O Inhotim é cenário espetacular que multiplica arte contemporânea e natureza em um conjunto de obras expostas a céu aberto e em galerias erguidas em meio a um deslumbrante Jardim Botânico. Muito além de um museu, o Inhotim trabalha para seguir ampliando as suas fronteiras.

Reportagem: Pamilla Vilas Boas
Fotos: Pedro Motta / Jean Yves Donnard

Os cacos de vidro espalhados indiscriminadamente podem ser o primeiro contato com o desconhecido. O medo de que as coisas se quebrem dá lugar ao prazer de caminhar sobre o espedaçado. Com precisão as pessoas andavam em círculos, observavam os pedaços e se atentavam aos ruídos da galeria fechada. Visitar o Inhotim pela primeira vez é entrar num parque de sensações. O ônibus de visitantes para no estacionamento, o motorista agradece a preferência e os visitantes saem em busca de alguma coisa que traduza a arte.

Várias rotas são possíveis. Era possível começar pelo caos da Copulônia de Ernesto Neto, passar pela escuridão que aguça os instintos de Janine Antoni. Susto, medo, louvor. Eu comecei pelo Através de Cildo Meireles, pelo som destruidor dos cacos de vidros espalhados que se quebram e pelo estranhamento de ver tão poucos peixes em um aquário imenso. A maioria dos visitantes que desceu do ônibus em um mesmo lugar,  preferiu o Desvio para o vermelho de Cildo Meirelles. O quarto vermelho e os móveis da mesma cor fizeram as pessoas esperarem em uma fila imensa. O processo de visitar o Inhotim é o de ir descobrindo várias saídas em um único labirinto.

Entre sonhos e realidade

Um laboratório emocional e intelectual, onde novas coisas vão surgindo. Essa foi a idéia de Bernardo Paz ao criar o Inhotim. Entre o acaso e o plano, o museu surgiu da paixão de uma única pessoa pela arte contemporânea e pela necessidade de tornar essa paixão algo de interesse público. Bernardo, caracterizado por muitos como um sonhador, começou com uma coleção de arte moderna. Depois de conhecer artistas como Tunga e Cildo Meireles se encantou pela arte contemporânea. “Quando comprou uma obra do Tunga, que não coube na sala, ele começou a ter que construir e se viu com um museu dentro de casa. O sucesso o embriagou e hoje o Inhotim é a vida dele”, explica o economista Cláudio Moura Castro.

“Estou fazendo um museu”, disse Bernardo Paz a seu amigo Cláudio — hoje membro do conselho de administração e presidente do conselho consultivo do Inhotim —, que ficou curioso, mas não imaginava a dimensão da proposta. “Aí eu fui lá, me apaixonei e propus a ajudá-lo”, comenta.  Inhotim foi idealizado em 1984 quando recebeu a visita do renomado paisagista Roberto Burle Marx, que apresentou algumas sugestões e colaborações para os jardins. Desde então, o projeto paisagístico cresceu e passou por várias modificações.

Em 2002, foi fundado o Instituto Cultural Inhotim que, em 2008, se transformou em uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público – OSCIP.  Inhotim ampliou sua presença como museu se tornando uma instituição que reúne diferentes linhas de atuação: Arte contemporânea, Jardim Botânico, Inclusão e cidadania.  “Quando eu vi a combinação entre arte e natureza eu achei espetacular. A semente de um grande centro de arte e educação. Um grande núcleo de lazer e cultura”, afirma Claúdio.

Hoje, o Inhotim é a única instituição brasileira que expõe um acervo de arte contemporânea permanentemente. “Os artistas falaram que esse projeto só teria a relevância que Bernardo estava imaginando, se fosse um projeto público e profissional. Organizado não só por interesses e gostos particulares, mas entendendo a potência desse lugar para uma coleção artística e tentar cristalizar isso em uma linha curatorial”, completa o diretor artístico do Inhotim, Jochen Volz.

Entre linhas

Colecionar obras? Traçar um mapa da arte de Minas Gerais? Representar a arte brasileira? Para Jochen Volz uma das perguntas que a equipe formada por quatro curadores fez foi justamente sobre o que era possível fazer em Inhotim que em outro lugar talvez não fizesse tanto sentido — ou o que é possível fazer que não seria possível em outro lugar. Daí surge uma primeira pergunta: se  Inhotim não tem a pretensão de ser temático, nem de fazer um panorama da arte produzida em Minas ou no Brasil, como suas coleções são escolhidas?  Elas partiram do gosto de Bernardo Paz e das obras que já faziam parte de seu acervo pessoal composto por artistas como Cildo Meirelles, Tunga e Miguel do Rio Branco. A partir daí, essas coleções foram organizadas de acordo com as peculiaridades do museu.

