Entrevista
Breno de Mesquita 

Cafeicultor há 38 anos na Serra da Mantiqueira, no município de Santa Rita do Sapucaí, sul de Minas Gerais, Breno Pereira de Mesquita, 61 anos, é também

Presidente da Comissão Estadual de Café da FAEMG, diretor financeiro da instituição e  presidente da comissão nacional do café da CNA (Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil). Do alto de sua experiência no setor do agronegócio, além de credibilidade para tratar do tema, Mesquita analisa, nesta entrevista, a conjuntura da cafeicultura mineira e brasileira. Ele também fala sobre questões relacionadas à preservação ambiental e sobre o importante legado histórico construído pelos cafeicultores de Minas Gerais.

 

Podemos afirmar que direta e indiretamente a cafeicultura gera mais de oito milhões de postos de trabalho.

— Na atual conjuntura, como o senhor sintetiza a situação do mercado da cafeicultura?

O mercado do café  é muito cíclico. Além, evidentemente, da oferta e demanda, o café não funciona muito em cima de fatos. O café, como uma commodity, está sujeito muitas variações e vive grandes oscilações. Muitas vezes, inclusive, surgem muitas informações que não correspondem à verdade — algo como as ‘fakes news’ para citar essa expressão hoje muito utilizada —  que  podem fazer com que o café baixe ou suba de preço. Porém, na grande maioria das vezes, o preço baixa. Atualmente, tanto em Minas Gerais quanto no Brasil, nós registramos um preço de mercado que gira em torno de R$ 400,00 a saca. Porém, o custo de produção está acima deste valor. Em uma cafeicultura mais competitiva, mecanizada e irrigada, o custo chega a R$ 415,00 ou R$ 420,00. Já em uma cafeicultura menos competitiva — que é a cafeicultura de montanha —, nós temos um custo que quase chega a R$ 500,00. Essa modalidade de cafeicultura é a que mais ocorre hoje em Minas Gerais, pois ainda é a maioria principalmente nas regiões das matas e no sul  de Minas. Além do mais, trata-se de uma cafeicultura que gera muitos  empregos. Ou seja, muito mais do que uma relevante questão econômica, temos aí nesse contexto uma importantíssima questão social. Uma prova contundente desta realidade: na época da colheita, se você andar por municípios onde domina a cafeicultura, você observa a economia florescer. O comércio ganha e os serviços ganham. Ou seja, na minha visão, inclusive por eu ser um cafeicultor, há um modelo econômico extremamente positivo que retrata o seguinte: o café talvez seja um dos poucos produtos que consegue melhorar, em um curto espaço de tempo, a atividade econômica dos municípios cafeicultores. E, ao melhorar o município, obviamente melhora-se o estado e o país. A cafeicultura hoje tem um imenso apelo social, basta analisar os índices de geração de empregos na época da colheita de café, pois eles sobem significativamente. Na atual conjuntura, podemos afirmar que direta e indiretamente a cafeicultura — a indústria, as cooperativas, e toda a cadeia produtiva do setor — gera mais de oito milhões de postos de trabalho em nível nacional. E digo mais: se a gente levar em consideração que Minas Gerais responde por metade da produção brasileira, nós podemos ousar em dizer que aqui é gerada a metade desses empregos diretos e indiretos. Isto é uma grande estrutura, saudável e que faz bem a todos nós. Gerar emprego em um momento em que o país passa por uma profunda crise, o café — cujo apelo social, insisto em dizer, é enorme — colabora decisivamente  para diminuir as grandes diferenças sociais existentes no Brasil.

A qualidade é uma característica do café do Brasil. Porém, a altitude do sul de Minas nos permite produzir um café diferenciado.

— Esse apelo social pode ser considerado mesmo quando se verifica o crescimento da mecanização na colheita?

A mecanização nada mais é do que uma forma do produtor diminuir o custo e melhorar a gestão. Mas existem regiões montanhosas em Minas Gerais — na minha propriedade, por exemplo — que é impossível mecanizar. Qual é a solução, a saída, para que eu continue e meus filhos também possam continuar nessa atividade que para nós é uma paixão? Aliás, muito mais do que um negócio, é uma paixão da família. Na condição de pequeno produtor, como me classifico, nós investimos em uma gestão muito eficiente. Tenho cinquenta hectares de café e, há 38 anos, eu vivo da cafeicultura. Portanto, se a mecanização é fundamental para aperfeiçoar a gestão, as condições em que eu — e tantos outros cafeicultores enfrentam — exigem um aprimoramento constante nos processos de gestão.

— Nas condições em que o senhor trabalha como produtor, quais são os principais desafios para se obter uma gestão eficiente?

