A diferença como semelhança

Gustavo Lacerda é muito mais do que um fotógrafo, é um visionário. Mineiro — filho de uma mineira e de um pernambucano —, o fotógrafo, que vive há cerca de 10 anos em São Paulo, escolheu um caminho autêntico e diferenciado na sua forma de enxergar por meio das lentes. 

Por Rita de Podestá
Fotos Gustavo Lacerda

 

O fotógrafo Gustavo Lacerda diz que o seu  trabalho é uma soma entre fé e persistência,  que aprendeu com a mãe, e do gosto pela arte, legado do pai. As fotografias por ele assinadas ultrapassam o mero conceito técnico da captura e tornam-se imagens quase que fictícias pela beleza e pela intensidade. Foi com a ajuda da mãe que Gustavo comprou sua primeira câmera, numa época em que elas eram adquiridas usadas, mas o pagamento tinha que ser efetuado em dólar.

Seu primeiro ensaio, realizado em 1991, foi uma série de retratos produzida em um hospital psiquiátrico — trabalho “de um olhar ainda imaturo”, mas que, para ele,  foi um marco na decisão de se tornar um fotógrafo profissional.

Logo veio o reconhecimento por meio de prêmios. Após mudar-se para São Paulo no ano 2000 e trabalhar com fotógrafos como Bruno Cals, Mauricio Nahas e Paulo Vainer, Gustavo consolidou-se na arte da fotografia, alternando trabalhos publicitários e ensaios autorais. Em 2002, ganhou a Medalha de Ouro no New York Festival pela agência de publicidade Neogama. Já em 2004, foi Medalha de Prata no D&AD Global Awards de Londres, pela agência Ogilvy & Mather.

O importante prêmio da Fundação Conrado Wessel de Arte, foi conquistado por três anos consecutivos, 2005, 2006 e 2007. Nesse último ano o fotógrafo percorreu dois mil quilômetros em busca da cidade de Betânia, até então um nome imaginário nas memórias de sua família. Localizada no sertão de Pernambuco, de onde seu pai partiu para o Sudeste, foi lá onde Gustavo realizou o ensaio Betânia e (re)viveu o que para ele eram apenas histórias familiares. “Na minha infância, Betânia era apenas uma placa de carro pendurada na parede do consultório do meu pai. Depois compreendi que também era o lugar das estórias de Lampião contadas pelo meu avô, além de ser, principalmente, o que provocava o silêncio do meu pai.”

Após essa experiência, ele teve um projeto, criado em parceria com o artista David Charles, exposto na Nucleus Gallery em 2007 na Califórnia e publicado no livro Grafuck, uma coletânea internacional de arte erótica.

Mas foi em 2009 que Gustavo fez um dos seus trabalhos autorais mais significativos: o ensaio Albinos. O fotógrafo consolidou o seu olhar para a diferença como semelhança. Ele escolheu explorar a delicadeza e a leveza que esbanjam as pessoas albinas. O albinismo, do termo em latim albus, “branco”, é um distúrbio congênito caracterizado pela ausência completa ou parcial de pigmento na pele, cabelos e olhos, devido à ausência de uma enzima envolvida na produção de melanina. Não é uma característica apenas humana, mas que pode ocorrer em todo o reino animal. O branco predomina como se iluminasse. E ao mesmo que remete suavidade e paz, expressa muita força e personalidade.

Sobre o ensaio, Gustavo argumenta que a beleza singular dos albinos despertava sua  atenção, e que ao decidir estudá-los eles passaram a cruzar seu caminho com mais frequência. “Nunca encontrei tantos albinos como tenho visto ultimamente. Certamente sempre os vi, mas agora enxergo bem melhor, pelo jeito! (…) É engraçado que no início eu simplesmente achava a pele deles linda e queria explorar essa beleza, mas a coisa tomou uma proporção bem maior do que eu mesmo imaginava; as pessoas retratadas sentem uma satisfação tão grande como ‘modelos’ que isso me contagiou e deu, cada vez mais, força, leveza e espontaneidade ao trabalho.”

As imagens do ensaio dialogam com os cenários, muitas vezes com texturas que parecem se misturar com o modelo. Vestidos ou seminus, os Albinos ganham nesse jogo de luz e cores uma força que os colocam como personagens de um mundo ficcional no qual eles representam a maioria, como afirmou Gustavo em entrevista para o site Olhavê: “Nesse processo, tanto me envolvi com o assunto e os retratados que posso dizer que esse universo de representação, tão vivo nas imagens, deixou de ser apenas meu. Eu só conduzi e estimulei as pessoas a virem para frente da câmera e, a partir dali, o que elas representavam foi, em grande parte, a própria ‘ficção’ delas mesmas.”

O ensaio é muito claro na sua proposta. As imagens de fato provocam divagações. Porém, não é um trabalho de crítica social ou de inclusão. É um retrato da beleza, um compartilhamento de experiências. O ensaio Albinos enraizou-se na história da fotografia brasileira. Em 2010, entrou nas coleções Pirelli/Masp e Porto Seguro de Fotografia.

As imagens vão de delicadas a agressivas nas suas expressões. Gustavo Lacerda reforça que o trabalho não é documental e que fotografar quem nunca é fotografado “transforma a timidez e o estranhamento em poses e expressões espontâneas e singulares”. As fotos com gêmeos, por exemplo, leva o expectador a perceber as contradições entre os “semelhantes”, uma vez que as imagens desvelam a beleza duplicada em cada detalhe. Essas imagens não revelam apenas semelhanças, mas também as sutis e ao mesmo tempo profundas diferenças entre os personagens. O trabalho de Gustavo não só encanta como convida à reflexão. A sua arte mostra que saber o que é belo é apenas uma questão de saber para onde olhar.