Luzes e sombras da alma

O psicanalista Eduardo Gontijo descobriu na fotografia uma forma de expressar o seu enorme interesse pelo ser humano.

Por Rita de Podestá

O currículo é extenso. Eduardo Dias Gontijo, mineiro de Montes Claros, graduou-se em Psicologia na UFMG em 1975. É professor da UFMG desde 1976. Em 1980, doutorou-se em Psicologia pela USIU, San Diego Campus, nos EUA. Realizou seu pós-doutorado em Ética no ano 2000, na Pontifícia Universidade de Comillas, em Madrid. É autor de vários artigos sobre filosofia e psicanálise e exerce clínica particular desde 1976. Não acaba por aí. Após toda essa trajetória Eduardo Gontijo, o Edu,  descobriu a vocação e o gosto também pela fotografia. Como aconteceu com tudo o que se dedicou a fazer, tornou-se um mestre, ou melhor, um doutor das lentes.

Conversar com Edu, mesmo que na sala de estar da sua casa, nos faz sentir em uma sala de aula. Sua voz baixa e tranquila carrega muitas vezes um ensinamento ou uma frase que nos instiga a refletir. Assim como suas fotos. Impossível não contemplá-las como se fossem janelas que nos presenteiam com uma vista estonteante.

A paixão pela fotografia veio do interesse precoce pela arte. Sua mãe é uma das principais responsáveis. Apaixonada por belas artes, mesmo não tendo a oportunidade de dedicar exclusivamente ao ofício, tinha talento para a pintura e dava aulas. O então tímido estudante, ainda em idade escolar, acompanhava curioso as aulas de pintura e desenho da mãe, no tempo em que morava na cidade de Rio do Sul, em Santa Catarina. Ele conta que outro responsável por despertar interesses maiores foi o italiano Caravaggio — encantou-se de imediato ao ter contato com a obra do pintor. Depois vieram as paixões por retratos e obras renascentistas.

Também foi a mãe que o aproximou da fotografia ao montar uma pequena sala de revelação em casa. Edu reflete sobre como o processo de revelar imagens — hoje computadorizado — era antes um exercício do olhar e das mãos. “Eu a acompanhava na revelação. A gente brincava com o jogo de luzes e sombras e as modificações das fotos. O que fazemos hoje com Photoshop, num certo sentido, já fazíamos naquela época no processo de revelação.”

Sensibilidade e técnica

O gosto era mesmo pela pintura. O hoje nada tímido Eduardo conta que dos 10 anos, quando veio para Belo Horizonte, até à maturidade dos 18, dividia sua paixão entre desenho e filosofia. “A fotografia não era meu forte, meu forte era desenho. E eu tinha uma paixão por retratos. Me dediquei muito tempo a retratos.” A dúvida na hora do fazer o vestibular estava, a princípio, entre cursar filosofia ou belas artes. Porém, na época, nascia uma nova paixão, a psicologia. Depois de ingressar na universidade, Edu conta que tornou-se obsessivo por estudos. Durante muitos anos o desenho foi deixado em espera. O resultado seria o retorno à arte por intermédio das câmeras, porém acompanhado de um senso estético e de uma relação intelectualizada com a arte. Com o tempo, o psicanalista descobriu na fotografia uma nova maneira de expressar seu enorme interesse pelo ser humano.

“Comecei a tentar retomar o desenho e fiquei meio frustrado, não conseguia fazer um retrato como antes. Minha paixão sempre foi o retrato — com os matizes de luz e sombra das pinturas renascentistas. Comecei a sublimar minha paixão pelo retrato por meio da fotografia — que é, ao mesmo tempo, a paixão pela figura humana. Essa busca de entender as coisas humanas. Antropologia, psicologia, sociologia … andei percorrendo tudo isso.”

Em 2007, após uma viagem para os Estados Unidos com a posse de uma pequena máquina portátil, Eduardo adquiriu “por impulso” a sua primeira câmera profissional. A partir desta compra, surgia nele um novo desejo: o de possuir equipamentos fotográficos —   hoje ele conta com vários equipamentos no seu acervo particular, entre câmeras e lentes. Porém, a fotografia também se transformou em um novo foco de estudos. “Como sou muito obsessivo, resolvi estudar muito e acabei apurando a técnica rapidamente. Hoje, me considero um aprendiz, tem muito pouco tempo que fotografo. Tenho estudado muito, procuro vincular a fotografia com a arte,  especialmente a arte renascentista. Busco inspiração em livros, principalmente sobre como os artistas do renascimento criavam a composição das imagens. Procuro buscar a luz que os pintores usavam e tento me adequar com muito cuidado em compor a imagem.” Não há dúvida de que o fotógrafo produz fotos dignas de serem emolduradas como obras de arte.