Na minha região, no município de Santa Rita do Sapucaí, como o café é de montanha, nós temos a nosso favor a qualidade. A nossa maior preocupação é não perdê-la na pós-colheita. A receita é colher e secar corretamente e assim colocar à disposição do mercado consumidor um grão de excelente qualidade. A qualidade é uma característica do café do Brasil. Porém,    altitude do sul de Minas Gerais é uma grande aliada. As terras férteis e altas nos permitem produzir um café diferenciado e, consequentemente, também nos possibilita almejar preços diferenciados.

— Essa diferenciação, tanto em qualidade quanto em preço, é uma característica de Minas Gerais em todas as regiões?  

— O Brasil, hoje, investe pesado em qualidade, em processos essenciais para que possamos manter a qualidade do café que Deus nos deu. Nós temos a obrigação de manter a qualidade que a natureza nos presenteou. O país inteiro trabalha com essa perspectiva. As cinco regiões distintas de Minas Gerais  produzem cafés muito diferentes, mas com um fator em comum: a excelente qualidade do produto — seja na chapada, nas matas de Minas ou no cerrado mineiro. No sul, na região chamada de Mantiqueira de Minas — onde se localiza, por exemplo, Carmo de Minas, São Lourenço, Santa Rita do Sapucaí e os demais municípios que formam essa microrregião —, os cafés também possuem diferentes características de qualidade. O interessante neste aspecto é que essas diferenciações são importantes para agradar aos mais diversos (e exigentes) paladares.

— Como o senhor analisa a hoje o nível competitividade do café brasileiros nos mercados externo e interno?

 O que eu posso afirmar é que o Brasil, por incrível que possa parecer, é o país mais competitivo do mundo. Nós conseguimos fazer um café com preço abaixo de qualquer outro país, inclusive ao levar em consideração que, depois de produzir um café de qualidade, nós enfrentamos o chamado “custo Brasil”. É importante lembrar que a competitividade adquirida pelo produtor mineiro  ao longo do tempo teve a decisiva colaboração Sistema FAEMG/SENAR Minas  nos processos de treinamento justamente para aumentar a excelência no manejo e no trato de uma lavoura de café. Mesmo sendo ainda competitivo, o café brasileiro enfrenta outros sérios percalços no quesito da  competitividade. A culpa não é nossa, do produtor, e também não é da indústria. Veja o caso do café solúvel. Como a indústria brasileira também é muito competitiva ela consegue colocar café na Europa a um custo muito menor do que outros países produtores. Infelizmente na Europa, diferentemente do que ocorre com países como Equador, Peru e Colômbia, nós enfrentamos uma taxação 9% no nosso produto industrializado. Ou seja, o que nós adquirimos pela competência produtora, pela competência  da indústria, nós perdemos na hora em que o produto é colocado mercado europeu. Os outros países, como a Colômbia, colocam o produto na Europa a custo zero. Eles são os famosos países do Pacto Andino, que o Brasil não é signatário, e por conta disso sofremos com essa taxação. A nossa competitividade se esvai não é por incompetência da indústria ou do produtor, e sim em razão de regras diferenciadas — e até hoje nós não conseguimos modificá-las. Essa conjuntura desfavorável é um grande entrave para que possamos exportar café com um valor agregado, o café industrializado — o produto torrado e moído, ou seja, o café solúvel.

 

— Observa-se hoje uma aumento no consumo do chamado café gourmet ou café especial. Nas grandes cidades, como Belo Horizonte, nota-se um expressivo crescimento do mercado das cafeterias. Como o senhor vê essa questão? Trata-se de um novo nicho de mercado?

— Se você me fizesse essa pergunta há quatro anos, eu diria o seguinte: na verdade, é um nicho de mercado que surge … ” Hoje,  eu afirmo que trata-se de uma tendência irreversível de mercado e, o mais interessante, é uma tendência mundial. Quem acreditaria que a China, dona de um uma cultura milenar no consumo do chá, poderia se tornar uma consumidora de cafés? Outra dado relevante é que a grande maioria dos países é consumidora de cafés brasileiros. Atualmente você entra em uma cafeteria, seja em Belo Horizonte, em outra capital ou mesmo em alguma cidade do interior e escolhe o tipo de café que você quer saborear. Além disto, você será atendido por um barista que lhe oferecerá um tipo de bebida que pode ser do Cerrado Mineiro ou das Matas de Minas. Ele explicará qual é o tipo da bebida para que você possa apreciar e viver a experiência de tomar um excelente café. Portanto, a cafeteria que serve cafés especiais, é um fenômeno de mercado que já se estabeleceu e colabora decisivamente na consolidação da cultura do consumo do nosso produto.

— Como o senhor explica o café gourmet ou café especial ?

