Patrimônio histórico ameaçado

Uma prece a Nossa Senhora

Simples por fora, sublime por dentro. Assim é a linda Igreja de Nossa Senhora do Ó, em Sabará, um dos mais preciosos exemplares do barroco português em todo o país. A construção sofre com uma série de problemas, que assusta moradores e turistas.

Reportagem Juliana Afonso
Fotos Eduardo Gontijo e Rogério Alves DiasPor fora, cascalho rude

 Por dentro, o mais valioso metal. Por fora, posta em modéstias; por dentro, esplendendo em belezas.
Sylvio de Vasconcelos

Nenhuma descrição seria tão perfeita para a Igreja de Nossa Senhora do Ó quanto a feita pelo arquiteto Sylvio de Vasconcelos no livro Minas: cidades barrocas. Ao comparar o templo com o ouro, ele consegue definir a força do monumento, que ainda hoje surpreende os turistas e enche de orgulho os moradores de Sabará.

A Igreja de Nossa Senhora do Ó, construída entre os anos de 1717 e 1720, é um dos exemplares mais preciosos da primeira fase do barroco em todo o Brasil. Esse é um dos motivos que fizeram com que o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) realizasse o tombamento dele, ainda no ano de 1938.

Apesar da relevância arquitetônica e histórica, a Igreja apresenta uma série de problemas. Os recentes inconvenientes, como inclinação do telhado e afundamento do piso, convivem com as infiltrações da parede e a infestação de cupins e formigas, situações antigas e igualmente preocupantes. Os problemas deixam os moradores apreensivos sobre o futuro do patrimônio.

Necessidade de reforma

É impossível entrar na Igreja de Nossa Senhora do Ó e não se surpreender com a riqueza do interior, com as paredes e teto revestidos por quadros seculares ou o altar-mor, inteiramente trabalhado e coberto por ouro. Quem visita o templo pela primeira vez aproveita para observar as minúcias, mas quem participa do cotidiano da Igreja está atento a outros detalhes. No final de setembro de 2015, o piso da lateral direita começou a ceder. Bastava pisar o chão para observar o afundamento do assoalho. Para se evitar problemas mais graves, os últimos três bancos de madeira da capela foram interditados, de modo a impedir que as pessoas pressionem ainda mais o local.

A coordenadora do inventário do patrimônio cultural da Arquidiocese de Belo Horizonte, Mônica Eustáquio, explica que, em construções antigas, o piso de madeira está assentado no solo por tábuas de barrote. “Os barrotes estragam com o tempo. Além disso, à medida que as pessoas pisam sobre a Igreja, o assoalho sofre pressão e cede”, diz. O ataque de cupins e formigas e mesmo o apodrecimento da madeira contribuem para o enfraquecimento da estrutura.

A Arquidiocese de Belo Horizonte, responsável por igrejas da capital mineira e de outras cidades históricas, dentre elas, a Igreja de Nossa Senhora do Ó, em Sabará, fez um encaminhamento para o Iphan. O ofício, enviado em caráter de urgência, continha o pedido de vistoria do piso e a posterior orientação a respeito das providências que precisam ser tomadas para impedir que o problema se agrave. Mônica afirma que não foi pedida orientação sobre outros problemas, pois é mais eficaz expor um único problema por vez.

Vistoria do Iphan

O Iphan realizou uma vistoria no dia 20 de outubro. Segundo os técnicos do Instituto, não foram encontrados problemas que colocassem o monumento em risco. “Existe a necessidade de reparos emergenciais em alguns elementos de madeira externos e internos na Igreja do Ó, como beirais e tabuados, e de substituição de algumas madeiras do piso e dos rodapés, mas nada que coloque em risco a segurança das pessoas que frequentam a Igreja”, informa a Assessoria de Comunicação da Superintendência do Iphan em Minas Gerais.