Retratos com alma

Com o novo ofício da fotografia, Edu passou a viajar, sempre carregando as câmeras e os seus vários equipamentos. Surgia o interesse pelas fotos de natureza. Em Minas Gerais, ele destaca a Serra do Cipó como um belo cenário pelas lindas paisagens tipicamente mineiras, além de um outro ponto da Serra do Espinhaço, no norte de Minas, onde o pai tem uma fazenda. São só dois exemplos próximos, mas o desejo de clicar paisagens exuberantes é proporcional ao desejo do fotógrafo de viajar sempre, literalmente. As fotos criadas em seus passeios fotográficos são imagens incríveis que confundem o nosso olhar — como se a realidade ali retratada tivesse feito uma pose exclusiva para suas lentes.

O jogo de sombra e luz impressiona. Algumas fotos nos mostram o poder das lentes de parar as águas, outras o de capturar o movimento das estrelas. Nos retratos o que chama a atenção é mesmo a sensibilidade do fotógrafo, como se houvesse uma conversa entre a câmera e o modelo, porém uma conversa silenciosa e calma. “Gosto de retratos que tem alma”, afirma. “Eu prefiro as fotos de pessoas simples e humildes do que trabalhos em estúdios”, completa. Nas fotos que Edu fez do pai, é nítida a influência da  arte renascentista no seu olhar: o jogo de cores, elementos secundários obscuros e um manejo da luz que permitem criar distâncias e volumes. Seu pai também o influenciou muito. Analfabeto até os 15 anos, aprendeu a ler e nunca mais parou. Apaixonado por livros influenciou o filho no gosto por estudos e, certamente, na perseverança.

A técnica do olhar e da captura perfeita da imagem é a uma sensação que nos envolve ao observar as fotografias de Eduardo Gontijo. É um  processo que busca a demonstração da arte no realismo inevitável da fotografia —desde o seu interesse pelo retrato até a sua capacidade de escolher os objetos/sujeitos que irão se destacar em suas fotos de natureza. Com os equipamentos, Edu encontra os detalhes assombrosos que a mão de um pintor, por exemplo, daria a sua preferência. E como uma pintura, suas fotos são trabalhadas com excesso no processo de captura, de forma que o seu trabalho no tratamento das imagens não precisa ser tão elaborado.

A educação do olhar

Entretanto, as artes se misturam e completam-se. A fotografia revelou a veracidade da imagem e provocou uma reflexão que se estendeu para outros segmentos artísticos, literários e intelectuais. Edu acredita na educação do olhar do fotógrafo por meio do intercâmbio e do consumo de outros campos teóricos e práticos. “O olhar é aprendido. Se aprende frequentando arte. Mesmo alguém que não tenha talento. Eu não acredito em talento, acredito em esforço. É algo educado com estudo, literatura, poesia, livros de artes, filosofia.”

Sua fala e fotos refletem sobre a compreensão da arte como uma ponte para mantermos uma relação autêntica com a realidade. Afinal, antes de se realizar um quadro ou fotografia de uma noite de lua cheia, é preciso parar um momento e admirar a lua. “A fotografia educa nosso olhar. A gente passa a olhar a realidade com mais amor. A contemplação estética é uma forma de você não ter uma relação apenas instrumental com a realidade.”

E como quase tudo na vida, é preciso paixão e dedicação. O que o psicanalista e fotógrafo Eduardo Gontijo tem de sobra. “Como eu poderia ouvir bem o ser humano se eu não tenho uma certa paixão por aquilo que é humano? A educação estética modifica o nosso trato com a realidade, daí o sentido do trabalho artístico: chamar atenção das pessoas para a sua beleza. A arte é uma educação do sentimento.”

Seu trabalho é um diálogo constante com o ser humano e seu entorno. Já a lição da aula que fica é a de que precisamos transitar atentos entre as artes e humanidades para nos entendemos melhor, assim como ao outro. Como conclui sabiamente o doutor das lentes: “Tudo o que fazemos devemos fazê-lo por duas razões: para dar sentido ao que somos e fazemos, e para promover a liberdade para si e para os outros.”