— Esse é um tipo de café diferenciado; um produto que foi colhido de uma forma diferente. Todos nós produtores podemos usufruir desse cenário que o mercado oferece: um café vendido a preço qualificado pelo maior valor. Eu costumo participar de vários eventos internacionais e mantenho contato com compradores do exterior, principalmente torrefadores. No ano retrasado, nos Estados Unidos, eu tive a oportunidade de conversar com um torrefador e ele me afirmou que o mercado americano dá prioridade para o café gourmet,  que nada mais é do que um café especial. Para esclarecer ao leitor: se um produto tem acima de oitenta pontos numa escala, ele é um café diferenciado, especial. Na mesma velocidade em que se consolida o crescimento do mercado das cafeterias, abrem-se grandes oportunidades no mercado comprador de cafés especiais em todas as partes do mundo.

— O cafeicultor se preocupa com as questões relacionadas à sustentabilidade nos processos de produção?

— É um orgulho para nós produtores ter hoje todas as condições de mostrar que o café brasileiro é o mais sustentável do mundo. Já estive em vários países produtores e a cena que mais vi foi a de crianças trabalhando. Você pode até me questionar se no Brasil não acontece o mesmo. Eu lhe respondo que pode até ocorrer esse triste fato, mas também lhe garanto que atualmente é muito raro observar isso. O sistema SENAR/FAEMG não aceita esse tipo de situação, abomina veementemente qualquer tipo de trabalho trabalho infantil. Também abominamos o trabalho escravo. A esmagadora  maioria da cafeicultura brasileira é conduzida por meio de condições muito boas e corretas em se tratando de sustentabilidade.

— A cafeicultura ainda mantém um importante legado histórico caracterizado principalmente por belas fazendas em estilo colonial ainda preservadas. Na opinião do senhor, setor se preocupa em conservar o seu patrimônio histórico?

— Além da cafeicultura e do fator econômico da atividade cafeeira, as fazendas consideradas como patrimônios históricos, que conservam aqueles casarios maravilhosos, hoje são vistas pelos  produtores como potenciais cenários para implantação de atividades relacionadas ao turismo rural. Você vai conhecer uma fazenda de café, vai tomar um café feito na hora, vai observar os modos de produção, como se colhe o café, como se seca o café, dentre outras atividades. Além do mais, vai poder se hospedar em um casarão histórico, diferente de tudo que você já viu. E ainda por cima, vai conhecer regiões de grande beleza, cavalgar, passear por trilhas, banhar-se em riachos e cachoeiras. Inclui-se aí a incrível gastronomia típica, o café da manhã e os quitutes tradicionais. Este é o cenário do turismo rural e os produtores hoje estão investindo fortemente neste segmento.

— O cafeicultor também se preocupa com as questões ligadas à conservação do meio ambiente?

— Sobre as questões relacionadas ao meio ambiente, temos a obrigação de desmentir toda e qualquer insinuação de que o cafeicultor não se preocupa com a conservação do patrimônio natural. É óbvio que se eu sou um produtor rural, eu preciso ter fartura de água na minha propriedade. Portanto, eu também preciso da mata, eu preciso ter árvores, senão eu arrebento com o meu negócio. Então, o maior preservador ambiental do Brasil, acredite, é o produtor rural.

A cafeicultura não foge, em hipótese alguma, a essa responsabilidade. Se nós produzimos, o nosso sustento está dentro da nossa propriedade. Nenhum produtor é desprovido de inteligência para destruir o seu ganha pão. Os nossos riachos, as nossas minas d’água, nós conservamos porque precisamos deles para a nossa sobrevivência e do nosso negócio, é claro. Cafeicultor não é desmatador, isso não existe! Em Minas Gerais, especificamente, 80% da cafeicultura é conduzida por pequenos produtores, pequenos cafeicultores que sobrevivem, em última análise, da natureza conservada. Nós precisamos acabar, desmistificar essa ideia de que o produtor desmata, que ele é incorreto com as questões ambientais.

Aquela época coronelista ficou para trás há centenas de anos. Hoje, todos nós, independentemente dos tamanhos das propriedades, temos como meta produzir com qualidade, gerar lucro e rentabilidade na atividade, porém sem jamais esquecer da nossa obrigação como guardiões da sustentabilidade e da conservação do meio ambiente. O produtor rural carrega esse exemplo na sua história de vida. A natureza ensina que se ela não for respeitada, o castigo vem a galope. O meu avô sempre dizia da necessidade de respeitar a natureza para não ser castigado depois. O Sistema SENAR/FAEMG promove também com muita ênfase a educação ambiental. Para nós, a preservação do meio ambiente significa conservar algo que é eterno, que é a nossa terra, que é o nosso ganha pão, que é o fruto do nosso trabalho. Nós jamais iremos destruir aquilo que nos faz educar os nossos filhos, que nos alimentar e que nos proporciona ter uma vida digna — tanto para as nossas famílias quanto para as incontáveis famílias dos nossos colaboradores.