O laudo de vistoria mais detalhado será apresentado à Prefeitura Municipal de Sabará e ao Arcebispado de Belo Horizonte (proprietária do imóvel) para avaliação conjunta do estado de conservação da Igreja. Assim, será possível fundamentar os estudos para que se viabilizem possíveis parcerias para execução das obras que forem necessárias. O receio dos moradores é que, em caso de confirmação das intervenções, a Igreja seja fechada para reforma sem prazo de reabertura, em vez de a reforma acontecer de forma gradual, mas com as portas abertas.

Ainda segundo a Assessoria, a responsabilidade pela vistoria dos imóveis tombados é do Iphan, mas nada impede que o proprietário — no caso, a Mitra Arquidiocesana de Belo Horizonte —, como usuário do monumento, verifique periodicamente a situação do bem e execute serviços pontuais de manutenção do imóvel.

Apesar de o afundamento do assoalho ser a questão mais urgente, a lista de problemas encontrados na Igreja de Nossa Senhora do Ó é extensa. Ainda do lado de dentro, é possível notar a inclinação do monumento. A maior evidência está na comparação entre os frisos laterais das paredes: do lado esquerdo, ele está a uma distância de quatro dedos dos bancos. Do lado direito, porém, ele está rente ao mobiliário.

Fora de esquadro

Segundo contam os moradores de Sabará, a inclinação da Igreja teve início na década de 1920, quando um padre ordenou que abrissem uma porta e uma janela na parede do lado direito para melhorar a iluminação local. Com o tombamento da Igreja, as aberturas foram fechadas. Mônica Eustáquio afirma que as edificações antigas eram feitas fora de esquadro, ou seja, sem alinhamento. “A inclinação é uma característica dela. Falam que ela está torta e que vai cair porque não é reta. Isso não vai acontecer.”

O que ameaça cair mesmo é o telhado, do lado de fora da Igreja. Uma das hipóteses para o problema é que a água da chuva escorre pela rua à direita da Igreja e se infiltra na parede, afetando a construção, do assoalho ao telhado. Foram colocados, na rua, alguns cones para evitar que os pedestres se aproximem. Segundo Antônio Carlos Pereira, artesão e guia turístico, no mesmo local, já havia ocorrido problema semelhante: “há quatro anos, a prefeitura colocou uma fita amarela e preta no chão para ninguém passar, pois as telhas estavam caindo. Ficou daquele jeito por mais de uma semana e nada! Então, eu liguei para a imprensa, conversei com uma conhecida, amiga do promotor do Patrimônio Histórico de Minas, e o pessoal arrumou. Mas, mesmo assim, a gente vê que foi um serviço de péssima qualidade; já está tudo caindo novamente”.

Mônica confirma que a Igreja está com um recalque no beiral direito do telhado. O recalque, nos termos da engenharia e da arquitetura, ocorre quando uma edificação sofre rebaixamento devido ao adensamento do solo, o que pode causar rachaduras e, em casos mais extremos, desabamento. A coordenadora acredita que o problema tenha sido causado por alguma peça podre ou mesmo por cupins.

Infestação de insetos, como cupins e formigas, e infiltrações são problemas recorrentes que causam desgastes no monumento. Antônio relata que já viu pedaços de obras barrocas caírem no chão devido à corrosão causada por esses insetos, tanto na Igreja de Nossa Senhora do Ó quanto em outros templos do município, como a Igreja de Nossa Senhora do Carmo.

Cuidado constante

Do lado de fora, as paredes brancas de laterais marrons, com janelas e portas pintadas de azul-celeste, ao melhor estilo colonial, já encantam todos. Do lado de dentro, os painéis que retratam cenas da história católica, os altares recobertos de ouro, os santos esculpidos em madeira e as telas com influências asiáticas — as famosas “chinesices” — mostram a exuberância da Igreja de Nossa Senhora do Ó. As características do templo fazem com que ele seja reconhecido como um dos mais importantes exemplares da primeira fase do barroco em todo o Brasil. Motivo mais que suficiente para ser um patrimônio que requer acompanhamento e cuidados constantes.

