Por Júlia Castro
Foto Fernando Rabelo

Gonçalo M. Tavares esteve entre os convidados do Fliaraxá 2018, que aconteceu no antigo Grande Hotel Barreiro, hoje Tauá Grande Hotel de Araxá, entre os dias 27 de junho e 1º de julho. O autor — que nasceu em Angola, mas que vive em Portugal desde criança — é considerado um dos mais importantes escritores portugueses da atualidade. Na seção “Mastigando autores”, proposta pelo Festival para facilitar o contato direto do público com os autores, Gonçalo M. Tavares conversou sobre livros, literatura, clássicos, exílio, memória, dentre outros temas. Em termos de “nutrição literária”, o autor proporciona fartura — para usar uma palavra cara à gastronomia mineira — e muita qualidade ao mundo dos livros, presenteando-o com mais de 35 títulos publicados, cinco deles lançados no Brasil, pelo grupo Companhia das Letras.

Gonçalo M. Tavares circulou no Fliaraxá em “carne e osso”. Sobre a presença de um autor, Philippe Lejeune, escritor e teórico francês, lembra que, por definição, qualquer autor é um ausente. Essa ausência pode gerar curiosidade, já que os livros, frequentemente, lançam perguntas e interrogam o leitor, que, inquieto, pode desenvolver o desejo de conhecer o escritor para lhe perguntar: “— O que você quis dizer com aquele livro?”. Sobre tais perguntas, nem sempre são fáceis. As respostas, muitas vezes, sequer são possíveis. Isso não significa que a presença do “escriba” seja dispensável, sobretudo quando a ocasião de um festival literário representa um espaço aberto para o diálogo que, em todas as formas, expressa o potencial da literatura como descoberta de si e do outro.

Durante o Fliaraxá, Gonçalo M. Tavares se fez presente em debates mediados e em sessões de autógrafos, conversando sobre diversos assuntos, dentre eles, sobre a importância dos clássicos. Considera fundamental reconhecer que muitos outros autores (grandes autores) sucederam-se ao longo do tempo, deixando importantes marcas. Para Gonçalo, deixar de recorrer aos clássicos seria, no mínimo, um forte sinal de arrogância, ao qual precisamos estar atentos. É necessário concordar com o alerta de Gonçalo M. Tavares, já que os clássicos da literatura são aqueles livros que têm algo a dizer, ou melhor, livros que nunca deixaram de dizer o que tinham a dizer — como pensa Ítalo Calvino, em Por que ler os clássicos? (1991). Com arrogância, cria-se um tipo de barreira para a escuta. E, sem escuta, não há diálogo.

O conjunto de interessados na obra de Gonçalo M. Tavares no Brasil cresce com o tempo, e as razões são diversas, sendo possível imaginar algumas, como a capacidade do autor de conjugar as tradições literárias com a reinvenção na linguagem. Ele publica em diversos gêneros, do romance — como, Jerusalém (2004), que recebeu três prêmios, dentre eles, o Prêmio Portugal Telecom de Literatura, em 2007 — à epopeia: em 2010, publicou Uma Viagem à Índia, poema narrativo que remete a Os Lusíadas, de Camões, e a Ulisses, de James Joyce. Short Movies (2011), Animalescos (2013) e O Torcicologologista, Excelência (2015) são alguns dos títulos que expressam a abrangência da literatura produzida por Gonçalo M. Tavares. O autor agrada o público leitor brasileiro, embora a palavra ‘agradar’ possa não ser a mais adequada.

Os livros de Gonçalo M. Tavares, em geral, desestabilizam ideias assentadas em lugares-comuns dos quais só se toma conhecimento à medida que se lê e que se sente certo deslocamento. O próprio autor destacou, durante o Fliaraxá, a compreensão que ele tem sobre a natureza do livro como uma “máquina de fazer pensamento”, como linguagem em movimento voltada a despertar mais lucidez. Sendo assim, o ato de ler não deveria ser confundido com um passatempo nem mesmo com um momento agradável — um “bom momento” —, como quem “recebe uma massagem” — ironiza. O que não significa que a leitura dos livros dele não envolva momentos de prazer, mas certamente estes estão misturados a outros: de inquietação, de surpresa e de humor.

Conversei com Gonçalo M. Tavares em uma sala de corredor do Grande Hotel de Araxá, em um bate-papo tranquilo. Dialogamos sobre a importância da língua portuguesa para a literatura contemporânea, sobre viagem e turismo literário, dentre outros assuntos.

— Como o senhor avalia a importância da proposta geral dos festivais literários, tal como o que ocorre aqui em Arax o Fliaraxá 2018?

