseado na publicação de livros com o mercado ávido por produções brasileiras. A editora em que trabalhava, porém, achava que a proposta não seria lucrativa. Por isso, Valdemir fundou, em 2001, a Editora Origem. Por oito anos, ele trabalhou paralelamente na empresa recém-criada, na revista Caminhos da Terra e, ainda, tirava férias para produzir livros sob encomenda. Até que conseguiu, com o fim da revista, viver exclusivamente dos seus projetos pessoais e de eventuais trabalhos como freelancer. “Meu principal produto hoje é o Brasil, que é, na minha opinião, o país mais bonito do mundo e agrega valor a qualquer marca”, diz.

O sonho que vira realidade

Viver dos seus projetos pessoais, um sonho para muitos fotógrafos, que ele transformou em realidade. Com patrocinadores de peso, como Merceds-Benz e ThyssenKrupp , Valdemir se utiliza de leis de incentivo à cultura para dar vida aos seus projetos. Ele chama de mito a afirmação de que é mais difícil captar dinheiro com patrocinadores no primeiro projeto e afirma que a dificuldade, normalmente, está na falta de consistência do projeto. “Não estou falando de ter ou não boas fotos, estou falando de projeto. Fotos da Estrada Real, um monte de gente tem, mas quem tem um projeto que organize essas imagens?”, diz o fotógrafo. Ele está agora preparando o livro “Brasil Interior”, uma continuação da série que já conta com “Brasil Natural” e “Brasil Litoral”, no qual vai percorrer, entre outras regiões do país, a Estrada Real entre Diamantina e Tiradentes.

Para quem gostaria de seguir o modelo, Valdemir dá, ainda, outra dica: “nunca chego a uma reunião com apenas um projeto”. Ele conta que, apesar de já ter experiência no mercado, ainda é difícil marcar encontros com potenciais patrocinadores, então é preciso aproveitá-las bem. Assim, o fotógrafo leva uma série de projetos e os apresenta à medida em que entende as necessidades e interesses da empresa. “O livro ‘Brasil Invisível’ era difícil de ser vendido, mas vi que a Mercedes queria apresentar aos alemães o país no qual estavam investindo, então aproveitei a oportunidade”, explica. Alguns de seus livros são, ainda, acompanhados de outros serviços, como oficinas de fotografia em escolas, contrapartidas importantes para muitos patrocinadores.

Seguindo esse modelo, Valdemir promete trazer para o mercado muitas obras que desvendem mais o Brasil. Atualmente, trabalha não apenas no “Brasil Interior”, mas também em uma publicação sobre a imigração alemã no país e outra sobre as populações que vivem às margens do rio Tietê. Tem um carinho especial por Minas Gerais, “a amálgama de tudo, o coração do país, onde índios, negros e portugueses mais se misturaram e acabaram formando a essência do povo brasileiro”, e o Estado deve ser alvo de outros trabalhos futuros. Muitos projetos ainda estão na gaveta, prontos para surpreender os amantes da fotografia. Falta apenas conseguir patrocinadores. Tratando-se de Valdemir Cunha, é só uma questão de tempo.