A primeira tem a ver com a distância ou com o deslocamento. Ir ao Inhotim, por si só, significa experimentar vários processos onde o deslocamento, o espaço e o tempo assumem outros significados. Não importa o ponto de partida — para cada indivíduo um deslocamento diferente. Seja de Brumadinho, Belo Horizonte ou  Tóquio, ir ao museu carrega a pretensão de se chegar em um ambiente de arte e vivenciar outra experiência que não faz parte do dia-a-dia do visitante.

Várias as possibilidades

No Inhotim, é possível se chocar com a galeria de Miguel do Rio Branco, sair caminhando, andar alguns metros e ficar estarrecido com os sons que vem da terra. Para a artista Adriana Varejão, o Instituto reúne as condições ideais para o artista pensar a sua obra no seu espaço, o que permite um outro tipo de relação com o público. “Geralmente você chega ao museu e o espaço já está pronto. No Inhotim há um respiro entre cada obra, ao contrário das bienais em que uma hora você chega à exaustão. O Inhotim é uma proposta perfeita de fruição, ele mesmo se preenche e se recarrega. Há espaço para que se possa receber uma nova experiência de arte entre uma obra e outra”, comenta Adriana que tem um pavilhão com suas obras no Inhotim.

Se você se desloca para ver arte, a economia de tempo é outra. Se você não tem economia de espaço, são várias as possibilidades de rotas. Essas particularidades do Instituto se traduzem nas galerias, obras e na relação do público com o que é exposto. Não é comum um museu em que as pessoas se dedicam o dia todo a vivenciar a arte. “Poucos museus no mundo têm a interação entre parque e arte contemporânea. Isso de ser algo tropical, inspirado pelo Roberto Burle Marx,  com interação da arte e o paisagismo. Um novo script para a arte que se funde ao meio ambiente”, comenta Cláudio Moura Castro.

Nos caminhos cercados por árvores, pedras, flores, palmeiras, a arte se integra ao meio ambiente. Você sobe pelo jardim e pode chegar numa mata ou numa galeria. Mesmo que o museu proponha algumas rotas para a visitação das obras, a disposição das galerias permite diferentes possibilidades de contemplação. “Com essa situação geográfica e topográfica conseguimos oferecer uma experiência com arte que não se compara a outras experiências. Uma coleção brasileira de arte internacional que não tem temáticas, mas temas que reaparecem: sua experiência, você mesmo participando, entrando, descobrindo assuntos que as obras revelam para você”, explica o diretor artístico.

Muitas rotas, uma direção

Carne seca por dentro, ruínas de uma parede por fora. O jogo que Adriana Varejão faz entre a escultura e a pintura na sua obra Carnívoras traz um certo desconforto. O drama do vermelho da carne recoberto por uma pele minimalista pode ser nojento e ao mesmo tempo sublime. Sua galeria faz parte das galerias permanentes.  No caso de Adriana, as obras Celacanto Provoca Maremoto, Carnívoras e Linda do Rosário já haviam sido expostas em outros museus do mundo, mas criar uma galeria permanente é elaborar um novo contexto para a obra. “Geralmente o período para exposição é muito curto. Lá é para sempre para o público e para o artista. É uma relação incrível em se tratando de um país como o Brasil, que não costuma ter acervo para obras de arte”, comenta.

A galeria da Adriana Varejão começou a ser construída em 2004 e foi inaugurada em 2008. O percurso do prédio foi pensado com o arquiteto do pavilhão, num jogo em que a obra interfere na construção e o processo arquitetônico influencia e transforma a obra do artista. O diretor artístico Jochen Volz explica que sem economia de espaço e tempo é possível trabalhar em outra lógica também com os artistas: “Você pode chamar o artista e perguntar: ‘O que você queria fazer mesmo?’ As permanentes surgem dessa pesquisa de encontrar um lugar para realizar uma obra por tempo indefinido”. Inhotim possui 15 exposições permanentes que incluem obras de artistas como: Cildo Meireles, Adriana Varejão, Miguel do Rio Branco, Hélio Oiticica e Neville d’Almeida, Chris Burden e Tunga.

Se essas são pensadas para ficar no museu por tempo indeterminado, as exposições temporárias são aquelas que dão movimento e que promovem novos diálogos entre as obras. O Instituto conta com quatro galerias temporárias, galeria Fonte, galeria Lago, galeria Mata e galeria Praça. “A coleção funciona um pouco como viajar com quatro amigos e de repente vem um quinto. A dinâmica é um pouco diferente embora todos sejam queridos”, compara Jochen. E o diálogo não ocorre apenas com as obras que mudam constantemente. A galeria Cosmococa de Hélio Oiticica e Neville D’ Almeida conversa com os fuscas coloridos de Jarbas Lopes que compõe o ambiente externo da galeria. Para Jochen essa leitura das obras em pares possibilita diversos arranjos. “A gente viaja o mundo pesquisando novos artistas. O trabalho curatorial é avaliar obra por obra e pensar como ela vai acrescentar o conjunto”, comenta.