— Para mim, o que faz sentido é ter um momento em que se está a pensar, em conjunto, sobre os livros. Essa é a grande qualidade dos festivais literários, já que são oportunidades para falar sobre os livros de forma mais tranquila do que quando o assunto envolve a parte comercial — isso não me interessa muito. No meu caso, eu escrevo isoladamente — escrever tem a ver com estar sozinho, não é? —, portanto essa parte de estar com outras pessoas para falar sobre os livros é interessante — precisamente, também, porque não é todos os dias que isso acontece.

— Ao refletir sobre os festivais literários como eventos aglutinadores de pessoas que se deslocam para conversar sobre literatura, como o senhor pensa a relação entre o turismo e a literatura?

— Turismo tem a ver com a pessoa sair do seu lugar e ir para outro, para outro país, outra cidade, e, portanto, tem a ver com conhecer outro lugar. Ao mesmo tempo, se vai conhecer outro lugar para conhecer a obra de um escritor, acho que é algo atrativo. Já não acho tão interessante o turismo literário em um sentido mais biográfico, ou seja, a visita para saber onde o autor tomava café… Mas, infelizmente, muito do turismo literário tem a ver com isso. Algumas pessoas vão a Lisboa para sentar-se ao pé da estátua do Fernando Pessoa, no Chiado, e para tirar fotografias. Se 10% dessas pessoas que tiram fotografias ao lado do Pessoa tivessem lido a obra ou, pelo menos, parte da obra, seria ótimo, mas não é o que ocorre. Quer dizer, se der para conhecer a obra, eu acharia muito melhor.

— Se a visitação motivar a leitura de livros de autores nascidos ou ligados aos lugares percorridos, o turismo pode se transformar em uma entrada interessante para compreender as culturas dos locais visitados?

— E também para conhecer o lugar. Conhecer a obra de um escritor, como Guimarães Rosa, por exemplo, é uma forma de conhecer melhor um lugar, uma cidade, um modo de viver. Portanto, no limite, a pessoa não precisaria nem ir ao lugar, bastaria ler o livro para fazer uma espécie de turismo, de viagem.

— O senhor diria, então, que pensa a leitura como fazer turismo, como uma viagem?

— A palavra ‘turismo’ ficou muito estereotipada. Gosto mais da palavra viagem.

— Nesse sentido, como o senhor poderia pensar, de modo breve, uma viagem a Minas Gerais a partir da relação que estabeleceu como leitor de Guimarães Rosa?

O que tento fazer, às vezes, quando viajo, é realmente mais do que ter um catálogo de lugares ou um guia turístico, mas encontrar autores que falam sobre aquele espaço. Para mim, a literatura é um dos melhores meios para ter acesso aos lugares.

— Como eu li sem ter essa experiência do lugar, pois li Guimarães Rosa muito antes da primeira vez em que estive no Brasil — estou lendo agora, de novo, de uma forma diferente, mais cuidadosa —, mas, quando eu li inicialmente, a questão do espaço não foi importante para mim. O que tento fazer, às vezes, quando viajo, é realmente mais do que ter um catálogo de lugares ou um guia turístico, mas encontrar autores que falam sobre aquele espaço. O interessante é que essa é uma abordagem completamente diferente — ao invés de ser uma abordagem à geografia e aos monumentos, é uma abordagem ao comportamento humano. Acho que a diferença entre um guia literário e um livro que seja passado naquele espaço — um livro ficcional — é que um bom livro de ficção nos permite perceber, ao menos um pouco, como pensam as pessoas daquele lugar, como agem, quais são os seus pequenos gestos, e é isso o que mais me entusiasma. Eu, pessoalmente, dou atenção à parte de arquitetura, e até gosto dela, já que me interesso pela questão da beleza do espaço, é claro, mas é raro eu ficar totalmente fascinado pelo espaço. Se o espaço em questão não tiver uma pessoa lá, ou pessoas, não me interesso tanto. Eu acho que me fascino muito mais por pessoas. É o que sinto com a pintura, por exemplo, com a pintura de paisagens. Mesmo que a pintura de uma paisagem seja extraordinária, como um Van Gogh, ela não me estimula tanto quanto a pintura que apresenta o elemento humano. Às vezes, não é preciso o elemento humano, até o elemento animal me interessa, mas, sobretudo, o humano fascina-me. Por isso, para mim, a literatura é, muito claramente, um dos melhores meios para ter acesso aos lugares.

— Qual é a sua percepção sobre Minas Gerais? O senhor possui muitos leitores em Minas? Recebe um retorno relevante por parte deles?

