No rastro da luz

Paisagens estonteantes e registros de imagens tecnicamente impecáveis são os maiores aliados de Cristiano Xavier, um dentista que descobriu na fotografia a sua vocação maior.

Por Juliana Afonso

A luz perfeita. Isso é tudo que uma boa foto precisa. Só com a luz perfeita se produz imagens verdadeiramente impactantes. Mas para identificar a melhor luz de cada paisagem é preciso olhar clínico e técnicas apuradas. Duas características que Cristiano Xavier tem de sobra.

Sem elas seria impossível fotografar as lindas árvores do sertão mineiro, secas e  retorcidas, iluminadas pelo brilho da lua que preenche o céu escuro. Ou os movimentos daquele simples senhor de chapéu marrom, que faz rapadura a moda antiga. Ou mesmo as curvas das dunas de areia dos lençóis maranhenses, feitos e refeitos todos os dias pelo vento. Todas essas imagens, primorosamente captadas pelas lentes de Cristiano, fazem parte do seu portfólio, cuidadosamente construído com talento — e com a paciência que cada instante exige para buscar a melhor foto.

Paixão pelas lentes

Cristiano, dentista de formação, aprendeu a lição cedo, antes mesmo de começar a carreira no mundo da fotografia. “Sempre fui ligado à natureza, busco me conectar com ela. Viajava para o meio do mato quase todo fim de semana”, conta. Em uma dessas viagens, ele decidiu levar a câmera consigo. Ele havia comprado o equipamento, ainda na época do curso de Odontologia, para registrar casos clínicos dos seus pacientes O lazer virou coisa séria. Após a graduação, em 1996, Cristiano fez as malas e foi para os Estados Unidos estudar a arte da fotografia por seis meses. “Foi onde eu consegui entrar em contato com a fotografia americana de natureza e ver os trabalhos de grandes mestres, como Ansel Adams (um extraordinário fotógrafo americano, especializado em natureza, falecido em 1984). Essa foi a fonte que eu bebi”, conta, sobre quem o inspirou de verdade.

Ao voltar para o Brasil, Cristiano seguia dividido: passava meio horário no consultório de odontologia e meio horário como fotógrafo, entre trabalhos autorais e publicitários. Seu nome se tornava a cada dia mais conhecido e as suas fotos eram expostas em galerias com maior frequência até ele conseguir se sustentar com a sua arte. “Hoje eu trabalho com fotografia autoral de natureza destinada para galerias e também com workshops”, afirma. Um trabalho mais que especial. Com ele, Cristiano teve a oportunidade de visitar maravilhas como o deserto do Atacama, os lençóis maranhenses e os altiplanos bolivianos.

Marca registrada

“Não me considero um fotógrafo de natureza, mas sim um fotógrafo que encontra na natureza a sua matéria prima”. Ver beleza no trivial e se identificar com ela. É isso que Cristiano busca nas suas imagens. “Não precisa ser o macaco da cara roxa, pode ser um pardal, pode ser uma folha no chão. Se ela tem uma luz bonita e uma boa composição, essa é a minha foto”, explica. Ele conta que certa vez, em uma leitura de portfólio com a curadora fotográfica Rosely Nagawaka, ela disse que as imagens eram impecavelmente perfeitas em termos técnicos. ‘Isso é o resquício do dentista que tem em você’.  

A identidade de Cristiano está presente não só no cuidado técnico que trabalha cada imagem como também na maneira que prefere apresentar as suas obras. “A exposição é a melhor forma de mostrar o meu trabalho. É o quadro grande, na parede, bem iluminado. Sou apaixonado por isso. Os meus produtos finais são mesmo as obras”, afirma.

A preferência não impede que ele desenvolva outros trabalhos. O mais recente, ainda em processo de produção, é feito com uma câmera de grande formato, uma 4×5. As fotos, em preto e branco com filme negativo, trazem imagens de natureza, mas uma natureza produzida em estúdio.