Jardins suspensos

Uma criatura gigantesca chama a atenção no viveiro de plantas. A flor cadáver, tubérculo que drenou suas reservas, agora solta a folha que chega a quatros metros de altura e seis de abertura. Tal acontecimento surpreendeu a todos, inclusive os botânicos e foi motivo para intensa visitação.

A experiência de conhecer o jardim botânico do Inhotim não é diferente da experiência de entrar e sair das galerias de arte. E foi pensando nisso que foi inaugurado em 29 de maio, o jardim sensorial do Instituto. O jardim será uma mistura de plantas aromáticas, tóxicas e medicinais e temperos,. As pessoas terão a oportunidade de andar por um pequeno labirinto sensorial que desperta o tato, o olfato e a visão. Nesse caso, a visita poderá ser livre ou guiada pelos educadores ambientais.

Outra atração que será inaugurada é a implantação do complexo de laboratórios. Serão 1500 metros quadrados de estrutura para pesquisa na área de botânica e educação ambiental. “O interessante é que a nossa proposta é educar não só pela ação como pelo exemplo. Esse prédio será o mais sustentável possível, feito em diferentes níveis para permitir maior circulação de ar e aproveitamento da luminosidade do dia”, comenta Rodrigo Portugal, diretor do Jardim Botânico e de Meio Ambiente. Há a previsão da criação de uma estação metereológica pra monitorar o clima e contribuir para a rede de informações do estado. “A idéia é que os laboratórios sejam envidraçados para que o público observe  que ciência está próxima do seu dia a dia. A mensagem que queremos passar é que a melhor forma de você proteger é conhecer para educar”, argumenta.

A maior coleção botânica viva

Hoje o Inhotim conta com 1400 espécies diferentes de plantas, incluindo nativas, exóticas e em extinção. O Instituto tem uma das maiores coleções de palmeiras do mundo e guarda a maior coleção botânica viva do Brasil, ou seja, a maior coleção de plantas vivas devidamente registradas e identificadas.

A constituição do jardim botânico, num local feito para as artes, foi um processo natural decorrente da riqueza que o espaço do Inhotim já possuía e foi estimulado pela idéia de preservação que sempre norteou a criação do Instituto. De acordo com Rodrigo, Bernardo Paz sempre foi um apaixonado por plantas que começou enriquecendo seu jardim com várias espécies. “A gente já tinha uma base de onde partir. Mas percebemos que podíamos mais. Por que não nos credenciar como jardim botânico?”, comenta.

Com toda essa complexidade de espécies, a criação do jardim botânico exigiu uma plataforma mínima de pesquisa para sustentar esse material. A pesquisa contribui, inclusive, para a interação do paisagismo e sua realização junto às obras de arte. No momento de criação de sua galeria, por exemplo, Adriana Varejão optou por uma coleção de jaboticabeiras e um jardim meio asiático. Já Rivane Neuenschwander quis um jardim que remetesse a casa da vovó. “Nesse diálogo entre o artista e o paisagista, é possível potencializar a experiência e o clima pela pesquisa de botânica”, observa Jochen.

Rodrigo define algumas linhas de pesquisa que tem chamado atenção da equipe de botânicos: uma delas é o estudo filogenético e taxonômico das plantas do acervo. A segunda linha é pensar uma forma mais produtiva de fazer recuperação de áreas degradadas. Nessa linha, a grande pergunta ainda sem resposta é: será possível identificar plantas que possam ser utilizadas na recuperação de áreas degradadas e que tenham um valor econômico agregado para que sejam exploradas pelas comunidades locais? Já a terceira linha, um trabalho de longo prazo, é pensar numa forma de ir ao local (antes de ele ser explorado por uma empresa de mineração, por exemplo) e fazer o resgate, conservação e estudo do material para, depois da exploração, devolver as plantas nativas ao local de origem. “O Inhotim pode ser um catalisador de esforços para um bem maior. A idéia é não realizar nada sozinho, mas sim articular parceiros para dar passos mais generosos em prol da preservação”, conclui Rodrigo.

