Fragmentos sobre relatos de viagem, imagens e memória

Por Júlia Castro

 

Viajar é um termo aberto. O verbo viajar conduz; a viagem sugere um percurso íntimo.

Viajar é sempre uma escolha. A viagem é uma criação ou composição que se equilibra no desejo, nos sonhos e na memória.

Em todo relato de viagem, há um forte apelo imaginativo e criativo.

Ao relatar (narrar), o viajante estrutura a sua experiência em um processo que envolve algum tipo de tradução para recriar aquilo que foi vivenciado.

Para narrar (relatar) é preciso criatividade e imaginação para reinventar situações, fabricar imagens, selecionar os fatos de destaque da viagem, encadeando-os em uma sequência que pareça ser coerente para o leitor/ouvinte imaginário.

Relatar (narrar) é criar uma história, que, muitas vezes, pode estar o mais perto possível da “verdade” de um evento, como, por exemplo, mais próximo do ocorrido durante uma viagem.

É certo que o viajante que relata recorre sempre à sua memória. Sobre a memória, bem sabemos que não há precisão, linearidade ou continuidade das quais um viajante possa se servir para representar o que viveu. Isso seria impossível: uma memória plena, absoluta e que conservasse todos os detalhes.

A memória — faculdade vizinha da imaginação, sentido interno, arquivo de imagens — é parceira dos viajantes-narradores.

No entanto, a memória que ajuda a compor os relatos de viagem, é uma memória diferente da memória do hábito ou do cotidiano, aquela memória orgânica, que nos permite lembrar nossa língua, os movimentos corporais cotidianos, os gestos mecânicos.

Ao relatar (narrar) uma viagem, a memória que entra em questão é outra. Um viajante que relata ativa sua memória conscientemente, ou seja, põe em ação uma memória a partir da qual ele emerge como sujeito de sua própria história.

Nesse processo, a memória atua plenamente, criando e selecionando imagens que são fabricadas e conectadas junto a sensações, sentimentos, afetos, medos e desejos. Sua principal característica, além da seletividade, é a criatividade que permite produzir, organizar, desdobrar e reter imagens.

Assim, um viajante estimulado a narrar transforma em texto as imagens da memória: imagens-síntese ou imagens em movimento. Para compor seu relato, conta com as imagens da memória e com imagens cuja referência não deriva, exclusivamente, da vivência de uma viagem.

Relatar seria, então, uma maneira de imaginar realidades outras.

A escrita de um relato — e, mais amplamente, a própria publicação do mesmo — é uma marca que preserva os relatos de viagem.

Os relatos se conectam e produzem uma rede de significados organizada a partir da linguagem oral ou escrita, em um movimento que vai do “real” ao imaginário e vice-versa.

Não seria justamente o encontro entre fantasia e “realidade”, o trânsito entre história e ficção, o que nos encanta e nos estimula a ler as narrativas de viagem?

Júlia Castro pesquisa a ideia de viagem na literatura, desenvolvendo tese de doutorado em Geografia pela Universidade Federal de Minas Gerais. É colaboradora da Revista Sagarana desde 2009.

Viajar é sempre uma escolha. A viagem é uma criação ou composição que se equilibra no desejo, nos sonhos e na memória.

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