Apesar das facilidades que o digital trouxe, ele é da teoria de que o analógico jamais perderá seu espaço. “A gente não sabe o que vai sair até a revelação ser feita. Por isso que o filme dá essa onda de medir e focar milimetricamente, de esperar uma hora até clicar”, diz eufórico.

Linguagem fotográfica

Mudar o material com o qual as imagens são capturadas é só uma das maneiras de mudar a linguagem da fotografia. Outra possibilidade é mudar a estética. Mas é preciso estar atento à técnica. Sempre. “A fotografia contemporânea permite muita coisa, mas nem tudo é bom”, pontua Cristiano. Para ele, existem vários trabalhos com uma linha de pensamento sólida, mas também tem muita gente por aí que dispara para todos os lados e copia ideias originais sem nunca conseguir criar a própria identidade.

O desenvolvimento vem com o tempo, claro. Cristiano Xaxier, em 15 anos de carreira, sabe o que gosta de fazer e  como encontrar aquilo que procura. “É preciso estudar o local para saber o momento do ano em que luz é mais bonita. Depois é voltar ao lugar, planejar a locação, entender o instante da melhor foto e ajustar a câmera”, descreve. Esse trabalho, aliado ao estudo minucioso das técnicas fotográficas, garante os melhores resultados.

São esses resultados que levam muitos amadores, profissionais e entusiastas da fotografia a participar dos workshops que Cristiano promove. Ele admite ter uma veia didática muito boa e que realizar a atividade era um desejo antigo. “A ideia é levar as pessoas para locais exóticos e muito bonitos, mas é preciso que eles visualizem o local com a luz certa”, explica. Essa preocupação faz com que os seus alunos ganhem um olhar profissional, ao invés do olhar de um simples turista.

A experiência vai além do apontar a câmera e fazer a foto. Acordar de madrugada, ir até o local, montar o equipamento e esperar horas para o melhor clique proporciona uma conexão com a natureza. “É cansativo, realmente, mas a recompensa vale a pena. Quando a luz que você espera chega, a paisagem se transforma e você vê que o valeu a pena tanto esforço”.

Fotogenia mineira

Cristiano não titubeia para responder onde estão as luzes mais fantásticas: “As luzes de altas latitudes — ou muito ao sul ou muito ao norte — são incríveis. A Patagônia, por exemplo, tem uma luz maravilhosa, pois o sol é baixo no horizonte. Quanto mais baixo o sol, mais tempo essa luz rende”, explica. Ele também cita a luz dos altiplanos bolivianos, onde se está a mais de quatro mil metros de altitude. O nascer e o por do sol por aquelas bandas são verdadeiros espetáculos.

Mas uma paisagem está gravada na sua memória. “As luzes dos cânions de Utah, no Arizona, são de uma beleza sem igual. Aqueles enormes e estreitos paredões foram cortados pela água durante milhões de anos. A luz só penetra em uma hora conhecida como “ruim” pelos fotógrafos, que é por volta de meio-dia. Mas no momento em que isso acontece, ela rebate nas paredes e cria uma luz vermelha muito forte. É uma luz maravilhosa”. A descrição minuciosa quase nos carrega até lá.

Mas não é preciso ir tão longe para captar belas paisagens. Minas Gerais foi o anteparo das suas lentes por muitos e muitos anos. As grandes cachoeiras e as curvas das montanhas são alguns dos cenários que compõem cerca de 90% do seu arquivo fotográfico. Lembrar da beleza mineira é como reviver o início da sua paixão pela arte da fotografia. “Minas é muito fotogênica, mas eu sou apaixonado mesmo é pelo sertão do estado e suas árvores tortuosas. Aquilo é o quintal da minha casa. Eu frequentei esses locais insistentemente durante muitos anos. É onde me apaixonei pelo céu estrelado e o luar do sertão”.