Inhotim é para todos

“Meu Deus o que eu vou fazer naquele lugar? Será que é um imenso galinheiro?” Everton dos Santos Silva ficou com a dúvida na cabeça ao ser chamado para trabalhar no Inhotim e assumir a função de tratar dos patos. Everton é da comunidade quilombola do Sapé, localizada em Brumadinho e, antes de ir para o museu, trabalhava pesado na construção civil. Bernardo Paz conheceu a tia de Everton e a comunidade quilombola numa festa de congado e depois fez questão de contratar o máximo de pessoas da comunidade para trabalhar no Instituto. “Eu sempre quis fazer faculdade porque quando eu ia para a escola eles me chamavam de neguinho ou pretinho. Pensava em um dia virar advogado e colocar os racistas na cadeia”, desabafa. Logo depois de entrar para o Inhotim, Everton ingressou no curso de História e passou a integrar a equipe de educação ambiental do Instituto. Hoje, ele cursa Direito e trabalha com a equipe de inclusão e cidadania.

Com o tempo, o galinheiro gigante que ele imaginava tomou outras dimensões. “Quando eu entrei aqui eu pensei: qualquer pessoa pode fazer isso. Eu não sabia por que eles davam tanto valor. Então eu fiquei a observar, vivenciar, estudar e percebi que fazer isso aqui é fácil, o difícil é você inventar”. Everton fala sobre o impacto das obras de arte quando ele chegou ao Instituto e sobre a obra Samson de Chris Burden que ainda o impressiona. “Muitas pessoas que eu converso, não têm essa percepção porque nunca vivenciaram isso. Como um menino do Sapé vai vir aqui, ver obra de arte contemporânea e gostar?” Para ele, o Inhotim é o primeiro contato do pessoal da comunidade com arte contemporânea.

“Não é a priori que você tem que saber tudo sobre arte contemporânea. Nós criamos uma maneira de falar e mostrar experimentações artísticas que é novo, rico e acessível”. A fala do diretor artístico do Inhotim, Jochen Volz, explica bem a iniciativa do Instituto em interferir na realidade local das comunidades do entorno e expandir as fronteiras da arte contemporânea. E quando perguntado sobre a riqueza artística de sua comunidade quilombola, Everton diz: “Como a comunidade vai achar que está fazendo arte contemporânea se ela nem sabe o que é isso? Ela pode achar que está fazendo uma outra coisa qualquer”.

Parcerias e formulação de políticas

Roseni Sena, diretora da equipe de Inclusão e Cidadania, explica que desde o surgimento do Inhotim, existiu a ideia de aproximar o instituto da comunidade do entorno. O primeiro projeto foi a criação, em 2007, do coral infantil. As ações começaram em Brumadinho e hoje se expandiram para cidades do entorno como Bonfim, Rio Manso, Moeda, Mário Campos e São José das Bicas.

A partir daí o Instituto passou a propor um conjunto de ações de inclusão e cidadania para trabalhar com indivíduos, grupos e organizações para que eles se tornem mais autônomos e tenham condições de gerar recursos. “Associações de bairro, associações de idosos, Sociedade São Vicente de Paula são nossos parceiros. Além disso, trabalhamos com o poder público na formulação de políticas para essas áreas. Começamos a trabalhar e vimos alguns déficits dessas organizações”, explica. A idéia de fortalecer essas instituições tem se pautado, principalmente, no trabalho com os líderes das comunidades e na articulação para que as instituições atuem em rede.

Hoje os projetos na área da música também se expandiram. O museu atua juntamente com o Ministério do Turismo no fortalecimento das quatro bandas de música tradicionais do município que já formaram cerca de 260 meninos na área musical. Além do coral infantil, por onde já passaram 500 crianças, existe o coral infanto-juvenil, o coral adulto e o de pessoas com deficiência.  “Com o trabalho com a música, temos o objetivo de ampliação de fronteira cultural e também do estímulo ao gosto pela música. A partir desse trabalho, muitos jovens entraram para faculdade, um incentivo na busca de uma profissão”, comenta Roseni.

Amigos do Inhotim

Como gerar recursos para manter um empreendimento como este? Essa pergunta tem norteado diversas ações do Inhotim. Atualmente, 90% dos recursos financeiros vêm de Bernardo Paz e a tentativa é reduzir essa quantia para 50%. O desafio é minimizar a dependência do Instituto e fazer com que ele se torne sustentável. Para isso, foi criado o programa Amigos do Inhotim que prevê a contribuição de pessoas e empresas que podem deduzir o investimento no imposto de renda. Existem diversas formas de contribuir e diferentes contrapartidas do Instituto: acesso ilimitado ao Inhotim, desconto nos restaurantes, cortesias, convites..

Como o financiamento de outras fontes ainda é escasso, um dos lugares mais impressionantes do mundo, ainda conta com a paixão de uma única pessoa. “A ambição de Bernardo não tem fim. Novos pavilhões estão sendo construídos. É um círculo virtuoso: a vinda das pessoas que se encantam, gostam, dão um alimento espiritual e isso encoraja Bernardo a seguir em frente.”, ressalta Cláudio Moura Castro.