Moradores reclamam que as pinturas pertencentes à Igreja estão escuras e que, se nada for feito, chegará o momento em que será difícil enxergar as obras de arte. A coordenadora do inventário do patrimônio cultural da Arquidiocese de Belo Horizonte, Mônica Eustáquio, afirma que é preciso entender que o processo de escurecimento das obras de arte é algo natural, devido às características dos próprios materiais, e que isso não coloca em risco a preservação da pintura. O processo de restauração só será feito se o escurecimento impedir a visibilidade das cenas. “A riqueza do patrimônio é o tempo que age sobre ele. Querer que tudo esteja sempre novo é um erro”, opina Mônica.

Ainda que o processo de envelhecimento das obras seja algo natural, é importante que as igrejas recebam um trabalho de prevenção. Limpeza simples e constante, com flanela seca, para impedir o acúmulo de poeira e outros resíduos, ajuda a retardar o desgaste das obras.

Reformas e restaurações

A Igreja de Nossa Senhora do Ó já passou por várias reformas e restaurações entre os anos de 1890 e 1901. A primeira aconteceu em 1944, quando o Iphan reparou a parte elétrica da capela. As pinturas da Igreja foram restauradas pela primeira vez em 1956, por Alberto da Veiga Guignard. Segundo informou a Assessoria de Comunicação do Instituto, em 1966, houve uma interferência negativa no entorno do imóvel, com a instalação de postes de energia elétrica na praça. Mas, em 1988, a iluminação externa da Igreja foi refeita, com embutimento subterrâneo das instalações.

Em 1991 e 1995, houve a recuperação dos bens móveis integrados (altares, forros e painéis) e, em 1996, a construção passou por reparos gerais. No período entre 1999 e 2001, foram realizadas obras de restauração na cobertura. As últimas intervenções ocorreram em 2001, quando o Iphan realizou uma obra de restauro que contemplou todos os elementos artísticos móveis (imagens, castiçais e objetos litúrgicos) e integrados da nave e capela-mor. De acordo com os dados de visita a campo realizada em 2003, o imóvel encontrava-se em bom estado de conservação.

A Igreja de Nossa Senhora do Ó de Sabará não integrou a lista de obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Cidades Históricas. Segundo informou a Assessoria de Comunicação do Iphan, essa escolha foi feita pelo então secretário municipal de cultura, Francisco Antônio Vieira, que, à época, era também presidente do Conselho Municipal de Patrimônio Cultural da cidade de Sabará. A reportagem entrou em contato com a atual Secretaria de Cultura de Sabará, mas, até o fechamento desta edição, não obteve resposta.

Tradições e rituais mantidos por gerações

Preservar a Igreja é mais que garantir a conservação de um patrimônio histórico. É assegurar a continuação de uma série de rituais que fazem parte da cultura local. Dentre esses rituais, está a novena para a Nossa Senhora da Expectação do Parto, santa aclamada pelas mulheres grávidas que rezam por um parto sem complicações.

Muitos não entendem como o templo, feito em homenagem a essa santa, agracia Nossa Senhora do Ó. A resposta é simples: a santa é a mesma. “Todo mês de dezembro é feita uma novena para ela, à espera do dia do nascimento de Cristo. As ladainhas que se rezam e se cantam usam a interjeição “oh”, como “Oh, Senhora do Ó. Oh, Senhora da Expectação”. Por isso, ela passou a ser chamada também de “Nossa Senhora do Ó”, conta o historiador José Arcanjo Bouzas, especialista em história da cultura mineira.

Além da novena para a santa, que termina no dia 20 de dezembro, é comum ver grávidas limpando a Igreja e a escadaria frente a ela. É uma das promessas comuns feitas por mulheres que esperam seus bebês, para que tenham uma gravidez tranquila e um parto sem complicações.

Outros eventos acontecem na Igreja, como missas, batizados, comunhões e casamentos. Foi nela que o artesão Antônio Carlos se casou. “Essa Igreja é minha paixão. Desde a primeira vez que eu entrei lá, eu falei: ‘um dia eu vou casar aqui’, e realmente aconteceu, na década de 1980”.

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