A devoção, o martírio, a redenção. O olhar de Eugênio Sávio sobre a Semana Santa em Tiradentes traz à tona a dramaticidade peculiar da tradição católica que revive a Paixão de Cristo por mais de três séculos, unindo gerações em prol de uma celebração comum.

A Semana Santa em Tiradentes reúne milhares de pessoas num misto de experiências históricas, culturais e estéticas que envolve religião, turismo e patrimônio cultural.

A programação da Semana Santa tem início com o Domingo de Ramos, com procissão que parte da Igreja Matriz de Santo Antônio. Entre segunda e quarta-feira, também ocorrem outras procissões, dando sequência à celebração. Na quinta, acontece um dos eventos mais movimentados: a cerimônia de lava-pés, que também ocorre na matriz. Sexta-Feira Santa é o dia mais marcante, com a encenação da Paixão de Cristo. Sábado de Aleluia é dia de vigília e, no Domingo de Páscoa, a missa é seguida por uma procissão pelo Centro Histórico, a qual perpassa o caminho enfeitado pelos moradores com tapetes de serragem cuidadosamente construídos para decorar as ruas. A celebração da Semana Santa em Tiradentes é marcada também pelas apresentações de corais religiosos e pela famosa Queima do Judas, que geralmente acontece na noite de domingo.

Desvio no olhar

Nas imagens de Eugênio Sávio, ganham destaque as igrejas, procissões e cerimônias. Os rituais são desvelados por entre véus de fumaça, em aspectos de sonho, para essa celebração sobre a morte, a vida e a redenção. Nas imagens, ganha força a expressão dos fiéis, que provoca um desvio no olhar do espectador. As igrejas suntuosas são humanizadas pelos olhares, trazendo uma perspectiva contemporânea que se mistura à imposição ritual do passado. O fogo das velas e dos candelabros é o que ilumina as faces dos fiéis, num jogo de luz e sombra. Os tapetes, cuidadosamente produzidos pelos moradores de Tiradentes, também são temas das imagens, juntamente das procissões que marcam a principal celebração da cidade.

Magia do festival

Mineiro de Belo Horizonte, Eugênio Sávio trabalha com fotografia há quase 30 anos, com inúmeros trabalhos de fotojornalismo e publicidade, além de uma vasta experiência internacional. Mestre em Comunicação e Cultura, Eugênio é professor do Departamento de Comunicação Social da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas) desde 1988. O fotógrafo já colaborou para diversas revistas, além de fotografar para livros, e tem a assinatura em vasta produção editorial. Além disso, é o responsável por um dos mais importantes festivais de fotografia do Brasil, o Festival Foto em Pauta, realizado desde 2004, em Belo Horizonte. O evento também acontece, anualmente, em Tiradentes, já na oitava edição.

Para o fotógrafo, a magia do festival revela a própria magia da cidade de Tiradentes, que atrai milhares de turistas todos os anos. “É um tesouro de Minas Gerais que precisa continuar nessa vocação, ser trabalhado como um grande destino, pois realmente as pessoas partem de lá felizes e realizadas. Eu argumento que estar no festival é uma experiência não só de viver o evento, de estar diante, de reverenciar a arte, mas também de estar diante daquela população, que a todos acolhe tão bem. Coisas de mineiros, difícil de explicar…”, reflete.

O fotógrafo acredita que essa reflexão sobre a fotografia acaba influenciando diretamente a produção mineira. “Os mineiros estão bem situados, com uma produção relevante, de alta qualidade técnica e estética, dentro do cenário contemporâneo. Não tenho receio em afirmar que os 13 anos do Foto em Pauta e os oito do Festival de Fotografia de Tiradentes — além de outros vários importantes eventos que acontecem em Minas — colaboraram para essa evolução”.

Apesar de perceber as transformações no mercado da fotografia, Eugênio reflete sobre o que seria uma espécie de antítese na era digital: o fato do crescimento da produção dos livros de fotografia, em meio impresso, o que se tornou um fenômeno mundial muito forte, consagrando o fotógrafo hoje como um autor, “e o principal veículo para ele mostrar o trabalho é o livro”, explica.

30 anos de fotografia

Nesses 30 anos de trabalho, Eugênio já vivenciou diversas transformações, como a fotografia analógica, os processos de revelação em casa, mas o que liga todos esses processos é a paixão dele pela fotografia como forma de expressão autoral. “Viajei muito a trabalho, visitei grandes museus pelo mundo afora e tive experiências em vários festivais internacionais. Destaco o Festival de Perpignan, na França, que foi muito importante para mim. O meu foco hoje está concentrado nessa difusão da fotografia como forma de expressão autoral, e isso tem me dado muito prazer e satisfação. Mais importante que só fotografar é pensar sobre a fotografia. O fato de eu lecionar há 28 anos, na PUC Minas, me obriga — de uma maneira muito positiva — a refletir (e a analisar cuidadosamente) todo esse processo de grandes transformações e, assim, passar alguma coisa para os meus alunos e para todos que frequentam os eventos do Foto em Pauta”, completa.