— Eu estive em Minas Gerais pela última vez há cerca de três anos. Houve um período em que fui de dois a três anos seguidos a BH. Em uma das vezes em que estive em Belo Horizonte, dei uma oficina para algumas pessoas mais novas que depois começaram a publicar e tiveram algum impacto, por exemplo, uma poetisa, a Ana Martins Marques, além de muitos outros. Sinto que há um grupo de pessoas ligado à literatura, composto por escritores mais novos e por artistas, pessoas do teatro. Até esteve aqui, no Fliaraxá, uma pessoa do teatro que quer fazer uma peça, portanto eu sinto que há um movimento artístico interessante em Minas Gerais que vai acompanhando o que eu faço. Há um projeto de fazer uma peça de teatro a partir da adaptação de um livro meu que saiu recentemente, que se chama Matteo perdeu o emprego.

— Como o senhor avalia a importância da língua portuguesa no horizonte da literatura mundial contemporânea?

Quem escreve em português, escreve em uma língua falada talvez por uns 400 milhões, mas que é considerada, erradamente quase como uma língua menor, quando é, na verdade, uma das 7 línguas mais importantes do mundo, das mais faladas.

— Quem escreve em inglês, em francês, até em alemão (incrivelmente) ou em espanhol, em chinês também, escreve em línguas mais ligadas a uma espécie de centro de poder — quer literário quer outro. Quem escreve em português escreve em uma língua falada por muitos milhões, talvez por uns 400 milhões — considerando Angola, Brasil e Portugal, dentre outros —, mas que é considerada, erradamente, em alguns meios, quase como uma língua menor, quando é, na verdade, uma das sete línguas mais importantes do mundo, das mais faladas. O que me parece mais importante em termos de língua portuguesa e de literatura é que a língua portuguesa não tem um projeto comum. Não há editoras de língua portuguesa. Há editoras brasileiras, editoras portuguesas, editoras angolanas, editoras nacionais. Seria muito bonito que houvesse uma editora transnacional, uma editora de língua. Houve algumas tentativas, como uma editora de língua geral no Brasil. Seria muito bonito que um livro de língua portuguesa fosse publicado, ao mesmo tempo, em vários países falantes de língua portuguesa. Há editoras de língua espanhola, como a Alfaguarra, a Seix Barral, a Planeta, o que permite que muitos autores de língua espanhola sejam publicados, ao mesmo tempo, na Argentina, no México, no Chile e na Espanha, dentre outros países. Acho que isso é uma coisa que falta claramente com relação à língua portuguesa.

— Portugal recebe, na atualidade, muitos brasileiros que se mudam do Brasil e que visitam o país para passeio. Esse contexto convida a refletir sobre as relações entre as identidades culturais dos dois países. Como o senhor percebe essa relação? Há uma identidade comum ou há um estranhamento?

Eu tenho uma relação com o Brasil que é muito forte. Eu diria que é o meu segundo país, não tenho dúvida nenhuma sobre isso; até mesmo em futebol eu sinto isso, já que torço por Portugal e, a seguir, pelo Brasil.

— Só posso falar do ponto de vista de um português, mais ou menos do que isso; só posso falar do meu ponto de vista, que ainda é menor. Eu tenho uma relação com o Brasil que é muito forte. Eu diria que é o meu segundo país, não tenho dúvida nenhuma sobre isso; até mesmo em futebol, eu sinto isso, já que torço por Portugal e, a seguir, pelo Brasil. Se houver um jogo de futebol entre Brasil e Portugal, eu acho que, por uma vitória mínima, eu torcerei por Portugal. O futebol é engraçado, é como uma espécie de concentrado emocional, não é mesmo? Se alguém tem dúvidas sobre a que país pertence entre dois países, se os dois países jogarem futebol entre si, a pessoa vai perceber a qual pertence, pois vai torcer para ele. Acho que, no geral, os portugueses gostam de sentir o Brasil como um país irmão, e acho que isso não é uma retórica ou uma palavra feita. Claro que há diferentes fases: por exemplo, em termos literários, eu diria que a entrada de autores brasileiros em Portugal não é fácil. Infelizmente, há muitos grandes escritores brasileiros que não são editados em Portugal.

— O mercado editorial em Portugal é mais fechado, correto?

— Sim, mas o país é menor do que o Brasil, somos 10 milhões de habitantes.

— Mas há um número expressivo de autores. E de leitores também.

— Sim, talvez a diferença de porte do mercado editorial nos dois países não seja tão grande quanto é se compararmos o tamanho da população dos dois países. Há autores como Bernardo Carvalho, Raduan Nassar e Milton Hatoum que são editados com regularidade, mas são raros. Há também um estranhamento da língua, que acho que é mútuo, acho que os livros portugueses também sentem um estranhamento da língua aqui no Brasil. Pessoalmente, eu tenho alguns autores brasileiros como principais referências, como a Clarice Lispector, o João Guimarães Rosa, o Machado de Assis, o Carlos Drummond de Andrade. Enfim, dos poetas, também gosto muito. Gosto da Cecília, já escrevi alguns textos à volta da Cecília Meirelles e da Lispector. Para mim, a literatura brasileira tem quatro ou cinco clássicos que são tão importantes como são, por exemplo, Os Lusíadas, de Camões, e a obra do Pessoa.

— Essa avaliação sobre a importância dos livros de escritores brasileiros seria geral entre os autores portugueses ou seria uma percepção muito particular do senhor?

— Não sei. É interessante, por exemplo, pensar com relação ao Guimarães Rosa. O livro Grande Sertão: Veredas nunca foi editado por uma editora portuguesa. Eu acho que deve haver algum problema de direitos autorais, mas eu não tenho conhecimento sobre isso — e, também, não quero ter. Com relação a outros autores, como ao Graciliano Ramos, ele foi editado talvez há 15 ou 20 anos, e depois não teve edições mais recentes. Isso para falar de dois autores que são homenageados no Fliaraxá. Há pouco tempo, aconteceu uma coisa muito boa em Portugal, que foi a edição de uma coleção, muito bem dirigida, de clássicos brasileiros. Acho, contudo, que ainda há um desconhecimento muito grande da literatura brasileira, assim como também há aqui, no Brasil, em relação à Portugal. Há muitos bons autores portugueses que não chegam ao mercado. Agora me ocorrem outros nomes, como o da Agustina Bessa-Luís, grande escritora portuguesa, que é colocada por todos os portugueses ao nível do Saramago, mas que é absolutamente desconhecida no Brasil. Seria justificável ela ser desconhecida na Itália, mas ser desconhecida em um país que fala exatamente a mesma língua portuguesa, não é compreensível.

— A Agustina Bessa-Luís tem um livro que se chama Breviário do Brasil, é um relato de viagem em que ela percorre o Brasil com um olhar bastante crítico, que talvez não tenha produzido boa receptividade a ela por aqui.

— Agustina Bessa-Luís é crítica com tudo, ela arrasa os portugueses, arrasa os ricos, arrasa os pobres, arrasa os comunistas, arrasa os fascistas. Confesso que não conheço esse livro Breviário do Brasil, mas é interessante perceber que, se um francês escreve um livro sobre Lisboa, provavelmente editam o livro porque ele escreveu sobre Lisboa, e não por sua obra, mas por ter escrito um livro sobre Lisboa. Esse livro que você menciona não é dos mais importantes da Agustina, como é Sibila e tantos outros. Às vezes, fica-se com uma ideia de uma autora que não corresponde à realidade, pois ela é uma grande autora.

— Para finalizar: o senhor acha que a literatura ensina a viajar?

Há uma literatura em que estar nos lugares é indispensável, mas há uma grande literatura sobre lugares escrita por autores que foram e, também, por autores que não foram aos lugares. Se não fosse assim, não grandes livros de viagens a lugares imaginários.

— Se viajar não for seguir um percurso preestabelecido pelos lugares que já vimos em fotografias, sim. Se viajar for aprender a perceber melhor o comportamento das pessoas desse lugar, acho que a literatura ajuda, sem dúvida. Entre a questão da imaginação e a da viagem, há até um conflito. O Fernando Pessoa provocava um bocado, dizendo que quem viajava é quem tinha falta de imaginação. Quem tinha imaginação não precisava viajar… Era uma pobreza de imaginação, a pessoa ter que ir a Paris, para ver Paris! E isso não tem a ver com ver as fotografias ou tal. Não quero comparar, mas é interessante dizer que eu escrevi um livro, Uma Viagem à Índia, em que eu não fui à Índia, ou seja, é uma viagem imaginária. É engraçado, pois escrevi Canções mexicanas depois de ter ido ao México, ou seja, um livro de ficção que escrevi depois de ter viajado ao México. É curioso pensar que, quando a pessoa vai ao lugar, há coisas que vê e que absorve que não são absorvidas a distância, mas também que há coisas que, se a pessoa imaginar, pode imaginar de uma forma potente. Há uma literatura em que estar nos lugares é indispensável, mas há uma grande literatura sobre lugares escrita por autores que foram e, também, por autores que não foram aos lugares. Se não fosse assim, não haveria livros de viagens à lua e grandes livros de viagens a lugares imaginários. Ítalo Calvino tem, por exemplo, As cidades invisíveis, um livro sobre cidades que não existem; isso prova que a literatura, ou algum tipo de literatura, não depende dessa experiência de deslocação e que a literatura é, no limite, uma deslocação mental.